sexta-feira, 30 de abril de 2021

MISSÃO DE BUSCA E SALVAMENTO do DO-27 3342


LESTE DE ANGOLA 28 de Janeiro de 1973:

Algures a Sul do AR de N’riquinha, o DO-27 3342 tripulado pelo Alf. Pil. Vinhas e o MMA Macedo aterrou de emergência por falta de combustível.
No AR Luso, o Comandante da Esquadrilha Cap. Pilav. Neto Portugal mandou chamar-me para me informar da ocorrência e de que na madrugada seguinte seguiria para o AR de N’riquinha integrado numa missão de busca e salvamento.
Com a incerteza de sucesso rápido inerente a este tipo de missões, ficou também decidido que devia ir preparado para ficar no AR do Cuito Cuanavale a substituir o MMA Macedo.
O início da missão foi marcado para as 06:00.
Pelas 05:30 o transporte da Base recolheu-me junto da “República” onde vivia, (nessa altura a FAP não tinha alojamentos para os seus militares pelo que todos viviam na cidade do Luso em Repúblicas, casas e quartos alugados).
No referido transporte já vinham os outros elementos afectos à missão, Cap. Pil. Acabado, Fur. Pil. Ramos e um Sarg. Electricista.
No AR após inspecção ao Beechcraft C-45 feita pelo Fur. Pil. Ramos e Mecânico de Dia, o Cap. Pil. Acabado pôs os motores em marcha, rolou e por fim descolámos. Eram 06:00.
Subimos até aos 6 000’ em direcção ao AR de N’riquinha. Durante a fase de cruzeiro, olhando para o terreno, recordo o nevoeiro que cobria os vales dos rios.
Pelas 08:00 aterrámos no destino.
Para que o sucesso da missão ocorresse no mais curto espaço de tempo, recordo que o desaparecimento tinha ocorrido no dia anterior, o Cap. Pil. Acabado e o Fur. Pil. Ramos tentaram obter mais informações sobre o voo do avião desaparecido, e também, sobre o real estado do passageiro que era para ter sido evacuado no dia anterior na missão interrompida.
Felizmente, que a razão da evacuação não era de causar maiores preocupações, pelo que, devido à incerteza da localização do avião e à previsível extensão da área de busca, atrasou-se a referida evacuação para que todas as aeronaves que fosse possível afectar à missão, ficassem disponíveis.
Assim, um DO-27 do AR de Gago Coutinho, com o Alf. Pil. Jorge Patrício e o Fur. Pil. Teixeira foi deslocado para o AR de N’riquinha a fim de participar nas buscas.
Também foi destacado para esta missão um Alouette III que se encontrava numa missão de apoio a uma operação em Mavinga, tripulado pelo Alf. Pil. José Carvalho e MMA Gião.
Entretanto fui preparando o Beechcraft C-45 para a missão de busca, abastecendo-o de combustível, verificando os níveis de óleo e tudo o mais que faz parte dessa preparação.
Aeronaves preparadas e informações recolhidas, foram iniciadas as buscas, orientadas primariamente para Sul de N’riquinha até às proximidades da Coutada do Mucusso por ser previsivelmente nessa área que se encontraria o avião com os seus ocupantes.
O tempo foi decorrendo sem sinais do avião.
Decorridas já duas horas, eis que o Alf. Pil. José Carvalho dá o alerta. Avistou o DO-27 e informou que ía aterrar junto dele.
Passados alguns minutos também o Alf. Pil. Jorge Patrício avistou o avião.
O "passageiro", Gião, Vinhas e Macedo


Felizmente a tripulação e o passageiro estavam “em bom estado” e o avião também.
Sobrevoámos também o local, e mais tranquilos regressámos ao AR de N’riquinha.
Era preciso agora abastecer o avião aterrado no mato e alimentar os estômagos das almas que ali pernoitaram.


