terça-feira, 17 de setembro de 2024

"MISSÃO SAURIMO 2024 – EX-MILITARES DO AB4” - DIA 3



3º DIA, QUARTA-FEIRA 21ago24

VISITA AO COMPLEXO MINEIRO DO CATOCA

No terceiro dia da visita a Saurimo teve como programa visita à Sociedade Mineira do Catoca.
Percurso de Saurimo ao complexo
Mineiro da Catoca
Assim, no minibus dirigimo-nos ao edifício do Governo Provincial para colher representantes do mesmo que nos acompanharam na deslocação ao complexo mineiro, rumamos para norte pela EN180 na direção do Dundo, antiga Portugália – ao km 13, infletimos para a esquerda para a estrada de acesso à Nova Zona Mineira, até chegarmos ao Controlo do Complexo Mineiro percorremos cerca de 32km desde Saurimo, passando por várias Aldeias junto da EN180, evidenciando algum desenvolvimento, já com reservatório central de água potável, algumas com Escola Primária e Igreja – as plantas das edificações deixaram de ser circulares para serem de planta retangular e paredes construídas com adobe.

A paisagem muita dela nua de vegetação decorrente das queimadas, nela sobressaindo os típicos Formigueiros (morros de formiga salalé) que aparecem de quando em quando. Nos vales os rios que vão escorrendo lentamente nesta zona de planalto, quase plano – relembrar que a altitude média de Saurimo se situa à cota altimétrica de 1000m acima do nível medio da água do mar.

Vista parcial de uma Aldeia



A partir daí observamos o Aeródromo de apoio à mina, pista asfaltada com cerca de 1500m, com orientações de 17N e 35S; constatou-se que no complexo existiam zonas residenciais para os trabalhadores, Zona de treino para Seguranças, incluindo um Posto Médico (por motivos de segurança e de protocolo, não foi permitido colher imagens – exceto junto à Mina e mais adiante junto da Unidade de seleção de material diamantífero)

Imagem Google, em que 1cm = + ou - 1km


Chegados às instalações da Gestão do Complexo Mineiro, foi feita uma apresentação por Técnicos da Mina sobre Regras e Procedimentos de Segurança num Auditório.









Após a apresentação, já no exterior, “toca” a equiparmo-nos com os EPI, capacete e colete, antes de nos dirigirmos para a Mina. 
Chegados à Mina, podemos então observar e fotografar a “cratera” já aberta e toda a sua envolvência, onde um colaborador da empresa explicou em traços gerais o processo de extração, armazenamento e posterior tratamento do material diamantífero ainda dentro do Complexo.








Nesta última imagem, pode-se observar em pormenor máquina em movimento removendo o material a transportar por enormes camiões que têm circuitos ascendentes e descendentes distintos na “frente mina” até ao local de armazenamento temporário exterior à “cratera” de exploração – esta cratera artificial, tem cerca de 800m de diâmetro e a profundidade de momento de cerca de 350m, esperando-se atingir a profundidade de 700m. 
Seguidamente fomos encaminhados para junto da Unidade de Processamento do Material Diamantífero, onde o mesmo é tratado com minúcia por sucessivos processos de lavagem e de deteção de diamantes, os quais são depois de recolhidos enviados para outras instalações fora do Complexo para manufatura e lapidação – visita a realizar amanhã. 
Ainda neste último local, mais uma vez se procedeu a conversas informais e entrevistas a órgão de comunicação do Catoca e se tirou mais uma foto de Grupo.

A finalizar a visita, deslocamo-nos ao Posto Médico/Centro de Saúde do Complexo do Catoca, onde o Médico explanou os seus objetivos e os tratamentos  por lá realizados aos colaboradores e trabalhadores desta unidade de exploração diamantífera, terminando com mais uma foto de Grupo da praxe.


Finalmente a visita terminou com breve “beberete”, já “sem os EPI, oferecido pela entidade da Unidade de Exploração Diamantífera.


