sexta-feira, 29 de julho de 2016

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA - O POSTO DO MUIÉ


O POSTO ADMINISTRATIVO DO MUIÉ
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Pertencia à Circunscrição dos Luchazes e situava-se na margem direita do Rio Muié, que lhe deu o nome. Tinha uma avenida larga, talvez com uns vinte metros e cerca de mil de comprimento, toda ela ladeada de eucaliptos adultos, com mais de trinta anos. Situado numa zona plana, com ligeira inclinação para o referido rio e do qual distava cerca de uns quinhentos metros, mais coisa menos coisa.
Mas eu peço-vos para se deterem por uns segundos, na foto acima e acompanhem a minha descrição, que irei fazer, com alguma emoção. Antes porém, devo referir que vou começa-la pelo posto, povoação, em si e, só depois e em separado, irei descrever a missão que começa ou acaba, consoante a entrada ou a saída, aqui mesmo na parte inferior desta mesma foto. A fotografia é aérea e foi tirada por um dos nossos amigos da FAP, do tempo do Mambo (Carlos Sequeira) e já tive a oportunidade de lhe agradecer. 
Então temos, a primeira edificação que se vê, é a enfermaria dos acamados e logo de seguida a residência do enfermeiro e enfermaria. Esta construção e a do posto que irei citar de seguida, foram construídas na minha ausência, andava eu na 3ª. classe, na Escola Primária 53, no Luso. Estes três edifícios foram construídos, em pouco mais de um ano lectivo. Naquele tempo, não se brincava em serviço. O pedreiro-mor, era um cabo verdiano a quem o meu pai construiu, nos arredores do nosso quintal, uma bela cubata.
Os nossos antigos, traçavam tudo a régua e esquadro. Reparem bem na foto.
A seguir à residência do enfermeiro, havia uma construção de adobe, coberta a folhas de zinco ondulado, que servia de sala de aulas aos indígenas e logo a seguir, a minha escola e residência do professor. Um prédio enorme, também de adobe mas coberto a capim. Tinha uma varanda à toda a volta, com uma proteção em madeira. Este foi o primitivo posto administrativo. Nas traseiras, existia um outro imóvel mais pequeno que, naquele tempo, servia de cadeia. Mais atrás, existiam umas cubatas dos sipaios. Tudo rodeado de eucaliptos adultos e jovens.
Muié vista parcial da Sanzala, foto Bat."Ás de Espadas" 

