sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

MONGU NA ZÂMBIA....DE N'RIQUINHA !

Dia de Nord em Neriquinha
Neriquinha não se passava nada de quinze em quinze dias, periocidade que mediava entre cada chegada do Noratlas, “quando o tempo o permitia”, que nos abastecia de frescos, bebidas e o tão esperado correio.
Nesses intervalos “sofridos”, havia que inventar alguma coisa que fazer para pura e simplesmente não se estupidificar irreversivelmente. Como os contactos com Carvalho eram efectuados maioritariamente com a torre de controlo, pela escassez de serviço que justificasse incomodar o posto de rádio, entretinha-me a fazer “relé” (servir de intermediário/retransmissor, entre estações terrestres, ar terra, ou terra ar, entre postos fixos e aviões) ou a tentar contactos com outras estações da FAP fora da nossa rede, com as de Moçambique, (estávamos mais perto em linha recta da Beira que de Luanda) ou com as do Negage, ou de Luanda.
Nessa busca incessante de mais potência para chegar mais longe, tive como aliado um MRAD, julgo que se chamava Lino, que tinha uma forma “sui generis”, (traduzindo) do seu próprio género, (traduzindo) não sei onde raio é que ele aprendeu aquilo... que consistia em pousar uma lâmpada fluorescente em cima do emissor, sem estar ligada a nada, e ir ajustando a potência de saída deste, até a lâmpada atingir o máximo da luminosidade, devido ao enorme campo eletromagnético gerado pelo emissor, (técnica que transportei comigo para todos os destacamentos seguintes). Assim, tornou-se banal levantar-me de madrugada e conseguir primeiro contacto com com a Beira, Tete, ou Lourenço Marques do que com o Negage, ou Luanda, mas o que me dava mesmo mais gozo, era interferir nas comunicações de uma pista Zambiana num terra chamada Mongu, ou coisa semelhante, logo do outro lado da fronteira.
Sempre que ouvia algum avião com indicativo começado por 9J, civil, ou militar chamar pela estação,
respondia e torpedeava todas as instruções possíveis,sistematicamente o controlador de serviço mandava o avião mudar de canal e frequência. Mas semanas de inactividade, tinham-me proporcionado a possibilidade de catalogar todos os canais e frequências por eles utilizados, aliás julgo que a origem do seu material tinha a mesma que o nosso, pois as bandas e canais dos nossos emissores, coincidiam quase na totalidade com as frequências utilizadas por eles, era evidente que eles sabiam que eu emitia do exterior da Zâmbia e mais que uma vez fui ameaçado que, ou abandonava as frequências, ou quando me localizassem me largavam um bomba em cima, nessas alturas abandonava o Inglês, e utilizava o Português mais vernáculo para os insultar e para que não houvesse dúvidas que nada me faria desistir. Afinal a Zâmbia não tinha relações com Portugal e dava abrigo e armava o MPLA, e era de lá que eles vinham atacar-nos, por isso o que eu fazia era não só legítimo, como justificável.   
Mas o mais secreto projecto e que mais me deu gozo foi uma noite cerca das quatro da manhã, após semanas de muitas tentativas falhadas, e após conseguir falar primeiro com o Sal, depois com Bissau, e finalmente chamar a Portela, e perante a incredibilidade do controlador de serviço, que nunca tinha ouvido falar em Neriquinha, dar-lhe o número do telefone do meu amigo “macanudo” Soares na Golegã, para que ele lhe telefonasse a dizer que eu estava bem, mas saudoso, e que me escutasse em onda curta durante uns dias nos 26 MHZ, e após alguns dias de tentativas falhadas, finalmente durante uns breves minutos conseguimos contacto e falámos incrédulos até que o sinal se perdeu.
Panorâmica de Neriquinha
Quando finalmente acabou o meu desterro em Neriquinha, tinha um caderno com indicativos, frequências e contactos confirmados nas duas costas de África, na Macaronésia, e na Europa, para além de dezenas de contactos com civis no interior da Província.

Por:
José Francisco Asseiceiro

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