sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A MINHA PASSAGEM PELO LESTE DE ANGOLA 1974-1975...FAP DE 1973 A 1979



Não fui o “Grande Operacional” como outros camaradas o foram pelos diferentes teatros de guerra, já que fiz parte da última geração mobilizada e como costumo dizer “FOMOS A GERAÇÃO QUE FOI ENCERRAR A GUERRA”.
Contudo as mais de trezentas horas voadas por África, Angola de Novembro de 1974 a Setembro de 1975, falam por si. Fora do AB4 só fiz dois Destacamentos, um no AM 44 do Luso e outro no AM 42 no Camaxilo.
Chegado ao AB4 em Novembro de 1974, depois de cerca de uma semana na 2ª.RA-BA9 em Luanda, inicialmente tive como primeiro destino São Tomé e Príncipe (AB6 que nunca o foi mas sim AT2), digo o primeiro porque posteriormente fui colocado no AB4, chegando lá depois da viagem em Nordatlas, avião de transporte comum por África pela FAP. Na aproximação à pista pelo Sul o que se vislumbrava era apenas capim e mais capim – só mais tarde me apercebi depois de lá estar que contígua à Unidade havia uma “Quinta” (Agro-Pecuária) de onde se colhia entre outros produtos fruta – por lá passei já em 1975 de “tractor –reboque” de aviões colher pencas de cachos de bananas, não as normais e vulgares que hoje e por cá comemos, mas bananas que ao comermos uma eram quase uma refeição.
Comando e alojamentos

Apresentado no edifício do Comando, dirigi-me à camarata de Especialistas com o meu amigo e camarada de curso Helder Gourgel, um também jovem angolano com familiares por Henrique de Carvalho. 
Escolhida a cama e armário, por lá "encafuámos" os nossos haveres e ala que se faz tarde para ir tomar a primeira refeição de almoço no Clube de Especialistas, sobre
os mirones dos veteranos vindos de Destacamento e que na esplanada, junto ao lago dos “crocodilos” em tempos e sobre a sombra de uma árvore onde solarengamente se movimentavam dois camaleões – lá dentro de igual modo outros camaradas com mais de um ano ou até dois de presença pelo “habitat” do AB4 e seus Destacamentos uns dando “palmadinhas” nas costas outros interessados em saberem notícias de Portugal e do que por lá se passava, entravavam conversas, mais parecendo “moscas em volta de mel” e outros com os célebres “piropos” aos maçaricos, ávidos pela praxe da ordem que se praticava no AB4 (desde finais de 69/70 até finais de 74, pois fomos praticamente dos últimos a serem “desterrados” para o Leste – até ao Natal mais uma meia dúzia de outras especialidades e o camarada José Pinto também MMA e um outro MMT entretanto chegaram), com a qual “aceitei” mas contra os meus princípios, talvez porque quando chegado à Escola Industrial e Comercial de Tomar, com os meus 11 ou 12 anos, também fui alvo de “tratamento idêntico”, não com os “requintes” que o fomos então pelo AB4, pois apenas os ditos “Finalistas” na escola nos podiam dar-nos uns “calduços” quando subíamos e descíamos ao intervalo as escadarias.
Almoçados acompanhados sempre pela “comitiva de recepção”, após o almoço logo fomos encaminhados para a Manutenção da Unidade apresentando-nos ao Tenente MMA que a chefiava (do qual não recordo o nome), tendo o mesmo de imediato chamado o 1º. Sarg. MMA Norberto Marques e um outro baixinho e gordinho que mais tarde também foi meu “Chefe” na BA1 – o resto do dia fomos dispensados para tratarmos da roupa da cama e demais burocracias.
Hangar da manutenção
Não nesse dia mas uns dias depois lá fomos “sujeitos” à tal “brincadeira”, digo eu e reafirmo, de “mau gosto” da referida Praxe, na zona das instalações sanitárias, as quais por “sigilo” aqui omito...   ...   ...
Inicialmente estive na Manutenção, Esquadra 403, onde fiz equipa com o 1º. Sarg. Norberto na manutenção e operacionalização do único PV2 que por lá ainda estava a voar, fazendo “chek up” regulares aos motores e seus sistemas, primeiro de carburadores e depois de bombas de transfega, pois o avião há algum tempo que estava sem voar e teria como seu destino final o Luso para exposição estática num jardim.
Vieira junto do PV2 canibalizado
Além deste que estávamos a operacionalizar, havia um outro já sem motores de onde se retiravam peças, o qual estava estacionado na placa em frente ao Hangar, lado oposto ao Hangar da Manutenção (dum efectivo de sete unidades, das quais cinco já tinham sido deslocados para Luanda, BA9).
Mas vamos então descrever este meu primeiro destacamento de 14 dias entre 17dez74 e 30dez74 no Ar Luso, AM44 – estando o PV2  operacional, já havia instruções de o levar a voar para o Luso, local “emblemático” de Base Operacional dos mesmos no Leste de Angola e de o colocar em exposição estática num Jardim do Luso.
A cidade do Luso e o AM - foto de Gonçalo de Carvalho

Assim por volta das oito, oito e picos da manhã descolamos de Henrique de Carvalho e pouco mais de uma hora de voo, depois de umas passagens baixas sobre a cidade e o Aeródromo (anunciado a sua chegada) aterrámos no Luso. Nesse mesmo dia foram tomadas medidas para se escolher o melhor local para se trabalhar, tendo sido escolhida zona na placa e não em hangar para as manobras de remoção das asas, visto estar bom tempo e para cuja remoção era necessário para poder-se deslocar o avião sem asas pelas ruas da cidade - a restante equipa de manutenção  chegou já depois de almoço ao Luso vinda de C-47, Dakota. Para a primeira etapa de remoção de asas e desmontagem de equipamentos desnecessários, permanecemos por lá até às vésperas do Natal, onde passámos a Noite de Natal, com o Comandante João Oliveira do AB4 que tinha vindo especialmente para o “evento”, o qual discursou aos presentes aludindo “O Último Natal Português por terras africanas”.
Nos dias seguintes ao Natal, retirados os equipamentos de rádio e demais acessórios convenientes e eventualmente reutilizáveis para outros aviões, lá se rebocou o avião em “procissão” pelas ruas do Luso até ao jardim, já que as asas tinham sido transportadas na véspera por camiões da Câmara. No local e por ausência de gruas adequadas a deslocação e elevação das mesmas foi efectuado por um “rancho” de trabalhadores “tipo formigas” à ordem de comando de um encarregado o qual em dialecto local, foram elevadas e milimetricamente posicionadas para serem cavilhadas nos seu locais – finalizou-se os trabalhos com colocação das chapas de revestimento e no dia 27 deram-se por terminados os trabalhos – sendo sexta-feira por lá passámos o fim de semana. 
O PV2 no Jardim - foto de 2011
Este avião, PV2, cujo número não posso precisar (devido a extravio da minha caderneta de voo aquando da minha ida do AB4 para a BA9, onde estavam os registos de voos efectuados e  por conseguinte os aviões e aeronaves voadas no leste), foi depois de umas décadas em exposição, tanto quanto sei pelo camarada Bernardes Neves, foi substituído por um MIG soviético, usado na Guerra Civil que se sucedeu.
O MIG 21 que substituiu o PV2 em 2013
Terminada a missão, No dia 30 de Dezembro a meio da manhã, regressámos todos ao AB4 de Dakota e por lá passei a passagem de ano no Nosso Clube de Especialistas.  
Como os PV2, deixaram de existir na Esquadra, voltei à Manutenção começando a trabalhar em T6 e DO27 com os 1º. Sargentos Lima e Grilo e um outro de bigode farto que de momento já não me lembro (“Sebastião”? ou algo semelhante, “dizendo-se” por lá que tinha sido “colaborador” da PIDE, em Janeiro, foi um dos que de imediato foi enviado para a Metrópole, assim como uns camaradas “janados” de 1972 à medida que chegavam dos destacamentos) e passamos também a  dar assistência aos Alouette III, á medida que estas aeronaves iam e vinham de substituídas nos destacamentos.
Em Fevereiro deu-se o inicio ao fim dos Destacamentos tal como entendidos até aí, prolongando-se até Abril e Maio, já que o Exército que os ocupou se iam reunido nos aquartelamentos Base no Leste, tais como Henrique de Carvalho, Luso (Comando Militar Leste – CML) e Teixeira de Sousa, acabando os Comandos de Sector e de Subsectores espalhados por lá na quadrícula no Leste de Angola, agrupando-se.
Assim e entretanto já desactivado o primeiro Destacamento do AB4 na Portugália, fui enviado para o Camaxilo em 17 de Fevereiro num T6 com um Ten.Pil., salvo erro o Oliveira e por lá permanecemos até dia 28fev75, sexta-feira – lá também estava um Dornier e mais uns camaradas, PIL, MMA e MELEC.
AM 42 - Camaxilo
No restante tempo no AB4, estive afecto à “Linha da Frente”, esta reduzida com meia dúzia de T6, quatro Alouett III, três DO27, um Dakota e um Beechcraft, não na Placa entre a Placa dos Nord e Boeing 707, este último passou por lá duas vezes para recolher familiares do pessoal da Diamang para os transportarem para a Metrópole, mas sim na placa em frente ao Hangar da Manutenção, fazendo “run ups” de quando em quando e realizando voos locais de observação de possíveis deslocações das Forças Armadas dos Movimentos e acompanhando alguns dos seus dirigentes a Comícios, onde “ouvíamos e calávamos os insultos” que aos portugueses eram dirigidos.
O meu último mês no AB4, Junho de 1975 foi a partir da noite de 12 para 13, um mês muito complicado por Henrique de Carvalho, tendo-se aumentado o reforço nos postos e as rondas ao perímetro da Unidade. Foi o fim das idas à cidade as quais só por extrema necessidade por lá os efectivos do AB4 se deslocavam, ou ainda quem por lá “tinha residência” pois estávamos todos ansiosos de regressar.
Efeito dos confrontos entre os Movimentos