Ao AR de N’riquinha tinha chegado, entretanto, um outro Alouette III vindo do Ninda e pertencente ao AR de Gago Coutinho, cuja tripulação não recordo na sua totalidade, apenas o MMA Peixeiro. Neste helicóptero colocámos bidons de combustível, água e comida para ir “reabastecer” homens e máquina.
Após a recuperação, o 3342 voa rumo a N´Riquinha devidamente acompanhado





O OUTRO LADO DA MESMA HISTÓRIA

Dia 27 de Janeiro de 1973:

Missão TEVS a N’Riquinha. Evacuar um elemento do Exército e no voo de ida levar como passageiro um outro militar.
Devido ao mau tempo não conseguimos aterrar no destino, pelo que voámos para Mavinga onde aterrámos, o avião foi reabastecido e regressámos ao Cuito Cuanavale.

Dia 28 de Janeiro de 1973:

Objectivo: efectuar a missão TEVS não realizada no dia anterior.
Avião preparado, tripulação e passageiro a bordo e aí vamos. Alinhado na pista, 15° de Flaps, fuel pump ON, full power e descolámos, de novo directos a N’Riquinha.


Aos 7 000’ nivelámos, potência de cruzeiro. Passámos Dima. Após cerca de uma hora de voo avistámos Mavinga. Passámos à vertical e continuámos para o destino.
Eis que ao longe na nossa rota começaram a ser visíveis cumulus e cumuloninbus com actividade eléctrica e chuva.
Comecei a desviar para Norte na tentativa de contornar a tempestade, só que esta parecia perseguir-nos.
Subi para os 9 000’ mas a turbulência aumentou significativamente.
A leitura do terreno deu-me a indicação que estaríamos à vertical de N’Riquinha, mas não era visível.
Contornei a tempestade voando para Sul/Oeste com os cuidados necessários para não entrar em território Zambiano, mas a tempestade não abrandava e o combustível começou a ficar curto...
Sem sucesso no objectivo de aterrar em N’Riquinha, e também na tentativa de encontrar uma alternativa, com o combustível a entrar na Reserva. Consultado o MMA Macedo, tornou-se prioritário encontrar um terreno amplo que permitisse uma aterragem de emergência.
Encontrada uma aberta nas nuvens, vislumbrámos um terreno propício para uma aterragem de emergência.
Ao passageiro foi dito para se segurar pois íamos aterrar num terreno que não era propriamente uma pista... O homem não se segurou nem ás águas que verteu pelas pernas abaixo.
Em HF declarei emergência. Respondeu a BA9. Transmiti que ia aterrar de emergência por falta de combustível e as coordenadas aproximadas da nossa posição.
Iniciei a aproximação, reduzi a velocidade, 30° de Flaps, Fuel Pump ON e aí vamos. Contacto com o chão, mais outro contacto, a cortar capim, mais uns solavancos e lá parámos de frente a umas árvores. Eram 16:30.


Saímos do avião.
O passageiro deveras aflito, pois nunca tinha estado no mato! Preparámos as nossas armas para o que desse e viesse. Ficámos alerta. Tentámos reconhecer o terreno. Nem homens nem animais. Estávamos sózinhos.
Voltámos para o avião. Liguei o rádio HF, antena estendida e chamei de novo quem nos ouvisse para transmitir a nossa situação. A BA9 ouviu-nos e perguntou sobre a nossa situação. Transmiti que tínhamos aterrado e que o avião, tripulação e passageiro estavam bem.
O sol, entretanto, começou a desaparecer no horizonte e a nossa inquietação aumentou. Ninguém dormiu. Fizemos turnos de vigilância. Assim passámos a noite ouvindo ao longe a tempestade e os barulhos dos animais, uns mais perto, outros mais longe, mas nenhum nos “visitou”.
06:00. O Sol a brilhar, a ansiedade e o calor a aumentar e a fome a apertar. As rações de combate tinham sido consumidas ao “jantar”. A água tinha acabado.
As horas custavam a passar. Nenhum indício de busca, mas sempre com a esperança de que nos iam encontrar. E encontraram!
Equipa de recuperação: Araújo, Tex, Patrício, Peixeiro, Cabaço, Rosado, Abreu, Raul Carolo  e Fernando Duarte - Foto de Fermelindo Rosado



Por:




 


quinta-feira, 22 de abril de 2021

A PAZ E O AMOR DEVEM ANDAR SEMPRE DE MÃOS DADAS!


