domingo, 7 de janeiro de 2018

RECUPERAÇÃO DO ALOUETTE III 9306

O Puma estacionado na chana - foto de Roberto Firth Alves

Dia 5 de Janeiro do ano de 1973.
Tínhamos descolado do Ar-Luso, no SA-330 Puma, 9511, com destino ao Lutembo, com a missão de tentar resgatar o Alouette 9306, pilotado pelo Alf. Pil José Folgado, que ao ter sido atingido num pé, pelo fogo inimigo, aterrou de emergência na chana. 
Ainda estava com o pensamento do dia e noite anterior, em que o nosso Comandante da Esquadra 402 Saltimbancos, Cap. Pil Custódio Santana, fora atingido violentamente pelo fogo do IN, e aterrou na chana, com o MMA João Dias, que ia como apontador do canhão, e termos andado toda a noite, à procura do pessoal da FAP, pelas Repúblicas, restaurantes, bares, para os levar ao hospital militar para fazerem a doação de sangue, que era necessário, face à operação que estava a decorrer, na tentativa de lhe salvar a vida.
Com estes pensamentos vivos, e já a pensar no que ia encontrar na chana aterrámos no Lutembo, com cerca de 01:50 de vôo.
Mudei a ferramenta e tudo o que levava para o Alouette III, n°.9365 pilotado pelo Ten. Mário Jordão, e com o Sar. Pil. José Ramos, lá seguimos para a chana num vôo de 00:15m, onde avistei os dois Alouette III.
Aterrámos, retirei tudo o que levava, e fiquei com o Sar. Pil Ramos na chana, o Ten. Pil Jordão descolou e manteve-se por ali no ar a baixa altura, não fossemos atacados pelo inimigo, embora tivéssemos a protecção da 37ª. Companhia de Comandos. Chegámos junto ao helicóptero do Folgado, estando mais à frente o Alouette aterrado de lado com o canhão a apontar para o céu, do Cap.Santana e do MMA Dias.
Alouette do Cap. Santana e o do Alf. Folgado - fotos de Manuel Cura e António Nabais
Comecei a verificar os estragos, que eram muitos, mais de 180 perfurações de impactos directo.
Os buracos das pás tinham tal dimensão que cabia lá a minha mão fechada, feitos por armas antiaéreas, segundo informação do pessoal da 37ª.CC.
Depósitos de combustível e do óleo perfurados em várias zonas, BTP com dois apoios partidos, e carenagens destruídas.
Comecei a pensar que era uma missão impossível, retirar o Alouette da chana, e chegar ao Lutembo.
Mas lá meti mãos à obra e comecei a introduzir desperdício nos buracos das pás e com fita adesiva lá os tapei todos.
A chuva continuava a cair copiosamente, não estivéssemos no Leste de Angola.
Remendei como pude o depósito do óleo e combustível para levarem o suficiente para chegarmos ao Lutembo.
Com o fio de frenar lá amarrei os dois suportes partidos da BTP, o melhor que pude, bem como algumas carenagens.
Fiz o abastecimento de combustível e óleo e não apareceram sinais de fuga.
Tomamos o nosso lugar, o Ramos iniciou os procedimentos de marcha do motor, a turbina arrancou e com o seu silvo característico estabilizou sem problemas, mas já se notavam as vibrações.
Com o inicio da descolagem as vibrações aumentaram e começamos a ter a sensação que o Alouette se desintegrava. Num vôo de 00:15 m, demorámos 00:30 m, sempre com a sensação que não chegávamos ao Lutembo tal as vibrações que se avolumavam, mas lá aterrámos junto ao quartel e não na pista. Sempre acompanhados pelo Ten. Jordão no outro Alouette.
Quartel do Lutembo - foto de Militão Candeias

Quando saímos do helicóptero, parecia que tínhamos nervoso miudinho tal o efeito das vibrações no nosso corpo.
Completamente encharcados lá fomos beber umas "bejecas" no bar do exército.
Mais tarde chegaram as pás, BTP, depósitos e outro material, o Alouette foi reparado e levado para o Ar Luso.
Missão difícil, mas com o dever cumprido, este trabalho foi agraciado com um louvor, mas essa é outra história para ser escrita outro dia.
Esta é uma breve historia do Sarg.MMA Franklin Santos.
E com a participação do Sarg.PIL José Ramos.