Tais confrontos entre o MPLA, FNLA e UNITA, suas Forças Armadas, nessa noite de 12 para 13 de Junho, não obstante até aí terem elementos nas Forças Integradas com elementos das nossas Forças Armadas, conforme Acordo de Alvor, os movimentos de libertação, decidiram “digladiarem-se” pela conquista da cidade de Henrique de Carvalho, aliás como o vinham fazendo por outras cidades, nomeadamente em escaramuças em Luanda desde Março  e em especial em Malange onde também houve tiroteios. Além da noite de 12 para 13 de Junho referida, em 16 de Julho, volta a haver nova disputa pelo território, com violentos tiroteios entre o MPLA e a FNLA durante cerca de 18 a 20 horas e de novo redobrada a vigilância em todos os postos da Unidade e Rondas.
Militares do Batalhão de Cavalaria 8322 no AB4
No dia 22 de Junho de 1975, o Batalhão de Cavalaria 8322/74 do Exército, veio definitivamente para o AB4, deixando o seu aquartelamento na cidade de Henrique de Carvalho, ficando por lá apenas um pelotão da dita “Forças de Segurança Integrada”, composta por elementos dos diferentes movimentos e das nossas Forças Armadas, ou melhor o que nessa data restava, já que no último confronto a ELNA, praticamente foi dizimada e os elementos restantes  abrigaram-se no AB4.

Finalmente em Luanda, concluída a etapa pelo Leste de Angola, colocado na BA9,  Esquadra 92 nos Nordatlas, como 2º. MMA, regressei ao Leste em missão de Nord, bem como por Luanda ainda fiz um ou dois voos local em T6, o Nº. 1685 e na Esquadra como MMA voei também no C-47, N.º. 6164 a 2 e 20 de Julho de 1975. O restante tempo voei em Nord em Julho, Agosto e Setembro nos: 6401; 6404; 6405; 6406; 6413 e 6415, percorrendo o espaço aéreo angolano desde Cabinda a Tchamuttet e de Benguela a Teixeira de Sousa e Henrique de Carvalho nesses três meses de voos intensos, até ao meu regresso à Metrópole em 27 de Setembro de 1975 no Boeing 707 da FAP, Nº. 8801. 
Na Metrópole, fui colocado na BA1 em Sintra, gozando férias e apresentado na Esquadra 401 de Fotografia, Reconhecimento, Detecção de Recursos e Oceanografia (Beechcraft, Dakota, Broussard, Aviocar e Cessena FTB), pouco tempo depois dá-se o 25 de Novembro com “mexidelas” de pessoal em especial dos SUVs que foram “corridos”, estabilizando-se os Quadros com o pessoal que tinha regressado do Ultramar, passando uns à disponibilidade e outros renovando-se as contratações, “Readmitidos” por períodos de dois anos, onde permaneci até 30nov79, momento em que me “chateei” com a FAP, ingressando de imediato no ensino como professor, pois enquanto estive na BA1 fui continuando a estudar...


Por: Manuel Vieira



quinta-feira, 31 de outubro de 2019

QUANDO A RAZÃO PREVALECEU.

Vistas da torre, em 1969, a messe dos Especialistas, dos Oficiais e a dos Sargentos

Um dia, em 1970, o tenente Brito e Cunha, que estava de Oficial de Dia, foi ao refeitório do SG e da PA, aquando do pequeno almoço.
Algo se passou durante a noite, de "jogatanas" no Clube de Oficiais, que não lhe deve ter corrido bem, o homem vinha possesso.
Um camarada soldado da PA, o Vitor Soares, chegou atrasado e o tenente disse-lhe que não tomaria o pequeno almoço, ao que ele respondeu: vou tomar e depois faça o que quiser, mas o pequeno almoço vou tomar !
Azar o meu, estava com o Cabo de Dia e o tenente disse-lhe para prender o Vitor. Este recusou-se a cumprir tal ordem, eu também,  e disse-lhe: prenda-o o senhor que é Oficial de Dia!
De imediato apontou-me a arma à cabeça ameaçando-me que me matava se não acatasse a ordem, ao que lhe respondi: o senhor mata-me, mas não sai vivo daqui ! Ele perante a minha reacção e dos restantes camaradas presentes, mete a arma no coldre e foi embora.

Ao centro a Messe do SG e PA, à direita as restantes messes

Passados uns dias, fui chamado para comparecer na Secção de Justiça para ser ouvido. Qual a minha surpresa, quem era o oficial que me ia ouvir ? Era o tenente Brito e Cunha. Fiquei aflito pois estava a ver a questão mal parada...o próprio queixoso a fazer a audição, só podia correr mal para mim.
Para meu espanto acabámos num diálogo de homens, pedimos desculpas mútuas e no final o tenente Brito diz-me: soldado Santana, durante a viagem no Pátria, em Dezembro de 1968 falámos muito, você é um bom rapaz e eu sei isso. Falamos um pouco mais e disse-lhe: senhor tenente, o senhor é que no fundo falhou ao apontar-me a arma à cabeça por não prender o meu camarada, que tinha estado de serviço durante a noite, na torre de vigilância e precisava de comer, não tinha lógica que o não fizesse.
Saí da Secção de Justiça com um aperto de mão, não sofri nenhuma sanção e até hoje não sei o que se passou a seguir.
O tenente Brito e Cunha, era um bom homem mas na altura excedeu-se na sua autoridade.
O certo é que apesar de mais este caso fiquei com a caderneta limpa, mas acabei por ficar com "alergia" ao nome Brito e Cunha, pois já tinha sido penalizado pelo do Negage com o mesmo nome.
Aquele refeitório do SG e PA do AB4, era uma verdadeira vergonha, de madeira, sem condições mínimas de serviço e higiene, chovia lá dentro, afastado da cozinha, longe das camaratas, à noite quando por lá se passava era só ratazanas...pareciam coelhos !
Interior da messe do SG e PA
A única coisa que me honra foi ter servido o meus país e a minha querida Força Aérea, é a última estória verídica, do Ultramar, estou vivo e de saúde, um abraço para todos os camaradas.

Por:


 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

CORTES DE CABELO E TALHES DE BARBA !