E passo a explicar: Eu era furriel miliciano Foto Cine, em missão de serviço, colocado na linda cidade de Nampula. Cheguei em Fevereiro de 1972 e estive nesta cidade até 12 de Abril de 1974.
Embora militar o meu desejo era que houvesse Paz em Moçambique e sobretudo no Mundo, como acontece ainda hoje.
Nampula


Pensei criar uma imagem em que a PAZ se sobrepusesse à Guerra e "construí" no estúdio da Foto Cine, em Nampula, à noite e (sem conhecimento dos meus superiores), esta imagem, tendo comprado uma pomba branca que coloquei em cima da minha bota da tropa, devidamente engraxada.
Este secretismo tinha a ver com o facto de não vivermos em Liberdade, uma vez que o 25 de Abril iria acontecer 2 anos depois.
Para a época era uma foto subversiva. Feita a fotografia e depois de revelar os negativos, guardei-os religiosamente comigo até vir para a Metrópole, o que aconteceu uns dias antes do 25 de Abril de 1974. Ainda, naquela noite, passei junto a um quintal arborizado e deixei a pomba em liberdade.
Para vocês perceberem quanto eu desejava a Paz na Humanidade, (ver foto em baixo) usava ao pescoço, quando estava vestido à civil um amuleto que era, e é , o símbolo do MAKE LOVE NOT WAR. Afinal o Festival de Woodstock, tinha acontecido apenas há 3 anos. Esta foto foi feita pelo meu colega Foto Cine, Jorge Ribeiro, na concorrida piscina de Nampula. Gosto imenso da foto da Paz sobre a Guerra!
A PAZ E O AMOR DEVEM ANDAR SEMPRE DE MÃOS DADAS!
















Por:
João Marques Valentim

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O PARTO DA ISABEL KATOMBÉ - UMA HISTÓRIA DE VIDA.


Acabara de descolar do Alto Chicapa, pequena povoação na Lunda Sul, onde fui levar alguns medicamentos com carácter de urgência, para os militares do exército ali estacionados. Dada a hora, cerca das 11H30, fui convidado pelo comandante do destacamento, para almoçar no pequeno quartel que abrigava os 25 militares destacados no local.
Depois de agradecer o convite, amavelmente recusei, pois o Esteves, mecânico que me acompanhava, tinha um almoço de aniversário de um camarada, marcado para as 13H00 no Luso, cidade que albergava todas as tropas operacionais de todas as especialidade no Leste de Angola.
Subi até aos 1.500 pés acima do solo, estabilizei o avião e introduzi o rumo do Luso. Contacto a sala de comunicações:
--Luso!... Paquito (meu indicativo operacional) chama.
--Paquito, Luso escuta.
--Descolei Alto Chicapa, chegada prevista para as 12H40.
--OK Paquito, informe a 10 milhas em aproximação.
O Esteves era e é, felizmente, um apaixonado do prato cheio. Ainda hoje, nas tertúlias que habitualmente frequentamos em diversos lugares do país, só vemos o Esteves a sorrir de felicidade, quando a terrina lhe fica a jeito. Contudo, há que dizê-lo, este meu companheiro de muitas aventuras, pratica ténis amador desde alguns anos a esta parte na zona do Porto-Gaia, o que faz com que na sua idade mantenha uma forma física apreciável. Por esta razão costumo tratá-lo carinhosamente por Federer de Avintes
--Porreiro pá, vamos chegar mesmo à hora do almoço.
Olhei-o de soslaio através da viseira do capacete e notei um leve sorriso de satisfação nos seus lábios, como se já estivesse a saborear o cabrito que fazia parte da ementa.
--Porreiro para ti...eu estou de prevenção. Vou almoçar na cantina da base uns carapaus fritos e já gozo.
--Aparece lá para o jantar, a festa deve durar até às tantas.
--Talvez, logo se vê como acaba o dia.
Tinham passado dez minutos desde a descolagem e eis uma comunicado:
--Paquito... Paquito... Luso chama.
--Paquito, escuta transmita.
--Por ordens do comando, deve alterar a rota para o Dala. Evacuação de um civil.
--OK Luso, assim farei!
Já nos lixaram, atirou o Esteves em português vernáculo, como que a pressentir que o cabrito já era...
Já te lixaram, queres tu dizer, atirei com ar Irónico.
A mim não me afecta nada aliás, o Dala já está ali à vista, mais doze minutos e estamos lá!