Sobre a cadeia, vou contar-vos uma história. Isto passou-se no início dos anos sessenta, quando o chamado terrorismo, surgiu no norte da província ultramarina. As autoridades administrativas e não só, puseram-se logo em campo, no sentido de controlarem tudo e todos, particularmente os nativos, com receio de que aquela "febre" se disseminasse pelo resto da província, o que veio mesmo a acontecer e com dureza, a partir dos anos 1966/67, nesta zona, concretamente.
Fizeram umas detenções e chegaram mesmo a torturar, como era hábito, alguns desgraçados, com a ajuda de uma secção do nosso exército que para ali havia sido destacada. Segundo diziam à boca pequena, alguns não aguentaram o referido tratamento e sucumbiram e, foram, pela calada da noite, levados na viatura da administração e abandonados no Rio Cussibi. Não sei se foi ou não verdade. Eu era apenas um kanuqui com uns dez ou doze anitos. Mas a história não fica por aqui e o melhor vem já de seguida.
Os presos dormiam acorrentados e, como não podiam sair para urinar, faziam-no numa esquina interior da referida cadeia, contra a parede. Não sei se estão a ver o filme, adobe com água ou mijo, o efeito era o mesmo, a parede tronou-se vulnerável. E, uma bela noite, ao som dos canitos, todos os reclusos deram o fora, depois de terem escavado a referida parede, desapareceram na escuridão da noite, por aquele mato fora. Ora bem, o sipaio responsável por aquela tarefa, era o principal e único suspeito.
O chefe do posto e os militares que conduziam aquela operação, para não darem nas vistas e não serem motivo de chacota, por parte dos nativos, resolveram ordenar ao cipaio que fosse a Cangamba buscar o correio, coisa nunca feita, isso era da responsabilidade do chefe, para aí ele ser então preso, longe das nossas vistas. 
O sipaio, prevendo aquele desfecho, acatou as ordens e partiu, só que em sentido contrário, fugiu para Zambia e foi-se juntar aos prisioneiros fujões.
Quando se deu o vinte e cinco de Abril, este amigo, foi lá a casa visitar-nos e entre outras passagens, este, foi tema de conversa. Fartei-me de rir com ele a contar esta peripécia. Afinal, os patrício tem esperto nos cabeça.
Mas voltando à escola, à sua frente existia um cerca, mesmo junto aos eucaliptos, com um portão, canteiros de flores e, do outro lado da avenida, um enorme descampado, ocupado, entranto, por aquela enorme sanzala e ao fundo desta, a caminho do rio, a pista de aviação.
Muié vista áerea, foto de Carlos Antolin 
O professor era de raça negra, foi o primeiro e único que tive, era uma pessoa bem educada, simpático, afável e ensinava bem. Como não existiam ali restaurantes, comia em nossa casa e, nunca mais me esquece, quando se foi embora - só lá esteve um ano -, como não havia recebido o seu vencimento, entregou ao meu pai uma máquina fotográfica, cujo valor o meu pai desconhecia mas, aceitou-a e, deu como saldadas as contas. Possuo algumas fotos tiradas com essa máquina. Cruzei-me uma única vez com ele no Luso, andava eu já no 1º. ano do CGC.
E quem não se recorda das moscas pela manhã, que se colavam nas nossas costas. Íamos todo o caminho para a escola, com uma bissapa a enxotá-las.
Continuo a explorar apenas o lado direito da já referida avenida, da fotografia, antes que a fonte se esgote e receba por aí a vizita daquele senhor "Alzaimer".
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 
A seguir às moscas, vem o novo posto administrativo, meu contemporâneo mas que, como já disse, nasceu na minha ausência.
Era um edifício moderno, à boa maneira colonial, ficava lá nas alturas, como se fosse o trono do régulo D.Aleixo. A secretaria ficava virada para a avenida, com um amplo descampado à sua frente, possivelmente, destinado a jardim, quiça, uma mini praça do império e, o seu acesso fazia-se por uma escadaria, ladeada de ambos os lados por uma estrutura de ferro e, ao cimo, uma varanda, também esta, rodeada por idêntica estrutura e com um banco corrido, para descanso do sipaio e das visitas. O acesso à residência fazia-se também por uma escadaria, lateral, do lado esquerdo.
A seguir a este, vinha a primeira loja da firma Pinto Martins, gerida pelo amigo António Roque, a quem o nativo atribuiu o cognome de "kessi na mila", o que traduzindo quer dizer mais ou menos, aquele que não tem tripas, por ser alto e magrinho. Este amigo era ali de Vila Nova de Tazém. 
A loja era rodeada de uma varanda e do seu lado direito, existia um enorme jango, que era utilizado com sala de estar e de refeições, já que o edifício principal apenas possuía um pequeno armazém, um quarto e uma privada. Atrás desta loja, ou comércio, encontrava instalada uma descascadora de arroz, ainda no meu tempo. E aqui, vou, para memória futura, fazer mais um desvio, para vos dizer que, esta zona produzia muito arroz e cera, mas o forte era mesmo arroz de sequeiro. Ora a técnica utilizada pelo nativo, no seu descasque, era o pilão e, o arroz era todo partido, transformava-se em trinca, sem qualquer valor comercial. A nova medida, apanhou todos de surpresa e não foi do agrado nem dos produtores, nem dos comerciantes. Uns porque se julgavam prejudicados no preço e outros porque não estavam preparados para tal mudança. O meu velhote optou por esvaziar uma divisão contígua à loja e despejar para ali o arroz, depois de pesado e pago. Depois, outro problema surgiu que foi o transporte para a descascadora e, depois de descascado, para o armazém. Eram ainda perto de trezentos metros de percurso.
Entre o posto e este comércio, existia um arvoredo, bem capinado, e relvado na época das chuvas, por graça da natureza.
Depois, a seguir vinha o comércio do senhor Gonçalves, pai do meu amigo e colega Dionísio Gonçalves. Em termos de áreas, as lojas eram parecidas mas esta, era a única que não possuía varanda à volta. Tinha um quintal, todo cercado, com laranjeiras, tangerineiras e uma horta.
Era o único comerciante que possuía uma carripana Ford. Viajei nela, pelo menos umas três vezes, duas em picknick e uma a Cangamba, para fazermos exames e, mais um desvio para vos contar uma passagem engraçada, com o meu irmão Manel. A carrinha enterrou-se e, toda a gente saltou da sua carga para ajudar e, aproveitou-se o momento, para nos aliviarmos. Só a nossa professora não o fez, não largou a cabine. Então o puto, saiu-se com conta boca: -"todos mijam só a professora é que não". Foi uma risada. O certo é que a professora só se aliviou em Cangamba e, olhem lá, foram umas quatro ou cinco horas de viagem.
Nesta viagem, matou-se um nunce e, como não havia lugar para ele, na viatura, a peça ficou à guarda de uns nativos que, do nada ali pareceram. Ficou combinado no regresso, recuperarmos parte do bicho. Mas o mais engraçado, foi quando chegamos a Cangamba, já toda a gente sabia da caçada. Olhem que não existiam telemóveis!
DO 27 em trânsito, foto de Carlos Gomes da Silva