PROPÓSITO:
1. - Convindo precisar o que significa o determinado pelo CEMFA em seu despacho de 26MAI70, publicado na OS nº.19 de 08JUN70, do EMFA, e o estabelecido na NEP 3/72 do comandante da 2ª. RA, estabelecem-se normas de execução relativas a cortes de cabelo e talhes de barba, aplicáveis a todo o pessoal militar colocado e em serviço nesta unidade.
2. - Aos oficiais e sargentos é determinada uma conduta que, também neste pormenor, possa constituir verdadeiro exemplo aos seus subordinados a que devem, por outro lado, exigir o exacto cumprimento do que se fixa nas presentes normas.
CORTE DE CABELO
3. - São considerados regulamentares e correspondentes ao determinado, as seguintes condições de corte de cabelo:
a. - O cabelo deverá ter um máximo de comprimento à frente, diminuindo gradualmente para trás e para os lados de forma a não ultrapassar meio centímetro nos extremos.
b. - O cabelo deverá ser devidamente limpo e convenientemente penteado para trás ou para um dos lados, de maneira que não fique caído para a testa.
c. - As patilhas prolongam-se no máximo até cerca de metade do pavilhão auricular e não devem ser deixadas com formatos extravagantes.
d. - O corte à escovinha é reservado a praças em regime de prisão ou a praças a quem seja determinado tal corte, exclusivamente por motivo higiénico.
TALHE DE BARBA
4. - Como regra, os oficiais, sargentos e praças deverão apresentar-se de barba feita diáriamente, a não ser quando de tal sejam dispensados pela Secção de Saúde e tal dispensa conste em OS.
5. - Não são permitidas, barbas e peras, por não serem, de qualquer modo, tradicionais na Força Aérea.
6. - Poderão usar bigode quando para tal estejam superiormente autorizados os militares do AB4 desde que não seja excêntrico ou, pelo seu aspecto, seja contrário ao decoro militar. Não se poderá prolongar abaixo da linha média da boca e deve ser sempre cuidadosamente aparado.
ALTERAÇÕES AO TALHE DE BARBA
7. - Nenhum militar poderá modificar o seu aspecto, deixando crescer bigode ou cortando-o, se já o usar, sem autorização superior. Sempre que, em consequência desta autorização, o bilhete de identidade (ou o cartão de identificação) tenha de ser alterado, deverá, logo que possível, proceder-se à sua substituição.
8. - A autorização para alterar o talhe de barba é concedida em OS mediante petição presente ao comando através dos convenientes canais hierárquicos.
EXECUÇÃO
9. - O determinado nas presentes normas entra imediatamente em vigor fixando-se a data limite de 15OUT72, para que todo o pessoal desta Unidade se apresente de harmonia com o disposto quanto a cortes de cabelo e talhes de barba.
10. - Os barbeiros da Unidade, a partir desta data, passarão a cortar cabelos em escrupulosa obediência às presentes normas. 


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A MINHA ÚLTIMA MISSÃO EM T6 HAVARD POR TERRAS AFRICANAS

Henrique de Carvalho em 1974 - foto de Alfredo Anacleto Santos


O mês de Junho de 1975 foi a partir da noite de 12 para 13, um mês muito complicado por Henrique de Carvalho, tendo-se aumentado o reforço nos postos e as rondas ao perímetro da Unidade. 
Foi o fim das idas à cidade as quais só por extrema necessidade por lá os efectivos do AB4 se deslocavam, pois estávamos todos ansiosos de regressar. Tais confrontos entre o MPLA, FNLA e UNITA, suas Forças Armadas, nessa noite de 12 para 13 de Junho, não obstante até aí terem elementos nas Forças Integradas com elementos das nossas Forças Armadas, conforme Acordo de Alvor, os movimentos de libertação, decidiram “digladiar-se” pela conquista da cidade de Henrique de Carvalho, aliás como o vinham fazendo por outras cidades, nomeadamente em escaramuças em Luanda desde Março e em especial em Malange onde também houve tiroteios. Além da noite de 12 para 13 de Junho referida, em 15 ou 16, já não posso precisar, volta a haver nova disputa pelo território, tendo o Governador da Província permanecido na cidade, não obstante os violentos tiroteios entre o MPLA e a FNLA durante cerca de 18 horas. 
Elementos das forças em confronto - foto do BC 8322

Assim no dia 22 de Junho de 1975, a CCS do Batalhão de Cavalaria 8322/74 do Exército, veio para o AB4, deixando o seu aquartelamento na cidade de Henrique de Carvalho, ficando por lá um pelotão da dita “Forças de Segurança Integrada”, composta por elementos dos diferentes movimentos e das nossas Forças Armadas, ou melhor o que nessa data restava, já que no último confronto a ELNA, praticamente foi dizimada e os elementos restantes se abrigaram no AB4, tendo sido mais tarde resgatados numa Missão “secreta” de Nord vindo da BA9, em que por acaso vim a participar e já relatada pelo Cap. Pil Fernando Moutinho, aqui no nosso Blog. 
Com todo este cenário a generalizar-se por toda a Província de Angola, conforme o “PLANO OPERAÇÕES Luz Verde”, com data de 01ABR75, preconizava pela situação do processo de descolonização, já então previsto para a independência em 11NOV75, decorrente do Acordo de Alvor de 15JAN75, foram entre outras tomadas medidas, digo eu antecipadas – pois tal plano admitia como horizonte a data de 29 de Fevereiro de 1976, para a retirada e evacuação dos contingentes das Forças Armadas Portuguesa espalhados pela província. Assim o Plano de Operações “Luz Verde”, por imposição da Directiva Geral “RAIO AZUL” da 2ª RA, definiu a Missão e Plano de Execução a levar a efeito em todo o território, nomeadamente em manter...“as bases e aeródromos-base, extinguindo todos os AM e AR seus dependentes, prevendo para os AB uma desactivação progressiva”...(ponto 2 do n.º 3 Execução, do referido Plano de Operações DG Raio Azul). 
Com toda esta conjuntura a nosso desfavor e porque como diz o Povo “estávamos entre a espada e a parede”, sem poder efectivo de acção, em 30 de Junho de 1975 e dias seguintes em várias missões a FAP começou-se a desactivar o AB4 em Henrique de Carvalho, tendo-se deslocado aeronaves para a BA9 em Luanda. Até então foram mandados regressar ao AB4 os efectivos humanos dos diferentes destacamentos, quer de AM, quer de AR e consequentemente os aviões que por lá estavam afectos.
Parelha de T6 no AB4 - foto de Orlando Simões

Assim na manhã de 30 de Junho de 1975, segui numa parelha de T6, pilotados (se a memória não me atraiçoa, pelos pilotos Ten. Pil. Oliveira e Fur. Pil. Almeida), bem como os MMAs José António Pinto e eu. 
Como em Malange pela rota mais curta já não havia garantias de reabastecimento, decidiu-se rumar a Luanda via Nova Lisboa onde reabastecíamos aumentando a distância de cerca de 850km para 1.150km, divididas em duas etapas de aproximadamente 400 milhas (AB4-NL) e 310 milhas (NL-BA9). 
Descolámos de manhãzinha do AB4 com bom tempo, mas já sabíamos pela meteorologia que no Planalto Central podíamos ter céu com nuvens, pelo que após uma volta de voo sobre o Aeródromo, despedimo-nos do Leste e rumámos para Sudoeste até vislumbrarmos a linha do Caminho de Ferro de Benguela para Teixeira de Sousa. Assim o fizemos tomando a altitude conveniente apreciando digo eu, a paisagem angolana pela última vez (tal assim não foi, porque colocado na BA9, Esq 92, por lá fiquei mais três meses e voltei de novo ao AB4 e a Teixeira de Sousa entre outras localidades de norte a sul de Angola).
Parelha de T6  - foto de Gonçalo de Carvalho

Decorridas praticamente uma hora e meia, lá avistámos a linha do caminho de ferro e depois sobrevoamos Silva Porto (actual Kuito), onde camaradas com outros aviões tiveram episódios semelhantes ao que nos deparámos em Nova Lisboa – com mais de aproximadamente uma hora de voo já com as tais nuvens previstas no horizonte, pelo meio delas avistámos Nova Lisboa (actual Huambo) e o seu aeroporto, pedindo autorização à torre de controlo para aterrar cuja ordem foi concedida, começando a descida com a desrruptura da formação e em seguida um T6 e depois o outro T6, aterrámos na pista de leste para oeste em aproximação directa. Rolámos na pista até à placa junto à Torre de Controlo. 
Tendo pedido abastecimento estranhámos a ausência do carro abastecedor, e tendo sido rodeados por um grupo de militares da UNITA e da FNLA, da dita Força Integrada, os mesmos questionaram a nossa presença e esclarecemos que tal como previsto no Plano de Voo e comunicado ao Controlo Aéreo de Nova Lisboa, era nossa intenção reabastecer os aviões para depois prosseguirmos para Luanda – não tendo ali chegado a entendimento o Tenente que comandava a Missão dirigiu-se com dois do militares referidos à Torre de Controlo para esclarecer a situação o que depois segundo ele, não tendo sido fácil, lá anuíram em deixar-nos abastecer para seguirmos viagem para a BA9 (o que se passou entretanto por lá na Torre de Controlo com os interlocutores não o sabemos, apenas cerca de meia hora aparece o Tenente já acompanhado por um Alferes do nosso Exército e depois o carro para reabastecimento).
Aeroporto de Nova Lisboa em 1973 - foto de Afonso Palma