Concluída a visita à Unidade mineira, regressamos a Saurimo pelo mesmo percurso e dirigimo-nos ao Resort Uhenha para almoço – fim do qual por volta das 16h00, dirigimo-nos à Unidade Hoteleira para descansarmos.
O Dia terminou com Jantar por volta das 19h00, oferecido pelo Sr. Governador Provincial da Lunda Sul, no Restaurante Lubóia, pertencente ao dono da Unidade Hoteleira em que ficamos alojados – este restaurante situa-se no centro da cidade.
Além do Sr. Governador estiveram também representantes do Poder Político e Autárquico regional e local, onde em amena “cavaqueira” se trocaram impressões sobre Saurimo e sua região do passado e no presente.

A finalizar o jantar, o Sr. Governador, agraciou os Visitantes com uma estatueta do “Pensador”, com a qual todos agradecemos.


Assim, por volta das 22h00, voltamos aos aposentos para retemperarmos forças para a jornada do dia seguinte.

Por: Manuel Vieira










quinta-feira, 12 de setembro de 2024

"MISSÃO SAURIMO 2024 – EX-MILITARES DO AB4” - DIA 2




2º DIA TERÇA-FEIRA 20ago2024

O segundo dia por Saurimo começou com o pequeno-almoço na unidade hoteleira, seguindo-se-lhe a foto de Grupo no espaço da mesma unidade, já com vestimenta a rigor, pois esperava-nos o Governador da Lunda-Sul, Sr. Daniel Félix Neto, para tal por volta das 09h00, saímos da Unidade Hoteleira de minibus, para o Governo Provincial para a referida receção.
Primeira fila: Victor Santos, Fernando Grama, Brig. João Pinto, Artur Vidal e César Dias.
Segunda fila: Manuel Vieira, João Esteves, José Pires e Arnaldo Jesus


No percurso até ao Governo Provincial da Lunda-Sul, podemos apreciar o pulsar da vida em Saurimo, no trecho que medeia da unidade hoteleira, passando pela célebre Rotunda onde junto se encontra ainda o depósito de água. Visualizamos de imediato ao fundo, a Igreja Católica de Saurimo (ícone ainda do tempo colonial e de todos nós conhecida) o Jardim em frente à mesma, onde outrora figurava o busto de Henrique de Carvalho, atualmente substituído sobre pedestal o busto de Agostinho Neto, cujo jardim se situa em frente do Palácio do Governador, designado atualmente de Jardim Agostinho Neto.  
Fim da antiga estrada de acesso á cidade vindo do AB4
Igreja católica de Saurimo e jardim contíguo

Assim chegados ao edifício do Governo Provincial, fomos encaminhados para o Salão Nobre situado no 1º. andar, onde decorreu a nossa receção pelo Sr. Governador e demais “Forças Vivas” de Saurimo e da Província. Assim a sessão foi aberta tendo tomado a palavra o Brigadeiro João Pinto, tendo o mesmo feito uma
Programa elaborado pelo Governo da Lunda-Sul
breve alocução, sobre a forma e o modo porque este Grupo de ex-militares que outrora prestaram serviço no ex-AB4 ao tempo colonial ali estávamos.
Seguiu-se os elementos do Grupo, onde um após outro se apresentaram, assim como todos os presentes – na sua apresentação dos visitantes, cada um transmitiu a sua primeira impressão sobre o que até ao momento observaram da Cidade de Saurimo, havendo por parte dos elementos do Grupo, três mais extensas, da minha parte, pelo Vítor Santos e pelo César Dias. Por alguns elementos do Grupo, ao manifestarem a sua apresentação, a nostalgia “tomou conta”, vindo ao de cima a emoção com o consequente embargo na fala, …   …   … assim decorreu este momento.
Fotos da recepção
Ouvidos os convidados, o Sr. Governador Daniel Neto, discursou, fazendo uma extensa explanação da Região, sobre o que já foi feito em prol do desenvolvimento da Província da Lunda Sul, dos Projetos em execução e bem assim dos Planos que estão delineados para um futuro próximo – deste modo, concluídas as alocuções, chegou o momento da entrega de “Prendas” por parte do Grupo, nomeadamente da Placa em que referenciou a nossa presença, uma placa da AEFA, oferta de livros e outros em agradecimento pelo proporcionar da realização do Evento Histórico em curso.
Entrega da placa Evocativa, placa da AEFA e outras lembranças
Entrevistados pela TPA