E vamos voltar à picada mãe.
Finalmente, neste correr, vinha a segunda loja da firma Pinto Martins, ocupada pela nossa família, a quem os patrícios alcunharam o meu saudoso velhote de Manel "saba niqué" isto é, pai de muitos filhos. Pudera, naquele tempo, já éramos sete, a mais velha com quinze anitos e a mais nova com cerca de meses. Esta foi a nossa segunda residência neste posto. A loja era também rodeada por uma varanda, tinha apenas três divisões, a loja em si, o armazém, e o quarto do empregado e atrás, a privada. Ao lado direito deste edifício, existia um enorme casarão, possivelmente, a loja inicial, de adobe e coberto a capim e tinha para além de um armazém, seis divisões. Era nele que residíamos. Tinha também à toda a volta uma varanda e à frente, um enorme avançado. A casinha, ficava atrás, em edifício próprio.
Voltando às minhas recordações, começo por vos dizer que, todos os edifícios, que eram propriedade do Estado, como sejam, as enfermarias, as escolas e o posto administrativo, citadas anteriormente, serviram de quartel a uma Companhia de Caçadores, "Ás de Espadas", pertencente ao Batalhão de Cangamba e que, o seu comandante, o senhor
Monumento ao Cap. Costa Martins,
 foto Bat."Ás de Espadas"
 
Capitão Costa Martins, ali faleceu, vitima de uma mina anticarro, perto do Rio Chicului. Foi até edificado um monumento em sua memória, junto àquela que fora a enfermaria e residência do enfermeiro.
E agora, vou voltar ao tema da "casinha". É que, em todos os edifícios que habitei e que conheci, naquelas bandas, em nenhum deles esta divisão, onde os "fortes se transformam em fracos", tinha ligação interna à restante residência, o seu acesso, era sempre pelo lado de fora. Nunca entendi isto e, não sei se existirá por aí alguém que conheça as razões objectivas desta discriminação arquitetônica. Alguns tinham mesmo um edifício próprio, como era o caso da minha última residência, citada no meu trabalho anterior.
Esta nossa morada tinha umas sete divisões e no quintal, que era enorme, tínhamos mais
Casa e família de Antonio Gomes 
quatro pequenas casas, a cozinha, com formo e tudo, a dita privada, a capoeira e o alojamento para os nossos fregueses, muitas árvores de fruto, laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, ananases, nespereiras, mangueiras, goiabeiras e mamoeiros. Para além destas existia ainda, mas afastados, o curral dos porcos, dos bois e das cabritinhas. Uma parte desse quintal era ocupado por uma horta, no tempo das chuvas e uma outra parte, com a cultura de milho. Muita massaroca comia.
Para nos mantermos, minimamente, informados, todos os comerciantes tinham um rádio, o nosso era da marca Philips, utilizava uma enorme bateria do mesmo tamanho do rádio e só funcionava nas horas dos noticiários, da Emissora Oficial, no horário das comunicações, via P19 do chefe do posto e à noite, para o meu pai, à socapa, escutar a BBC de Londres, transmitida através da Africa do Sul, o que era proibido.
Um belo dia, o chefe desconfiou destas escutas ilegais e, resolveu, confiscar todos os rádios ali existentes. Ficamos mesmos às escuras, deixamos de ouvir uns fadinhos e o Teixeirinha, à hora das lides domésticas, a cargo das minhas irmãs Isabel e Lurdes. Por vezes, as notícias eram mesmo alarmantes. Depois, pesou-lhe na consciência e devolveu-os.
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Vou voltar ao início daquela avenida, para vos descrever, agora, o seu lado direito mas, antes porém, devo aqui fazer uma referência, que se impõe, sobre a figura do Chefe ou Administrador do Posto, que era, como todos sabemos, a autoridade máxima daquela zona e que acumulava a bem dizer, todas as funções atribuídas a um governante. Eram os usos e costumes da época, que se utilizavam e em certos casos, com alguma malvadez e prepotência, os próprios poderes. O chicote e a palmatória, eram os instrumentos usuais, mas em abono da verdade, muito poucas vezes os vi entrar em acção. E, não querendo cometer nenhuma injustiça, vou apenas dizer que, estavam sempre ausentes, a culpa não seria deles, mas eu comprovei isso, naqueles postos por onde passei e, foram pelo menos uns dez anitos. Eram colocados mas, como havia muita falta deles, eram retidos nas sedes dos concelhos e, uma vez por ano, desciam ou subiam, conforme o terreno, para fazerem a recolha do IGM ou para confirmarem, perante o mundo, a presença no território, cuja administração pertencia a Portugal. Eu tive um exemplo desse na minha família.No Muié, houve apenas um chefe que, no meu tempo, chegou a aquecer o lugar, o tempo suficiente, para nos tirar uma foto de família, onde está incluída a sua e de todos os comerciantes. Mas não chegou a passar lá um Natal e, justiça lhe seja feita, apareceu uns meses depois, com presentes para todos nós. Eu ainda me recordo do descapotável, em plástico que dele recebi e, o único defeito que lhe apontei, foi ser verde e, era muito frágil para aquelas picadas. Ora bem, o homem era simpático, acessível, uma boa autoridade. Aceito como certo, o facto deles também, a exemplo dos comerciantes, terem corrido riscos de vida, no exercícios das suas funções. Vocês nunca se esqueçam que, o isolamento mata mesmo. Nós ficávamos todos felizes, eufóricos mesmo, quando ao longe escutávamos o roncar de um camião ou de uma outra qualquer carripana, que nos vinha visitar, o dia mudava totalmente, nem os patrícios fugiam á regra. A monotonia era quebrada e a noite fazia-se dia. Exagero meu, mas só quem viveu estas experiências, sabe avaliar. 
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Mas, continuo a dizer que, os nossos antigos, traçavam tudo a régua e esquadro. Duvido que aqueles projetos de povoações, tivessem sido feitos por engenheiros, porque eles não existiam ou, existiam poucos e, não se aventuravam naqueles confins. O que me leva a concluir que os referidos traçados tenham sido concebidos pelas primeiras autoridades que, como todos sabemos, eram oficiais do nosso exército, porque a nossa penetração, naquele território, assim o obrigava.