O Dala era uma linda cidadezinha, conhecida por umas quedas de água deslumbrantes que ficava a cerca de 90 Klm do Luso, a leste do local donde eu tinha descolado anteriormente. Como estava próximo, o comandante operacional entendeu que não havia necessidade de ir outra aeronave fazer a evacuação, já que o meu avião estava equipado para este tipo de missões e ganhava-se tempo com esta decisão.
No Dala e pelas informações que recebi via radio, já tudo e todos estavam prontos para a chegada do avião.
Depois de sobrevoar o rio e as quedas de água referidas anteriormente já a baixa altitude, iniciei uma volta apertada, entrei directamente na final e aterrei. Dirigi-me para a placa de estacionamento, onde pude ver à distância uma ambulância militar e seis ou sete pessoas entre elas duas freiras. No Dala, havia uma congregação religiosa e social num agradável edifício que, para além do ensino a crianças, assistiam na área da saúde a população local e em outras acções de auxílio humano como a pobreza.
Quando parei o avião, mantive-me sentado na carlinga, abri a porta e enquanto os enfermeiros do exército, com a orientação do Esteves, instalavam o doente no interior do avião, surgiu perto de mim uma freira de meia idade, dizendo-me com uma voz calma e sorridente que a Isabel Katumbé, estava com sintomas de parto prematuro e agradeceu a minha louvável missão de transportar a Isabel para o hospital do Luso.
Já me tinham comunicado ainda em voo, que o evacuado era do sexo feminino, mas da particularidade de que era uma grávida de nada me informaram.
--Irmã, não tem que agradecer, é minha obrigação ajudar como a de todos os meus companheiros da FAP sempre que estamos de prevenção a este tipo de missões. Mas não seria melhor, alguma das irmãs acompanhar a parturiente?
--Não é necessário, a Isabel é jovem e forte e vai esperar sem problemas até chegar ao Luso. Que Deus vos acompanhe!...
Acenou um adeus com as mãos e apressada, contornou o avião para apertar e beijar a mão da Isabel Katombé, que já estava pronta para eu poder descolar.
Vamos, disse o João enquanto apertava o cinto e colocava e os auscultadores. Com um bocado de sorte ainda chego a tempo do almoço. Não lhe respondi, a partir de agora, pelo respeito que sempre tive pelas dezenas doentes e feridos que evacuei, era imperioso chegar ao Luso o mais rápido possível.
Enquanto rolava para a pista, olhei para trás. A cabeceira da maca neste tipo de avião, ficava muito perto do intervalo entre as cadeiras do piloto e do mecânico. Vi que a jovem mulher tinha o corpo coberto com um lençol de cor azul celeste, e que os seus olhos se voltaram para mim molhados de alegria. Levei o braço atrás e dei-lhe uma palmadinha no ombro, tentando dar-lhe a entender que tudo ia correr bem e que estivesse calma.
Um minuto depois da descolagem , eis-nos em direcção ao Luso.
Quando já em velocidade de cruzeiro e cerca de dez minutos de voo, de relance, pareceu-me ver uns movimentos bruscos no corpo da evacuada. Olhei e vi-a de braços a abanar na nossa direcção.
--Esteves, tira os auscultadores e vai lá para trás ajudar a mulher que ela está com problemas.
--Eu?... Mas que posso eu fazer!
--Mais do que eu, que não posso largar os comandos.
--Bom, está bem, pelo menos seguro-lhe as mãos.
De imediato comuniquei com o Luso e peço um médico com urgência na sala de operações para nos dar alguma ajuda na maneira em como o Esteves devia agir.
--OK, Paquito, vou tratar já disso, a equipa médica já está à espera na placa de estacionamento. Vou mandar chamar o médico.
Entretanto a Isabel, já tinha tirado o lençol e vi o Esteves a segurar-lhe as pernas meio atarantado sem saber o que fazer.
Eu, ansioso, esperava que o médico entrasse em contacto rápido comigo. O Esteves, bate-me no ombro e com ar aflito e diz-me que a maca está toda molhada e que não sabe o que se passa.
Espera!...
--Paquito o médico está a ouvir, pode comunicar.
Expliquei-lhe meio a gaguejar a situação duma maneira geral.
O Dr. Assis disse-me o que poderíamos fazer e perguntou-me o tempo previsto para a chegada.


