sexta-feira, 21 de setembro de 2012

MOBILIZADOS PARA ANGOLA


Após a recruta, a especialidade PA e o curso de cabos, fui colocado na Base Aérea nº 2 – Ota. Pensei então: – Bem, muito provavelmente já me safei de ir “bater com os costados” no ultramar. A Base da Ota era, na altura, um bom sítio para o cumprimento do serviço militar, basta pensar na sua localização para chegarmos à conclusão de que não me podia ter calhado coisa melhor. Bem servida de transportes e muito perto de Lisboa, onde tinha familiares chegados, que me facultariam alojamento gratuito aos fins-de-semana, o que me dava bastante jeitoPassei, por assim dizer, na Ota, quase um ano sem preocupações de maior.
Porém, quando já começava a pensar na disponibilidade, um dia quente de Maio, veio ter comigo o Herlânder Neves, que me disse: – Zé Neto, sabes uma coisa? Fomos mobilizados para Angola, vamos em rendição individual. ( Foto do Herlander ao lado) É claro que eu, ao ouvir isto, ainda disse: – Estás a querer brincar comigo, não é verdade? Mas, vendo bem, bastou
olhar para a cara dele para perceber que tal notícia, vinda assim de uma cara tão amarelada e de uma voz tão sumida não podia deixar de ser verdadeira. Arrisquei então: – E para que Base é que vamos? Vamos para o AB4, disse ele. É um aeródromo que fica no leste de Angola, lá para o fim do mundo é certo, mas onde, por enquanto, não há “porrada”. 
Queria ele dizer que naquela zona de Angola ainda não havia guerra a sério nessa altura. Fomos de imediato aos Serviços de Pessoal da Base, onde nos confirmaram que, efectivamente estávamos mobilizados para Angola. Que só tínhamos uma coisa a fazer antes das despedidas: irmos a Alverca – às oficinas de fardamento – receber as novas fardas e restante material que equipava todo o pessoal que era mobilizado para o Ultramar. As “fardas do Ultramar” como lhe chamávamos nesse tempo, eram cremes, muito apreciadas por nós e também pelas raparigas que até se “passavam” quando viam uma farda tão bonita. Por consequência, assim fizemos, no dia seguinte rumámos a Alverca onde recebemos o respectivo fardamento, com o qual já nos apresentámos às nossas famílias e amigos para as despedidas. Foram, se bem me recordo, apenas cinco dias de férias. O tempo aqui contava muito: aos militares mobilizados nunca era concedido um prazo muito alargado, o que facilitava as despedidas, sempre dolorosas e evitava ou dificultava as coisas, não fosse o militar cair na tentação de “dar o salto” para a França ou Suíça.
Regressados à Base, ainda tivemos dois ou três adiamentos de embarque até que, no dia 5 de Junho de 1965, recebemos então as guias de marcha que nos permitiriam viajar até Angola. Para mim era o baptismo de voo, pelo que foi com alguma emoção e um certo nervosismo que me aproximei do velho DC6 da Força Aérea para embarcar. Era cerca da meia-noite quando o avião começou a deslocar-se para o fundo da pista onde permaneceu alguns minutos, poucos, ao mesmo tempo que os seus motores aumentavam a aceleração (assim como o meu coração, embora a um ritmo muitíssimo mais lento) ia rolando pela pista aumentando progressivamente a velocidade até que levantou voo, ou seja, quando comecei a notar que o chão me começava a faltar debaixo dos pés e o estômago me subia até à garganta, enquanto respirava fundo, mas já saboreando, deliciado, o prazer de voar e a maravilhosa