quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O ACIDENTE DO DO-27 3430


Não me recordo a que horas descolamos, mas foi já da parte da tarde, isso é certo. Recordo que esse dia até estava a correr bem, pois não tínhamos saído para nenhuma Operação, o que era bom pois praticamente não iríamos a lado nenhum depois da 15/16 horas porque tanto o DO-27 como o T-6 eram aviões que não estavam preparados para fazer voo nocturno, e como sabemos, em África, o amanhecer chega-nos por volta das cinco e pouco da manhã e o entardecer por volta das 17,30/18.00 horas e uma coisa estranha em África era que quando o Sol se começava a pôr na linha do horizonte, rapidamente se passava de uma claridade normal para um lusco-fusco, e de seguida, quase de forma imediata para a noite escura e profunda e, é verdade, que a noite em África é escura como breu, nada se vê para lá do dez metros ou até menos. Bom…. De qualquer forma estava deambulando pelas minhas memórias acerca deste dia (19 de Setembro de ano 1970) e não me querendo perder no testemunho do que se passou nessa data, retomo momentos que jamais irei esquecer.
Estávamos no Cazombo, Leste de Angola e fazia o meu primeiro destacamento nesta unidade (AM43), porque segundo os meus dados, “aterrei” no dia 5 de Setembro de 70.O Cazombo tinha destacado, como meios aéreos, dois T-6, um DO-27 e um Alouett III.
O dia, como já havia referenciado, parecia que iria acabar sem nada de especial a acontecer, até ao momento que um dos pilotos destacados (o Morais), que carinhosamente chamávamos de “cambuta” Morais, veio ter comigo e me disse que tínhamos de ir fazer uma evacuação ao Jimbe e que preparasse rapidamente o DO, ao que respondi que estava pronto a sair. A Operação era ir buscar um doente com uma apendicite aguda. Para quem não se lembra o Jimbe ficava junto á fronteira com o Congo, a norte. Lá nos preparamos e levantamos voo. Devo dizer que nesta altura, pouca confiança tinha com o piloto (fur. David Morais) apesar de já ter voado com ele em duas ou três missões, e no entanto, o nosso relacionamento dava indicações de uma boa empatia tanto em termos militar como pessoal, que a mim me ia marcando de forma positiva. Retomando a história que quero deixar no conhecimento dos ex-camaradas, mas sempre amigos Especialistas e Pilotos, com quem tive o privilégio de partilhar momentos absolutamente mágicos e inesquecíveis apesar das vicissitudes a que estávamos sujeitos, naqueles tempos de grande paixão pela vida e pelas coisas melhores que podíamos ter.
Como dizia, penso que seria por volta das 15 horas quando descolamos. Foi uma viagem calma até ao Jimbe, cerca de uma hora de voo ou até um pouco menos não consigo precisar com rigor, pelo que pelas 16.00 horas estávamos no Jimbe. Depois de aterrarmos, enquanto o David Morais tratava das burocracias para levar o doente, eu tratava do nosso bilhete de volta fazendo uma pequena inspecção de rotina, obrigatória, ao DO-27, sem necessidade de abastecer, pois apenas havia de conferir os níveis de óleo e pouco mais. Lembro-me que nos demorarmos mais tempo do que o normal, para evacuar um doente, e possivelmente, já seria bem perto das 17 horas quando tudo ficou em condições de levantar voo, o que efectivamente veio a acontecer.
O doente, um soldado do exército, vinha numa maca que tive de amarrar com umas cintas, da melhor forma possível ao avião, para que o homem se mantivesse estável. Quando descolamos, o dia parecia que ainda o ia ser muito mais tempo, o céu estava limpo e claro mas pouco tempo passou para que este cenário se tornasse “negro”, quando quase de repente escureceu, o que não agoirava nada de bom para o resto da viagem, pois estaríamos a cerca de metade do caminho para chegar ao Cazombo, (cerca de 30 minutos) ou um pouco mais, não sei. Sei no entanto que, quando repentinamente o céu escureceu, ficamos “cegos”. O DO-27, relembro, não é equipado com instrumentos de voo nocturno, o que passou a preocupar o David, e eu próprio, apesar de ser dele a maior responsabilidade, obviamente.
Como tinha dito, a noite em África, é mesmo noite, e de um momento para o outro, ficamos sem qualquer percepção velocidade e altitude, que ainda nos perturbou mais, e o David ia tentando manter um “ar frio” que não tinha, pois a situação não era nada boa e complicava-se a todo o momento. A determinada altura apenas os nossos corpos sabiam, se subíamos ou descíamos, porque sem pontos de referência no terreno que nos ajudasse, apenas aquelas pressões de Gravidade nos iam informando qual a nossa posição em relação ao solo. Eu tentava com o meu isqueiro, iluminar o painel de instrumentos, para que no mínimo tivéssemos altitude. Ah! Isto porque as lâmpadas dos instrumentos que deveriam funcionar estavam….noutro lado qualquer, que não no avião. O David, dizia-me, é pá, Aníbal, ilumina-me aí o altímetro, o que fui fazendo até ficar com o dedo polegar queimado e tanto segurar o isqueiro.
Nota: Cada vez que eu acendia o isqueiro, a pequena chama que iluminava o que o piloto precisava de ver, tinha também o condão de criar dentro do cockpit, um reflexo que incomodava imenso a leitura para o exterior, pois ficávamos encadeados com aquela simples chama.
Assim, e de repente, do meio do nada surgiu um ponto de luz no terreno, e claro foi para lá que nos dirigimos. Para mal dos nossos pecados as comunicações também não eram as melhores, pelo que não conseguíamos contactar “terra, e penso que havia reciprocidade, porque o David me dizia que eles não respondiam. Ao aproximarmo-nos do aglomerado de luzes, não tínhamos bem a certeza do ponto onde estávamos mas que, apenas não nos tínhamos afastado muito do nosso trajecto, pois tínhamos a vindo a seguir, onde era possível, o reflexo do luar no rio, que serpenteava aquele caminho que por várias vezes tínhamos feito, o que nos tinha dado alguma margem de segurança quanto ao ponto onde estávamos. Depois de fazermos uma passagem sobre o aglomerado de luzes, as mesmas para nosso espanto, apagaram-se. Ouvi várias vezes a tentativa do David com “terra”, sem qualquer êxito, até que, as pequenas luzes se apagaram. O que aconteceu é que não havia nenhum voo militar da F.A.P, previsto para aquele local, o que levou a que, aquele aglomerado de luzes, (Cavungo), que mais tarde vim a saber, as apagassem todas, deixando-nos às escuras, ao mesmo tempo que preparavam uma arma anti-aérea, pois não sabiam quem éramos.