--Já tenho o Luso à vista, mais oito minutos estou com rodas no chão.
--OK, tenham calma e resto de bom voo, estamos preparados à vossa espera.
Fiz sinal ao Esteves para chegar perto de mim. Como ele não tinha auscultadores, tinha de falar alto para ser audível por entre o barulho do motor.
--O médico disse para pôr uma almofada ou algo idêntico por trás da barriga da mulher, segura-lhe nas mãos e diz-lhe para respirar fundo e espaçadamente fazer força.
--OK, vou já tratar disso. Como não havia almofada, o Esteves agarrou na caixa de ferramentas, enrolou-lhe uns desperdícios de oficina o colocou-a no fundo das costas da mulher.
Neste momento já tinha a pista do Luso à vista, comuniquei a minha posição e recebi a indicação que a partir desse momento tinha prioridade sobre qualquer outra aeronave que estivesse na zona de aterragem.
Júlio! Berrou-me o Esteves ao ouvido. O puto já está com cabeça quase toda de fora. É vermelhinho, parece um índio.
--Deixa lá agora a cor da criança. Vai lá para trás ajudar e segura-te, como vês já, estamos na final para aterrar.
--Puxa, ainda bem!...
Um minuto depois estava no chão a dirigir-me para a placa onde uma equipa militar de saúde esperava pronta a intervir.
Logo que parei e desliguei o motor, o médico e um enfermeiro entraram de rompante e tomaram conta situação.
O resto do parto consumou-se dentro do avião na placa de estacionamento.
Naturalmente, que eu e o Esteves assistimos sentados nos nossos lugares à intervenção médica.
Foi emocionante ver o enfermeiro mostrar o bebé à mãe Isabel.
Desaperto os cintos e saio do avião. Acompanho a entrada da mamã e do bebé na ambulância. Chego-me perto e toco na mão da Isabel como gesto de despedida. Olhou-me com ar cansado mas carinhoso. Apertou com muita força a minha mão e mostrou um leve sorriso. Com o polegar fiz-lhe sinal de OK.
Missão cumprida!
Quando voltei ao avião para recolher o material de voo, já não vi o Esteves.
Soube umas horas mais tarde que ainda chegou a horas de encher a pança de cabrito assado.
__//__
A Isabel Katumbé tinha 17 anos feitos há um mês.
Os bebés negros nascem mesmo vermelhinhos.
Aconteceu na Lunda Sul e Moxico, Leste de Angola em Junho de 1973.
Avião Dornier-27, número de asa FAP 3330. Por:






Júlio Corredeira

quinta-feira, 1 de abril de 2021

EVACUAÇÕES PELA FAP, ATÉ DE "INIMIGOS".