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

EVACUAÇÕES EXÓTICAS

Gonçalo de Carvalho na pista do Alto Cuito
Duas evacuações exóticas
Às voltas com as minhas memórias como piloto da Força Aérea (Fur.Mil.Pil.), lembrei-me de um episódio relacionado com o Alto Cuíto. 
Certo dia, estava de passagem pelo Luso, recebi instruções para me meter num DO-27 e ir ao Alto Cuíto fazer a evacuação urgente de um ferido.




As condições atmosféricas não eram as melhores, o tempo estava muito coberto, mas mesmo assim meti-me a caminho acompanhado, como habitualmente, por um mecânico.
Durante a viagem a nebulosidade foi aumentando e às tantas vejo-me no meio de nuvens e completamente perdido, sem saber qual a minha posição. Aqueles aviões não estavam preparados para fazer navegação por instrumentos e, além disso, não existiam ajudas rádio que nos valessem.
Fiz 180º e meti um determinado rumo para norte, guiando-me pelos instrumentos, até chegar à linha-férrea do Caminho-de-ferro de Benguela. Depois fui até ao Luso e, sem ali aterrar, voltei a apontar ao rumo do Alto Cuíto. Desta vez cheguei ao destino e aterrei sem problemas.
Então foi a surpresa!
Na pista, à espera do DO, estava um soldado que me disse ser ele o ferido! Tinha sido atingido por um tiro acidental num dedo! Pensei para mim (não sei se o disse em voz alta a alguém na altura) "mas que raio de urgência é esta para uma evacuação"!
E pronto...lá levei o "ferido" para o Luso, numa viagem sem incidentes.

Estas situações aconteciam por vezes.
Um dia, por exemplo, saio de Gago Coutinho para uma evacuação urgente de Ninda. A distância é curta...em meia hora estava lá e... para grande espanto meu, à beira da pista, sentado numa mala, estava um soldado à espera. 
Gonçalo de Carvalho em Ninda

Ele era o "evacuado urgente"...que depois me disse que só queria ir para Gago Coutinho depressa para apanhar o Noratlas para poder chegar a Luanda a tempo de ir de férias ao "puto" (o termo saudosista com que nos referíamos a Portugal continental), e que o capitão da companhia lhe tinha feito o favor de permitir o envio de um rádio a pedir a evacuação.
Enfim...são histórias de tempos que já lá vão.

P.S. - “Puto” Em linguagem “calão” designava o Portugal europeu à beira mar plantado.




quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O VELHINHO C-130 HÉRCULES E O NOVÍSSIMO KC-390


Na sequência da opinião pessoal várias vezes aqui manifestada, o Governo decidiu em 8 de Junho de 2017, avançar para a compra de cinco aeronaves KC-390,com mais uma de opção.
Tal operação, que se adivinhava inadiável, prende-se com o fim de ciclo dos velhinhos e musculados C-130 hércules.
A aquisição do KC-390 contempla também um simulador de voo (FULLFIGHT,SIMULADOR CATD),cuja instalação e operação terá lugar em Portugal.
Esta nova aeronave para além dos sistemas propulsores diferentes do hércules (dois motores Turbofan V 2500), permite configurações de transporte aéreo táctico, lançamento de tropas e cargas, reabastecimento aéreo a outras aeronaves, busca e resgate, tendo sobretudo a valência de combate a fogos florestais.

A decisão governamental prende-se também com a importância estratégica que a indústria aeronáutica representa actualmente no nosso País.
Portugal está envolvido no projecto KC-390 através do CEIIA (desenvolvimento e testes),bem como das unidades da EMBRAER no País, a OGMA em Alverca e as fábricas de Évora, que visam a construção de componentes.
Dentro de três meses o grupo de trabalho constituído para o efeito, apresentará resultados, que naturalmente incluem a sustentação logística, configurações técnicas e operacionais, naturalmente definidas pela Força Aérea Portuguesa.
Em jeito de conclusão e tendo em conta a quase certa utilização da Base Aérea Nº 6 Montijo, como o segundo Aeroporto de Lisboa, acredito que num tempo não muito distante as duas esquadras de transporte ali sediadas a 501 «Os bisontes», a 502 os «Elefantes», regressarão com os C-295, os C-130H e depois com os KC390, ao coração do Ribatejo à antiga BASE AÉREA Nº3 em Tancos.



