quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O USO DO NAPALM NA GUERRA COLONIAL

Algures no leste de Angola, Junho de 1970, bombardeamento com napalm por T6 do AB4 - foto de Gonçalo Carvalho 

Apesar de ainda ser controversa, a presença de bombas incendiárias nos territórios portugueses em África é relativamente conhecida, não tendo, porém, sido divulgados, ao que sabemos, elementos comprovativos da sua utilização em combate por parte das Forças Armadas Portuguesas. 
Se exceptuarmos alguma literatura memorialística, na bibliografia de natureza histórica sobre a Guerra Colonial o uso de napalm não é referenciado de forma aprofundada, nem existem estudos especificamente dedicados a este tema. Uma das primeiras referências afirma ter
Napalm montadas em T6, na BA12
foto de Arnaldo Sousa
sido o napalm «utilizado contra objectivos militares bem definidos, tais como posições de artilharia antiaérea (AAA) ou veículos», acrescentando que o napalm era carregado «em depósitos de origem americana de 750lbs. [340 kgs] ou portuguesa de 660 lbs. [300 kgs] sendo o pó [combustível] fornecido por Israel»(1). Por outro lado, é reconhecido o uso de bombas de 50 quilos e de 60 litros de napalm em certas operações de destruição de meios antiaéreos do PAIGC (por exemplo, nas operações com o nome de código «Resgate» e «Estoque»)(2).
Ainda que releve do domínio do caricatural ou do anedótico, merece ser transcrita uma notícia publicada no Jornal de Notícias, de 15 de Novembro de 2004: 
«Quem circula na estrada que liga a localidade de Santa Comba a Vila Nova de Foz Côa é surpreendido com um invulgar aparato bélico: uma vinha vedada por cerca de vinte bombas de napalm... desactivadas, claro. 
Guiné 1969, T6 com bombas de napalm - foto Alberto Cruz

Conta o dono dos “brinquedos” bélicos que terão sido usados nos bombardeamentos com napalm na guerra nas antigas colónias portuguesas (Guiné, Angola e Moçambique). Agora, são uma atracção turística em Santa Comba, mas, dizem as pessoas da terra, também metem muito respeito a quem passa. 
Cada engenho, outrora mortífero, pesa várias centenas de quilos. Foram adquiridos pelo proprietário da vinha, José Augusto Cardoso (conhecido, na região, como Zé da Várzea), em 1988, na antiga fábrica de material de guerra de Braço de Prata, em Lisboa. 
Se os engenhos falassem teriam, de certo, muitas histórias para contar. 
Mas pelo caminho até às vinhas de Santa Comba, recorda o antigo ferroviário, houve muitas “estórias”, algumas hilariantes. 
Primeiro, foi o transporte: “Tive de as trazer de camião, de Lisboa até casa” e, além do espanto pelo aparato que tal carga ia causando estrada fora, o pior foi quando se cruzou com uma brigada policial. “A GNR mandou-me parar, pois os agentes também ficaram surpreendidos por trazer aqueles engenhos bélicos em cima do camião”. 
Depois de explicar que não era terrorista e que ali levava, apenas, a “vedação” para a sua vinha, e comprovando tudo com a documentação da compra, conseguiram, dono e carga, chegar seguros à propriedade. 
O sucesso na terra foi tal que a própria GNR de Vila Nova de Foz Côa pediu para as deixar colocar em frente do antigo quartel, onde estiveram até há bem pouco tempo. 
A ideia de comprar as bombas teve como objectivo, segundo o dono, fazer perdurar, num lugar longínquo, o testemunho militar daqueles que combateram nas guerras coloniais, bem como todos os que sofreram com elas […]»(3).
BA9, 1962, PV2 armado com napalm - foto Revista Mais Alto
Doutro teor é, naturalmente, o depoimento prestado por Francisco da Costa Gomes à historiadora Manuela Cruzeiro, confirmando que o napalm foi utilizado «de certeza» em Moçambique. Quanto à Guiné, disse desconhecer a sua utilização nesse teatro de operações e, relativamente a Angola, reconheceu a presença de bombas no território, quando aí exercia funções de chefia militar, mas logo advertiu que sempre se opôs ao seu uso: «todos os métodos que pudessem prejudicar as populações, como, por exemplo, a utilização de produtos químicos ou de bombas napalm, iam contra os meus princípios»(4). 
«Nunca utilizei napalm. Isso foi uma das coisa que aprendi em Moçambique.»(5) 
Dakota 6166 "Sheltox" no AB4 em 1972 
É ainda mais explícito numa outra entrevista, em que afirma nunca ter usado armas químicas no seu tempo de comandante-chefe em Angola, reconhecendo que havia napalm e desfolhantes no território, que tais desfolhantes foram usados «só no Leste», havendo a «ideia, pelo menos no meu tempo que esses desfolhantes não matavam pessoas»; e que quando «soube que havia armas biológicas em Angola, imediatamente as mandei destruir, enterrar, nunca foram usadas»; também perguntado sobre a região onde teriam sido enterradas, Costa Gomes diz que terá sido «muito perto, com certeza de Luanda, porque elas estavam armazenadas, sobretudo, na Base Aérea n.º 9, que era a base de Luanda»(6). 
Quando foi publicado em Portugal aquele primeiro depoimento memorialístico, a mera revelação, por Costa Gomes, da existência de bombas napalm foi amplamente noticiada na imprensa. A questão nunca foi pacífica: num debate televisivo sobre a Guerra Colonial, transmitido pela estação SIC, os generais Ricardo Durão e Duarte Silva e o ex-«comando» Francisco Van Uden negaram veementemente que as nossas tropas algum dia hajam utilizado “napalm” em terras de África. 
Em 2001, em declarações ao Diário de Notícias, o escritor António Lobo Antunes diria: 
«Há pouco tempo houve desmentidos, por parte de altas instâncias militares portuguesas, sobre a utilização de napalm durante a guerra colonial. São mentirosos porque eu vi o napalm, o napalm estava onde eu estava, eu vi-o. Vi bombardear com napalm e vítimas do seu uso, testemunho isto em qualquer tribunal. Ninguém foi condenado por isso, absolutamente ninguém.»(7) 
Setembro de 1973, Gago Coutinho
destacamento do AB4, T6 armado
com napalm - foto de Jaime Anastácio
Os documentos aqui publicados em anexo permitem afirmar, com um elevado grau de fiabilidade, que, pelo menos até meados de 1973, as Forças Armadas Portuguesas utilizaram napalm e outras bombas incendiárias nos três teatros de operações em África. Ainda que não se encontre assinada, a informação do tenente-coronel Ferreira da Cunha possui um grau de autenticidade e verosimilhança bastante elevado, que dificilmente pode ser posto em causa. Assim – e independentemente de quaisquer apreciações sobre a legitimidade do uso deste armamento e sobre a dimensão de tal uso – , pode concluir-se que as Forças Armadas Portuguesas utilizaram napalm e outras bombas incendiárias em Angola, em Moçambique e na Guiné. 
T6 algures no leste de Angola, em Julho de 1969, armado com metralhadoras e napalm - foto Gonçalo de Carvalho