Acho que nestes momentos, “ALGO” está lá, para nos proteger pois a anti-aérea, estava pronta a enviar-nos “tracejantes”, quando alguém percebeu que aquela aeronave não era inimiga e estava em apuros, não sei… as luzes voltaram, e o tempo que mediou entre a escuridão e a luz, poucos minutos, que nos pareceram uma eternidade, deram-nos uma esperança, esperança essa que vimos aumentar quando começamos a ver manobras de viaturas, com os faróis ligados que nos tentavam dar indicação, de um local para aterragem (presumíamos). 
Não disse que neste entretanto, o Morais e eu íamos falando, enquanto o doente que de nada se tinha apercebido, se mantinha com os seus gemidos de dor. Começamos a ver emergir na noite escura, uma serie de luzes de par em par, dando-nos a possibilidade de uma pista de aterragem. Esta “pista” era na picada, que até por acaso tinha uma curva e nessa curva foram colocados “archotes”, (ainda hoje penso que eram) que nos davam indicações da “pista”, pequena estrada em terra batida, que dava para uma viatura passar e pouco mais, e era aí que o David deveria pôr o “pássaro” no chão.
Após analisar que tudo estaria em condições mínimas de segurança o David fez-se á “pista”, estando eu com toda a atenção para o problema das árvores que sempre havia nas zonas de “picada”, para a eventualidade dele não se aperceber, apesar da grande escuridão. 
Lembro-me de começarmos a descer, sempre e só com a orientação das luzes de terra, e só aí me apercebi o quanto era grave a situação,”apenas” sem altímetro, sem noção real da velocidade e sem pista, mas essa era a única solução que havia, e assim foi, quando as rodas tocaram o solo (não foi nada suave, não) e até porque a picada fazia uma lomba com as bermas bem mais baixas, portanto as rodas ficavam no ponto mais baixo de apoio. Acho que tocamos várias vezes no solo, até que surgiu a maldita curva que não dava para “fazer, pelo que entramos pelo mato, e o que nos parou foi um ninho de formiga de asa (morro de Salalalé) como eram conhecidos. Aquelas construções, são extremamente resistentes, pois foi aí, quando do embate que o avião praticamente parou, tendo ainda andado um pouco aos papéis até ficar entalado num pequeno “rego”e ficar imobilizado. 
O embate foi bastante violento, pelo que presumo que nesse momento nem todos tivéssemos sentido o mesmo efeito do choque, que mais tarde se começaria a revelar, pelo menos comigo. Lembro-me que após o embate e de sair do avião, o doente acordou, sobressaltado, e pegando na G-3, (que agora, acho bastante estranho ele tê-la trazido consigo), se tenha posto aos gritos… onde é que eles estão, onde é que eles estão? O David tinha também já saído do avião, penso que mais magoado que eu, e quase em uníssono perguntamos se estávamos todos bem. Quando saí do avião, eu “escorreguei” pelo trem de aterragem, e já não sei, mas ouvi um” bruaá, bruaá de uma multidão ao longe, sem perceber nada do que diziam, e nesse momento (acho que vi muito cinema), dei uma de herói, peguei na minha Walther, armei-a, e disse para o David Morais, a ultima é minha. Neste entretanto, já o soldado estava cá fora, de G-3 na mão e o David também fora do avião, preparados para o que desse e viesse, quando oiço uma voz, em perfeito Português, que ainda hoje ecoa nos meus pensamentos, eles estão ali, eles estão ali. Era muita gente que corria ao nosso encontro, mas aquela voz sossegou-me e deixei-me deslizar pelas pernas do DO e desfaleci. Venho a saber mais tarde que o mesmo tinha acontecido ao David Morais. 
Nessa noite, apesar de sedado, passei-a a puxar pelo manche e a dizer “sobe, sobe” como me contaram no dia seguinte. (O DO tinha comandos duplos, daí a minha intenção de também pilotar o avião naquele momento de dificuldade). Claro que isto só se passou nos meus pesadelos.
Logo de manhã o David foi evacuado, pois não estava nada bem porque tinha batido com a cabeça, e estava bastante combalido, enquanto eu, ainda tive de esperar pela tardinha para voltar ao Cazombo.
Não sei o que aconteceu ao soldado que evacuamos.
Estou a contar este episódio da nossa guerra em Angola, 40 anos depois dos acontecimentos, tendo-me recorrido a caderneta de voo para conferir as datas, e da memória que já não é o que era, mas que no essencial, é verdade, como está contado.
Estes factos estão fundamentados em documentos da FAP.
Nesse fim de tarde, mais do que um amigo, ganhei uma história de vida e morte que jamais esquecerei.

40 anos depois, eu e David Morais

Como diz o cauteleiro….Há horas felizes.
Aníbal de Oliveira



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