Reabastecidos e pelo olhar meio desconfiado da patrulha, em especial dos elementos dos movimentos, ligamos os motores sem demora, rolámos para a pista e descolámos rumo a Luanda, voltando a ouvir o roncar do Pratt&Whitney em som “redondinho” com os seus 600hp, deixando para trás esta linda cidade no planalto central, rumando agora para Noroeste, vislumbrando na paisagem á esquerda o Morro do Moco (ponto mais alto de Angola com cerca de 2620 m) e tendo como primeiro objectivo alcançar a costa do Atlântico, próximo de Porto Amboim, o que felizmente aconteceu a pouco mais de uma hora de voo desde Nova Lisboa. Por acaso demos mais a sul, mas o primeiro objectivo estava alcançado, não obstante a nebulosidade ter aumentado à medida que nos aproximávamos da costa e estarmos já um tanto ou quanto cansados pois admitíamos almoçar em Nova Lisboa o que não fizemos, tendo-nos recorrido da kit da ração de combate que levávamos cada um. A viagem agora prosseguiu com a costa à vista do lado esquerdo, pois sabíamos que rumando entre o norte e noroeste pelo interior, alcançaríamos a Baia de Luanda e por conseguinte o Aeroporto e BA9 que era o nosso destino. Depois de sobrevoarmos um Parque Natural, do qual não me recordo o seu nome, vislumbrámos o rio Cuanza, indicador que Luanda estava próximo, pelo que sobrevoámos a região de Belas e logo ali à frente lá estava a Baía de Luanda com todo o seu esplendor, solicitando instruções para aterrar o que só aconteceu cerca de 10 a 15 minutos, tendo-se dado duas voltas largas pela Baía e cidade pela esquerda e de seguida descendo em direcção á pista 25 com aterragem de Nordeste para Sudoeste, atendendo a que o movimento aéreo era de certo modo intenso devido aos aviões que por lá estavam a operar na célebre “Ponte Aérea” com o retorno de nacionais para a Metrópole. 
Luanda, Julho de 1975
Aterrámos com alguma folga de combustível, rolando para a parte da placa da Linha da Frente Militar lado oeste... ... ...deste modo concluiu-se mais uma Missão que a meio bem podia ter sido mais complicada – tanto nas vésperas como nos dias seguintes outros camaradas trouxeram para Luanda mais aviões, sendo unânimes nas descrições de idênticos percalços para reabastecimento, nomeadamente de T-6, DO-27 e All III, quer em Silva Porto quer em Nova Lisboa. 
1685 No Museu Nacional da História Militar
Concluída mais esta etapa da minha estadia por Angola, fui colocado na BA9, Esquadra 92 nos Nord Atlas, tendo entretanto voado mais uma vez em T6 no dia 06AGO75 no 1685 num voo local, bem como no C-47 Nº. 6164 a 2 e 20 de Julho de 1975. O restante tempo voei em Nord em Julho, Agosto e Setembro nos: 6401; 6404; 6405; 6406; 6413 e 6415 até ao meu regresso à Metrópole em 27 de Setembro de 1975 no Boeing 707, Nº. 8801. 
Documentos já desclassificados como SECRETO, para os mais curiosos sobre a desactivação da FAP por Angola em 1975: 

No Capítulo o que Previa o Acordo da Cimeira de Alvor 
O que previa o acordo?




Por: Manuel Vieira




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NO OLHO DO CÚ DO PLANETA

Mueda - foto de Alfredo Silva Santos

Um cão vadio, esquelético, vagueava na placa encostando o focinho ao chão na esperança de encontrar algum resto de nada. 
Àquela hora da manhã, o silêncio era quase absoluto. Todavia, ouviam-se vozes vindas do lado do refeitório. Eram os nossos companheiros da cozinha que aprontavam o pequeno-almoço. Daí a nada, o sol começava a despontar e com ele apareciam à porta dos pseudo quartos/camaratas, espreitando o dia os primeiros madrugadores. Os mais sornas, continuavam na posição horizontal indiferentes aos impropérios dos circundantes. 
Na placa, um T6 esfumaçava preparando-se para proteger o helicóptero que se dirigia algures ao mato ou picada para retirar mais uma vitima daquela guerra. Uma neblina envolvia o quadrado de arame farpado plantado na crista do planalto dos Macondes. Através daquela névoa molhante, vislumbravam-se as silhuetas dos aparelhos descansando merecidamente do esforço despendido na véspera. Uns metralhas colocavam bombas nos aviões, enquanto outros preparavam o caldo para a confecção do "ovo" que seria ofertado pelos Fiats... Os mecânicos dos "zingarelhos", entregavam-se a pequenas tarefas nos seus queridos meninos e, à falta de peças, sacrificava-se aquele que na circunstância servia de "vaca". Os dos "Teco-Tecos", operavam de igual modo, com o mesmo zelo e carinho. Ao lado ouviam-se os de rádio/comunicações fazendo o check-in na tentativa de ouvir um 5 por 5, tudo ok. 
No intervalo de uma borradela de mãos, espreitava-se a porta do bar. Se, se encontrava aberta, numa escapadela, ia-se até lá para tirar a secura da garganta. O sol continuava em plena ascensão obrigando-nos a tirar a camisa e pôr os couratos a tostar. 
Havia uma certa acalmia dando a sensação que a guerra andava por outras paragens. 
Pura ilusão! Não raras vezes o camarada de serviço às comunicações, revelava o seu nervosismo quando as chamadas de socorro eram mais que muitas. Incitava-nos para que o "112 aéreo" fosse feito sem perda de tempo. Alguém estaria a sofrer, vítima das malditas minas ou de uma emboscada traiçoeira. Quase sempre vinha um ser humano que há pouco cheio de vida e agora transformado num monte de carne disforme. 
À noite os amantes da "lerpa" satisfaziam as suas preferências. A maioria, mergulhava nas profundezas do líquido que exalava um cheiro doce e gosto tentador. Quando menos se esperava, por cima de nós passava um som agudo. Era a hora maconde e os obuses do PAD faziam tiro para a terra de ninguém. 
Nas camaratas, escrevia-se os bate estradas para a família, ou para as-mais-que-tudo, com as promessas de um amor eterno e manifestações de carícias ardentes. Alguns, faziam levantar a roupa da cama em movimentos mais ou menos cadenciados, sonhando com imaginário feminino e outras fantasias. Que remédio...! O sono não tardaria a chegar.
José Raimundo
Os que estavam de ronda, matavam o tempo à espera que a hora das rendições chegasse. Durante a noite a ronda metia respeito. Os menos afoitos tentavam convencer um outro camarada para o acompanhar. Nesse período, tinha-se por companhia o roncar penoso dos geradores da central. Os neons dos postes estavam envoltos por uma auréola circular e esvoaçando à sua volta centenas de insectos. As aves nocturnas, causavam arrepio com o seu piar prenúncio de agoiro. Aqui e além ouvia-se o rugido de uma fera e a adrenalina subia até ao último traço da escala. Para além do arame farpado, ficava por saber o que se estava a passar naquele momento. A descompressão só acontecia quando o corpo era vencido pela fadiga. 
Termino com algumas palavras que alguém escreveu um dia: "lá longe onde o sol castiga mais, não há suspiros nem ais, há coragem e valor e à noite, com os olhos postos no céu, rogamos ao nosso Deus, que nos dê a salvação!" 
Seria bom que os responsáveis deste país também tivessem coragem e valor para não deixarem ao abandono aqueles que se sacrificaram pela Pátria e que hoje têm uma mão cheia de nada. 
Estes apontamentos vão direitinhos aos camaradas que me antecederam, aos que tive por companhia durante aqueles dois anos e aos camaradas do exército que tanto sofreram.

José Raimundo-Índio MMA
DO LIVRO 

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O CASTIGO DOS PAs DO NEGAGE.