A informação de meados de 1973 tece, ao início, um conjunto de considerações genéricas sobre a crueldade da guerra e dos meios bélicos, com alusões, numa típica fraseologia castrense, ao «fenómeno guerra» e ao poder do fogo («o fogo está inscrito na memória da espécie humana como algo de terrível e indomável»). Mas o que importa reter é a tentativa de justificação da posse e utilização de armas incendiárias, consideradas naquele documento como um dos únicos recursos de que as Forças Armadas Portuguesas dispunham para, no limite do possível, tentar contrabalançar o desequilíbrio de forças decorrente da natureza «subversiva» da guerra travada em África. 
BA9, 1962, PV2 armado com
napalm - foto Revista Mais Alto
Não é por acaso, este documento tem a classificação «Muito Secreto». Aí se descreve, de forma muito precisa, o uso de napalm e bombas incendiárias, indo-se ao ponto de quantificar o mesmo nos teatros de operações da Guiné e de Moçambique. 
Quanto a Angola, começa por se afirmar que a utilização do napalm se encontrava «interdita», para se dizer depois que a mesma era feita «muito limitadamente», «excepcionalmente, em situações de emergência». A Guiné era o território onde mais se recorria a este tipo de armamento. O consumo médio mensal era de 42 bombas incendiárias de 300 quilos, de 72 bombas incendiárias de 80 quilos e de 273 granadas incendiárias M/64. Em Moçambique verificava-se uma utilização «muito parcimoniosa», tendo-se registado um consumo médio mensal, de 1968 até finais de Fevereiro de 1973, de 14 bombas incendiárias de 300 quilos, de 47 bombas incendiárias de 80 quilos e de 29 granadas incendiárias M/64. A comparação com as estatísticas relativas à Guiné revela uma discrepância muito significativa, bastando recordar: na Guiné, 42 bombas incendiárias de 14 quilos; em Moçambique, 14 bombas desse volume. 
BA12 Fiat armado com bomba de Napalm

Nesta brevíssima nota, não cabe avaliar da dimensão do recurso a este tipo de armas, nem sequer indagar quando teve início. Sabe-se, porém, que, quanto à Guiné, o napalm foi utilizado desde 1965, nomeadamente na «Operação Resgate», realizada na península do
Da Revista Militar e livro  Bordo de Ataque 
pág. 586 
Cantanhês, no Sul do território. O 
Major-General PilAv José Duarte Krus Abecasis, num artigo publicado na “Revista Militar” de 17 de Abril de 2009, aponta o lançamento de 100 toneladas de bombas nas noites de 17, 18 e 19 de Dezembro de 1965 com aviões Neptuno P2V5 e o Dakota 6155 modificado. No seu livro "Bordo de Ataque", refere: "outros passes destes dois aviões se seguiam durante 50 minutos; alijados da sua carga de bombas, entraria novamente ao objectivo o Dakota com passes de napalm, entre as 21 e as 21,15 horas" (pág.492). Publica também fotografias do ataque com as bombas de napalm (as legendas são dele).(8)
Interessa assinalar um outro ponto. Apesar de aludir, algo criticamente, à «hipersensibilidade» existente quanto às armas incendiárias, o tenente coronel Ferreira da Cunha tem a consciência clara da delicadeza da utilização das mesmas. Uma consciência que, de resto, era partilhada pela generalidade das Forças Armadas. É certo que aquele oficial escrevia que «utilizar napalm ou uma arma nuclear táctica sobre um posto militar parece mais tolerável do que apunhalar ou fuzilar homens, mulheres ou crianças não empenhadas na luta, ou de colocar uma bomba, uma armadilha ou qualquer arma capaz de criar vítimas indiscriminadas». Mas não é menos certo que Ferreira da Cunha reconhece que, até por questões de propaganda e de imagem, haveria que recorrer a este tipo de armamento com o «maior sigilo possível». Além de sigilosa, adianta, a utilização destas bombas era «criteriosa e limitada». 
De facto, o uso de napalm envolvia diversos problemas. Desenvolvido em 1942, durante a II Guerra Mundial, por uma equipa de químicos da Universidade de Harvard, dirigida por Louis Frieser, o napalm corresponde a um conjunto de líquidos inflamáveis à base de gasolina gelificada, ou, melhor dizendo, é o agente espessante de tais líquidos, que, quando misturado com gasolina, a transforma num gel pegajoso e incendiário. O seu nome – napalm – deriva do acrónimo da designação dos seus componentes originais, sais de alumínio co-precipitados dos ácidos nafténico e palmítico; estes sais eram adicionados a substâncias inflamáveis para serem gelificadas. Do ponto de vista bélico, o napalm aumenta de forma significativa a eficiência dos líquidos inflamáveis.
Sobretudo a partir da Guerra do Vietname, os seus efeitos sobre os seres humanos foram ilustrados em imagens crudelíssimas, divulgadas por todo o mundo. Recorde-se a célebre fotografia de uma rapariga sul-vietnamita de nove anos, gravemente queimada pelo napalm, a fugir, horrorizada e nua, dos bombardeamentos da aviação norte-americana, publicada em 1972 e que logo se tornou uma das mais famosas imagens do século XX e um dos ícones mais expressivos dos dramas da Guerra do Vietname, alimentando o imaginário pacifista à escala planetária(9). 
No Ultramar português não foram captadas imagens desse teor, pelo menos de acordo com a informação actualmente disponível(10). Várias hipóteses se podem avançar: a muito menor presença de jornalistas nos diferentes teatros de operações; a actividade da Censura; e, a mais plausível, o facto de a utilização de napalm e de bombas incendiárias não ter adquirido, de forma alguma, a expressão que teve nos conflitos da Argélia, da Coreia ou do Vietname. 
Queimaduras de Napalm - Pista da Ilha de Metarica (Niassa), em Moçambique - Foto do Cap. João Carlos Roque

No direito internacional, incluindo o direito humanitário, não podia, então, falar-se rigorosamente de interdição das armas bacteriológicas (ou biológicas) e, muito menos, das armas químicas. Por isso, em Agosto de 1968, a delegação britânica à Conferência de Genebra apresentou um documento de trabalho considerando não satisfatório o protocolo vigente (de 1925), sobretudo porque:
(a) – vários estados não eram aderentes (antes de mais, os Estados Unidos e o Japão);
(b) alguns estados aderentes reservavam-se o direito de utilizar armas interditas, em certas condições;
(c) 
– discutia-se a natureza convencional ou consuetudinária de várias normas do protocolo; (d) – a terminologia do protocolo estava ultrapassada e era equívoca. 