paisagem nocturna que Lisboa oferece vista assim de avião. Estou convencido que só quem passou por uma experiência idêntica sabe avaliar verdadeiramente as emoções que sentimos num voo destes. O avião ganhou altura e, gradualmente, tudo ficou escuro como breu. Tentei então dormitar alguma coisa, o que acabei por conseguir, embora intermitentemente, talvez devido ao barulho e vibração que os motores da aeronave provocavam. Ao romper da manhã começámos a vislumbrar a África imensa, primeiro o deserto a perder de vista, depois a floresta serpenteada por grandes rios. Estes já em território da Guiné-Bissau. E foi assim que às nove horas da manhã estávamos a tomar o pequeno-almoço em Bissau, onde aterrámos para reabastecimento do aparelho. Foi tudo muito belo e emocionante, pese embora a minha decepção por não haver assistência de hospedeiras de bordo, o que talvez justifique (mal) o facto de não ter sido fornecida qualquer refeição durante a viagem.
Desembarcámos, então, na BA12 – Bissau, onde se encontravam alguns camaradas à nossa espera, a fim de saberem notícias frescas do “Puto” e também para nos desejarem boa sorte por terras angolanas, ao mesmo tempo que nos felicitavam por não termos que cumprir a comissão de serviço naquele inferno de calor, humidade e também de bombardeamentos esporádicos do PAIGC.
Reabastecida aquela máquina fabulosa, lá rumámos a Luanda, agora um pouco mais apreensivos e sem sabermos o que nos esperava. É que aquela história dos bombardeamentos ficou-nos a matraquear nos ouvidos. Mas pronto, no fim de contas, não havia de ser nada… optimismo acima de tudo.
Depois de voarmos toda a manhã e a tarde inteira, ao princípio da noite estávamos quase a chegar, pois já vislumbrávamos as luzes da cidade de Luanda, onde se destacava a baía de Luanda, mais linda do que nunca. O avião fez-se à pista do aeroporto de Luanda e surgiu uma excelente aterragem, premiada com uma grande e espontânea salva de palmas. Após o desembarque fomos transportados de autocarro para a Base Aérea nº 9, onde jantámos e nos acomodámos a descansar de tão longa viagem. No dia seguinte, após o pequeno-almoço e as apresentações da praxe, saímos à descoberta da cidade de Luanda. Pudemos comprovar que Luanda nem parecia a capital de um grande país em guerra. Era uma cidade maravilhosa, que fervilhava de gente por todo o lado. Aqui permanecemos uns dias, poucos, até termos vaga no avião NordAtlas que fazia o transporte para o Aeródromo Base nº4 – Henrique de Carvalho.
Tomámos finalmente este avião e, cerca de três horas depois estávamos a aterrar no AB4. Foi uma viagem para esquecer, é que fomos literalmente atafulhados entre as mais diversas mercadorias que aquela “fortaleza voadora” transportava. Os bancos de lona colocados longitudinalmente ao longo da fuselagem eram muito incómodos. O avião vibrava por todo o lado e o barulho dos motores era tão ensurdecedor que só mesmo “os poços de ar”, que fomos apanhando constantemente, nos podiam afligir mais ainda.
Pronto, mas lá chegámos em bem, graças à excelente perícia dos pilotos e mecânicos de bordo. Foi no entanto com um certo desalento que nos encontrámos pela primeira vez, tão longe da família e amigos, a matutar como iriam ser passados os próximos dois anos naquele ermo rodeado de arame farpado por todos os lados. Aquilo parecia ser muito pior do que havíamos imaginado.