Assim e para culminar e ficar como registo a nossa presença em Saurimo, mais de meio século depois, tirou-se uma foto na portaria do Palácio do Governo Provincial da Lunda Sul, na qual figuraram o Sr. Governador Daniel Neto, o Brigadeiro João Pinto, os elementos do Grupo e demais “Forças Vivas” da Região – na sequência das diferentes fotos e trocas de cumprimentos a TPA local que documentou a receção ao Grupo, solicitou entrevistas a alguns elementos que se disponibilizaram para o efeito, tendo oportunamente sido divulgado vídeo sobre este Histórico Evento.

Depois deste registo, talvez o mais importante “momento Alto” da visita a Saurimo, rumámos à Unidade Hoteleira, deixando o “fato de cerimónia” e vestindo-nos de forma informal. De volta ao centro da Cidade, percorremos a Alameda das Mangueiras na qual se situa o Estádio das Mangueiras. Prosseguindo na referida alameda passamos ao lado da antiga Piscina, atualmente ao abandono e fomos ao Resort Uhenha beber umas Cucas frescas, antes de nos dirigirmos para o almoço num “restaurante” de uma figura carismática de Saurimo, no Páteo da Dona Cândida, onde pela primeira vez apareceu o Ti Mola e outros companheiros, jovens que no ido ano de 1975, tinham uns 8 e outros 9 anos de idade.


Após o almoço, foi a vez de visitarmos a “Pastelaria Bonina” no centro da cidade, onde fomos várias vezes durante a visita beber café, pois era já então o local privilegiado dos encontros da rapaziada que passou pelo AB4, próximo do Cinema Chicapa – a pastelaria encontra-se no mesmo local e edifício, contudo o mesmo está carenciado de conservação, “salvando-se” a montra da referida pastelaria.



O dia terminou com Jantar no Páteo Massinga no centro da Cidade, …  


Muitas mais fotos poderia anexar, mas elas podem ser vistas no Álbum "Viagem a Saurimo" publicadas no Blog.

Por: Manuel Vieira



 



quinta-feira, 5 de setembro de 2024

"MISSÃO SAURIMO 2024 – EX-MILITARES DO AB4” - DIA 1




A IDA 

1º. dia 18/19ago24

O dia 18ago24, começou cedo para alguns camaradas que participaram neste evento da “Viagem a Saurimo”, pois uns vieram do norte do País, outros do sul e outros do litoral centro e zona metropolitana de Lisboa. Considerando os voos uns pela TAAG e outros pela TAP, com intervalo de voos em cerca de uma hora, o Grupo, marcou encontro no Terminal 1 do Aeroporto de Lisboa, junto à “Farmácia”, mas às 20h00 só dois por lá disciplinarmente e pontualmente apareceram. Questionámo-nos e de repente a máxima veio ao de cima, quiçá a “Farmácia será algum Bar próximo?!?” e por lá se encontrava a restante comitiva, constituída pelo Victor Nunes, César Dias, Fernando Grama, José Pires, João Esteves, Artur Vidal, Arnaldo Jesus e logicamente eu, Manuel Vieira. 

Troca de cumprimentos e apresentação de alguns menos conhecidos e de seguida dirigimo-nos para as zonas de check in, com a finalidade de os que tinham bagagem de porão a despachassem e assim foi – posteriormente dirigimo-nos ao Controlo de Alfândega, onde TODOS passamos sem problemas e finalmente no Espaço Comum antes das Portas de Embarque, onde se petiscou qualquer coisa e se bebeu, … indicadas as Portas de Embarque de cada voo, os primeiros foram os da TAAG, com voo previsto para as 23h00 e os outros na TAP 23h30.