Tal regresso não constitui qualquer polémica, tendo em conta a existência do Polígono militar de Tancos, onde se encontram estacionadas as melhores e maiores valências das nossas Forças Armadas em cujas missões os meios aéreos são indispensáveis.
Pessoalmente fico confortado, pois nunca consegui compreender como foi possível desactivar em termos aeronáuticos, aquela extraordinária Unidade, que bem conheço e tive o privilégio de servir durante mais de vinte anos.

Por:







(Ten.Coronel na reforma)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O FONSECA

O Fonseca nas mensagens de Natal da RTP, em 1968



Bem, agora trouxeram-me aqui a foto do meu discípulo Fonseca, o rapaz mais inteligente que conheci. 
Quando chegou ao AB4, muito franzino e pequeno, soldado atirador, veio apresentar-se, tive pena dele e arranjei a que fosse o nosso Ordenança. Sabia ler e escrever mal, segunda classe da Primária, no entanto, revelou-se no dia em que se sentou ao lado de um rapaz que estava a estudar para ir a Malange fazer exame, e após umas noitadas ali no Comando, disse que afinal não era difícil essa coisa de estudar. 
O Padre Pereira passou a dar-lhe lições e em dois meses fez a quarta e a admissão ao Liceu, em pouco mais de um ano fez o Segundo e o Quinto, e em Malange, de uns poucos somente passaram dois, ele foi um deles. 
Quando me vim embora já ele tinha trabalho assegurado no escritório do Pereira Rodrigues, que era também o dono do Hotel. 
Era natural de um lugar na zona de Mirandela, viviam de contrabando, e ele costumava dizer que Cristo não passou por ali, nem a pé, nem de bicicleta, só se fosse de burro, porque os burros eram o meio de transporte e não caiam! 
Recordar também é viver!
Somente mais uma do "Fonsequinha", como eu o tratava.
Quando vinha algum soldado para se apresentar, passámos a entregar a tarefa ao Fonseca, que era um espectáculo nas perguntas. Pequeno, com um sorriso matreiro, olhando como quem está inspeccionando a farda e a aparência, começava o interrogatório e nós ficávamos à espreita. 
A parte mais fantástica foi a seguinte: (não sei se alguém se recordará)  a um Soldado da Policia Aérea de seu nome António Olho Azul Rosa, o Fonseca depois de todas as perguntas, todas elas desnecessárias, em silêncio olhou o rapaz, olhou a guia, e sai-se assim: - bem, isto não está conforme, está errado, isto não é uma brincadeira (nós por detrás das portas, ainda não havia balcão, quase que nos mijávamos a rir) e impávido e sereno, continuava a olhar para a guia e para a cara do rapaz, que disse: - foi o que me deram, está ai tudo!
Pois, mas aqui diz Olho Azul Rosa e tu tens os olhos castanhos! Já não aguentámos mais!


Em vídeo de mensagens de Natal de 1968 no Ex-FAPs do AB4




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ZÉ MARIA, O 47 (Um ex-combatente)