Propunha-se, então, separar as duas categorias de armas e aprovar uma nova convenção, completando (mas não substituindo) o protocolo vigente. No entanto, perante as críticas à proposta britânica, o Comité de Genebra optou por solicitar a intervenção da Assembleia Geral e do secretário-geral da ONU, que começaram por designar um grupo de especialistas com o fim de estudar os efeitos da eventual utilização de armas químicas e bacteriológicas. Na introdução ao relatório posteriormente elaborado, o secretário-geral U Thant incitava os membros da ONU a afirmarem «claramente que a proibição enunciada no Protocolo de Genebra se aplica ao uso na guerra de todos os agentes químicos bacteriológicos e biológicos (incluindo o gás lacrimogéneo e outros gases irritantes), actualmente existentes ou susceptíveis de utilização no futuro»(11). 
A Assembleia Geral da ONU acabou por aprovar, a 16 de Dezembro de 1969, a resolução 2603 (XXIV), a qual, em substância, constatava que a regra do Protocolo de Genebra era uma norma consuetudinária, convidava todos os estados a conformar-se estritamente aos princípios e objectivos do Protocolo de Genebra e, em especial, como conclusão da sua parte A, declarava contrário ao direito internacional o uso quer de todo o agente químico de guerra (substâncias químicas, estejam em estado gasoso, líquido ou sólido), em razão dos seus efeitos tóxicos directos sobre o homem, animais ou plantas, quer de qualquer agente biológico de guerra (organismos vivos, seja qual for a sua natureza, e produtos infecciosos derivados) com a intenção de provocar doença ou morte de pessoas, animais ou plantas e cujos efeitos dependem da sua propensão a multiplicar-se na pessoa, no animal ou na planta atacados(12). 
Em Agosto de 1968, Amílcar Cabral enviara uma petição à Comissão de Descolonização da ONU, assinalando que as forças portuguesas bombardeavam intensamente o território da Guiné-Bissau com napalm e fósforo branco e que se preparavam para recorrer a produtos químicos desfolhantes e a gases tóxicos contra as populações locais. Na sequência desta petição, foi, em nome do «grupo afro-asiático», apresentado um novo projecto de resolução, cujo texto condenava Portugal e solicitava a elaboração de um relatório (aliás, nunca concluído) sobre a utilização de armas de destruição maciça e outros aspectos da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné portuguesa. Por fim, pedia-se aos estados para, por todos os meios, impedirem o eventual emprego de armas de destruição em massa nessa guerra colonial. Após breve discussão, a Comissão apreciou o projecto de resolução a 23 de Setembro de 1968. O parágrafo principal – que condenava Portugal – foi objecto de votação separada e aprovado por 18 votos contra quatro (Austrália, Estados Unidos, Itália e Reino Unido) e uma abstenção (Finlândia). Mas o conjunto do projecto não teve oposição e foi aprovado por 19 votos e quatro abstenções, tendo a resolução sido logo transmitida ao Conselho de Segurança, à Comissão de Direitos do Homem e aos diferentes estados(13). 
No ano seguinte, Amílcar Cabral voltou a denunciar o uso de napalm pelas forças militares portuguesas na Guiné perante uma comissão de especialistas da Comissão de Direitos do Homem da ONU, reunida na Guiné-Conakry. Na sua intervenção oral, Cabral denunciou tais bombardeamentos, que comprovou quer com o testemunho das reportagens de jornalistas que tinham visitado as «regiões libertadas» (entre eles, o ensaísta e historiador britânico Basil Davidson), quer com a presença de «um dos compatriotas queimados pelo napalm. E se, por exemplo, os [membros da Comissão] pudessem deslocar-se a Boké [que se situa na zona fronteiriça da República da Guiné- Conakry] veriam outras pessoas vítimas dos resultados dos bombardeamentos com napalm»(14). 
Samora Machel observando
 bombas Napalm
A partir da XXV sessão, a Assembleia Geral da ONU começou a mostrar-se «profundamente preocupada com o uso de substâncias químicas» e a condenar o «bombardeamento cego da população civil e a destruição impiedosa e maciça de aldeias e bens a que se dedicam as forças militares portuguesas em Angola, em Moçambique e na Guiné (Bissau)». 
Consequentemente, quer na resolução 2707 (XXV), aprovada a 14 de Dezembro de 1970, quer na resolução 2795 (XXVI), aprovada a 10 de Dezembro de 1971, pedia ao Governo português para não usar «meios de guerra químicos e biológicos contrários às regras geralmente reconhecidas pelo direito internacional, enunciadas no Protocolo referente à proibição de uso na guerra de gases asfixiantes, tóxicos ou similares e de meios bacteriológicos, assinado em Genebra a 17 de Junho de 1925, e na resolução 2603 (XXIV) da Assembleia Geral, datada de 16 de Dezembro de 1969». 
A Assembleia Geral manteve posteriormente esta orientação (em especial, a propósito da visita da Missão Especial às regiões libertadas da Guiné), mas a resolução 3113 (XXVIII), de 12 de Dezembro de 1973, já não abrangia a Guiné-Bissau, por esta ser agora considerada um Estado independente. 
Também o Conselho de Segurança, reunido em África, através da resolução 312 (1972), de 4 de Fevereiro, aprovada por nove votos e seis abstenções, se mostrou «profundamente preocupado pelos relatórios que referiam o emprego de substâncias químicas por parte de Portugal nas suas guerras coloniais contra os povos de Angola, de Moçambique e da Guiné (Bissau)». 
BA9 - 2 de Junho de 1969 - Festival aéreo inserido nas comemorações do dia da FAP, demonstração de bombas napalm lançadas de F84 - foto de Joseph Botelho

Esta nota não tem por objectivo analisar exaustivamente o uso de bombas incendiárias nas guerras coloniais e as suas implicações políticas, militares ou diplomáticas. Dir-se-á, em todo o caso, que era altamente improvável que tal facto fosse desconhecido dos principais responsáveis políticos e militares, sobretudo de Francisco da Costa Gomes ou de António de Spínola, ambos com altas responsabilidades militares antes do 25 de Abril: o primeiro, estivera em Moçambique e em Angola, de 1965 a 1972, e de 1972 a 1974 exerceu funções como chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas; o segundo, foi governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné (de Maio de 1968 a Agosto de 1973) e vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (de Janeiro a Março de 1974). 
AB7 Tete - Esq. Escorpiões - Fiat com napalm - foto de Nuno Calhau  

Costa Gomes, como se disse, testemunhou que teve conhecimento da presença de napalm. Mas, estranhamente, afirmou não saber se este foi usado na Guiné («na Guiné, não sei»); ora, foi Costa Gomes que, na qualidade de chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que reassume a 30 de Abril de 1974, despacha favoravelmente, e com carácter de urgência, a proposta de Fabião para a retirada das bombas da Guiné: 1170 bombas de 350 litros e 790 de 100 litros. É singular, por isso, que, anos depois, Costa Gomes haja afirmado nada saber quanto ao uso de napalm na Guiné. Quanto a António de Spínola, apesar de nunca se ter pronunciado expressamente sobre o tema, podem citar-se alguns testemunhos inequívocos constantes de um livro sobre a guerra na Guiné publicado em 1973 na África do Sul. Por um lado, o seu autor viu bombas de napalm, «armazenadas no aeroporto de
BA12  napalm de 300 kg-foto de Cristiano
Simões
Bissalanca com as indicações de código MI/65 and RPX, as quais não correspondem a marcas da NATO ou dos Estados Unidos. Estas bombas altamente inflamáveis podem ter dezenas de proveniências […], ainda que alguns dados sugiram que Portugal se encontra a produzir as suas próprias bombas»(15). Em segundo lugar, porque Spínola havia reconhecido, numa entrevista concedida a Peter Hannes Lehman, da revista alemã Stern, que as armas químicas eram usadas «para limpar o mato de ambos os lados das - estradas, para evitar emboscadas. Ninguém podia ou iria indicar qual o seu país de origem»(16). 
Não é de excluir que a informação de Ferreira da Cunha tivesse um objectivo: justificar, perante o poder político, a continuação do recurso àquele tipo de armamento. Na verdade, tratando-se de um documento interno, classificado de «muito secreto», por que motivo teria Ferreira da Cunha a necessidade de defender de forma tão empenhada a utilização de bombas incendiárias? Para quê uma retórica tão inflamada? De facto, a sua informação, mais do que um relatório objectivo e imparcial, constitui uma autêntica alegação de defesa do uso do napalm. Isto permite supor, ainda que se trate de uma mera hipótese, que, a dada altura, sensivelmente em meados de 1973, pode ter sido questionada a utilização de bombas incendiárias. Nos meios políticos ou nos meios militares. Mais provavelmente, nos meios políticos. E, avançando ainda mais no campo das hipóteses, nos meios governativos – talvez pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ou até pelo próprio Presidente do Conselho(17).
Gago Coutinho. leste de Angola, Maio de 1971, bombas napalm de 80kg - foto de Jochen Raffelberg jornalista alemão
Abandonando o movediço campo das hipóteses, um ponto merece realce: até ao 25 de Abril de 1974, uma quantidade apreciável de bombas incendiárias permaneceu em África – ou, pelo menos, na Guiné. Se continuaram a ser utilizadas após a informação de Ferreira da Cunha, de meados de 1973, é algo que não sabemos. Mas os documentos que agora se publicam revelam que a incómoda e desconfortável presença do napalm em África se prolongou, pelo menos, até Maio de 1974. Quanto ao seu paradeiro actual, os dados são escassos. Mas o facto de, nos nossos dias, 20 bombas incendiárias servirem de vedação a uma vinha no Douro é algo que não pode deixar de surpreender, pelo que nos revela dos insondáveis caminhos da História e dos homens que a habitam. 