AB3-Negage e AB4-Henrique de Carvalho

O relato que hoje vos trazemos confirma o que se constava na metrópole, antes de ser mobilizado, sobre a reputação do AB4. A Base dos desterrados, dos castigados, dos "cacimbados".
Em fins de 1969, no AB3-Negage, há uma "rebelião" de elementos da PA (polícia aérea), após o sargento SG Gomes ter agredido com uma enxada um dos seus elementos.
Este acto de todo descabido, provocou uma "manifestação" de descontentamento e a exigência de que o CPA fosse comandado por um PA e não como até ali por SGs (serviço geral).
Segundo nos relata Artur Santana, um dos desterrados:
Artur Santana no AB3
-"Fomos considerados rebeldes por defender o agredido.
 Éramos os rebeldes porque fizemos uma formatura em frente á Esquadra da PA, a pedir a demissão do capitão Brito e Cunha e do sargento Gomes. Eu era o porta voz, queríamos um boina azul a comandar-nos, que era o tenente Palma. Merecemos o apoio de alguns oficiais.
No dia seguinte, ao pequeno almoço, fomos informados pelo sargento de dia para entregarmos as armas e fecharmos os armários pois iríamos inaugurar um novo AM.
Acreditamos e fomos para o Nord que entretanto tinha chegado. Ao entrarmos estavam quatro páras armados, percebemos logo que algo de anormal se estava a passar, e estava, fomos disso informados quando estávamos quase a chegar a Henrique de Carvalho.
Quando fomos transferidos para o AB4 só trouxemos a roupa que tínhamos vestida, ou seja o camuflado, estando largo tempo á espera que nos remetessem os nossos bens pessoais. Vieram de facto muito mais tarde, porque tiveram de fazer o inventário de todos os soldados e quando nos foram entregues tivemos de conferir todos os pertences e assinar em como estava conforme.
Não fomos castigados em termos disciplinares, só lamento que a 2ª. RA tenha transferido também o comandante Oliveira Belo, uma excelente pessoa, que também acabou por sofrer as consequências deste caso.
A nossa causa era justa, pois ninguém tem o direito de agredir um soldado com uma enxada no peito originando-lhe ferimentos graves.
Com a mudança fiquei a perder pois era impedido ás águas da Base, jogava no Sporting do Negage tendo feito o campeonato provincial, era um privilegiado, mas em defesa de um companheiro fiz o que tinha de fazer e ainda bem !
Assim conheci o AB4, Henrique de Carvalho, a Lunda, a Rádio Saurimo, o cinema, uma amiga do liceu, o amigo e saudoso Carlos Fialho que faleceu em Teixeira de Sousa.
Considero-me um homem de carácter e de causas justas."

Joaquim Caratao, companheiro PA, também quis deixar o que relembra desse dia:
Joaquim Caratao
 "-Artur Santana, recordo muito bem a manhã em que o Nord chegou ao AB4, por volta das nove horas, com o pessoal PA vindo do AB3. Após o vosso desembarque, de imediato embarcou o mesmo número de militares do AB4 com destino ao AB3. A diferença é que vocês não conheciam o destino, enquanto que os do AB4 eram na grande maioria voluntários para o AB3.
A versão contada no AB4, era que teria havido uma escaramuça entre a PA e a PSP do Negage, situação que provocou uma grande incompatibilidade entre o comandante da CPA e o pessoal."

Artur Santana, quanto a esta versão, esclarece:
"-Caratão, sendo um dos principais protagonistas, afirmo, é uma história inventada para encobrir a realidade do que se passou, uma vergonha, um dito superior agredir um praça com uma enxada pondo-o em risco de vida? Por muitas razões que tivesse e não tinha, existia sempre o RDM.
Essa foi a verdadeira razão !"



Por:
                                                                        Colaboração de:



Texto editado por:A.Neves



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

ENTREVISTA DO MAJOR CARLOS ACABADO

Esta é a história de Carlos Acabado, um alentejano optimista. 
Dos anos da Guerra do Ultramar ao mais recente livro que ainda está a escrever "A Grande Viagem de Maumude". 
"A guerra é um fenómeno muito esquisito, é uma coisa estúpida. Mas vemos além da guerra, sabemos o que sentem os nossos inimigos. No momento em que a guerra acabou ficou tudo bem, penso que isto só aconteceu com o povo português", afirma.
Tem das histórias mais surpreendentes vividas na Guerra do Ultramar para onde foi como piloto-aviador. Como a do capitão que, na neblina, matou por engano a mãe de uma criança bosquímano à frente da filha, Kinda, que decidiu trazer para Portugal e perfilhar. Dormiu na cama ao lado de Iko Carreira, que viria a ser ministro da Defesa de Angola entre 1975 e 1980, a quem poupou a vida mais do que uma vez, e era amigo de Daniel Chipenda, que conheceu em Coimbra e a guerra colocou em campos opostos.
De regresso a Portugal foi secretário-geral do Conselho da Revolução em representação da Força Aérea, tendo a seu cargo o pessoal. Foi aí que se deparou com "uma monumentalidade a dar para o esquisito", como os conselheiros revolucionários a andarem nos carros "roubados" aos banqueiros fascistas. E foi também então que conheceu Cavaco Silva, um homem de quem guarda uma péssima imagem.
Pediu para passar à reserva aos 40 e poucos anos, quando a tropa já não lhe dizia nada e no momento em que percebeu que os jogos políticos falavam mais alto. Mas ainda voltou a África, ao Congo, depois de ter feito sociedade com um bispo luterano que conheceu em Sevilha: comprou duas traineiras em Setúbal, a Portugal e a Setubalense, e levou-as para pescar no Lago Tanganica. Ouro sobre azul. A empresa desfez-se nos anos noventa, mas as traineiras ainda lá estão hoje, activas.
Aos 83 anos continua a escrever a sua história e as histórias daqueles que, no céu e na terra, fizeram parte da sua vida: de "Kinda e Outras Histórias de uma Guerra Esquecida" a "Margem Esquerda", passando por "Histórias de uma Bala Só – Acasos de Vida e de Morte" até "Conversas com um Gorila Chamado Virunga", contos para crianças e não só. Enquanto termina o próximo livro, "A Grande Viagem de Maumude", é a vez de o SAPO24 traçar o retrato de Carlos Acabado, um alentejano optimista.
A história de Kinda, que dá origem a um dos seus livros, é fantástica. Quer contar como aconteceu?
Passa-se com um capitão meu amigo, que já morreu. Ele ia numa missão de ataque e foi lançado de helicóptero. Em Angola, como em África em geral, arrefece muito à noite e forma-se uma neblina que se estende para as margens. Ele subiu a encosta e, de repente, vê o que julga ser um vulto com uma arma e, instintivamente, atira. Era uma mulher com um pau de bater fuba, um pilão. Matou-a. Ela estava com uma criança e a miúda correu para ele a chorar... Ela tinha família, mas ele quis ficar com a pequena; trouxe-a para Portugal, perfilhou-a e educou-a como aos restantes filhos.
Onde pára Kinda?
Penso que neste momento está em África, no Lubango, antiga Sá da Bandeira. Este capitão morreu com um ataque cardíaco e não sei o que é feito da mulher, perdi o contacto com eles. Depois da guerra iamo-nos encontrando e a última vez que o vi foi em Coimbra, estava ele exactamente na queima das fitas da Kinda - a quem mudou o nome para Maria Adelaide. Fizemos uma grande festa, recordámos toda aquela cena... A miúda, que era bosquímano, geralmente mulheres esbeltas e com os olhos achinesados, fez-se uma bonita rapariga. Ele morreu passado pouco tempo, nunca souberam do livro. A mãe, se for viva, deverá ter uns 81 ou 82 anos. A Maria Adelaide deverá andar entre os 50 e os 55 anos.