Embarcados nos respetivos voos, e acesso ao monitor de bordo de cada passageiro, algo me veio à memória, esse meu embarque em 1974 rumo a Luanda, Angola, em voo dos TAM, Boing 707 da FAP, com partida de Figo Maduro pelas 11h00 e chegada a Luanda, BA9, por volta das 7h00 da manhã do dia seguinte – voo esse que saía de Lisboa contornando toda a costa ocidental de África, pelas restrições impostas pelos diferentes países.
Rota dos TAM e rota atual da TAP

Hoje felizmente já assim não o é, pelo que fui observando a trajetória do voo: Lisboa rumo a sul passando sobre o extremo sudeste de Portugal, seguindo para Málaga e aí atravessou-se o Mediterrâneo na direção da Argélia, a uma altitude de 36520ft, altitude de cruzeiro, retificada para os 37000ft, à velocidade de 900km/h; da Argélia seguimos para sul, para o Deserto do Sara, seguisse-lhe o Níger e a Nigéria, Camarões, Gabão e depois Cabinda (06h15), estres últimos sobre a Costa Atlântica.

Sobre Cabinda faltavam cerca de 540km to Luanda, (recordando a data de 26set75, em que fiz então por África, BA9, Esquadra 92 dos Nord a minha Última Missão como MMA no Nord 6413). Entretanto o Sol tinha nascido a oriente, pelas 6h00, pois viajava junto à janela esquerda e como tal observei esse fenómeno natural – anunciada a chegada prevista ao Aeroporto de Luanda, pelas 07h15.

Nascer do dia em África 19ago2024 - algures antes de Cabinda
Descida para a final em Luanda








Aterrados em Luanda, seguimos os procedimentos Aeroportuários acompanhados já pelo Protocolo da FAN, Força Aérea Nacional de Angola, que nos acompanhou até embarcarmos num minibus, aí já com o Brigadeiro João Pinto, o qual por forma amistosa o tratávamos por “Comandante”, dirigimo-nos para a BA1-Luanda da FAN, ex-BA9, para apanharmos voo FAN para Saurimo a bordo do potente IL-76TD – neste avião, com as devidas proporções, revi-me nos nossos saudosos Nord, a fazer voos de ligação, transportando pessoal e mercadorias, …
Chegados a Luanda - transfere em minibus para a BA1 da FAN
Avião da FAN que nos levaria a Saurimo e nos trouxe de regresso

Finalmente pelas 9h00 saímos da BA1-Luanda com destino a Saurimo, onde após cerca de 1h50 aterramos na BAS-Base Aérea de Saurimo, ex-AB4, tendo o avião IL-76, estacionado na Placa da antiga Linha da Frente. Aí desembarcados os nossos olhares percorreram o espaço envolvente, procurando referências, tais como o Hangar da Manutenção logo ali perto e a Majestosa, … e muitos outras referências, mas que por motivos de cortesia aqui não se mostra.

Já cá estamos em SAURIMO, ex-AB4 ...   

A paisagem envolvente do ex-AB4 - ao lado esquerdo uma das antigas torres de vigia
Os oito "magnificos" perscurtando os horizontes - ao longe as antigas oficinas de material terrestre

A "Majestosa" - meio século depois, persiste...

Tomando de novo um minibus, o qual nos acompanhou em toda a nossa viagem a Saurimo e arredores, com o seu condutor, rumamos pela saída antiga do Terminal Civil, lado nordeste, observamos o novo Aeroporto de Saurimo Deolinda Rodrigues, com a sua própria Torre de Controlo e tomamos a antiga “alameda de Cajueiros/Mangueiras”, atualmente incorporada no tecido urbano da cidade – quem dira passados meio século que os cerca de 5km que distava a Base, esta se integraria na Cidade?!?

O jantar no Hotel Lubóia alojamento da delegação

Chegados e acomodados no Hotel Lubóia (de um português), tivemos a nossa primeira refeição, aí acompanhados pelo nosso anfitrião, Brigadeiro João Pinto, o qual nos acompanhou ao longo de todos os dias desta “Missão/Viagem” a Saurimo da rapaziada do Grupo, ex-militares do AB4-AERÓDROMO BASE Nº.4 - HENRIQUE DE CARVALHO, evidenciando o fantástico planeamento da visita em todos os aspetos relacionados com a logística por si delineada ao pormenor, mais uma vez BEM HAJA “Comandante”.
Obrigado!