Os documentos que se publicam em anexo foram localizados no Arquivo da Defesa Nacional, em Paço de Arcos, onde se encontram sob a cota Cx. 1011, 1011/12, tendo sido desclassificados, a pedido dos autores deste texto, por despacho de 17 de Setembro de 2008.
Este conjunto documental é integrado por:
a) Um documento dactilografado, classificado «Muito Secreto», sem data, encontrando-se no final a indicação do seu autor como sendo o tenente coronel José Luís Ferreira da Cunha, do Gabinete do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. O documento não se encontra assinado, compondo-se de nove páginas numeradas, cada uma com a indicação
«Gabinete», no canto superior esquerdo. No final do documento consta a indicação dactilografada «
SGDN, 9MAI73», o que permite identificar a suaorigem ou um dos seus destinatários (o secretariado-geral da Defesa Nacional) e a data aproximada da sua elaboração e/ou distribuição (9 de Maio de 1973).
b) Um documento em papel timbrado do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (Quartel-General – Repartição de Operações), classificado «Secreto», datado de Bissau, 27 de Maio de 1974, encontrando-se assinado pelo comandante-chefe, brigadeiro Carlos Alberto Idães Soares Fabião. Trata-se de um ofício dactilografado, de uma página, dirigido ao chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Possui um carimbo a óleo que certifica a sua recepção no Gabinete do Estado-Maior General das Forças Armadas, em 6 de Junho de 1974, com as indicações «Pº 2034, N.º 3107».
Nesse documento, à margem, encontra-se exarado um despacho manuscrito, do seguinte teor: «Urgente. Ao
CEMFA para proceder de acordo com o n.º 3.
Lisboa 15-6-74. ass). Francisco da Costa Gomes».
c) Um documento com a indicação «Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné – Quartel General – 3ª Repartição», que corresponde ao certificado de transferência n.º 626/74. Composto por uma página, encontra-se datado de 28 de Maio de 1974 e possui uma assinatura ilegível.
 

d) Um documento de uma página, datado de 19 de Junho de 1974, não assinado, classificado «Secreto», do chefe do Gabinete do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, tenente-coronel José Luís Ferreira da Cunha, destinado ao chefe do Gabinete do Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, tendo como «Assunto: – Bombas NAPALM» e como referência «Nota n.º 10.078/C, de 27MAI74, do ComChefe Guiné». 

Feita a sua descrição externa, poder-se-á dizer, numa análise interna deste acervo documental, que o mesmo é composto essencialmente por:
a) Um documento, anterior ao 25 de Abril de 1974, muito provavelmente de início de Maio de 1973, que justifica a posse e utilização de
napalm e outras armas incendiárias pelas Forças Armadas Portuguesas nos três teatros de operações (Angola, Guiné e Moçambique) da guerra que Portugal travou nas suas províncias ultramarinas, entre 1961 e 1974.
b) Um ofício, de 27 de Maio de 1974, do comandante-chefe das Forças Armadas Portuguesas na Guiné, brigadeiro Carlos Fabião, solicitando instruções quanto ao destino a dar às bombas
napalm existentes naquele território, quantificadas em 1170 bombas NAP de 350 litros e 790 bombas NAP de 100 litros. Nesse ofício, sugere-se a sua transferência para a ilha do Sal, em Cabo Verde, salvaguardando-se, todavia, uma «dotação de emergência», que permaneceria na Guiné. Esta sugestão é feita após ter sido estabelecido um contacto com o Estado-Maior da Força Aérea. O despacho manuscrito, de 15 de Junho de 1974, permite inferir que tal sugestão foi acolhida, ainda que não exista, no presente acervo documental, qualquer prova que certifique que a transferência das bombas napalm existentes na Guiné, ou uma parte delas, foi efectivamente realizada para Cabo Verde.
São estes os documentos que, de um ponto de vista histórico, nos parecem revestir-se de algum interesse, justificando a presente publicação.
 

NOTAS:
(1) Cf. LOPES, Mário Canongia – «A história do F-84 na Força Aérea Portuguesa». In Mais 
Alto. Revista da Força Aérea. Suplemento. Ano XXVI. N.º 258. Março-Abril de 1989, p. 12.Cf. também GUERRA, João Paulo – Memória das Guerras Coloniais. Porto: Afrontamento, 1994, p. 392.

(2) Cf. FRAGA, Luís Alves – A Força Aérea na Guerra em África – Angola, Guiné e Moçambique (1961-1974). Lisboa: Prefácio, 2004, pp. 109-111.

(3) Cf. Jornal de Notícias, 15 de Novembro de 2004.

(4) Cf. CRUZEIRO, Maria Manuela – Costa Gomes, O Último Marechal. Lisboa: Editorial Notícias, 1998, p. 138. Para uma síntese das diversas declarações de Costa Gomes, cf. RODRIGUES, Luís Nuno – Marechal Costa Gomes. No Centro da Tempestade. Biografia.
Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, pp. 87-88. MATEUS, Dalila Cabrita – A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974. Lisboa: Terramar, 2004, p. 101.

(5) Cf. depoimento de Costa Gomes em ANTUNES, José Freire – A Guerra de África (1961- 1974). Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, pp. 118-119, onde acrescenta: «eu achei que o napalm não tinha absolutamente nenhuma utilização prática para a guerra que fazíamos e mandei embora o napalm, embora se pensasse que utilizava napalm».

(6) Apud SANTOS, Hélder, e MAFUTA, Drumont (orgs.) – Angola: Depoimentos para a História Recente, Vol. I. Luanda: Ed. dos Autores, 1999, pp. 289-291. É interessante verificar que, relativamente ao uso de desfolhantes, Costa Gomes diga que «foram usados desfolhantes só no Leste [de Angola]» (p. 291), enquanto Soares Carneiro, na mesma obra, afirma peremptória e rispidamente ao entrevistador: «o senhor está a pretender que eu caia na asneira e na inverdade, na falsidade de dizer que se fizeram bombardeamentos com desfolhantes. Eu disse já que não se fizeram bombardeamentos com desfolhantes no Leste» (p. 231).

(7) Cf. Diário de Notícias, 8 de Dezembro de 2001.

