sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O PROJECTOR

 Lembrava-se pelo menos de 3
O Jorge, com o filho de tenra idade sentado ao seu colo, via uma fotografia que tinha descoberto na Internet, num site dedicado ao AB4 (Aeródromo Base Nº. 4). Estavam vários especialistas da FAP em pose fotográfica e ele reconhecia e lembrava-se pelo menos de 3 dos 9.
- Quem é, pai? – pergunta-lhe o petiz, estranhando não conhecer ninguém, habituado que estava a ver fotos do pai, da mãe, do mano, dos avós… mas quem diabo seriam aquelas pessoas, que nunca tinha visto? – pensou para com ele.
- Pai, quem é? - Repetiu. Que coisa esquisita. O pai, em vez de estar a olhar para a fotografia, estava a olhar para a parede da sala. Parecia que dormia, mas com os olhos abertos.
Mas o Jorge não dormia, recordava. Recordava situações e pessoas de há mais de 30 anos. Oh, como distinguia os dois rios serpenteando no meio do arvoredo cerrado, como observava as sanzalas com as centenas de cubatas. E a cidade. Cidade, sim, que era como estava escrita que era: a cidade de Henrique de Carvalho, no leste de Angola, no primeiro ano da década de 70.
Bem, vista da Nordatlas, não era grande. Era pequena.
Quatro ou cinco ruas. Isto era visto do avião, claro. Que, de certeza, quando lá chegasse, era muito maior. Afinal, era a capital do distrito do Saurimo.
Apareceu, de repente, a pista, rodeada de ervas de 3 metros de altura a que chamavam capim. O pesado trem de aterragem do avião tocou a pista e tocou também o seu coração. Um baque estranho e surdo, feito de arrepios e calores, percorreu-lhe longamente o corpo. Seria do calor húmido, próprio do clima africano? Ou seria da sensação nunca antes sentida de ter chegado às entranhas de África?
À medida que o avião diminuía a velocidade na pista até se imobilizar, um carro de bombeiros acompanhou-o sempre.
A chegada do “barriga de ginguba"
Mais ao longe, grupos de malta eufórica com a chegada do “barriga de ginguba” (nome dado ao Nordatlas, pela sua invulgar envergadura), que significava, semanalmente, entre outras coisas, maçaricos para a rendição (que na Força Aérea era feita individualmente), aerogramas dos pais, mulheres, namoradas e amigos, comida fresca de Luanda e novidades do “puto” (ou seja, da metrópole, quer dizer, lá de Portugal).
- Pai, ò pai, quem é? – gritava o filho, já desesperado.
- Ó Jorge, não ouves o menino? Adormeceste? – vociferou a mulher, da cozinha.
- O quê? Sim, está bem – despertou. 
Mas o que ele queria mesmo era voltar a perder-se no projector imaginário da parede, onde corria o filme a cores da sua passagem por Angola. E ele queria revivê-lo ali e agora. Acendeu a TV no canal Panda e o filho sossegou.
E a parede mostrou-lhe mais e mais. Mostrou-lhe o 1º. Natal passado em Henrique de Carvalho (hoje Saurimo), cujo lema era “Não sabe ser rendido nem dobrado”, escassos dois meses após ter saído do “puto”, em que queria esquecer e embebedar-se e não conseguiu. Misturou vinho com saudade, vodka com lágrimas, cerveja com recordações, gin com olhos verdes, martini com desgosto, whisky com cabelos longos até à cintura, aguardente com lágrimas de mãe, ginja com pele de galinha de pai. Tudo que conseguiu foi uma valente dor de cabeça, mas embebedar-se, que era o objectivo, não. Realmente, quem manda mesmo é a cabeça…
Cazombo
E o projector continuou. Nos dias secos, em que o que custa mais são os primeiros 6 meses e os últimos 18. A primeira ida para um destacamento, o Cazombo, onde chegou a ser por alguns dias o 2º. comandante e no posto de rádio e de cifra, em que era o único rei e senhor. 
Viu na parede, a cara de espanto do tenente-coronel do exército quando foi mandado sair do centro de cifra, onde, após a visita ao posto de rádio, teimou em entrar. Era uma área considerada secreta e só o operador de comunicações e o comandante do destacamento podiam entrar. Um saudoso sorriso enigmático aflorou aos seus lábios, deixando ver, já, algumas rugas.
Clube
No bar de especialistas, num domingo soalheiro, a meio da tarde, o enfermeiro Silva metia cuidadosamente uma nota de 20 escudos entre as duas folhas de uma carta, que acabara de escrever.
– Qué que tás a fazer? – questionou o Esteves.
- A mandar dinheiro numa carta, não vês? – disse, com ar altivo.
- Então recebes dinheiro e depois mandas? Tás cacimbado ou quê? – tornou.
- Ná, nunca estive tão bem. É para a mãe da minha noiva – disse, com aparente à vontade.
- Para a mãe da tua noiva? Que se passa? Este tipo tá maluco…
- Não estou, não. Soube através de um amigo que ela me anda a enganar – mediu bem as palavras que, via-se, o estavam a magoar. 
- Namoramos há 3 anos e íamos casar quando eu voltasse, daqui a 6 meses – pronunciou, já com a voz a tremer - Este dinheiro é para a mãe dela lhe entregar, para pagar o tempo em que estivemos juntos – e um Homem chora, sim senhor e chora mesmo, compulsivamente e sem medo e sem vergonha.
M. João na torre
A torre de comunicações, com os seus 140 degraus, onde o esperava o amigo M. João. Com o Jorge, subiam Nocais fresquinhas e o chouriço acabado de receber do “puto” (“vá, filho, para não te esqueceres do gosto das nossas coisas”).
Recordava, no meio de dois golos de cerveja, as conversas que tinham sobre tudo o que se passava à sua volta e, claro, sobre as namoradas que tinham deixado lá. E como ele lhe ensinara algumas palavras do dialecto local. Tentou lembrar-se, mas só lhe apareceram “moyo” e “euá, chindelo”. Deu-lhe alguns preciosos conselhos e emprestou-lhe vezes sem conta a "kinga" para ele se deslocar mais rapidamente.
M. João e a "kinga"