O dia terminou com o descanso do pessoal, decorrente do cansaço da viagem de Portugal para Angola e nesta de Luanda a Saurimo – rapaziada com idades de 79 a 69 anos, representativa de 1964-65 a 1974-75 que estiveram pelo AB4.

Por: Manuel Vieira








quinta-feira, 8 de agosto de 2024

SORRIR FAZ BEM...


Sorrir faz bem, diz o papa Francisco...
Esta "petite histoire" ocorreu em Angola no ano de 1971 do século passado. A guerra colonial deixou alguns episódios dignos de serem relatados. Este é o caricato em estado puro...
Fui destacado para ir buscar ao mato as nossas tropas (NT) que tinham concluído mais uma operação.
Pilotava um helicóptero Alouette III. O tempo estava quente mas tinha chovido recentemente. O capim era espesso e agitava-se com o vento lançado pelo rotor principal. Enfim, entraram todos e o último era um guia, negro. Ele era nosso amigo e indicava os locais de acampamento inimigo, quando sabia. Desta vez, trazia nas mãos um estranho "objeto voador"!!!
Era uma galinha do mato. Com o ruído provocado pela turbina do helicóptero e com o vento forte a galinha assustou-se e esvoaçou. Ele, mesmo à entrada do helicóptero, que estava a cerca de um metro do solo, em estacionário, não se conteve e lançou-se sobre a galinha!!!

O capim denso e o vento foram seus aliados. Rapidamente a capturou. Eu, já preocupado pois o inimigo (IN) estaria não longe dali, fui aguentando naquela posição incómoda alguns longos minutos. Não iria deixar ali, à mercê do inimigo, esta criatura imprudente.
Finalmente lá entrou com o "objeto voador" bem agarrado...
Enfim, também é destas "petites histoires" que se faz a História!!!

