sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

DESASTRE AÉREO EM SERPA PINTO

O último voo do bimotor CR-LJQ – Quatro vidas por um fio
A EVOLUÇÃO DOS MEIOS aeronáuticos está hoje na escala cimeira do Espaço Português, Na verdade, só na Província operam mais de duas centenas e meia de aviões particulares, conglobando várias potências e marcas diversas.
E compreende-se que assim seja. Efetivamente num território de grandes espaços vazios e onde as distâncias a cobrir são enormes, o tempo, que nos nossos dias conta cada vez mais e vale sempre mais dinheiro, só pode desafiar-se com o recurso da aviação.
Não deve por isso estranhar-se que, de quando em vez, se verifiquem determinados acidentes, que aliás, nos últimos tempos, estão a registar-se com certa assiduidade. Estar-se-á em presença da chamada lei das percentagens:- isto é, tantos mais acidentes ocorrerão quanto maior for o número e grau de utilização das aeronaves.

O CASO DAS TERRAS DO FIM DO MUNDO
NO DISTR1TO DO CUANDO-CUBANGO, é naturalmente inestimável o papel desempenhado pelos meios aéreos. E do acidente que ora passamos a relatar, fica-nos uma certeza muito importante: - é a de que há controle efectivo das unidades a voar. Com efeito, a Imprensa só muito tarde se reportou ao acontecimento. Todavia, em Serpa Pinto, vivia-se com muita emoção o desenrolar dos factos. E os meios de aeronáutica civil estavam atentos, ao desaparecimento do CESSNA, havendo de colaboração com o respectivo Governador do Distrito, Major Branco Ló, que sobrevoou o local do acidente e acompanhou o estado dos feridos, desencadeando uma autêntica campanha de buscas que acabou por dar, felizmente, os resultados que seriam de esperar.

DESAPARECEU UM AVIÃO!
UM CESSNA 336 DA " TASA " tripulado por António Cabrita Sousa, natural de Albufeira (Algarve), de 45 anos de idade, casado, brevetado há oito anos, efectuava a viagem de regresso a Serpa Pinto, procedente do Baixo Longa.
Um temporal levantado muito rapidamente obrigou a consecutivos desvios que não resultaram. Esgotado o combustível, o bimotor logo principiou a perder altitude e a queda foi inevitável.
Calmo, obedecendo a todas as regras de navegação, só o piloto sabia, naquele momento, o que se estava a passar. Os três passageiros ignoravam todo o drama que António Cabrita vivia.
As possibilidades de contacto-rádio, devido ao mau tempo, não eram nenhumas.
... E o avião precipitou-se.

AS  BUSCAS
ÀS SEIS HORAS DA MANHÃ do dia quatro iniciaram-se as buscas de salvamento nelas tendo colaborado cinco aviões civis, três da FAP e um helicóptero. Por volta das oito horas o avião desaparecido foi localizado imobilizado, a cerca de 60 quilômetros de Serpa Pinto, por um avião particular tripulado por João António Gonçalves Teixeira, que viu dois dos três passageiros do bimotor CR-LJQ que procuravam socorros, tendo feito uma fogueira com a qual foi possível conhecer a posição do avião sinistrado.

OS SOCORROS
DUAS HORAS DEPOIS DE ter sido localizado "Cessna", uma viatura da PSP chegava ao local. Dois agentes desta prestimosa corporação atravessaram, a nado, o rio Cuebe. Pouco depois fizeram evacuar dois feridos.
Dado o acesso ser extremamente difícil para salvar os dois restantes feridos foi necessária a colaboração de um helicóptero da FAP que também teve trabalho arriscado não obstante o seu poder de mobilidade.
Foi necessário abrir uma clareira na mata com auxílio de um homem pendurado pela cintura e de uma serra eléctrica para cortar ramos de árvores.
Transportado de helicóptero, António Cabrita, chegou a Serpa Pinto. O seu colega de infortúnio fora de carro. No Hospital daquela cidade verificou-se que o piloto tinha fractura exposta na perna esquerda, clavícula partida, pulsos feridos e várias escoriações pelo corpo e na cabeça.

LOUVOR MERECIDO!
SEM DUVIDA QUE TODOS OS interventores nas buscas efectuadas merecem um elogio pela sua abnegação, sangue frio e eficiência. Também a população anónima justifica um aceno de simpatia pois pode dizer-se que Serpa Pinto esteve toda no Hospital a aguardar o regresso dos "desaparecidos”. Mas há, efectivamente, um louvor nosso para a colaboração imediata do Governo do Distrito, da FAP, da PSP e os pilotos particulares que depois de localizarem o bimotor sinistrado efectuaram, até final da operação de salvamento, voos em círculo, constantes, sobre o local do acidente.
Esses voos tinham por objectivo não perderem de vista o local e darem conforto moral aos feridos que, com a presença dos aviões sobre as suas cabeças, tinham a garantia de estarem a ser salvos.
Dado o estado de saúde do piloto António Cabrita este veio, acompanhado de sua esposa, D. Benvinda Fonseca, para Luanda, tendo sido internado numa Casa de Saúde, onde foi submetido a intervenção cirúrgica.
A reportagem de "SEMANA ILUSTRADA" procurou-o e ouviu-o no leito onde se encontra a restabelecer-se. Ao lado, sua esposa, que simpaticamente nos acolheu.
O TECTO ESTAVA COMPLETAMENTE FECHADO E NÃO TINHA POSSIBIDADES DE REGRESSAR AO PONTO DE PARTIDA.
ANTONIO CABRITA, O PILOTO que lutou com a morte e venceu-a, fala para os feitores desta Revista. Depois de confirmar que eram quatro os ocupantes do "Cessna—336", o nosso interlocutor fez questão em que, por nosso intermédio, fosse dirigido um muito obrigado ao furriel do Exército que jamais o abandonou e transportou às costas mais de 50 metros, e que, ao serem lançadas garrafas térmicas contendo líquidos diversos para mitigar a sede de ambos, o furriel (cujo nome ignora) apanhou uma que caiu a cerca de 70 metros e levou-lhe para que fosse ele o primeiro a beber. Só depois, o "furriel desconhecido" levou a garrafa à boca,
Magnífico exemplo de solidariedade!