É possível viver em paz na guerra?
É. É difícil, mas... A guerra é um fenómeno muito esquisito, é uma coisa estúpida. Mas vemos além da guerra, sabemos o que sentem os nossos inimigos. No momento em que a guerra acabou ficou tudo bem, penso que isto só aconteceu com o povo português. Há uma relação até de amizade com alguns inimigos. Eu, por exemplo, era amigo do Daniel Chipenda, que tinha conhecido em Coimbra.
Como é que o conheceu?
Esse é outro episódio da minha vida. A Força Aérea resolveu mandar para junto do meio universitário uma espécie de caixeiros-viajantes com o objectivo de recrutar pessoal. O chefe do Estado-Maior chamou-me e disse: "Você vai para Coimbra com ajudas de custo permanentes [que naquele tempo era dinheiro, qualquer coisa como 200 escudos por dia, além do ordenado e gasolina], hospeda-se no Hotel Astória e vai representar a Força Aérea e fazer publicidade da Força Aérea". E lá fui com dois aviões e um sargento piloto coimbrão (morreu num acidente); comecei com aquela história e acabei na República dos Paxás, na ladeira do seminário [risos]. Integrei-me de tal maneira que quando casei aquela malta foi toda ao meu casamento. Na viagem de núpcias passei por Coimbra e fui tomar um café ao Nicola, que era onde nos juntávamos à noite. Vem o criado, vira-se para a minha mulher e pergunta: "A senhora namora este senhor?" "Namoro não, casámos!", diz ela. E ele responde: "A senhora teve uma pouca sorte terrível". Ela, coitada, nem queria acreditar. Tive de explicar: "Ó senhor Martins, olhe que a minha mulher não é de Coimbra, é de Lisboa". Mas ele insistia, e ela aflita...
E foi na República dos Paxás que conheceu Chipenda, estudante de Coimbra e titular da Académica?
Foi. Depois eu fui para um lado e ele para outro. A seguir à guerra juntámo-nos outra vez e falámos da experiência de cada um. Uma vez as tropas dele furaram-me o avião e aquilo foi mesmo mau, mas conseguimos aterrar. O Daniel Chipenda chegou a dizer-me: "Se por acaso eu morrer em Angola e não me quiserem lá, enterrem-me em Coimbra". Isto, dito por um emancipalista de um angolano, revela a relação que tínhamos. Aquela foi uma guerra quase civil, entre irmãos. No meu curso tive o Iko Carreira [primeiro ministro da Defesa de Angola, entre 1975 e 1980], que dormia na cama ao meu lado, na camarata. Havia uma certa relação... O Iko Carreira não foi apanhado pelas nossas tropas porque o protegíamos. Para o apanhar era preciso matá-lo e ninguém queria matá-lo. Por duas vezes ele esteve com a arma apontada. São histórias que não vêm na história. Era uma miséria total; gastei – gastou a Força Aérea – horas de voo a levar miúdos e pessoas doentes para os hospitais. As rações da Força Aérea eram melhores porque vinham da América. Enquanto os do Exército tinham as sardinhas, umas latas dificílimas de abrir - até se dizia de um problema que era quase tão difícil como abrir uma lata de sardinhas -, as nossas até tinham um bolo, uma espécie de queque que quase sempre dávamos aos miúdos das sanzalas. Dávamos uma grande assistência à população.
É estranho, ao mesmo tempo que se abate salva-se?
É. Mas toda a gente diz que viu atrocidades, abater civis, cabeças espetadas em troncos... Eu nunca vi e estive lá 12 anos. De uma maneira geral, o nosso soldado é um sentimental. Claro que é capaz de dar um tiro, tem de ser, mas nunca notei, e andei muito a pé, nenhuma barbaridade. Vi famílias enforcadas pelo MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] e até um homem atado pela UNITA [União Nacional para a Independência Total de Angola] a um pau cheio de mel para as formigas o comerem vivo - estava praticamente morto quando lá chegámos.

Fez muitas amizades com o inimigo?
Uma vez, no meio de uma tempestade, aterrei numa pista que encontrei para me safar. E estive uma noite à conversa com um comerciante local, que me acolheu e me contou que tinha filhos de africanas, como todo o bom português. E dois eram terroristas. Recebeu-me lindamente e, muito calmo, ao jantar contou-me aquilo. "Então mas você diz-me uma coisa dessas?", perguntei. "O que quer que lhe diga? A realidade é esta", respondeu. Em Teixeira de Sousa, que era uma cidade fronteiriça, sempre em ebulição, havia um hotel que era uma espelunca, pior que qualquer estalagem do antigo Bairro Alto, o Hotel Sepol. E Sepol era Lopes ao contrário, o que representava o espírito da cidade: era tudo ao contrário. Encontrávamos lá mercenários que vinham do Congo aviar-se... Tive grandes amizades, tanto com brancos como com africanos. E tenho uma filha que nasceu lá, o cartão de identificação diz que é natural do Luache, que ninguém sabe onde fica.
Faltava aceitação política, mas militarmente a guerra estava ganha, afirmo onde for preciso.
Ouvi-o afirmar que a guerra estava ganha. Porquê tanta certeza?
A guerra estava ganha, não tenho a menor dúvida. Estou a falar de Angola, mas mesmo em Moçambique era possível e na Guiné as informações que tinha dos meus amigos militares era que a guerra não estava perdida, pelo contrário, havia mais oferta de africanos para as nossas forças do que para o PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde]. Devíamos ter aguentado mais uns tempos para dar uma independência decente a esses países, não era para manter o império. Uma independência civilizada. Faltava aceitação política, mas militarmente a guerra estava ganha, afirmo onde for preciso. O MPLA, que é hoje senhor, dono e ladrão de Angola, não existia. Até o Daniel Chipenda, um dos cabeças do MPLA, me confessou: "Estávamos para nos entregar" quando foi o 25 de Abril. O general Bettencourt Rodrigues [Ministro do Exército (1968-70) e governador-geral da Guiné (1973-74)] confinou a UNITA e eles colaboravam connosco e o FNLA [Frente Nacional de Libertação de Angola] tinha desaparecido. Posso dizer-lhe que fazia calmamente num Mercedes, com a minha mulher e filhos, 300 km até Henrique Carvalho, 600 km até Malange e depois outros 300 km até Nova Lisboa. Veja a confiança que eu tinha em como eles estavam derrotados.
Como vê hoje as relações entre Portugal e Angola?
Penso que são as relações entre pai [Portugal] e filho [Angola] desavindos. Entregámos Angola por influência, sobretudo, do Partido Comunista e depois Mário Soares entregou aquilo a quadrilhas. Mas é uma fase, quarenta ou cinquenta anos na história de um país não são nada. Vai normalizar. Porque ninguém consegue estar em África como nós. Tenho a experiência pessoal e posterior do Congo, onde os portugueses são tratados como congoleses, somos l'enfants du pays, filhos da pátria, e isso dá-nos uma vantagem fantástica.
Em relação a Angola fala de pai e filho desavindos. Angola quer sentir-se filho?
Angola tem a nossa cultura. Mas ainda hoje Angola corre o risco de se fragmentar, porque aquilo não é um país, é uma zona tribal. E isso é evidente nas mínimas coisas. Os angolanos entre si são tão diferentes como nós dos espanhóis ou como nós dos italianos. Os portugueses, bem ou mal, deram a Angola a estrutura de nação que procuram ter, mas com complicações. Quer queiram, quer não, falam a nossa língua, têm os nossos hábitos e eram a província ultramarina mais portuguesa, absorveram muito de nós.
A parte da corrupção também?
Também. Infelizmente também lhes demos exemplos desses e eles sabiam. Tinham a escola primária e evoluíram depressa. São autênticas quadrilhas, com a agravante de haver muito mais para roubar do que aqui, ninguém calcula. Uma das pessoas de que lhe falei estava numa zona de diamantes e sabia os rios, os canais, onde eles estavam. Uma vez só a pesquisa para ver se valia ou não a pena explorar uma mina justificou todo o investimento. Agora é que a canção do Zeca Afonso é aplicável: roubam tudo e não deixam nada. Lá e cá.