Por: José Manuel Leite Sá


quinta-feira, 25 de julho de 2024

A CONSTRUÇÃO DA BASE DAS LAJES


A 12 de junho de 1941, nascia a Base das Lajes. Este aeródromo foi essencial não só para a História recente de Portugal, como marcou a vida da população da Terceira de forma indelével.
Em 1940, os britânicos pressionaram o Governo português a avançar com as obras nas Lajes, pois esta era um boa planície, que aguentava perfeitamente 20 toneladas de aviões e tinha espaço para uma pista de mil metros de comprimento por 50 metros de largura. A construção decorreu sob as ordens do Subsecretário de Estado da Guerra, Santos Costa, que enviou o então Major-Aviador Humberto Delgado para acompanhar o projeto, entregando ao capitão Magro Romão, a execução das obras. A 12 de junho nascia a Base das Lajes, com a abertura de uma pista de terra batida, Neste ano de 1941, ergueram-se ainda os primeiros armazéns e transportaram-se os primeiros aviões. Este Aeródromo passou a chamar-se Aeródromo das Lages, por determinação do Ministro da Guerra (Salazar acumulava funções) um ano depois, a 13 de junho de 1942.
A chegada das várias vagas de militares do Continente para a defesa da Ilha (1941-1942), aconteceu numa altura em que os Nazis se encontravam nos Pirenéus e Salazar tinha medo duma invasão de Portugal. A população cresceu rapidamente, a crise agrícola atingiu um ponto gravíssimo, mas o desemprego depois de uma fase em que aumentou, voltou a diminuir, pois as obras, apesar de tirarem os homens do campo, atraiam-nos para o trabalho no Aeródromo. Na mesma altura em que os primeiros contingentes militares continentais chegaram à Terceira, Pestana da Silva foi nomeado Governador Civil de Angra do Heroísmo.
Pestana da Silva chegou a afirmar, em Relatório enviado a Salazar, que “o comércio, a indústria e a agricultura muito beneficiaram com o seu advento [da Base], pouco tempo passado, não havia praticamente desempregados, antes fazia-se sentir a falta de operários para as diversas obras civis”. Além de muitos agricultores terem saído da sua atividade pelas forças das circunstâncias, muitos outros abandonaram a Agricultura, pensando que tinham encontrado uma saída para a sua situação financeira no Campo de Aviação, com isso, o recrutamento militar e as obras de defesa absorveram a atividade de muitos portugueses em busca de melhores condições de vida. Contudo, era preciso cuidar dos campos na mesma. Esse era um problema a resolver.
Quando chegou à Terceira, em 1941, o Capitão Magro Romão, começou a expropriar terrenos para a obra do Aeródromo. O Comandante Militar de Angra, cumprindo ordens do Capitão, requisitou, a 3 de junho de 1941, a 51 proprietários da freguesia das Lajes, 236 152 m2 de terras em diversas parcelas para construção de uma pista, isto, depois de já terem começado os trabalhos de terraplanagem dos terrenos. Os proprietários, na sua maioria agricultores, foram postos fora dos seus terrenos, sem nenhuma explicação. A expropriação foi rápida, com o início da terraplanagem dos terrenos. A requisição destes terrenos foi apenas formal, teórica, porque estes já estavam a ser utilizados e nenhum proprietário podia ou tinha sequer o direito de reclamar desta situação.
O Presidente da Câmara da Praia da Vitória, Henrique Costa Braz, apoiado pelo Presidente da Câmara de Angra do Heroísmo, Joaquim Corte-Real Amaral, enviou a Salazar, a 27 de novembro de 1941, uma carta na qual informava que ocuparam-se os terrenos e só depois é que foi feita a requisição aos seus donos e que para fazer a terraplanagem dos terrenos, alguns destes tiveram que receber uma camada de pedra. Assim, estes terrenos não tinham, neste momento, o mesmo valor que antes e se fossem apenas arrendados, quando a guerra acabasse, voltavam aos seus donos, mas com menos valor e com menos qualidade agrícola para o seu trabalho. Ambos os Presidentes das Câmaras tentavam pressionar o Governo para a situação social da Ilha.
Henrique Costa Braz sugeria que o arrendamento não era a melhor estratégia para a utilização dos terrenos, propondo que quando a guerra findasse, estes fossem transformados em Aeroporto internacional. O Governador Civil enviou, também, uma carta ao Governo, em que reforçou a ideia do autarca. A ideia foi aceite por Salazar. Este acordo de compromisso entre as duas partes permitia aos proprietários receber uma renda que os sustentaria e dotar a Terceira de um bom Aeródromo. Contudo o pagamento das rendas demorou muito tempo, o que levantou outros problemas.
No ano de 1942, a falta de mão-de-obra nos campos fez os seus primeiros estragos. Vários produtos começaram a escassear. Portugal não estava em guerra, mas os seus abastecimentos tinham sido abalados pelo conflito que varria a Europa Central. A fome ia crescendo na Ilha, pois apesar de haver mais emprego, havia mais população e menos alimentos. O custo de vida aumentava diariamente.


Com a inauguração oficial da Base das Lajes, uma nova fase começava na Ilha. Os terceirenses, obrigados a ceder os seus terrenos, começaram a perceber que podiam tentar jogar as coisas a seu favor, tentando tirar algum proveito da situação. A população trocava os terrenos (que tinha obrigatoriamente de ceder ao Estado) por compensações que diminuíam a situação económica menos favorável.
Em 1943, com a chegada dos britânicos, as Lajes sofreu novas obras de aumento da pista. Neste período, muita mão-de-obra foi contratada, principalmente das freguesias vizinhas das Lajes, Vila-Nova e Agualva. A preocupação foi transformar a pista de terra batida numa pista maior, de placa, impedindo, assim, que a lama trouxesse problemas no descolar e no aterrar dos aviões da Royal Air Force (RAF). Também foram construídos alguns postos de serviço na Base, o que acarretava muita mão-de-obra. O número de trabalhadores portugueses na Base cresceu.
Quando os norte-americanos desembarcaram na Terceira, em janeiro de 1944, com o intuito de aumentar a pista das Lajes, Salazar enviou novamente para a Terceira Humberto Delgado. Este encarregou-se da supervisão dos terrenos a comprar e da obra. Delgado procurou delinear um projeto que não obrigasse à demolição de muitas casas, mas sim ao uso de terrenos de pastagem. A missão liderada pelo futuro General Humberto Delgado teve, por isso, uma forte componente social e económica, pois analisou a repercussão dessas requisições na população, e isso valeu-lhe a simpatia local.