Em 1966 ou 1967 não me recordo bem, na N´Riquinha, surgem três homens, um deles amparado pelos outros dois, num estado lastimoso, eu mal o vi, deu-me a impressão de que respirava por "um buraco" nas costas, ali pela zona da omoplata... Vinham então pedir ajuda "da tropa"...e a história, contavam os dois que amparavam o ferido era de que um leão lhes dizimava a manada do gado, mas que eles perseguiram o leão e que o haviam morto mas que na contenda o leão atingira aquele nas costas e estava naquele estado, imaginava-se a morrer a qualquer momento. O nosso comandante, o saudoso Capitão Bandeira (da C.Caçadores 1521), disse-lhes: - "nós vamos tratar dele mas, quero ver a cabeça do leão". Os homens saíram correndo, tudo se havia passado na zona de Santa Cruz (do Cuando), na altura já se falava que haviam grupos da Unita que andavam por ali, e a ideia de que se teve de imediato, era de que "aquilo" tinha a ver com a actividade desses grupos. Imediatamente foi pedida uma aeronave para evacuar o homem. Não posso precisar mas passado algum tempo, talvez umas horas, chegou um PV2, recordo-me que era comandado por um Tenente que ao ver o pobre homem, como digo, dava a impressão de respirar pelas costas, olhou para o nosso Capitão com cara de poucos amigos e perguntou: - "vale a pena levá-lo"? Ao que o nosso capitão respondeu afirmativamente.
A historieta acabaria aqui, não fosse que dois dias depois os dois homens apareceram no nosso aquartelamento com a cabeça do leão abatido, já o outro estava no Luso e nada se sabia. O tempo passou, talvez um mês ou mais e numa segunda feira, no semanal voo do Noratlas, lá veio o homem que tinha sido evacuado no PV2. Vinha do Luso, do hospital, risonho e contente, tinha sobrevivido. Não era amigo nem inimigo, era um humano. A FAP fez o que pôde e ele salvou-se. Organizou-se uma patrulha para o levarem a Santa Cruz, quase a cem quilómetros, que os seus amigos fizeram pelo menos 4 vezes a pé, mas salvaram-no!
Por Diogo Sousa Cª. Caç. 1521

quinta-feira, 25 de março de 2021

INSTANTES DA VIDA REAL DO AB4



Decorria o mês de Julho de 72.
Eu, ainda maçarico no AB4 fui mandado ir ao posto médico afim de transportar, ao hospital da cidade, uma mulher que estava eminente a ter bebé. Era uma trabalhadora da nossa agro.
A senhora é colocada na ambulância e recebo ordem de partida. À saída da porta de armas tinha aquela reta e no final da mesma uma curva à esquerda, como não tive tempo de curvar segui capim adentro e retomei a estrada uns 200 metros mais à frente.
Decorridos poucos minutos estava à porta do hospital já com a criança a começar a sair, levaram a senhora e regressei à base. Aproximadamente uma semana após, fui à horta levar os ternos com as refeições diárias, lá estava a senhora com o canhica ao colo e com aparente boa saúde, mãe e filho.

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Um por todos!

Ar Luso princípio de 74, como condutor de alerta, recolhi os boletins de pedidos de transporte para ir à cidade buscar o pessoal de alerta e outros que iam para destacamentos. Por vezes tínhamos que fazer duas e três idas. Neste dia, e para o primeiro pedido constava o nome de um nosso furriel piloto. Passei pela República onde morava e como não estava à espera fui fazer o resto da volta e passei por lá novamente, continuava a não estar pronto. Fui levar à base os que estavam presentes e voltei à cidade para fazer a segunda recolha. Passei pela segunda vez pela dita República e nem sombra do nosso piloto, lá fui levar os que estavam, chegado à base e não tendo mais pedidos, resolvi ir à cidade saber do homem que faltava.
Aí chegado como não vi ninguém toquei à campainha umas duas ou três vezes e lá apareceu o nosso piloto, à varanda, a dizer que tinha adormecido. Rápidamente se despachou e lá fomos a caminho da base. Não houve consequências, mas homem prevenido vale por dois, não era problema meu, mas o comandante era o Sacchetti !