Agora sim, vou descrever-vos a lado direito da dita avenida e, volto a chamar a vossa especial atenção para a foto que figura no topo.
Ali naquele local onde está localizada aquela enorme sanzala, existia um descampado com o tamanho de um campo de futebol. Assisti à construção daquela pista de aterragem mas, não assisti a nenhuma aterragem. Não tenho a certeza mas, isso aconteceu pela primeira vez, com a evacuação dos missionários e, pouco tempo depois, com a minha mãe. Todo o resto era mato rasteiro, bissapas e mais bissapas.
A seguir a esta sanzala, vinha o comércio/loja do meu falecido tio Luis Ferreira da Silva. Devia ser o maior edifício, em termos de área coberta, e era o único coberto a telha. Era mesmo enorme, tinha oito divisões, sete portas e seis janelas. Tinha uma varanda a toda a volta e era vedado do lado direito, com um pequeno muro com frestas. Também nesta, a entrada para a "casinha", fazia-se pelo lado da varanda, não tinha comunicação directa com o resto da casa. No quintal, que era todo cercado, existiam mais cinco edificações, casas de pau a pique, utilizadas como armazém, dispensa, cozinha, alojamento para os nossos fregueses, capoeira e curral das "pembes". Ao fundo do quintal que era enorme, ficavam os currais dos "gombes" e dos" gulos". Neste quintal existiam muitas mangueiras, mamoeiros, goiabeiras, laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, ananases e uma amoreira junto ao tanque dos patos. Também tínhamos coelhos e uma coelheira. E uma cadela, a Diana, cuja história já vos contei.
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 
Esta foi a nossa primeira residência neste posto administrativos, depois de termos saído do Sessa e deu-se, numa altura em que o meu pai se incompatibilizou com o nosso tio Ferreira das Barbas e na mesma altura, em que o meu tio Luis, se mudou para o Moxico Velho. À sua volta e, no lado residencial, tínhamos plantadas algumas flores. Esta loja, após a nossa saída, foi ainda habitada pelo falecido senhor Luciano e, depois de ele sair para o Mussuma, foi ocupada como quartel, por um pelotão do nosso exército que pertencia, se a memória não me falha, a uma companhia (naquele tempo ainda não era sede de Batalhão), que pertencia a Gago Coutinho. O mesmo acontecia em Cangamba que, inicialmente, teve lá instalada uma companhia. Só mais tarde é que virou sede de um Batalhão.
A segunda  e a terceira habitação, que distavam umas das outras, cerca de cem metros, eram de pau a pique e cobertas a capim e tudo indicava que tinham sido as lojas primitivas, da firma Pinto Martins e do senhor Gonçalves, cujas lojas definitivas, construídas a adobes, já eu as citei quando descrevi o lado esquerdo desta mesma avenida, aliás,  elas estavam localizadas, sensivelmente, em frente umas das outras. Ambas tinham quintais cercados com árvores de frutos, principalmente, mangeiras, laranjeiras e limoeiros que faziam muito bem às cauenhas. De resto, também este lado era rodeado de quimbos e de bissapas.
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 