Caminha, triste, pelas ruas da cidade grande, solitário, sem rumo.
Olhos postos no chão, como se tivesse medo de encontrar - (quem sabe ?) - algum antigo camarada de armas.Segue, lentamente, embrulhado naquele sobretudo que já fora de cor cinzenta, oferecido naquele Abrigo, onde todas as noites lhe dão uma sopa quente, um pão e fruta. Onde ele come na tal mesa do canto, sempre sozinho, sem falar com ninguém. Onde não ouve ninguém a não ser os seus pensamentos.
Caminha. Sapatos arrastando pelo chão, castigados pelo peso da tristeza e da desilusão. Vai, "enfiado" numas calças demasiado largas para o seu corpo, já franzino. A barba, grande, grisalha, protege-o das noites frias e compridas, tão compridas...
É o ZÉ MARIA. Era o 47 na tropa.
Continua a andar.
E de tudo se lembra:
A sua terrinha, tão longe, onde nasceu, onde foi feliz, e para onde tem vergonha de regressar. Com medo que dele "façam pouco", com medo que o recusem, como aliás, lhe fazem nesta cidade grande, tão grande, onde ninguém conhece ninguém.
Lembra-se da mata, lá em África, dessa mata que ficava tão longe de tudo.
Dos tiros, dos ataques dos "Turras", do medo, da fome e da sede, das febres...
Lembra-se agora daquela negra do Kimbo, a Maria Kivunda, que o fazia feliz, e de tudo o fazia esquecer nas noites em que a chuva batia forte sobre a palhota...
Continua a pensar e a caminhar pelas ruas da cidade grande, dessa cidade que não lhe dá valor nem aos seus antigos camaradas de armas. Estão todos esquecidos.
Essa cidade que rapidamente tudo esqueceu. Agora tudo é tão diferente, todas as pessoas são agora tão diferentes...
Lembra-se do " SANTARÉM", do ANDRADE, do "PILHAS", do "MATOSINHOS", do 550, que regressaram de lá, das matas, enfiados em sacos pretos e com um simples pedaço de cartão amarelado no dedo grande de um dos pés. Com um número, o número de cada um deles.
Um número. Foi o que eles passaram a ser.
Um simples número.
Recorda também o piloto Martins e todos os camaradas que caíram, juntamente com o Héli em que voavam, abatidos na zona dos Dembos.

Caminha. Pensa, pensa, pensa. Sofre.
Como tantos, tantos como ele, é um ignorado por esta Nação que os enviava para lá, e que lhes dizia:
"PARA ANGOLA E EM FORÇA !!! "
Em força!, (pensa)
Que força?
A força de ter deixado seus pais, sozinhos, amanhando a terra dura, sol após sol ?!
A força de ter deixado a sua irmã, grávida do caixeiro viajante que por lá passava de vez em quando, tendo-lhe "enchido " a barriga para depois desaparecer e nunca mais voltar ?!
A força que tantos camaradas tiveram que ter para deixar filhos pequeninos, ou mães viúvas ?!
A força de terem que deixar filhos por criar?!
"Força"! - Diziam "eles", os tais que cá ficavam, sentados em gabinetes cheios de alcatifas mais confortáveis e macias do que o sobretudo que o tapa agora.
Nisto:...
Espera!!!
Que foi isto?!
Alguém passou por ele deixando no ar um perfume bem seu conhecido de outrora...
Sim...O perfume do After Shave que o tal 1º. Sargento lá usava todos os dias!
ZE MARIA vira-se para trás.
Reconhece-o!
É ele! - O 1º. Sargento Serra !!!!
Esse mesmo, que, a ele e aos seus camaradas tornou a vida num inferno, lá em ÁFRICA !!
Aquele vaidoso que até lhes retirava as cartas que vinham no SPM !!
Aquele mesmo a quem o ZE MARIA e os seus camaradas juraram matar um dia.
Lá ia ele, bem vestido, perfumado, bem acompanhado.
ZE MARIA fez ainda um gesto de voltar para trás, para lhe dizer que era o 47, para ajustar contas antigas.Deu ainda três passos, mas... parou.
BÁ !! - Mas, vinganças? Agora? Não !!
ZE MARIA tinha feito as pazes com o passado, consigo mesmo, embora as mágoas nunca o deixem.
Tenta até fazer as pazes com o mundo que o rodeia

Continua a caminhar.
Segue agora por uma rua comprida, larga, cheia de montras já iluminadas com luzes de Natal.
"Está perto este Natal," pensa, melancólico.
"Faltam só algumas semanas "...
Natal, de quando lhe darão, no tal ABRIGO, comida reforçada, onde haverá mais sorrisos a enganar as lágrimas, mais gargalhadas a enganar os choros, mais fingida felicidade a enganar o grito prestes a saltar da boca, da alma, de bem de dentro de cada um dos seus companheiros "SEM ABRIGO".
Ao ZÉ MARIA, o 47, vale-lhe, de vez em quando aquela rameira velha, naquele sótão também velho, onde ele, depois de subir as escadas também de madeira velha e "rabugenta", ali encontra um pouco de carinho, um pouco de aconchego.
Sem pagar.
Sem ter que pagar.