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sábado, 1 de setembro de 2012

OUTRA DO ABECASIS



Pertencia eu à linha da frente, quando sou nomeado para uma missão, com o meu amigo Abecassis.
Uma evacuação de um doente, do Luremo para Malange.
Prepara-se um DO-27 A4 para descolar-mos no dia seguinte pela manhã, feito o pleno do avião, depósitos principais e auxiliares.
Ao nascer do sol lá vamos nós, sobre os meus joelhos a carta de navegação, dirigimo-nos para o rio Cuango, para o subirmos, a fim de nos facilitar a navegação.
Ao fim de algum tempo de seguirmos rio acima, avistamos uma povoação, pertencente à Diamang, composta de vivendas tendo no meio uma piscina, onde se avistam umas beldades, em biquini, coisa rara naqueles tempos, a apanhar banhos de sol.
Eis que o nosso amigo Abecassis desce o aparelho e sobrevoa a piscina fazendo apenas 180º, e torna a sobrevoar o rio Cuango, eu como observador/navegador atento, chamo a atenção de que nos dirigimos para Sul em vez de continuarmos para Norte, o Abecassis duvida, e chamo a atenção, para que ele olhe para a bússola, mesmo assim teimoso pergunta se ela não está avariada, eu reafirmo que ele só deu 180º sobre a piscina, quando deveria ter dado 360º, a custo lá o convenço e dá mais 180º ao avião e voltamos ao rumo certo.
Com tudo isto o avião ia a consumir combustível dos reservatórios auxiliares, como era da norma, entretanto acendem-se as luzes avisadoras dos referidos depósitos, indicando que estes tinham chegado à reserva.
Como mandam os procedimentos, ligo a bomba eléctrica auxiliar, e selecciono os depósitos principais.
O Abecassis vendo o meu procedimento diz: - É pá os auxiliares ainda tem gasolina, e a reserva de cada um deles ainda dá para 15 minutos, portanto podemos consumir pelo menos mais 5 minutos de combustível, e então depois seleccionam-se os principais, ao que eu repliquei, que era (como estava a fazer) assim que mandavam os procedimentos, o que me respondeu, que a viagem era longa, e havia necessidade de poupar o máximo de combustível, palavra puxa palavra, acabei por fazer o que ele queria, pois ele era o comandante da aeronave, e lá voltei a seleccionar os depósitos auxiliares, a fim de gastar mais umas pinguinhas.
Precisamente 5 minutos depois quando me preparava para seleccionar os depósitos principais, pára o motor, e a atrapalhação provocada pela falta de gasolina no carburador faz com que o nosso amigo Abecassis se agarre ao manche com as duas mãos e o avião a perder altitude, eu também manifestamente atrapalhado selecciono os depósitos principais e começo a ligar e desligar a bomba eléctrica (como se a quisesse poupar dos esforços) e alavancas da mistura e gás todas para a frente, e sorte a nossa íamos a sobrevoar a pista de Capenda Camulemba.
Com o motor a tossir, as rotações deste, ora caindo para o mínimo ora aumentando conforme entrava (ar ou gasolina) no carburador, lá conseguiu o nosso “ás” apontar a proa do avião à pista e apesar de estar muito adiantado as rodas tocaram o chão quase a ¾ daquela, tendo pela frente ao fundo um maciço de arvores, valendo-nos os bons travões que o DO-27 tinha.
Após uns minutos para nos acalmarmos e aguardar que o trabalhar do motor se estabilizasse, e depois de responder a uns elementos da defesa civil que correram a ver se necessitávamos de ajuda, o Abecassis aproou o avião ao vento e manete de gás a fundo descolamos e lá seguimos direito ao Luremo a fim de ir buscar o doente para o levarmos para Malange.
Nota: Esta historia poderá ter algumas imprecisões por ser escrita 34 anos após os acontecimentos. Pesquisei a minha caderneta de voo, e não existe registo, pois esta não foi actualizada nos últimos meses da comissão e como tal não foi possível precisar as datas.

Lisboa, 01 de Junho de 2006

sábado, 25 de agosto de 2012

JOSÉ CARVALHO 18.000 HORAS DE VOO.

Hoje em dia, referencia-se e homenageia-se tanta gente, alguns cujo percurso nunca nos disse nada. 
Não é o caso do José Carvalho, nosso companheiro no leste de Angola, hoje e felizmente um piloto ainda no activo.
Então, porque não prestar esta singela referência, ao amigo, ao companheiro, que sem parangonas, sem alaridos, ultrapassou há algum tempo a bonita soma de 18.000 horas de voo?!

(A melhor forma de o fazer é transcrevendo o texto seguinte, muito recentemente publicado pelo próprio no FB, sobre o mesmo tema)


Não me façam corar, vá.
Há aqui mais sorte do que mérito. Claramente, qualquer um poderia estar na minha situação. Era só questão de estar onde eu estive, quando eu lá estive. Não é nenhum "feito". Não vou dizer que não estou contente por ter chegado aqui. Estou! 
Mas a minha satisfação, não é por ter voado todas estas horas. Estou contente por tantas alegrias que estas horas me trouxeram (também algumas tristezas, como em tudo na vida); contente pelos locais que visitei, pelas gentes que conheci, pelos amigos que fiz; contente porque estas horas de trabalho contribuíram para o bem de muitos; contente porque o meu trabalho foi apreciado por outros. Estou ainda mais contente por poder, ainda, continuar a fazer aquilo que gosto. Com fartura!
Quero no entanto dizer que não sou nenhum "artista" nestas coisas. Admiro - e invejo! - o que alguns sabem fazer. Nem sou especialmente qualificado, antes pelo contrário. 
Apenas trabalhei muito. E gostei de o fazer. Assim possa continuar por mais algum tempo.