Por:


quinta-feira, 18 de março de 2021

A DESPEDIDA (FRAGMMENTOS DE MEMÓRIAS)


Vi-o descer pelo carreiro da restolha do Calaia. Cana de pesca na mão direita, cacifo sobre o ombro, andar compassado ao ritmo das irregularidades do caminho; a pesca era o destino. Para as poldras de Baçal ou talvez a represa da Camila.
O Sabor corria-lhe no sangue, nunca estava mais de uma semana sem visitar o rio.
--Não te despedes do rapaz, ouvi minha mãe perguntar enquanto no meu quarto, preparava a mala da viagem.
Já há muito que me ando a despedir dele, ouvi em voz morta de angústia.
Oh homem...nem parece teu…
Beatriz, isto é uma vida danada. O outro já na Guiné, agora este para Angola!
Foi assim que quiseste. Os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo, na incerteza de dias sem sol na alma, nem ter notícias amiúde.
Nossa Senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua.
António Júlio, vem comer as sopas, chamou a minha mãe, já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local, no parapeito da janela da cozinha, que dava para a restolha. Desde os tempos do liceu que era assim. Dali, via os lameiros verdes onde, depois das aulas, jogávamos à bola. Em cima do aparador, o velho rádio dava som a "aprés toi" na voz de Vicky Leandros, ainda fresca pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.
Continuei a vê-lo, baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá. Não fez qualquer sinal, somente parou a olhar!
Eu sei pai, que não gostavas que os teus filhos te vissem chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício, que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante , tu um pai cheio de ideais.
Cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o comboio partisse da estação, já estarias de volta a casa.
Continuou a afastar-se, agora em passo mais apressado, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Rica-Fé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão banhada em lágrimas. O carteiro, na pessoa do velho Conhés acabava de anunciar. Correeeiiio!!!
Tirou da sacola um aerograma.
--Cá está mais um ,vem da Guiné!
A ansiedade apoderou-se de ambos, abri e comecei a ler.
O Júlio já foi para Angola?
Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele.
Irmão, porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias? A emoção quase me fazia perder o comboio.
Aconteceu na Rua Acácio Mariano em Bragança na manhã do dia 6 de Abril de 1972
JC


Jc

quinta-feira, 11 de março de 2021

QUANDO O COMANDANTE SE ESQUECEU DE DITAR AS VÍRGULAS E OS PONTOS !


Hoje vou contar-vos uma história que me aconteceu com o nosso Major Sampaio, 2°. Comandante.
O nosso Major de vez em quando fazia uns ofícios um bocado extensos, e como na altura eu era o Amanuense mais requisitado, lá me caíam nas mãos aquelas obras primas.
Maj. Geraldo Sampaio(em primeiro plano)
Raramente aquilo saía à primeira, porque depois de dactilografado ia para assinatura. Passado pouco tempo já estava de volta, porque o primeiro parágrafo passava para segundo, o quarto para terceiro e o terceiro para quarto eram só setas a encadear os enleios. Eu não dizia nada mas ficava furioso (como devem calcular) mas era sempre assim.Certo dia, veio ele em pessoa, com o oficio na mão para eu o dactilografar de novo. Meto papel na máquina e ele senta-se ao meu lado a ditar pela minuta que trazia riscada, e eu toca de bater à máquina. Quando acabo a primeira folha passo-lha para e mão e meto nova folha para continuar.
Ele começa a ler e diz; mas isto não tem pontos nem vírgulas?! Pois, o meu Comandante não ditou nenhuma!
Bem! Faz lá isto e foi-se embora, eu lá continuei a tarefa.

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quarta-feira, 3 de março de 2021

NATAL EM MALANGE


No final de 1974 estava destacado em Malange, com o Mafaldo.
No dia 31 de Dezembro de 1974, o CMD do Batalhão pediu-nos para fazer uma ronda às companhias. Já não me lembro quem ia mais, mas a máquina ia bem composta. Fui eu, com o transportador, pois a missão não requeria segurança especial, e o canhão ficou em Malange.