Continua a caminhar.
A tropa, sempre a tropa, os camaradas mortos em combate, sempre a povoarem-lhe a cabeça!!!
As recordações daquela guerra que deu em nada, a não ser o envelhecimento precoce de cada um deles, vidas alteradas, e mortes, tantas mortes.
"Para quê ?!"
"Para quê ?! "
"Porquê ?!"
Tapa-se agora melhor no velho sobretudo.
O ABRIGO está já ali à sua frente.
Entra, e como sempre dirige-se à tal mesa, a do canto.
Já o espera um prato de sopa quente, um pão, uma maçã, e a solidão.
Senta-se.
Olhos na comida, pensamentos longe: 
Na sua aldeia.
E em ÁFRICA.
Nessa ÁFRICA que lhe roubou a juventude.
E, nesta Nação que se esqueceu dele.
Dele de tantos, tantos, tantos...

Sai do ABRIGO.
Já é noite "fechada".
Está frio. Aconchega-se ainda mais no sobretudo que já fora de cor cinzenta.
Vai agora com passo apressado, pois não vê chegada a hora de retornar ao "seu recanto", naquele vão de escadas e onde o espera o seu melhor amigo, o "PIROLITO", desejando do dono uma simples festa no pelo, ou um mimo, guardado como sempre no bolso fundo daquele sobretudo pesado, e outrora, cinzento.
O tal mimo que o 47 guarda para o "PIROLITO", o seu único amigo.
Como sempre.

Conto de minha autoria(de ficção ?), dedicado a todos os Ex.Combatentes da Guerra do Ultramar.
O ZÉ MARIA, 0 Nº 47, podia ser qualquer um de nós.
E, na verdade, quantos ZÉs MARIAs, quantos 47s, anónimos, não andarão por aí? Esquecidos ?

Conto inédito, a editar em livro um dia.
Autor: AHV ESGAIO - FAP - 551/67
Comissão em ANGOLA  69-71.




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CADA ESPECIALIDADE, CADA TAREFA…

Em dia de serviço no AB4 - foto de Fernando Bastos


A minha, lembrar-se-ão os especialistas de meteorologia, era recolher dados no abrigo
foto de Afonso Palma
“dos 
termómetros”, fazer e transmitir observações do tempo, e passar as sinopses para os mapas, para depois se definirem as isóbaras.
De 3 em 3 horas, lá íamos nós, de dia ou de noite, (com bom tempo ou borrasca de gritar), anotar diligentemente os vários termómetroshigrómetro, pluviómetro, e mais não sei quantos “ómetros”.
Não sei como é que não adoeci, a ir de bicicleta até ao abrigo meteorológico lá longe junto à pista, em pleno inverno, 2 ou 3 graus às vezes, e debaixo de cargas de água. 
Depois de voltar de Angola colocaram-me primeiro nas Lajes e por fim, de volta à BA6-Montijo (já lá tinha estado em 69 e 70).
Das Lajes, BA4, retenho várias memórias.
- O trabalho na secção de meteorologia, lado a lado com um meteorologista civil e outro americano. Os companheiros "borda d'agua" americanos tinham muitas vezes os pé colocados na mesa do estirador, e uma caneca de café, uma verdadeira "água de lavar loiça", ou uma coca-cola (que ainda não havia em Portugal...o Toino de Santa Comba, não deixava!)
- O meu olhar embasbacado, na primeira vez que lá vi aterrar um gigante C5 Galaxy, é verdadeiramente monstruoso, custa a acreditar que aquilo voe.
BA4 Lajes - foto Ufo

- Aquando da crise de 73, e da ponte aérea americana para o médio Oriente, (Guerra do Yom Kippur) a placa da BA4, nas Lages, habitualmente uma enorme e pacata superfície com meia dúzia de aviões, encheu-se de aviões de combate F-16 e de grandes jactos de abastecimento de combustível em vôo C-135, basicamente um Boeing 707 adaptado (como eram abastecedoras dos F-16, nós chamávamos-lhes as "vacas leiteiras"), o movimento de aterragem e descolagem era muito intenso, e viveu-se ali um ambiente tenso e nervoso de pré-guerra. .