Não vem para o caso, mas vou recordar um daqueles momentos únicos que (quase) só esta actividade poderia proporcionar.
Andava eu, em companhia de um cientista da OMS, a "tratar" rios perto do Monte Nimba, ali onde as fronteiras da Costa do Marfim, da Libéria e da Guiné Conakri se encontram. Era hora de almoço, numa manhã radiosa do início da época das chuvas. O Sol brilhava e alguns cúmulos pequenos e brancos, não muito altos, salpicavam o azul do céu. O ar lavado pela chuva matinal estava transparente e a visibilidade era perfeita até onde a vista alcançava.
Resolvemos aterrar numa "plataforma" perto de um dos topos de uma cordilheira que sobressaía dos montes à volta, para comer as bolachas que seriam o almoço.
Num daqueles sítios "onde ninguém esteve antes". Não há nada a fazer lá em cima e o acesso "a pé" não deve ser nada fácil.
Parado o helicóptero, utilizámos pedras como assento improvisado.

O local era magnífico! Uma "varanda" na beira do precipício que descia quase na vertical até aos campos, de pequenas colinas roladas, bastante mais abaixo.
E lá ficámos durante algum tempo a comer e a olhar a paisagem que se estendia à nossa frente. A cor predominante era, claro, o verde do capim que começava a ganhar força trazida pelas primeiras chuvas. Faixas mais escuras formadas por árvores de grande porte, definiam os rios. O cheiro da terra quente e húmida era um verdadeiro banquete para o olfacto. Os sons que vinham das terras mais abaixo eram ecos esbatidos, quase o silêncio. A paz era total! Seria possível haver algum prazer melhor que este?
Surpresa! Foi mesmo possível! Um pequeno bando de andorinhas passou várias vezes perto de nós em voo planado. O silêncio era tal que se ouvia um "sopro" (o ruído das asas esticadas a passar pelo ar) a cada vez que passaram perto de nós. Os pilotos de planador sabem o que quero dizer com este "sopro".
Este acontecimento, inesperado, foi um momento único que eu nunca vou esquecer.
Todas as horas voadas seriam compensadas por um único destes momentos. E foram tantos. E tão diferentes.



PARABÉNS JOSÉ CARVALHO !



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CONVERSAS DE TORRE (Ou, o relato de um reencontro recente)


Amigo e companheiro Corredeira
Há muitos e muitos anos que a tua imagem passa por mim porém, sempre difícil de te encontrar fisicamente.
Depois de me ter reencontrado com todo este companheirismo do Leste Angolano, tenho revivido muitas oportunidades de saudosa alegria.
Fui a dois convívios, detectei muitos conhecidos e perguntei por ti a pilotos presentes.
Agora, que me foram referenciadas duas fotografias (uma comigo exposto outra, contigo), tentei saber o teu endereço electrónico e fazer-te este contacto.
Fui controlador em H.C. desde Agosto de 1971 até Março de 1974. Estivemos juntos por várias vezes e, uma dessas vezes, foi na Torre de Controlo onde foram tiradas estas fotos. Pela sombra projectada numa destas fotografias, reconheci a minha pessoa. Tirei-te uma fotografia apanhando o ângulo virado para a placa dos aviões, e tu apanhaste-me dentro da Torre a fingir que contactava alguém.
Entre algumas histórias passadas entre nós, lembro-me especialmente de duas:
Numa das tuas múltiplas missões pelo Leste, numa delas, vinhas com proveniência do Camaxilo.

Nisto, ao contactares comigo utilizaste uma linguagem “não operacional” e relataste: “Henrique de Carvalho, Henrique de Carvalho, daqui a aeronave… proveniente da Marinha Grande, carregada com vidro e com destino a essa Base, …, …, escuto”.
Dei-te alguma “corda” porém, não sabia que estávamos a ser escutados na Esquadra dos Radaristas. 