As obras começaram em força, com a ajuda dos norte-americanos, sob a tutela do Comando Britânico. Meses depois, quando as obras terminaram, a pista das Lajes possuía já três mil e duzentos e oitenta metros de comprimento por noventa e um metros de largura, era a maior pista de aviação do Mundo.
Francisco Miguel Nogueira

terça-feira, 16 de julho de 2024

SAURIMO - ANGOLA, SESSENTA ANOS DEPOIS!...


O ANTES E O PRESENTE     

“Sonhar é viver, na flor da idade com 19 anos, assim como outros conterrâneos do nosso concelho voei em Novembro do ano de 1964 para a guerra, destino Angola. Sessenta anos são uma vida, mas o sonho torna-se realidade.

Naqueles almoços/convívio que fazemos todos os anos, temos contado ultimamente com a presença e confraternização do ex-comandante da BAS-Base Aérea de Saurimo, atual Brigadeiro do CEMFAA, João Pinto.

Desde a sua primeira presença, em 2018, que o "Comandante" João Pinto nos incentivou a visitar a nossa antiga Base, a visitar Saurimo. 
Este ano, fruto da sua disponibilidade e influência junto do EMFAA e das autoridades de Saurimo é possível efectivar tal viagem. 
Palavra puxa palavra e eis que se tudo correr bem como previsto, um grupo de ex-militares que fizeram a sua comissão no AB4-Aerodromo Base nº. 4, embarcará para Luanda, em Agosto, para uma semana de convívio onde visitaremos lugares em que estivemos no cumprimento da nossa comissão, neste caso Angola, anos 1961/1975 (eu 1964/1967).

Do roteiro da viagem consta a visita á atual Base Aérea de Saurimo, recepção no Governo da Lunda Sul, visitas guiadas a alguns locais da Lunda, inclusive á cidade do Luso atual Luena da província do Moxico. 


Espero fazer uma crónica depois do regresso. 

Um abraço a todos os conterrâneos, amigas e amigos.” 

Por: César Dias



quinta-feira, 11 de julho de 2024

O NORTH AMERICAN F-86 SABRE

O North American F-86 Sabre foi um caça de combate diurno a jato, subsónico, desenvolvido pela North American a partir do final de 1944 e veio a ser um dos caças mais produzidos no mundo Ocidental, no tempo da Guerra fria. Ficou famoso pelo seu envolvimento na Guerra da Coreia onde defrontou com sucesso o seu principal oponente o MiG-15.
Em 1955 durante as negociações para a renovação do acordo de cedência da Base Aérea N.°4 nas Lajes aos Estados Unidos, foram solicitados mais aviões F-84G para complementar as 50 unidades a operarem na Base Aérea N.°2 na Ota, a resposta foi afirmativa e foi ainda proposto o fornecimento do F-86E para constituírem duas esquadras, com a condição de uma das esquadras ficar na Base Aérea das Lajes nos Açores.
Com a assinatura do acordo em Novembro de 1957 foi criada a esquadra 50 em Fevereiro de 1958 sob o comando do Major Moura Pinto, interinamente a operar na Base Aérea n.º 2 na Ota até à inauguração da futura Base Aérea n.º 5 em Monte Real.
Os primeiros F-86 começaram a 
chegar a 25 de Agosto de 1958 à BA2, faziam parte de uma remeça de 30 Aviões tendo o último chegado em Outubro desse ano.
O primeiro voo de um piloto português num F-86F ocorreu no dia 22 de Setembro de 1958, realizado pelo Capitão Moura Pinto e, apenas dois dias depois, o mesmo viria a ser o primeiro a quebrar a barreira do som, ainda que em voo picado. Este acontecimento, até à época inédito em território Nacional, causou alguma surpresa e apreensão nas povoações vizinhas que ouviram o ribombar característico da passagem a voo supersónico, pelo que se teve de iniciar uma campanha de informação por forma a esclarecer a origem do fenómeno.
O fornecimento do F-86F terminou com a entrega do ultimo em Setembro de 1959.
No entanto os 65 aviões fornecidos foram na totalidade do modelo "F" bloco 35 e não do modelo "E" como acordado originalmente, foram elevados ao padrão F-86F bloco 40, com capacidade de transporte e disparo do míssil AIM-9B Sidewinder, os quais foram adquiridos em 1962.
Entre 1958 e 1960 foram recebidos 15 F-86F da Força Aérea Norueguesa, destinados a compensar as perdas sofridas pelos aparelhos iniciais, foram numerados de 5351 a 5365,sendo os dois últimos da versão F-86F-30 NA.

