sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OS ESQUECIDOS DE GAGO COUTINHO

Destacamento de Gago Coutinho e quartel do Exército
Tinha chegado à poucos dias a Gago Coutinho para mais um destacamento, estava sozinho no posto de rádio, toda a gente tinha ido à carreira de tiro excepto os dois OPC'S, quando ouvi o barulho do que me pareceu um Land Rover junto à entrada do hangar. 
Freira com pessoal do destacamento
Espreitei curioso, uma vez que os vizinhos do lado (Batalhão) deslocavam-se a pé quando pretendiam alguma coisa, e fui ao encontro das freiras da Missão, que entretanto saíam sorridentes da viatura na minha direcção. Depois dos cumprimentos formais, informaram-me que iam à leprosaria e como eu tinha manifestado a vontade de a conhecer e de ajudar no que fosse possível, queriam saber se eu mantinha a minha disponibilidade. Pedi que aguardassem enquanto ia mudar de roupa e avisar o outro operador que me ia ausentar, e lá seguimos rumo à sanzala que se situava por de trás dos edifícios do Batalhão espraiando-se até ao Rio Nhengo. 
Durante a breve viagem fui fazendo conversa de circunstância para acalmar o nervosismo, lá as fui informando que as expectativas eram muito altas, nunca tinha contactado directamente com nenhum ser humano que padecesse da doença embora tivesse conhecimento do tratamento dado aos Continentais que a contraiam, (eram isolados da população e passavam a viver em instalações chamadas Gafarias, Leprosarias ou lazaretos, existindo ainda hoje o chamado Hospital Colónia Rovisco Pais perto da povoação da Tocha no Litoral Oeste, projecto megalómano criado pelo Estado Novo nos anos 40 do século passado, numa propriedade com 140 hectares, que permitia o isolamento total dos pacientes, "ia-se para não voltar e morria-se lá").
Entrámos entretanto na sanzala e de repente estávamos rodeados de candengues, qual bando de pardais, que corriam chilreando atrás do jeep na esperança de uma guloseima. Quando este se imobilizou, olhei a linha do horizonte a Sul para lá das cubatas, quilómetros a perder de vista, era o que eles tinham de melhor, mas vistos através das grossas grades de ferro, da porta e janelas de uma edificação rectangular construída em adobes, de cor vermelha como o chão e o pó que a cobria, dividida a meio por uma outra grade interior que isolava os homens das mulheres, coberta com capim de duas águas. Aproximei-me tentando não deixar transparecer, o turbilhão de sentimentos contraditórios que me assaltavam, afinal tanto que nos queixávamos das péssimas condições que tínhamos no destacamento, das instalações, da comida, do material, e estes infelizes de aspecto andrajoso, num espaço exíguo e fétido, sem as mínimas condições, nem um queixume, nem um protesto, os seus olhos, trespassaram-me como balas, quem seria aquele miúdo branco que vinha com as irmãs? Fui por elas apresentado como militar da Força Aérea, e eles esqueceram-se imediatamente de mim para centrarem toda a atenção no que elas lhes levavam. Terminada a visita, carregado o jeep com artesanato feito por eles, que elas vendiam para poderem comprar os alimentos, o tabaco e os medicamentos que lhes forneciam, só me perguntava até que ponto a minha capacidade de indignação me levaria a lutar por aqueles que acabara de visitar e que eram o fim da longa lista de excluídos que doze anos de guerra gerara e de que ninguém queria assumir a responsabilidade. Após o jantar e quando estávamos todos presentes, "deixei cair a bomba" estivera durante a tarde na leprosaria, e estava na disposição de incomodar toda a gente com responsabilidades tanto militares como civis para tentar melhorar as condições de existência daqueles infelizes.
Como esperava, toda a gente se pronunciou de forma diversa, desde os que juraram que nunca mais bebiam ou comiam com os talheres que eu 
utilizasse, aos que nem sequer voltariam a apertar-me a mão, aos que protestavam com a possibilidade de nunca mais saírem dali por causa dos "cabeçudos" que eu fosse incomodar, até aos que se disponibilizaram incondicionalmente para ajudarem na próxima vez que eu lá fosse.Falei com o Alferes Piloto que era o Comandante do destacamento, para que ele desse a tácita cobertura hierárquica ás mensagens que ia enviar para o Secarleste e Zona Miliar Leste, bem como para os Governadores Civil e Militar do Distrito e Cruz Vermelha, pedindo comida roupas e cobertores, bem como os bons ofícios para impedir que os que fossem "casados" ou tivessem aqui família fossem enviados para outros locais, punindo-os duplamente.
Quando do acidente do CR-LKE, trocara correspondência com várias pessoas da 
O Dove CR-LKE da Aeroangol
companhia Aerangol, no sentido de serem preservados dentro do possível os destroços de uma previsível canibalização, que quando tudo se resolveu, se disponibilizaram para nos ajudar no que fosse preciso, estava na hora de cobrar os favores que fizera-mos. À Companhia em Luanda pedimos, que nos enviassem roupas de fardo, ao Secarleste, autorização para utilizar os restos de combustível para iluminação, e do pessoal à ordem do Pita-Groz para efectuarem alguns trabalhos de reparação no edifício, à Zona Militar Leste, leguminosas, e todo o tipo de comida não perecível, que pudesse ser armazenada na missão e distribuída posteriormente, por fim e para que todos estes pedidos não fossem esquecidos, fotografara o exterior e interior do edifício e os que o habitavam e mandei as fotos com um texto para um dos jornalistas do " ABC Diário de Angola" que cobrira o acidente do CRLKE. 
Em menos de um mês chegaram os primeiros alimentos da ZML, o Secarleste, veio pessoalmente, trazer um carregamento de alimentos e inteirar-se da situação, e a Cruz Vermelha fez chegar medicamentos, cobertores, e brinquedos para os mais novos, a tudo isto não foi indiferente a reportagem que saiu no jornal sobre a situação sanitária do Distrito, e em particular de Gago Coutinho, e do empenho dos militares da Força Aérea, na
tentativa de minorarem a terrível provação porque passavam os homens, mulheres e sobretudo crianças, que padeciam da doença.
No final esclarecida a sintomatologia da doença por um dos médicos do hospital de Gago Coutinho, que tinham a responsabilidade sanitária sobre a população civil mas que desconhecia as condições em que estavam os doentes da leprosaria, toda a gente do destacamento cooperou na entrega dos materiais.
Pita Groz
Uma tarde estava mais uma vez sozinho no destacamento, o Pita-Groz mandou-me chamar por um assalariado, para eu "aprovar", uns "sanitários químicos" que ele "engendrara" com bidões de combustível, cal de construção, e madeiras, criando dois espaços próprios independentes para que eles fizessem as necessidades e que acabavam com a utilização de latas onde faziam tudo à vista uns dos outros, sem nenhuma salubridade, baldeando tudo de seguida pelas grades da porta e janelas. Com a instalação dos "sanitários" e a pintura do edifício terminou a nossa intervenção. Para nos agradecerem pelo que tínhamos conseguido, fomos convidados pelas irmãs para tomar "chá na Missão". 
Acabado o destacamento, voltei ao Luso, onde tomei conhecimento de uma mensagem propondo o louvor colectivo ao efectivo do destacamento pela acção meritória na ajuda às populações locais mais desfavorecidas, constituindo um estímulo e exemplo para todo o pessoal, proposto e assinado pelo Comandante Militar da Província, nem se tinham dignado a enviar a informação para Gago Coutinho, alguém que não nós, ainda lucraria com a atribuição desse louvor.

Luso 1973
OPC (ACO) - 71/73

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