PERGUNTAS E RESPOSTAS
— Há quanto tempo reside em Serpa Pinto?
— Há três meses que eu e minha mulher fomos para lá.
— Quando foi brevetado e quantas horas de voo tem até ao momento?
— Fui brevetado em Luanda há oito anos. Tenho mais de mil horas de voo.
— Conhece bem a rota que seguia nesta sua última viagem?
— Perfeitamente.
— Causas do desastre?
— Foi o temporal. O "tecto" estava muito baixo e não oferecia possibilidades de perfuração pelo que tive de obter uma alternante de 80 quilómetros da rota, próximo do Bucho, que fica distanciado desta cidade cerca de 70 quilómetros.
— ... E qual era a rota?
— Baixo Longa — Serpa Pinto.
— E o tempo de voo?
— Quatro horas e meia.
— Não tinha possibilidades de regressar ao último ponto de partida?
— Não tinha porque estava tudo completamente fechado.
— Qual é a autonomia da aeronave?
— Seis horas e meia.
— A que horas descolou de Serpa Pinto?
— As oito da manha para Vila Nova da Armada; tempo de voo: uma hora e cinco minutos; Vila Nova da Armada-M’pupa; tempo de voo: 50 minutos; regresso a V. Nova da Armada-Baixo Longa e Serpa Pinto, onde não chegámos.
— A que horas se deu o desastre?
— Cerca das 15 horas de sexta-feira. Só fomos localizados por volta das oito horas da manhã de domingo.
— Portanto...
—- ... isso mesmo!... estivemos todo aquele tempo ali na mata, à chuva, ao vento, com sede e fome. Passaram por nós manadas de corpulentos animais, entre outros de menor porte, embora não menos "sociáveis", que, felizmente, não nos viram ou não nos ligaram a importância necessária para investir.

DEIXEI QUE A SORTE ME DESSE AS MÃOS...
— É evidente que teve a percepção do que ia acontecer. Como reagiu e qual foi o comportamento dos passageiros?
— Já com os motores parados tentei aterrar numa chana que divisei não muito longe. No entanto acabei por perdê-la porque a neblina "fechou" completamente. Deixei que a sorte me, desse as mãos e nos ajudasse. Não larguei o "manche" do avião enquanto este não se imobilizou totalmente. Quanto aos passageiros... mantiveram-se todos calmos. Só mais tarde se aperceberam do acidente.
— Como aterrou?
— "Atirei" com o avião sobre a cúpula das árvores de grande porte para amortecer a queda. Ao fim de 50 metros o bimotor estava imobilizado. Então tentei sair. Verifiquei que era impossível fazê-lo só pelos meus próprios meios. Vi que tinha uma perna partida, várias escoriações pelo corpo. Tentei abandonar o avião para irmos — eu e os passageiros — para um sítio onde a nossa presença fosse mais visível afim de facilitar as buscas mas era utopia. Não podia mexer-me. Foi então que dois dos passageiros tomaram essa iniciativa enquanto um outro — o furriel desconhecido — não me abandonou. E, apesar da chuva e do traumatismo psicológico do acidente, ele ainda conseguiu levar-me às suas costas cerca de 50 metros. Mas as minhas dores já eram tantas que tivemos de ficar ali mesmo.
Após uma pausa prosseguiu:
— Pedi ao meu companheiro que fizesse uma boa fogueira com caixas de cartão e madeira seca, que estavam no avião, pois estava tudo molhado e não se podia atear fogo fosse ao que fosse.
E a fogueira era um meio para alertar os socorristas.
— Recorda-se a que horas chegou a Luanda?
A esposa intervém para rectificar, uma vez que Cabrita Sousa não estava efectivamente certo desse pormenor. É ela que nos diz: Seriam dez e meia. Pouco mais talvez, mas não seriam ainda 11 horas.
— A que horas foi operado?
— Eram duas horas da tarde. Os médicos não estavam na Casa de Saúde. Era domingo, dia de folga. Mas assim que foram alertados vieram com a urgência que o caso requeria. O médico assistente da "TASA" foi incansável. O analista também. Estou-lhes muito reconhecido.

JÁ TENHO SAUDADES
— Quando estiver completamente restabelecido volta a voar?
— Olha-nos. Puxa um pouco o lençol para cima e, com um sorriso nos lábios, disse:
— Se volto!... Já tenho saudades!...

O acidente aéreo ocorreu em Março de 1964, quando se procedia ao voo inaugural da TASA - Transportes Aéreos do Sul de Angola.
Reportagem de Adulcino Silva, Semana Ilustrada.

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