Por:

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO

Chilombo - 1970 - Rui Jofre na evacuação do fuzo Valdemar, ferido por rebentamento de mina - foto de João Leitão Rodrigues


Tomamos a liberdade de transcrever excertos de uma "conversa" no FB, entre dois Enfermeiros Fusos, que fizeram comissão no Chilombo, José Luis Silva e João Leitão Rodrigues.

Decorria o ano de 1971, quando numa patrulha em botes navegando no Zambeze, a caminho da Lumbala, são violentamente atacados pelo IN. 
João Leitão Rodrigues e Rui Jofre,
 no Chilombo
Sozinho e sem qualquer outro apoio nos primeiros socorros, José Luís Silva consegue salvar de morte certa dois camaradas do seu pelotão, gravemente feridos.
Diz João Luís Silva:
Todos imaginam o quanto doloroso é escrever, ou falar, destas tristes recordações.
Num país que esqueceu os seus melhores filhos, nunca será demais recordar e homenagear os nosso Bravos e os nossos Heróis.
Camarada João Leitão, é com duas lágrimas rebeldes a rolarem pela minha face, que te envio o meu abraço fraterno e a minha homenagem, por saber que ambos partilhamos esse sentimento indescritível do dever cumprido ao salvar vidas de camaradas nossos.
Não posso terminar este pequeno apontamento de guerra, sem prestar homenagem a mais um herói desconhecido que me ajudou a salvar esses dois camaradas.
Foi ele um 1º. Sarg. piloto dos hélis (já completamente apanhado pelo síndroma da guerra), que ao cair da noite e ainda no ar, captou o SOS do nosso telegrafista e foi dos céus do Cazombo até à Lumbala Nova, já noite fechada e com a pista iluminada por tochas, fazer a evacuação dos nossos camaradas.
E, jamais esquecerei as palavras simples desse camarada piloto e herói desconhecido: "prefiro morrer por vocês do que deixá-los morrer aqui"!
Gostava, antes de morrer, ainda poder encontrar este Homem.

Pois bem, viemos a apurar entretanto, em conversa com João Leitão Rodrigues, que o piloto referenciado neste relato, era o nosso saudoso Rui Jofre.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

HELICANHÃO DE ALTO RISCO, NO ALTO CUITO

Heli canhão dos "primos" SAAF

Penso que agora, tantos anos passados, não haverá problema algum em contar esta história real, que se passou comigo.
Terá sido na vasta operação Zumbo 3H (
https://www.youtube.com/watch?v=0fWrFCdXmwI&t=156s), que se desenvolveu em toda a área do Batalhão e neste caso de certeza numa operação efectuada a partir do Alto do Cuito, na qual as nossas tropas foram helitransportadas para perto da zona de intervenção.
O meu pelotão não participou nessa operação onde foram utilizados como meio de transporte para os lançamento das nossa tropas, helicópteros dos "Primos", designação dada aos nossos amigos sul - africanos (SAAF), que montaram base por uns dias no Alto do Cuíto.
Em conversa com o Comandante do agrupamento , salvo erro um Tenente, que em simultâneo era o piloto do helicanhão, recebi o amável convite para ir com ele no lançamento das nossas tropas, a bordo do canhão que ia fazer a protecção aos outros helis com os grupos de combate.
Aceitei a proposta  e aí vou eu participar voluntariamente nesta experiência "única" como se veio a verificar de alto risco desnecessário. 
Só depois compreendi, que o objectivo do convite seria fazer-me enjoar, este facto segundo a praxe, teria como contrapartida o pagamento de uma grade de cervejas.
Efectuado o lançamento, segue-se o regresso dos helis ao quartel de Alto do Cuito tendo nós  no helicanhão ficado a sobrevoar a chana, e a admirar as cabras de mato que fugiam assustadas.
No helicanhão seguia o tenente, com o respectivo cinto de segurança, um sargento apontador do canhão, devidamente sentado com cinto de segurança colocado. e... pasme-se!!!!,
Por insensatez minha e logicamente também do tenente, eu ia sentado nas calmas, em equilíbrio instável simplesmente, em cima do caixote de munições do canhão, sem cinto nem qualquer tipo de segurança.
Naturalmente que o Tenente não devia ter deixado que aquela situação acontecesse tanto mais que naturalmente a porta do heli, estava aberta para o canhão operar.
Mas ... o pior viria a seguir.!!!
Dá-se então a maluca odisseia para me fazer enjoar. Seguindo o curso de um pequeno rio, afluente do rio Tempué, com o seu leito a serpentear por entre árvores nas margens, o heli começa a seguir o trajecto do rio, com voltas e meias voltas e eu a ver quando embatíamos numa árvore e ali ficávamos. Pura loucura.!!!
Como não resultou, pois eu não enjoei, voltou á chana seguindo quase rente ao solo. Surge entretanto uma cabra de mato que assustada e a mudar frequentemente de direcção, passou a ser acompanhada pelo heli nesse seu aflito  e brusco serpentear.
Nem assim eu enjoei.!!!! Perante esta resistência, o piloto muda de estratégia, e em plena  chana sobe o heli na vertical, com o motor na máxima potência  até uma altura elevada para, uma vez lá no cimo, "tirar motor" do heli, entrando logo de seguida em queda livre no vazio.
Tive a sensação que as minhas entranhas me bateram na garganta, mas refeito do susto e não dando parte de fraco disse-lhe: "Se não enjoei desta nunca mais enjoo".
Alto Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Então o nosso “primo” dirigiu-se finalmente para a pista do quartel e eu ofereci-lhe, seguramente após as 5 horas da tarde, hora sagrada para o pessoal da Força Aérea Sul-africana, não uma cerveja mas um bom wisky velho, sem ter assim de cumprir a praxe da grade de cervejas.
Moral da história: Nós e Eles ,com os nossos vinte e poucos anos, chegávamos a correr riscos desnecessários, só porque a nossa jovem adrenalina assim o sugeria ou permitia.
Depois, os acidentes aconteciam e éramos eventualmente mais umas vítimas da GUERRA .!!!!