O povoado era mesmo muito airoso e perfumado pelo cheiro dos eucaliptos e, no tempo da floração, aquelas bissapas deitavam uma flor amarela e ouvia-se por todo o lado, os zumbidos das abelhas. Em determinados anos, estas com o frio e a geada, ficavam totalmente queimadas e, quando isso acontecia, o espetáculo era desolador, um desastre para as abelhas e para a economia local que vivia muito do seu mel e, consequentemente, da sua cera.
A missão, situava-se à entrada do posto administrativo, para quem vinha dos lados de Cangombe/Cangamba. Com cerca de dois mil metros de comprimento  e uns quinhentos de largura, era toda vedada, com uma cerca da altura de um homem, muito arborizada, com relva por todo o lado, limpinha, cheia de pomares com toranjas, fruta que eu nunca tinha provado e não gostei.
Possuía umas quinze edificações, em adobe e a maioria delas cobertas a capim, todas pintadas de branco, com varandas largas e muradas, a saber, seis, eram residências dos missionários e da professora, muito acolhedoras, todas elas com lareiras;  três eram salas de aulas, duas delas em anfiteatro, coisa nunca vista; um internato feminino; uma enfermaria e, uma igreja e um internato masculino, em forma de U que se situavam fora da vedação, por razões óbvias. 
Afastado de tudo e de todos, estava uma leprosaria. As restantes eram casas de apoio.
Tinham água canalizada e telefone interno. Residiam ali sete missionários, de nacionalidades americana, canadiana e sul-africana, o sr. Brainer era o responsável pela missão, casado, a Dona Buila era a enfermeira chefe, ajudada pela enfermeira Dona Margarida; a Dona Cecília era a responsável pelo internato feminino e o Sr. Muir era, o cavaleiro andante lá da missão.
Os leprosos só estavam autorizados a circular pelo posto, aos sábados, e percorriam todas as quatro lojas a pedir esmolas. Toda a gente, principalmente os nativos, fugiam deles mas, eu e a minha família nunca o fizemos e sempre os ajudamos, com fuba, sal, alguma tuqueia e às vezes até sabão.
RESUMO E CONCLUSÃO
Alguns residentes no Muié, foto de Antonio Gomes 
Cheguei a contabilizar, num determinado ano, ali a existência de trinta "chindeles", na sua maioria portugueses, e a família mais numerosa era sem dúvida alguma a minha, composta por nove elementos.
Existiam naquele posto quatro viaturas, o Land Rover do chefe do posto, a carripana do senhor Gonçalves, o jeep Willis do senhor Muir e a Dodge do senhor Brainer. Todas elas de caixa aberta.
Pelo menos duas quingas, a nossa e a do senhor Prata que era um vizinho nosso, negro, que desempenhava um cargo importante na missão, ligado à igreja.
Duas enfermarias, a da missão e a do Estado; três enfermeiros, um do Estado e duas da missão; cinco salas de aulas,  duas do Estado e três da missão.
Em termos de nativos, existiam muitos quimbos na redondeza e, estimo uma população a rondar o meio milhar de famílias.
Não sei precisar o ano, mas tivemos a visita do Governador Geral de Angola, o general Silvino Silvério Marques, acho que foi o único que ousou enfrentar aquelas picadas. Naquele tempo, ainda não existia a pista. A festa começou logo pela manhã com batucadas para reunir o pessoal, a povoação foi toda engalanada, com faixa de pano cru branco pintado com mensagens de boas vindas, presas aos eucaliptos, em frente ao posto foi feito um corredor, com duas longas filas de alunos, com as suas batas branquinhas e com bandeirinhas de papel, de cor verde e vermelha, todos os comerciantes e missionários, sobas e sobetas, muitos nativos e cantou-se o hino nacional e o ANGOLA É NOSSA.
O governante ouvia algumas queixas e pedidos, comeu alguma coisa e, ala que se faz tarde.


O amigo Luena






Sem comentários:

Enviar um comentário