Estava em Angola no 25 de Abril. Quando soube que tinha havido uma revolução?
Só soube do 25 de Abril uns dois dias depois, quando aterrei e o comandante me contou que teria havido uma zaragata para Lisboa. Quando me disseram que um dos mentores do golpe era o Costa Martins [fez parte do Conselho de Estado e foi ministro do Trabalho nos II, III, IV e V Governos Provisórios], que era do meu curso e fomos como irmãos, pensei: "Isto não pode ser a sério, estamos desgraçados!". Eu conhecia o Costa Martins de ginjeira, era bom piloto e muitas outras coisas, mas para aquilo não servia. Depois começaram a aparecer os outros todos...
Em que acreditou, então?
Pensei que isto ainda teria remédio. Nunca conheci o general Spínola, nunca o vi nem nunca trabalhei com ele, mas fiquei com uma péssima impressão, porque é preciso uma pessoa ser estúpida para acreditar no que ele acreditou, que era um salvador da pátria. Aconteceu-lhe o que aconteceu: teve de fugir, disfarçado de bigodes... Uma vergonha.
Não éramos tontos e conhecíamos a evolução do mundo, sabíamos que aquilo tinha de ser independente, mas nunca me passou pela cabeça que uma descolonização com aquela dimensão (...) pudesse ser feita como foi. Foi uma traição ao país.
Era impossível porquê?
Porque tínhamos de ser nós, que estávamos já em Angola, a ditar as condições da independência. Volto a dizer que devíamos ter continuado a guerra, que estávamos à beira de a segurar. Havia lá portugueses que nunca tinham vindo a Portugal, como havia quem nunca tivesse ido a África e só lá tivesse interesses. E eram essas pessoas, a quem mandavam o dinheiro, que diziam que estava tudo perdido. Tínhamos de ter protegido tanto a população negra que era nossa como os brancos que lá estavam, os mulatos. Aquilo podia ter sido uma nação fabulosa, mas fomos vítimas de uma guerra fria.
Quando regressou a Portugal?
Vim em fins de 1975. Assisti em Luanda às guerras entre eles, canhões a atirar às arrecuas, a bombardear casas dentro da cidade. Aguentei enquanto foi possível. Mandei primeiro a família para Portugal e fiquei lá eu e o meu cão, um pastor belga, a quem tive de pagar depois uma viagem na TAP. Ainda viveu em Évora mais uns dez anos. Era um cão célebre, só lhe faltava falar. Dava-se com toda a gente e, como eu já não tinha família em Angola, quando voava tinha de o levar comigo. Enquanto o avião rolava na pista, ele, que gostava de andar de automóvel, estava bem, mas quando descolava o Lord ficava quietíssimo. Quando aterrava era uma alegria enorme. Era um cão fantástico, nunca mais tive nenhum. Um amigalhaço.
E o que foi fazer, de regresso a Portugal?
Como era alentejano, colocaram-me em Beja, assim como quem diz agora não chateies a gente. Beja era uma base alemã, só lá tínhamos um avião. De maneira que fiz voos desportivos, fotografei todos os castelos que havia... Está a ver o que é uma pessoa vir de uma guerra, com voos a sério, e ter de fazer xis horas de voo pacífico obrigatórias. Juntei o útil ao agradável. Estive lá três anos e depois o general Lemos Ferreira [chefe do Estado-Maior da Força Aérea] chamou-me para o Conselho da Revolução. Disse-lhe que não tinha nem vontade nem vocação, mas ele insistiu. O Conselho da Revolução tinha, além dos conselheiros, três secretários-gerais: um da Marinha, um do Exército e um da Força Aérea, que era eu.
Os conselheiros andavam todos em carros roubados – tinha havido o PREC. O Vítor Alves, de quem eu era grande amigo, andava no carro do banqueiro Jorge de Brito [Banco Intercontinental Português], que era um carrão, e os outros também
Qual era o seu papel?
O meu pelouro era o pessoal, tratava dos automóveis, dos escritórios e não tinha muito mais que fazer. Nunca mais me fardei, era tudo à paisana. E havia ali coisas, uma monumentalidade um bocado a atirar para o esquisito. Aquela gente convenceu-se de que eram os salvadores da pátria, tinham o poder todo ali concentrado. E não podia ser bem assim. Depois pagaram caro com a revisão da Constituição de 1982.
Por isso tive de lidar com Cavaco Silva, que ainda não era a estrela que veio a ser depois. E ele tratou-me mal – eu até já era major. Não gostei.
Pode concretizar?
Era do meu pelouro e eu achava mal os revolucionários andarem nos carros "roubados" aos fascistas. Afinal, estavam a fazer o mesmo que eles. Então resolvi renovar a frota do Conselho da Revolução, pedindo carros às armas. Uma das coisas que me impressionou, e me fez ficar com má impressão de Cavaco Silva, que era ministro das Finanças... Não está bem a ver o que lá ia parar e as pessoas que iam lá falar [ao Conselho da Revolução]. Como um velho democrata, socialista, a quem arranjaram um tacho de consultor no Conselho da Revolução e a quem tive de arranjar escritório. Eu tinha quarenta e pouco anos e ele mais de 80. Quando fui mostrar-lhe o escritório expliquei que depois lhe arranjaria mais uns sofás e diz-me ele: "Então arranje-me um canapé". "Um canapé?!", perguntei. "É que às vezes pode vir alguma rapariga visitar-me...", responde. Isto revela a ideia que ele fazia do Conselho da Revolução. Lá expliquei que não sabia se haveria canapés, que talvez tivesse que se contentar com uma cadeira... Coisas assim.
Voltando aos automóveis e a Cavaco Silva, resolveu a situação? E porquê a má imagem?
Nessa altura eu correspondia-me com os ministros por diversos motivos. Por exemplo, como era alentejano, não queira saber a quantidade de expropriados que vinham ter comigo a ver se lhes resolvia problemas, tudo à minha volta a ver se eu conseguia desenrascar as coisas. E eu fazia uns despachos, dava ao Sousa e Castro, e cheguei a corresponder-me com o António Barreto, que era ministro da Agricultura. Fui sempre bem recebido. No caso dos automóveis, não havia carros suficientes. No governo, no Ministério das Finanças - julgo que ainda é assim - havia um departamento que geria a frota do Estado. Por isso tive de lidar com Cavaco Silva, que ainda não era a estrela que veio a ser depois. E ele tratou-me mal – eu até já era major. Não gostei.


Cavaco tratou-o mal em que sentido?
Bem, não me bateu, mas não queria que eu lhe aparecesse com problemas daqueles, que não era assunto para ele. Expliquei por que motivo era importante, mas respondeu-me sempre já com uma arrogância de político. Fiquei com uma péssima impressão do homem.
E tratou do assunto?
Tratei eu. Foram para lá uns Volkswagen em que depois ninguém queria andar, porque achavam que não eram grande coisa. Lá se arranjaram uns carros melhores para os conselheiros e nós ficávamos com os de mais baixa gama. Mas, sobretudo, retiraram-se de circulação aqueles carrões, que ainda por cima era mau andarem por aí nas boîtes... Renovámos a frota para uma mais discreta e popular e resolveu-se assim o problema. Cada um com chauffeur, guarda-costas, secretária. Os militares não estavam preparados para assumir responsabilidades deste género. Quanto a mim, no fundo, no fundo eram loucos.
Como olha hoje para a instituição militar, em particular para a Força Aérea?
Os militares estão descredibilizados e caíram em desgraça, também por sua culpa, mas, sobretudo, por culpa dos políticos. Portugal não deu o devido valor às pessoas que combateram, mas no fim das guerras, sobretudo aquelas que se perdem, os militares ficam sempre mal vistos pela população. Faz parte da história. Diziam que estávamos a enriquecer lá, que era por isso que queríamos continuar a guerra... Tudo mentira. E há um plano, eles sabem que desarticulando e desprezando as Forças Armadas elas perdem força, não vão interferir. Hoje não há nenhum coronel, nenhum comandante de uma unidade, que se atreva a trazer atrás de si dez soldados. O que quero dizer é que hoje não há qualquer possibilidade de se fazer uma revolução. A força está na Guarda Republicana, está na Polícia e há quartéis guardados por seguranças privados. Isto é admissível? O roubo de Tancos foi o quê? Não há tropa. E o uso das messes, das cantinas, para fazer catering privado é uma mancha na história da Força Aérea, mas em todo o lado há gente boa e gente má. Senti-me envergonhado. Sempre houve roubos: gasolina, sabonetes, papel higiénico, papéis para os filhos desenharem... Mas não eram milhões nem uma coisa organizada, eram uns bifes e umas galinhas para a família, para a sogra. A pirataria nunca chegou ao ponto em que está hoje.
O que o levou a escolher a Força Aérea?
Sempre gostei de aviões, mas achava que não tinha físico para ser piloto. Um dia fui experimentar e, afinal, tinha. E ainda apanhei aquela época romântica em que éramos todos amigos; se não tínhamos dinheiro para ir a casa no fim-de-semana, passávamos pela Ota e havia sempre alguém que emprestava. Estou afastado há muito tempo, mas estou convencido de que já não há a mesma camaradagem. E íamos para a Força Aérea para servir. Eu podia ter concorrido à TAP e nunca o fiz. Hoje os pilotos, não digo todos, vão tirar o brevet, que é caríssimo, à Força Aérea, financiam-se ali e depois vão embora. Isso não acontecia.
O que o levava a crer que não tinha físico para piloto?
Na altura dizia-se que os pilotos não podiam ter dentes cariados. Eu tinha e pensava que aquilo era eliminatório. Mas não, o único defeito que me encontraram foi uma dentada de um burro na perna, ainda tenho a marca.
Como aconteceu?
Na aldeia eu tinha um burro e um primo, ainda hoje somos muito amigos, tinha outro. Mas os burros não gostavam um do outro. Um dia o burro dele atirou-se ao meu e em vez de o morder, mordeu-me a mim, que estava montado nele. A dentada de burro é fortíssima, julguei que tinha partido a perna. Na inspecção da Força Aérea quiseram saber o que era aquilo, o médico nem sabia que os burros mordiam... Mas estava tudo bem, entrei para a Força Aérea e tive sorte com os instrutores que me atribuíram. Tive vários acidentes mas nunca fiquei mal, nem eu nem ninguém que ia comigo.