Por:


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

UMA MEMÓRIA DE 50 ANOS



Cumpriram-se em, 28 de Setembro, 50 anos da minha chegada à Guiné no HC-54 Skymaster 7504.
Guardei para sempre a recordação da abertura da porta de cabine dos passageiros e da baforada de ar quente rançoso e húmido, proveniente de águas paradas e dos muitos rios lodosos existentes no território.
Esta foi a antevisão desagradável do que nos esperava: um clima doentio e que marcaria indelevelmente para sempre as nossas vidas.
Para além de muitos outros de quem não guardo memória, chegaram no mesmo voo os Tenentes José Nico e Rui Balacó.
Com eles convivi na Esquadra de Fiat's até ao fim da comissão. Foram cerca de 22 meses em que interagimos diariamente na Esquadra de Tigres, eu como Mecânico na Linha da frente e eles Pil. Aviadores.


Pragmáticamente todos aceitamos o drama de guerra, irregular, assimétrica e mortífera que enfrentaríamos no futuro imediato, lutando para tentar preservar um legado deixado pelos nossos antepassados.
A guerra na Guiné teve características muito diferentes da que se travava em Angola e Moçambique. A elevada organização da guerrilha e a forma como a sua luta se iniciou, através de acções de combate e não com massacres como em Angola, eram reveladores das dificuldades que as FA iriam ter neste território. O movimento de guerrilheiros contra o qual iríamos lutar, era o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC).
Na Guiné, não só os factores históricos e a hostilidade da geografia e do clima tornaram difícil a actuação das FA, como também as independências da Guiné-Conakry (1958) e do Senegal (1960) tiveram um importante papel na condução da guerra. Estes dois países foram uma importante fonte de apoio aos guerrilheiros do PAIGC, proporcionando-lhe refúgio a Norte, Leste e Sul, onde puderam estabelecer as suas bases e desencadear acções militares . O nível de organização do movimento e o armamento moderno de que dispunha (armas automáticas, morteiros, RPG’s, metralhadoras anti-aéreas) possibilitou aos guerrilheiros evoluírem de tal forma rápida que, em 1965, já tinham estendido a sua actuação a todo o território.
Para piorar a situação militar portuguesa, em termos de apoio aéreo, fundamental para a nossa defesa, devido a pressões exercidas pelos EUA, a FAP foi obrigada a retirar da Guiné os oito F-86F, a principal arma de ataque aéreo de que dispunha. 
Os primeiros Fiat G-91 na BA 12 - foto de Mário Santos