No dia 4 de Outubro de 1959 a Base Aérea n.º 5 em Monte Real ficou operacional e até Dezembro toda a logística e todos os F-86 finalizaram a mudança, onde ficaram a operar na esquadra 51, "Falcões" e na recém criada esquadra 52 "Galos", ambas integradas no grupo operacional 501.
Devido à necessidade de assegurar compromissos com a segurança dos territórios em África a esquadra 52 "Galos" foi desativada a 12 de junho de 1961, os seus pilotos atribuídos a outras tarefas e os seus aviões integrados na esquadra 51.
Envolvimento em África

A 8 de Agosto de 1961 oito F-86F, com os n.ºs de cauda 5307, 5314, 5322, 5326, 5354, 5356, 5361, 5362, iniciaram uma viagem de  3.800Km o equivalente a seis horas e dez minutos de voo, um recorde para Força Aérea Portuguesa ao tempo, que os levou até Bissalanca, à época um aeródromo, o AB2, junto a Bissau na Guiné Portuguesa, atual Guiné-Bissau, constituindo o destacamento 52.
A missão que ficou conhecida pelo nome de código Atlas, foi comandada pelo Major Ramiro de Almeida Santos e era suposto ficarem no terreno apenas 8 dias, fazendo uma demonstração de força, no sentido de evitar acontecimentos semelhantes aos verificados meses antes na então província de Angola.

No entanto com o agravar da situação em Angola e com o início das movimentações dos guerrilheiros do PAIGC, os F-86 foram ficando, mas apenas entraram em operações de combate no verão de 1963, quando a parte sul da colónia teve que ser evacuada, devido a intensa atividade da guerrilha. Entre agosto de 1963 e outubro de 1964, os F-86 voaram 577 missões a maioria das quais de ataque ao solo ou apoio aéreo próximo. Dos oito aviões destacados, sete foram atingidos por fogo inimigo, mas sempre conseguiram regressar. Dois foram destruídos, o 5314 a 17 de Agosto de 1962 numa aterragem de emergência, ainda com as bombas nos suportes de fixação externos e o 5322 a 31 de maio de 1963 abatido por fogo antiaéreo inimigo. Em ambos os casos os pilotos foram recuperados de imediato com vida.
Fortes pressões políticas exercidas pala Administração Norte-Americana, inviabilizaram a continuação da operação e ditaram o regresso dos Sabres a Portugal, já que os mesmos tinham sido fornecidos no âmbito da NATO e destinavam-se à proteção do seu flanco sul.
A última missão operacional, aconteceu a 20 de Outubro de 1964 e foi protagonizada pelo Major Barbeitos de Sousa, após a qual o destacamento 52 foi dissolvido, passando as suas missões a serem asseguradas pelos Fiat G.91/R4 e North-American T-6 Havard.

Fase final
Após a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974, a Força Aérea Portuguesa passou por momentos difíceis, o abandono da maioria dos aviões nas ex-províncias ultramarinas, a falta de peças e ausência de manutenção a indisciplina, deficiente cadeia de comando ou ausência da mesma, aliada à instabilidade associada ao Processo Revolucionário em Curso. Apesar de estarem totalmente desatualizados, perto do final da década apenas seis F-86 se encontravam em condições de voo, finalmente a 31 de julho de 1980 são retirados do ativo, após o último voo, o voo da despedida com a duração de 1h25m, no qual uma parelha de F-86, n.ºs de cauda 5347 e 5360, sobrevoaram todas as unidades da FAP, pilotados respetivamente pelo tenente-coronel Victor Silva e capitão Roda


FB Veteranos da FAP