(8) Esta operação está minuciosamente descrita pelo então comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, ABECASIS, José Krus – Bordo de Ataque, vol. II. Coimbra: Coimbra Editora, 1985, pp. 487 e segs.

(9) Como afirmou o último director da Associated Press em Saigão, «esta fotografia capta não

apenas o mal desta guerra, mas o mal de todas as guerras […]. Na expressão da rapariga estava medo e horror, que é o que todos sentimos relativamente à guerra. A fotografia mostrava os efeitos da guerra, e quão errada e destrutiva ela era. As pessoas olhavam-na e diziam “Esta guerra tem de acabar”» – cf. CHONG, Denise The Girl in the Picture. The Story of Kim Phuc, the Photograph, and the Vietnam War. Londres: Scribner, 2001, p. IX. Cf. ainda BROTHERSCaroline – War and Photography. A Cultural History. Londres: Routledge, 1997, pp. 178 e segs., e a breve alusão no notável ensaio de BURKE, Peter Eyewitnessing. The Uses of Images as Historical Evidence. Londres: Reaktion Books, 2007, pp. 150-151. Pouco depois, descobrirse-ia a identidade da rapariga: Kim Phuc, que seria usada como arma de propaganda pelo regime vietnamita, sendo mais tarde enviada para estudar em Cuba, na universidade. Por ironia, aos 29 anos Kim Phuc fugiria para o Ocidente.

(10) De facto, não existem registos fotográficos significativos, ao que sabemos, dos efeitos do napalm nas populações africanas. Há, ainda assim, uma imagem do fotógrafo húngaro Bara Isvtán, que acompanhou as forças do PAIGC em 1969-1970 e se encontra disponível em

www.blogueforanada, acompanhada de um poema de Salancur, de 1974: «Napalm / que pões branca / a negra pele / quem te inventou? / que queimas árvores centenárias / que fazes em sal/ a terra arável / quem te soltou? / tu… / de quem nasce / a luz cega / e o som que ensurdece /e causas dor / sem saber a quem / se ao homem que guerreia / se à criança que brinca / ou à mulher que semeia / quem te apaga a luz? / e não te deixe voar / quem te vai silenciar?».

(11) Cf. FISCHER, Georges – «Chronique du controle des armements». In Annuaire Français
de Droit International. Ano XV, 1969, pp. 127 e segs.
(12) Note-se que a Convenção sobre a interdição e eliminação das armas químicas só veio a
ser aprovada em Paris, a 13 de Janeiro de 1993.
(13) Cf. BARBIER, Maurice – Le Comité de Décolonisation des Nations Unies. Paris: LGDJ, 1974, p. 378.
(14) Cf. CABRAL, Amílcar – Les crimes des colonialistes portugais face à la Déclaration Universelle des Droits de l’Homme. S. l.: PAIGC, mimeog., s. d., p. 12.
(15) Cf. VENTER, Al J. – Portugal’s Guerrilla War – The Campaign for Africa. Cidade do Cabo: John Malherbe Pty Ltd, 1973, p. 177. Trata-se de um jornalista sul-africano, com extensa bibliografia publicada, especialista em questões militares e política de desenvolvimento em África, sobretudo das guerras coloniais portuguesas e do Biafra. Em apêndice a essa obra, é reproduzida uma entrevista com o general Spínola, dividida em duas partes: entrevista oral, no Palácio do Governo (em que o intérprete foi Otelo Saraiva de Carvalho) e respostas escritas a perguntas prévias (ver nota seguinte).
(16) Cf. VENTER, Al J. – Portugal’s Guerrilla War – The Campaign for Africa. As entrevistas
concedidas, respectivamente à revista Stern, a 25 de Março de 1971, e a Al Venter, a 31 de
Março de 1971, estão transcritas em SPÍNOLA, António de – Linha de Acção. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1971, pp. 361-367 e 371-376, mas estes textos foram
«seleccionados», e são muito curtos e «anódinos».
(17) De acordo com a obra de GOMES, Carlos de Matos e AFONSO Aniceto – Os Anos da
Guerra Colonial. Vol. 14. Lisboa: Quidnovi, 2009, p. 40 e pp. 47-48, o documento 9- V- 1973 destinava-se a uma «informação» do EMGFA, servindo para apoiar a posição portuguesa na discussão dos protocolos adicionais à Convenção de Genebra.


Lisboa, Outubro de 2008
António de Araújo e António Duarte Silva

Fotos: Pesquisa e inserção de A.Neves (editor do Blog)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 2ª./72

JURAMENTO DE BANDEIRA E DISTRIBUIÇÃO DE
DIPLOMAS

B.A. Nº. 2 – OTA – 01/SET/1972
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 2/72

Na Base Aérea nº. 2 (OTA) realizou-se  no dia 1 de Setembro o juramento de bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores, do curso de sargentos milicianos pilotos e dos soldados alunos especialistas da E.I.R. 2/72.
Durante a cerimónia foram também distribuídos os diplomas aos oficiais que terminaram os cursos de Instrução Complementar de Pilotagem de aviões de caça, do curso de oficiais milicianos técnicos, do curso de oficiais milicianos do serviço geral e aos soldados alunos especialistas dos cursos de formação.
Chegada do CEMFA e tribuna

A fim de presidir à cerimónia, deslocou-se àquela Unidade o Chefe do Estado Maior da Força Aérea, general Tello Polleri, que estava acompanhado pelo sub-chefe do Estado Maior da Força Aérea, brigadeiro Braz de Oliveira e pelo Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Henrique Troni. Presentes, também, na tribuna os presidentes das câmaras municipais do Porto, de Alenquer e de Vila Franca de Xira, e comandantes de outras Unidades da Força Aérea. 
Continência à Bandeira

O chefe de Estado Maior da Força Aérea foi recebido pelo comandante da Base Aérea nº. 2, coronel piloto aviador Osório Mourão, e outros oficiais que ali prestam serviço. Depois de passar revista à guarda de honra, o general chefe do Estado Maior da Força Aérea e as restantes individualidades presentes dirigiram-se para a tribuna.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o 2º. Comandante da unidade, tenente-coronel piloto aviador Silva Araújo, que afirmou: “Dentro de momentos ireis fazer o vosso juramento de fidelidade, a que vulgarmente se chama o juramento de Bandeira. E de Bandeira porquê?
Porque a Bandeira Nacional é o símbolo que representa a totalidade do povo português. Nela estão integrados todos os portugueses, de todos os credos, religião ou cor; aqueles que nos primeiros tempos à custa do seu sangue estabeleceram os laços básicos da Nação Portuguesa; aqueles que mais tarde se lançaram na descoberta e civilização de outros Mundos; e os que actualmente no Ultramar, no Continente ou que se encontram espalhados por esse Mundo fora, dão o seu melhor esforço para manter a integridade da Nação Portuguesa e o prestígio do seu povo.
CEMFA passando revista à guarda de honra

O vosso juramento de fidelidade é a garantia de que o esforço, o sangue, o suor e as lágrimas dos outros que vos antecederam não foram em vão e que vós próprios, conscientes das vossas responsabilidades como homens e como portugueses, estão prontos a dar o vosso sacrifício, a vossa inteligência e o vosso amor para que a integridade da Nação e povo portugueses se mantenha através dos tempos cada vez com maior firmeza, mais consciência e mais prestígio.
E hoje, perante esse mesmo povo, neste local representado pelos vossos familiares e amigos, por vós próprios, por todos nós que aqui nos encontramos e perante a Bandeira Nacional, única e verdadeira representante da totalidade do povo português ao longo dos seus quase dez séculosde história, vão  prestar o vosso juramento de fidelidade, oferecendo-se voluntária e conscientemente, pelo corpo e pelo espírito, à continuidade do esforço comum de engrandecimento de Portugal, para que qualquer um de nós, em qualquer canto do Mundo, e independentemente da cor,credo ou religião, sinta cada vez mais orgulho em dizer: Eu sou Português.”  
  