Desde a retirada destes, em finais de Outubro de 1964, e a chegada dos seus substitutos, os novos caças FIAT G-91 R4 adquiridos à Alemanha Ocidental. 
As missões de apoio aéreo próximo às forças no terreno foram entretanto garantidas pelas aeronaves T-6G. Este era um avião que estava longe de possuir o mesmo poder de fogo do anterior F-86F ou do posterior FIAT G-91 R4, o que terá contribuído para que no período de dezoito meses entre a saída de uns e a entrada ao serviço de outros, a guerrilha tenha reforçado a sua presença no terreno, especialmente na região a Sul. A inferioridade dos guerrilheiros na guerra aérea levou a que desde cedo procurassem anular esta vantagem da FAP, recorrendo para tal ao uso de artilharia anti-aérea e mais tarde ao míssil russo Strella AS-7.
No entanto, em minha opinião, terá sido precisamente o cansaço dos militares face a uma guerra sem solução política previsível e o ataque aos seus interesses corporativos de classe, os principais factores que levaram as FA a voltar a conspirar contra o regime, acabando por o derrubar em 1974.
Aqui deixo o meu abraço de grande estima ao General J.Nico e ao Coronel R.Balacó(que felizmente ainda se encontram entre nós) assim como a todos os companheiros de todas as Esquadras e que contribuíram com o seu esforço e as suas vidas para Portugal poder ter orgulho nos seus filhos que lutaram com honra e dignidade para preservar o que nos tinha sido legado!
As fotos não têm grande qualidade, devido às arcaicas câmaras fotográficas, mas são todas genuínas. A foto do Skymaster foi tirada pouco antes do seu abate e posterior desmantelamento, sendo portanto a mais recente e com melhor qualidade.

Por Mário Santos


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O MACACO "GALILEU" DO AM 95-CABINDA.

O Esgaio MRAD, com o amigo macaco do AM 95-Cabinda, em 1969


Certo dia, um da malta resolveu, com mais camaradas, levar o macaco para um "determinado bar", num musseque, nos arredores de Cabinda.
Pois foi o caos. A meio da noite, o "galileu" resolveu começar aos gritos, a correr pelas camas todas, onde estávamos com as nossas "companheiras", a puxar todas as roupas. Depois, sempre aos gritos, colocou nos seus pequenos ombros todas as roupas da malta que podia, e fugiu para a porta, sempre aos guinchos e gritos, como que a chamar por nós, os seus amigos do AM. 
Entretanto, o musseque acordou com toda aquela gritaria, saíram das cubatas todos os negros e negras, tudo assustado. Mais gritos e correrias mas agora por parte dos habitantes que viviam no musseque. Os gritos do "galileu" continuavam. Cada vez mais reboliço e confusão. Nós, à porta da tal casa, em pêlo, pois o macaco tinha-nos roubado as roupas . As "companheiras", também à porta, assustadas e tapando as suas naturezas pois a populaça tinha-se toda aglomerado ali.
Não sabemos como, apareceram 4 elementos da PM, a correrem para nós, pensando que estávamos a ser atacados (como mais tarde nos disseram). Nós, os do AM, quando vimos a PM a correr para nós, ficámos cheios de medo deles, e só tivemos esta opção quando alguém gritou: " Fujam, malta!! Senão vamos todos presos!!"
Palavras santas. Num abrir e fechar de olhos, pegámos o "galileu" nos braços, e nus, toca a correr pelo musseque, depois pelo alto capim até ao AM, onde chegámos estafados e com os bofes à boca.
Chegados ao arame farpado da rede do AM, pedimos a um dos PA que passasse palavra para nos abrirem o portão. Era madrugada e o dia já começava a romper. Naquele lusco fusco, corremos cada qual para a sua " camarata", mas às 8 horas já estávamos no  hastear da bandeira.

Foi um episódio que ficou para a historia dos que passaram pelo AM.
Só de salientar, que quando nós fugíamos, para o nosso "galileu" foi uma festa, pois , posso garantir, que os sons que ele emitia mais pareciam gargalhadas.
E com os dentes todos à mostra, como se ainda estivesse a gozar connosco.
Por Esgaio (Nazaré Maria).