Lembra-se de algum em particular?
Os acidentes que tive não foram tão maus como isso. Uma vez rebentou um pneu na descolagem e o avião saiu da pista e partiu-se. Eram pistas improvisadas e o mais aborrecido foi que tive de lá ficar 15 dias até me irem buscar. Era quase nas terras do fim do mundo e demorou a arranjar um avião para lá ir buscar o avião e a tripulação, que era eu e o mecânico.
Isso já foi em África, depois de ter sido mobilizado. Mas não foi logo, foi?
Primeiro fui colocado como instrutor de pilotagem na Base Aérea de São Jacinto, em Aveiro, que era a base de instrução primária dos pilotos, onde estive três anos. Eu era alentejano, fiquei deslumbrado com a cidade, a água a correr ali pelo meio... Depois fui para Tancos fazer uma adaptação a outro avião e fui mobilizado para África; calhou-me Angola. Tive sorte, colocaram-me num sítio para onde ninguém queria ir, uma base (AB4-Henrique de Carvalho) ainda no início, só barracas, mas uma boa pista para aviões. A nossa área de voo era enorme e não havia GPS nem sequer cartas de navegação. Acabei por lá ficar 12 anos, levei para lá a família e era ali que tinha tudo organizado. E tive sorte outra vez, quer ver?
Conte...
Chamavam-me o Às do Leste da aviação, porque conhecia aquilo tudo de cor. O que não era verdade, foi um golpe de sorte. Certo dia foi à base um general, também piloto, mais novo do que eu sou agora, mas já velhote. Fui voar com ele, como segundo piloto, e como não dizíamos nada um ao outro deixei-me dormir. O homem perdeu-se e abanou-me para saber onde estávamos. Já tinha passado mais de uma hora e meia de voo e, numa extensão tão grande como a da Península Ibérica, olho para baixo e vejo um rio com três ilhotas ao meio. Era uma das minhas referências, de maneira que lá o fui orientando. Quando chegou a Luanda, o general foi dizer a toda a gente que eu era um fenómeno: ia a dormir, acorda-me e eu sei onde estou. Nasceu um mito. A partir de então eu chegava a Luanda e punham-me mapas à frente: "Que sítio é este?" [risos] Eu respondia que não sabia, mas eles não acreditavam, pensavam que eu sabia tudo e fiquei com essa fama, que não correspondia bem à verdade. Era difícil orientarmo-nos, até por causa dos ventos que desviavam os aviões, e tínhamos de ir com muita atenção para não nos perdermos. Perder-se de avião não é a mesma coisa que perder-se de carro, mais meia hora de voo é o suficiente para a gasolina acabar e o avião cair.


Quando o Conselho da Revolução acabou era ainda muito novo...
Quando saí do Conselho da Revolução pedi para passar à reserva, tinha 45 anos, mas tempo de serviço suficiente, porque fui para a Força Aérea muito cedo e em África o tempo de serviço contava a dobrar. Estive lá 12 anos, só de África tinha 24 anos de serviço. E decidi vir-me embora, porque naquela altura a tropa já não me dizia nada. Com a política, a interferência dos políticos, perdeu-se o espírito e tínhamos a noção do que ia acontecer, o estado em que estão as Forças Armadas. É um plano que estão todos a executar: esquerda, direita, centro. Nunca deixei de acreditar completamente que isto ia mudar, mas sabia que o caminho era muito difícil. Calhou à nossa geração o regresso a uma Europa que na cabeça dos nossos políticos estava à nossa espera de braços abertos. Mas não estava, estava, como está, à espera que a gente trabalhe para ganhar o pãozinho de cada dia. E hoje a União Europeia corre o risco de se desintegrar e se isso acontecer ficamos fora do baralho. Não temos nada. Concretamente, não temos nada.
Disse que esteve no Congo, já depois da guerra e do Conselho da Revolução. O que esteve lá a fazer?
Quando passei à reserva fiquei sem nada que fazer, em Évora. Num passeio a Sevilha, no hotel Los Lebreros, encontrei um africano todo bem-posto a falar um português correcto e, claro, meti logo conversa. Era de Moçambique e era bispo luterano, mas como era da facção da Joana Semião, uma activista, não podia regressar ao país. Ela foi morta e ele fugiu e estava ali a tirar um curso. Contei que tinha muitos anos de África e ele deu-me uma carta caso eu quisesse ir a Albertville, actual Kalemi. Meti-me num avião e fui. Kalemi tem o Lago Tanganica, uma das maiores reservas de água doce e onde há toda a espécie de peixes. Quando cheguei lá não havia ninguém a não ser dois gregos com um barquinho onde mandavam uns pretos pescar à noite. Eu tinha um documento da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] com tudo descriminado... Simpatizei com o bispo, o bispo simpatizou comigo, fizemos uma sociedade. E foi assim que fiquei sócio da Igreja Luterana, que tinha a Société Generale du Lac Tanganica.
Qual era o negócio?
Na altura em que o Cavaco mandou vender e queimar as traineiras em Portugal, consegui comprar em Setúbal duas traineiras, arranjar tripulação e lá foram pelo Mediterrâneo, passaram o Canal do Suez, aportaram e continuaram por uma linha de caminho-de-ferro que começa em Elizabethville, actual Lubumbashi, feita pelos chineses como alternativa ao nosso caminho-de-ferro, com receio que fosse cortado durante a guerra, o que nunca aconteceu. Como lhe disse eu tinha os estudos da FAO e fui eu que sugeri comprar os barcos em Portugal. No comboio as traineiras iam nos vagões mais baixos, montadas ao contrário. Só que aconteceu um imprevisto: a meio caminho há umas pontes com ferros e a cabine dos barcos não passava. Está a ver o que é no meio de África ter duas traineiras num comboio que não passam nas pontes. Foi preciso voltar para trás e arranjar mecânicos para, com os mestres das traineiras, desmontarem tudo. Perdemos imenso tempo, estivemos quase um mês e meio naquilo. Mas lá chegaram a Kalemi e foram metidas dentro de água.
Ainda lá estão passados estes anos?
Vendi a minha parte nessa sociedade, mas as traineiras ainda lá estão a pescar, bem como as duas famílias que foram de Setúbal e estavam desempregadas. Os barcos chamavam-se Portugal e Setubalense. Ali pescava-se e não havia regras, só em Junho é que era proibido pescar por causa de uma formiga que sai dos formigueiros - eram formigueiros do tamanho de palmeiras, feitos com uma goma que parece ferro -, e, as formigas, aos biliões, atravessam o lago ao sabor dos ventos. Muitas caem na água e os peixes vêm comê-las, por isso é proibido pescar nessa altura do ano. De resto as redes vinham sempre cheias e como aquilo era da igreja luterana uma parte era para a população. Ainda ontem recebi uma mensagem a perguntar quando é que lá volto. Respondo que isto foi há 30 anos, estou com oitenta e não quero morrer ali. A última vez que lá fui foi em 1992 ou 1993.
Foi nessa altura que visitou o Parque Nacional de Virunga, que inspirou o livro para crianças?
Sim, fui ao parque dos gorilas e estive à mesma distância que estamos, assim como se vê nos filmes. E foi aí que nasceu o livro. Vi e passei por coisas giríssimas, andava por lá de jipe com o bispo, de sanzala em sanzala. E fiquei com uma colecção de arte africana; não é artesanato, é arte comprada nos círculos deles.
O livro que está a escrever já tem título?
"A Grande Viagem de Maumude". Tem-me dado um trabalhão, mas há uma pleia de de historiadores agora na casa dos quarenta anos que é uma maravilha, tem uma nova perspectiva da História, mais real, sem endeusamentos, e isso tem-me ajudado na pesquisa. A nossa chegada ao Índico foi um choque de civilizações, nós estávamos muito atrasados. A civilização indiana e, sobretudo, a chinesa eram muito mais avançadas, até mesmo em humanismo. Não eram meninos de coro, mas nós éramos uns selvagens.
Ainda se interessa por política?
Sim, mas a política é uma desilusão. A imagem que tenho é a de um cano de esgoto que se abriu e de onde saem ratazanas, que tomaram conta disto. É um edifício tomado por ratazanas.
Há tratamento?
Muito difícil, porque não é só um fenómeno nosso, é mundial. Veja o Brasil, Israel... Perderam-se os objectivos e uma certa ética. Mas isto não vai lá com revoluções, só vai lá com a evolução. Sou contra revoluções, veja a tragédia que foi a Revolução Francesa, que toda a gente diz que foi uma coisa bestial, mas que foi o início de uma época tremenda, que ainda estamos a viver. Pode parecer blasfémia, mas é verdade. O que precisamos é de evoluir, de resgatar valores. Olhe, outro dia fui a Serralves, entrei numa sala e estava uma lâmpada pendurada e um escadote por baixo. O meu primeiro pensamento foi: o electricista esqueceu-se do escadote. E é chato, num museu. Vou ver e o escadote era a própria obra. Mas era um escadote normalíssimo... É de mais! Enfim, calhou-nos a nós esta fase mais difícil, temos de a viver, mas isto vai melhorar.









Entrevista de Isabel Tavares EXPRESSO
Fotos de Pedro Marques | MadreMedia