Entrega de diplomas e prémios
A proceder o acto de juramento, foram lidos os deveres militares, tendo em seguida o tenente-coronel Raul Tomás lido a fórmula do juramento que foi repetida em uníssono pelos soldados recrutas.
Segui-se a entrega de diplomas e prémios feita pelo chefe e subchefe do Estado Maior da Força Aérea e pelo director do Serviço de Instrução.
A encerrar as cerimónias, realizou-se o desfile, em continência, perante a tribuna.

A GLORIOSA EQUIPA DE ANDEBOL DO AB4 EM 1972

Alf.Fernandes, Neves, Castela, Xanana, Jaime "Abi", Antonio Braga  e B. Dias
Grama, Esteves, Fernando Braga, Pierre e Quim "Careca"

CAMPEONATO DE ANDEBOL DE 7 DA 2ª. REGIÃO AÉREA
Entre 22 e 26 de Agosto de 1972 realizou-se no aeródromo Base nº. 3 (Negage) o campeonato de andebol de 7 da 2ª. RA. Participaram as equipas representativas da BA 9, AB 3, AB 4, BCP 21 e DMFA 2, tendo a equipa pára-quedista conseguido o primeiro lugar no torneio. O nível técnico e a qualidade dos jogos ultrapassaram os padrões que são habituais em competições desta natureza. 
O AB 3 continuou a receber os camaradas das outras Unidades da melhor forma, concorrendo assim para que se atinjam os objectivos expressos no Artº. 1º. dos Regulamentos Desportivos: “Os campeonatos desportivos da 2ª. RA têm por finalidade promover o intercâmbio desportivo entre as Unidades da 2ª. RA, proporcionando ao pessoal contacto humanos que de outro modo se não poderiam realizar, desenvolvendo os laços de amizade e, através duma competição séria e disciplinada, contribuir para um melhor espírito de sã camaradagem entre todo o pessoal da Força Aérea”. 


Sagrou-se vencedora a equipa do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas nº. 21, e em 2º. Lugar o Aeródromo Base nº. 4.

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 161 – Setembro 1972

Até breve                                                                                   
O amigo

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

RESGATE DO LUSO

Luso - foto de Armando Monteiro

Passados uns dias após a anterior missão, em Henrique de Carvalho, lá fui repetir a dose. Desta vez ao Luso, província do Moxico.

A UNITA ocupou o Luso depois de uma “guerra” com o MPLA.
Luso, Dezembro de 1975


A FAP tinha, no aeroporto, umas pequenas instalações que estavam em desativação, mas alguns agentes da DGS com respectivas famílias, refugiaram-se nas referidas instalações.
Conclusão: nova missão para executar e como já tinha a experiência, lá fui eu.
Repeti o mesmo sistema. Desta vez fui “confraternizar” com os militares da UNITA.
Nesse dia havia avião da DTA e aproveitámos para ir até à aerogare.
Assisti a cenas desagradáveis. Com a desculpa de procura de armas, abriam as bagagens e sacavam o que podiam. Que fazer? Aguentar…
Pouco depois, a informação: “os caixotes já estão carregados”.
Despedidas…
Dessa vez o regresso consistia em deixar os resgatados membros da DGS em Nova Lisboa.

MPLA/UNITA
Anteriormente já dei a entender o comportamento dos diversos movimentos, bem como a nossa adaptação àqueles comportamentos e dificuldades em os enfrentar de modo o mais pacifico possível. Mas por vezes havia mesmo situações complicadas.
Ainda sei o dia, porque foi a última vez que fui a Sá da Bandeira: 13/05/75. 
Sá da Bandeira em 1972
foto de Vitor Oliveira
Nesse dia, tinha acabado de descolar de Nova Lisboa (nessa altura ainda sob jurisdição da UNITA) rumo a Luanda, com mais uma “carga” de refugiados. Ao entrar em comunicação com Luanda, perguntam-me se tenho possibilidades de ir até Sá da Bandeira fazer uma evacuação de um ferido grave. 
Como tinha excedente de combustível, dei resposta positiva e voltei para trás, até Sá da Bandeira, que estava nas mãos do MPLA. 
Após a aterragem, de imediato apareceram elementos militares do MPLA, querendo saber ao que íamos. 
"Para uma evacuação". Ninguém sabia de nada mas, enquanto se aguardavam esclarecimentos, um dos elementos do MPLA entrou no avião e resolveu revistar os refugiados que transportávamos. Pouco depois ouço um reboliço e ouvia: “mata, mata, mata…” 
O ”rapaz” do MPLA, armado com Kalashnikov, ameaçava matar todos os passageiros por serem da UNITA. 
Perante tal situação disse ao Radiotelegrafista que fosse à Torre e pedisse a alguém superior do MPLA que viesse em nosso socorro. 
O meu papel entretanto, foi convencer o “mpla” a ter calma e a ponderar. Consegui que saísse do avião. Aí argumentei como pude, inventei coisas, elogiei-o, tentei acalmá-lo de todas as formas. 
Continuava com o “mata, mata”…
Pouco depois chega um Jeep com um oficial superior do MPLA, que mesmo de cima da viatura dá uma violenta coronhada no dito “rapaz”, que o estendeu logo. 
De seguida apresentou-me desculpas pelo sucedido, dizendo para regressarmos, para "evitar mais problemas". 
Disse-lhe que tínhamos lá ido para uma evacuação sanitária. Respondeu-me que já não era necessária.
Não sei o que se passou. Descolei.

Por especial deferância do Sr.
Cap. Pil. (Ref) Fernando Moutinho

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

NÃO TE DESPEDES DO RAPAZ ?


-Não te despedes do rapaz?

-Já há muito tempo que ando a despedir-me dele, ouvi em voz morta de angústia.
-Ó homem nem parece teu...
- Mulher, isto é uma vida danada, o outro já na Guiné, agora este de abalada para Angola!
-Foi assim que quiseste, os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
-Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo na incerteza de dias sem sol na alma, nem a falta de notícias durante tantos anos.
-Nossa senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
-Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta da rua bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua...

-António Júlio, vem comer, as sopas já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local, no parapeito da janela da cozinha que dava para a restolha do Calaia. Desde os tempos do liceu que era assim, dali via os lameiros onde, depois das aulas, jogávamos à bola e por lá também passava o caminho para o rio.
Em cima do aparador, o velho rádio dava som a “tu te reconnaitras” na voz da luso-luxemburguesa Anne Marie David, ainda na moda, pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.