Falavam sobre temas filosóficos, pois então; mas também sobre o primeiro Martinho, que tinha pedido para levar umas coisitas para a mulher, que vivia em Lisboa. E de como o viam, meses depois, andando cabisbaixo, com a mão esquerda atrás das costas e a direita enfiando cigarro atrás de cigarro na boca sôfrega de nicotina e de algo que lhe minorasse a dor.
- Isto é uma vida do camandro, ò Jorge. Não chega a netos, pá – era uma das frases que proferia mais frequentemente, naquele conturbado período. 
Tempos depois, falou-se que tinha sido encontrado com uma corda à volta do pescoço.
Esse não mandou dinheiro dentro duma carta…
Não pôde continuar. A parede começou a tremer. Seria um tremor de terra? Ou o vizinho de cima a dançar? E deu com ele a cantarolar o hino de Henrique de Carvalho (escrito em 1969 por Rocha Marques, piloto aviador e recuperado pelo Mendanha Arriscado). 
Primeiro em surdina, depois cada vez mais alto, como que deixando sair um misto de raiva e saudade, de pressão e de carinho pelos tempos passados e que, hoje, têm um sabor esquisito na boca e uma recordação difícil de definir.
Só conseguiu chegar a meio.

“Quando penso que lá longe ela me espera” já não foi cantado, foi chorado. Primeiro com muitas e grossas lágrimas escorrendo pela cara, depois num choro cada vez mais salgado e ardente.
Quando a noite veste de sombras o mundo
E o silêncio me desperta a solidão
Verto lágrimas e o meu sofrer é profundo
Põe-me louco de saudade o coração.
Quando penso que lá longe ela me espera,
Ansiando pelo dia da chegada,
Grito a Deus, que minha alma desespera,
Grito a Deus, mas o silêncio não diz nada.
Quando os pássaros saudando a madrugada
Me despertam para a guerra uma vez mais
Sinto o peso desta vida amargurada
Sinto ódio às minhas "asas" infernais.
Oh ! Henrique de Carvalho, meu desterro,
Que por dois anos me farás teu prisioneiro,
Se eu morrer quero bem longe o meu enterro,
Quero ser da paz eterno companheiro.

Escrito no AB4-Aeródromo Base nº.4.
Henrique de Carvalho-Angola em 1969
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