Tínhamos feito bons amigos na cidade e estava tudo combinado para o baile de fim-de-ano. No último local em que estivemos, à descolagem, o rotor de cauda começou a vibrar assustadoramente. Máquina no chão! Era preciso voltar a casa - Malange. O tempo estava ameaçador, com chuva e trovoadas.



Consegui contactar o Mafaldo, pelas comunicações do Exército, e lá o convenci a ir recolher-nos. Com o outro MMA, desmontaram o canhão e ele foi sozinho, porque éramos muitos.


Não perdemos o baile!
Na foto, algumas das amizades que fizemos em Malange.


Por:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

PISTOLA METRALHADORA LUSA


Submetralhadora Lusa, ou se preferirem a pistola-metralhadora Lusa, foi um projecto desenvolvido pela Industria Nacional de Defesa EP, com vista a substituir as antigas FBP.
O projecto custou 15 milhões de euros e em Novembro de 1987 foi apresentada ao publico na I Exposição Internacional de Defesa, realizada em Alcochete.
Em traços gerais: uma arma de calibre 9x19mm, que reúne o melhor dos dois modelos de referência no sector, a alemã H&K e a Uzi israelita. Ideal para forças policiais e tropas de elite, esta arma foi considerada pela imprensa especializada a melhor, tendo em conta o binómio preço/ qualidade.

Tinha três variantes:

Lusa A1: versão original desenvolvida em 1983, com um cano envolvido por uma manga de refrigeração; 
Lusa A2: aperfeiçoamento da A1, com uma caixa de culatra mais resistente e opção por um cano destacável incorporando um silenciador.
Lusa A2S: aperfeiçoamento da A2, com uma caixa de culatra mais resistente (reforçada por padrão de estampagem) e opção por um cano destacável, contém uma bateria de gatilho, que permite apenas ciclo de tiro semiautomático, esta versão, era destinada ao mercado civil.
Devido aos custos de produção nunca chegou à fase de produção em massa nas INDEP.
Em 2004, a INDEP vendeu uma licença, tal como todas as ferramentas e máquinas para o fabrico da Lusa A2, a um grupo de empresários da indústria de armas, a Stan Andrewski, Jerry Prasser e Ralph Dimicco, que fundaram uma empresa com o nome LUSA USA. Não sendo conhecidos clientes militares, a arma é vendida para o mercado civil e policial nos Estados Unidos.
A arma é considerada pelas publicações especializadas como extremamente fiável, precisa (para uma submetralhadora) e representa uma das melhores senão a melhor relação qualidade/preço para este tipo de arma no mercado norte-americano.
A ser verdade os números e o caso em 2004, quando foi alienada pelo Ministério da Defesa, então liderado por Paulo Portas. O governo português vendeu todo o projecto, incluindo a maquinaria de produção, a um grupo de empresários norte-americanos pelo preço de 50 mil dólares (40 000 €. Quarenta mil euros)...
Os únicos exemplares da Lusa existentes em Portugal estão no Laboratório da Polícia Científica da Polícia Judiciária (PJ), um exemplar Lusa A2 e um Lusa A1.
Para as forças policiais e militares portuguesas, Portas adquiriu 10.000 unidades chilenas pelo preço de 1.100€ a unidade. O valor unitário dos "chavecos" no mercado negro não ultrapassava os 400€. O concurso incluía uma proposta de 1.250€ a unidade, dos alemães da HECKLER & KOCH (H&K com o modelo G-36), uma autentica arma de elite.

Entretanto os empresários norte-americanos fundaram a Lusa USA uma empresa para a produção da arma desenvolvida pela INDEP. É um autentico sucesso de vendas.

O processo de extinção da INDEP foi iniciado em 2001, no Governo de António Guterres e os bens da empresa vendidos em leilões públicos em 2003 e 2004, durante o Executivo de coligação PSD/CDS.