Vi-o descer a restolha, cana de pesca na mão direita, rosto a contar os passos, em cadência de desalento. Baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá, não fez qualquer sinal, simplesmente parou para olhar.
Eu sei pai, que não gostavas que te víssemos chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício ,que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante, tu um pai cheio de ideais, cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de Pátria e liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o combóio partisse de Bragança, já estarias em casa.
Continuou a afastar-se, agora num passo lento carregado de tristeza e emoção, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Ricafé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão de casa banhada em lágrimas. O carteiro, na pessoa do “velho” Conhés tirava da sacola um aerograma.
-Cá está mais um D. Beatriz, vem da Guiné.
A ansiedade apoderou-se de ambos, com a mão trémula abri e comecei a ler.
O Júlio já foi para Angola? - Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele!
Irmão, porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias!...

(aconteceu há 45 anos)
Jcorredeira
In”fragmentos de memórias”

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 1ª./72 e BREVETAMENTO DO P4/71

JURAMENTO DE BANDEIRA E ENTREGA DE DIPLOMAS
B.A. Nº. 2 – OTA – MAIO/1972
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 1/72

Presidida pelo Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, realizou-se na Base Aérea nº. 2, na Ota, a cerimónia do Juramento de Bandeira dos cursos de oficiais milicianos pilotos aviadores, oficiais milicianos técnicos, sargentos milicianos pilotos e soldados alunos especialistas da Escola de Instrução de recrutas 1/72.
Presentes, também, o vice-chefe e o subchefe do Estado Maior da Força Aérea, general Armando Mera e brigadeiro Braz de Oliveira; o Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Diogo Neto; O Presidente da Câmara Municipal de Alenquer e muitos oficiais comantes de Unidades da Força Aérea.
Depois de passar revista à guarda de honra, o Secretário de Estado da Aeronáutica e as restantes individualidades presentes dirigiram-se para a tribuna.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Base Aérea nº. 2, coronel piloto aviador Brochado de Miranda, cujas palavras que noutro local inserimos.
A preceder o acto de juramento, o comandante do Grupo de Instrução, tenente-coronel Raul Tomás, leu uma exortação dirigida aos soldados cadetes e aos soldados recrutas, que terminou com as seguintes palavras:
“O amor à Pátria é a primeira virtude de um homem civilizado, e para ti, militar, essa virtude é um imperativo de consciência, um princípio indefectível de lealdade, perante a defesa de um povo, das suas instituições e do bem-estar das gerações que se sucedem na eternidade dos tempos.
Glória aos heróis, paz aos mortos e respeito pelos vivos. Que o seu exemplo seja uma estrela que ilumine o caminho de um Portugal eterno, na difícil hora que o Mundo atravessa. E que todos nós, se, marcado pelos chefes responsáveis, vier o dia em que é também necessário marcar atitudes de sacrifício, estejamos com Eles preparados e prontos a actuar respondendo sem hesitação: Presente. Aqui é Portugal.”

Finda a leitura da exortação procedeu-se ao acto do juramento, cuja fórmula foi lida pelo tenente-coronel Raul Tomás.
Seguiu-se a entrega de diplomas e prémios feita pelo Secretário de Estado da Aeronáutica e pelos vice-chefe e subchefe do Estado Maior da Força Aérea, finda a qual se realizaram demonstrações de manejo de arma a pé firme e em marcha.
Antes do desfile perante a tribuna que se encerraram as cerimónias, a Banda de Música da Força Aérea, sob a direcção do capitão Silvério de Campos, exibiu-se em alguns números que irá apresentar em Agosto próximo no Festival de Bandas Militares dos países da NATO, na Alemanha, em representação de Portugal.

ALOCUÇÃO PROFERIDA PELO COMANDANTE DA UNIDADE

Estamos uma vez mais preparados para recolher palavras solenes e admirar posturas altivas e aprumadas de um grupo de rapazes que voluntariamente se decidiu a prestar serviço na Força Aérea.
A instrução militar básica que receberam nas últimas semanas culmina hoje com as formalidades que acabamos de iniciar e que se destaca o acto do Juramento de Bandeira.
A repetição periódica de tantas idênticas cerimónias, enquadradas no mesmo cenário, pode sugerir o desvanecimento do seu alto significado. Mas só aparentemente, pois que o soldado recruta que hoje está no centro das nossas atenções tem o direito de considerar esta cerimónia como maior que todas as outras e até de a considerar única. É que esta é uma hora chave na vida de cada um. Uma hora de transição: de adolescente com quem se vinha usando de benevolência complacente para homem consciente e responsável.
Dentro de momentos estará perante todos vós a Bandeira Nacional, emblema sagrado, expressão máxima da alma de um povo livre e soberano, eloquente síntese de feitos heroicos e símbolo de esperança e de inquebrantável tenacidade e coragem.
É perante esta Bandeira que o soldado recruta vai em consciência afirmar a sua dedicação à Pátria e às suas instituições e comprometer-se a lutar por uma causa que a todos sobreleva e que é a defesa do património físico e moral da Nação.

A sua participação na luta traduzir-se-á, não tanto pela intervenção directa em acções de combate, mas, principalmente e para já, buscando a cultura geral e técnica que conduza ao aperfeiçoamento individual e de que resulte aptidão e eficiência na produção de trabalho útil; opondo-se com a verdade a argumentos especiosos desmoralizadores; contrariando a apatia, o desânimo, a descrença; colaborando com entusiasmo e com fervor patriótico.
Em resumo e usando palavras do Papa Paulo VI, o soldado deve dar à vida da Nação a que pertence “a energia, a fidelidade e o patriotismo de que o serviço militar é escola nobre e severa”.

A presença entre nós de Sua Excelência o Secretário de Estado da Aeronáutica, a quem saúdo em meu nome e de todo o pessoal que presta serviço na BA2, seria sempre um acontecimento de relevo pelo que significa de interesse pelo nossa actividade e de incentivo ao nosso esforço. No dia de hoje é todavia mais do que isso, pois terá projecção incisiva no espírito de cada recruta.
Também nos é particularmente grata a comparência a este acto de outras altas entidades oficiais, civis e militares, responsáveis por vários níveis de direcção ou chefia, a quem igualmente saúdo e afirmo a nossa muita satisfação pela honra de os receber nesta casa.
São bem-vindos os pais, outros familiares e demais convidados dos soldados que juram Bandeira. Além do colorido e calor humano com que enriquecem a cerimónia, serão também testemunhas válidas de um Juramento cuja quebra equivaleria à desonra de quem o profere. Jamais o soldado recruta poderá esquecer que os seus entes mais queridos e amigos mais dedicados o ouviram pronunciar a fórmula categórica que o vincula a mais amplas responsabilidades que vão desde o engrandecer a Pátria pelo seu trabalho profícuo até oferecer a vida na defesa dos seus direitos sagrados e honrosa sobrevivência.
Integrada também nesta cerimónia, temos ainda a oportunidade de proceder à entrega de diplomas a soldados alunos que completaram cursos de várias especialidades e de prémios aos que mais se distinguiram, em actividades de cultura intelectual e física-militar.
Quanto aos primeiros, a satisfação de terem completado o seu curso supera bem as canseiras e preocupações com que ultrapassaram as dificuldades que porventura tenham encontrado.
Nas Unidades onde serão colocados, primeiro na Metrópole e depois no Ultramar, vão aplicar os conhecimentos adquiridos, embora não possam esquecer que o muito que já sabem é só uma base de partida.
A estabilização dos conhecimentos adquiridos e a integração de mais ricos elementos virão com a prática, seguindo o conselho e a orientação daqueles que mais sabem, mas não deixando, todavia, perder o hábito de folhear os compêndios da ciência e da técnica, a fim de ascenderem continuadamente a um nível de cultura mais elevado.
De facto só é verdadeiramente um militar aquele que assume uma atitude mental permanente orientada no sentido do aperfeiçoamento de forma a que quando chegue a sua vez de desempenhar cargos de responsabilidade – e esse tempo chegará, na vida militar ou civil – seja idóneo para ocupar o seu lugar com dignidade.
Quanto àqueles que se distinguiram já e recebem hoje, por intermédio de um simbólico prémio, a manifestação da nossa simpatia e admiração, nada mais há a dizer-lhes senão que continuem, pois nos parece terem encontrado o verdadeiro caminho de bem servir e Grei e a si próprios.



Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 157 – MAIO DE 1972
           


Até breve                                                                                   
O amigo



domingo, 7 de janeiro de 2018

RECUPERAÇÃO DO ALOUETTE III 9306

O Puma estacionado na chana - foto de Roberto Firth Alves

Dia 5 de Janeiro do ano de 1973.
Tínhamos descolado do Ar-Luso, no SA-330 Puma, 9511, com destino ao Lutembo, com a missão de tentar resgatar o Alouette 9306, pilotado pelo Alf. Pil José Folgado, que ao ter sido atingido num pé, pelo fogo inimigo, aterrou de emergência na chana. 
Ainda estava com o pensamento do dia e noite anterior, em que o nosso Comandante da Esquadra 402 Saltimbancos, Cap. Pil Custódio Santana, fora atingido violentamente pelo fogo do IN, e aterrou na chana, com o MMA João Dias, que ia como apontador do canhão, e termos andado toda a noite, à procura do pessoal da FAP, pelas Repúblicas, restaurantes, bares, para os levar ao hospital militar para fazerem a doação de sangue, que era necessário, face à operação que estava a decorrer, na tentativa de lhe salvar a vida.
Com estes pensamentos vivos, e já a pensar no que ia encontrar na chana aterrámos no Lutembo, com cerca de 01:50 de vôo.
Mudei a ferramenta e tudo o que levava para o Alouette III, n°.9365 pilotado pelo Ten. Mário Jordão, e com o Sar. Pil. José Ramos, lá seguimos para a chana num vôo de 00:15m, onde avistei os dois Alouette III.
Aterrámos, retirei tudo o que levava, e fiquei com o Sar. Pil Ramos na chana, o Ten. Pil Jordão descolou e manteve-se por ali no ar a baixa altura, não fossemos atacados pelo inimigo, embora tivéssemos a protecção da 37ª. Companhia de Comandos. Chegámos junto ao helicóptero do Folgado, estando mais à frente o Alouette aterrado de lado com o canhão a apontar para o céu, do Cap.Santana e do MMA Dias.
Alouette do Cap. Santana e o do Alf. Folgado - fotos de Manuel Cura e António Nabais
Comecei a verificar os estragos, que eram muitos, mais de 180 perfurações de impactos directo.
Os buracos das pás tinham tal dimensão que cabia lá a minha mão fechada, feitos por armas antiaéreas, segundo informação do pessoal da 37ª.CC.
Depósitos de combustível e do óleo perfurados em várias zonas, BTP com dois apoios partidos, e carenagens destruídas.
Comecei a pensar que era uma missão impossível, retirar o Alouette da chana, e chegar ao Lutembo.
Mas lá meti mãos à obra e comecei a introduzir desperdício nos buracos das pás e com fita adesiva lá os tapei todos.
A chuva continuava a cair copiosamente, não estivéssemos no Leste de Angola.
Remendei como pude o depósito do óleo e combustível para levarem o suficiente para chegarmos ao Lutembo.
Com o fio de frenar lá amarrei os dois suportes partidos da BTP, o melhor que pude, bem como algumas carenagens.
Fiz o abastecimento de combustível e óleo e não apareceram sinais de fuga.
Tomamos o nosso lugar, o Ramos iniciou os procedimentos de marcha do motor, a turbina arrancou e com o seu silvo característico estabilizou sem problemas, mas já se notavam as vibrações.
Com o inicio da descolagem as vibrações aumentaram e começamos a ter a sensação que o Alouette se desintegrava. Num vôo de 00:15 m, demorámos 00:30 m, sempre com a sensação que não chegávamos ao Lutembo tal as vibrações que se avolumavam, mas lá aterrámos junto ao quartel e não na pista. Sempre acompanhados pelo Ten. Jordão no outro Alouette.
Quartel do Lutembo - foto de Militão Candeias

Quando saímos do helicóptero, parecia que tínhamos nervoso miudinho tal o efeito das vibrações no nosso corpo.
Completamente encharcados lá fomos beber umas "bejecas" no bar do exército.
Mais tarde chegaram as pás, BTP, depósitos e outro material, o Alouette foi reparado e levado para o Ar Luso.
Missão difícil, mas com o dever cumprido, este trabalho foi agraciado com um louvor, mas essa é outra história para ser escrita outro dia.
Esta é uma breve historia do Sarg.MMA Franklin Santos.
E com a participação do Sarg.PIL José Ramos.

Escrito por:



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

EVACUAÇÕES EXÓTICAS

Gonçalo de Carvalho na pista do Alto Cuito
Duas evacuações exóticas
Às voltas com as minhas memórias como piloto da Força Aérea (Fur.Mil.Pil.), lembrei-me de um episódio relacionado com o Alto Cuíto. 
Certo dia, estava de passagem pelo Luso, recebi instruções para me meter num DO-27 e ir ao Alto Cuíto fazer a evacuação urgente de um ferido.




As condições atmosféricas não eram as melhores, o tempo estava muito coberto, mas mesmo assim meti-me a caminho acompanhado, como habitualmente, por um mecânico.
Durante a viagem a nebulosidade foi aumentando e às tantas vejo-me no meio de nuvens e completamente perdido, sem saber qual a minha posição. Aqueles aviões não estavam preparados para fazer navegação por instrumentos e, além disso, não existiam ajudas rádio que nos valessem.
Fiz 180º e meti um determinado rumo para norte, guiando-me pelos instrumentos, até chegar à linha-férrea do Caminho-de-ferro de Benguela. Depois fui até ao Luso e, sem ali aterrar, voltei a apontar ao rumo do Alto Cuíto. Desta vez cheguei ao destino e aterrei sem problemas.
Então foi a surpresa!
Na pista, à espera do DO, estava um soldado que me disse ser ele o ferido! Tinha sido atingido por um tiro acidental num dedo! Pensei para mim (não sei se o disse em voz alta a alguém na altura) "mas que raio de urgência é esta para uma evacuação"!
E pronto...lá levei o "ferido" para o Luso, numa viagem sem incidentes.

Estas situações aconteciam por vezes.
Um dia, por exemplo, saio de Gago Coutinho para uma evacuação urgente de Ninda. A distância é curta...em meia hora estava lá e... para grande espanto meu, à beira da pista, sentado numa mala, estava um soldado à espera. 
Gonçalo de Carvalho em Ninda

Ele era o "evacuado urgente"...que depois me disse que só queria ir para Gago Coutinho depressa para apanhar o Noratlas para poder chegar a Luanda a tempo de ir de férias ao "puto" (o termo saudosista com que nos referíamos a Portugal continental), e que o capitão da companhia lhe tinha feito o favor de permitir o envio de um rádio a pedir a evacuação.
Enfim...são histórias de tempos que já lá vão.

P.S. - “Puto” Em linguagem “calão” designava o Portugal europeu à beira mar plantado.