Quando fui almoçar alguém me informou de que o capitão dessa Esquadra estava a experimentar um rádio e perguntou a um seu subordinado se sabia o que se estava a passar…
Lembro-me duma passagem interessante que me contaste… numa outra ocasião.
Referiste, com muita graça, e a propósito dalguma conversa cujo tema se entrelaçava com esta passagem, de que num daqueles dias enevoados, lá na tua santa terra, enquanto cuidavas da tua higiene pessoal, pela manhã, avistaste um sujeito a fazer as necessidades no teu quintal (ou, nas proximidades) sem que ele desse conta de que estava a ser avistado. Pensando ele que o nevoeiro tudo encobria. Esta pequena narração ficou na minha memória, achei graça no momento, e ainda hoje penso se aquilo que me contaste nessa época, ficou tão apegada no teu cérebro como ficou no meu!...
Dá novidades.
Da tua geração, lembro-me de muitos pilotos: Carlos Pinheiro, Jaime Anastácio, Tex, Ribeiro Silva, Abel, Arroja, Pedro Borges, David Morais, Hermano, Gomes da Silva, etc, etc.

Um abraço

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

TOMAR DUCHE A 300 PÉS DE ALTITUDE - 1969

Estávamos na época das chuvas, regressávamos de uma missão ao Luso e faltava cerca de 15 minutos de voo para avistarmos a base quando se nos depara uma frente de nuvens e das mais temíveis, as que mandam bastante chuva, entre elas os cúmulos-nimbos, o piloto, furriel Castanheira, se não me engano, um jovem (como eu) mas todo decidido, e como tal decidiu passar por baixo da referida nuvem que por sinal saía dela bastante chuva e vento.
Quando a alcançamos, a água começa a entrar por tudo o que era frestas das portas da cabina e aquelas pequenas janelas do avião, ao mesmo tempo sentimos o avião a ser puxado para baixo por uma força tremenda das correntes de ar descendentes vindas da nuvem, além de estarmos a tomar um valente “duche” víamos que as copas das árvores se aproximavam perigosamente do avião, nós os dois puxávamos os manches para a barriga, mas mesmo assim sentíamos que o avião teimava em descer.
Por sorte nossa a base da nuvem não era tão grande assim e quando a atravessamos vimos do outro lado a nossa querida base e uns raios solares como que a nos transmitir calma porque o pior já tinha passado.
Aterramos e quando estacionamos o M.M.A. que nos recebeu perguntou onde tínhamos andado por nos encontrarmos completamente encharcados.
Ainda havia quem falasse mal do DO-27, mas eu adorava aquele avião, nunca me deixou ficar mal.
Nota: Esta estória poderá ter algumas imprecisões por ser escrita 34 anos após os acontecimentos.

Lisboa, 01 de Junho de 2006

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A VISITA DE AMÁLIA RODRIGUES

8 de Maio de 1972, Amália Rodrigues no AB4
Eh, companheiros, fui à placa esperar pela Diva,e, tal não é o meu espanto, estava lá quase o AB4 inteiro, como se fossem ver a Jennifer Lopes, ou qualquer outra boazona. Quando vejo o comandante ou, 2º.comandante, não me recordo, a tratá-la com toda a reverência, como se estivesse a receber um general qualquer, e, melhor ainda, a tratá-la por "Dona Amália", a minha alma quase que "ficou parva", amigos!
Soube que ela foi ficar no palácio do Governador, como convidada.
Depois, foi o espectáculo no cinema Chicapa, um grande recital.
Com direito a autógrafo
Mas, antes de começar o espectáculo, passou-se uma cena com essa querida Senhora, a qual me fez guardar por ela uma grande admiração. Estavam uns poucos soldados do exército cá fora, sem $ (money) para assistir, e a Amália, grande mulher, veio cá fora, perguntou o que se passava. Contaram-lhe, e ela, acto imediato, mandou entrar todos, sem excepção, e disse o seguinte:- descontem os bilhetes, que eu pago todos, pois não quero ver nenhum militar impedido de ver o meu espectáculo por falta de dinheiro. Era o que mais faltava!-
A seguir, cá este vosso companheiro, que estava cá fora com outros camaradas do AB4 ( mas já munidos com os seus bilhetes de ingresso, comprados, claro!), entrou naquele maravilhoso anfiteatro tropical, ouviu a Diva cantar, aplaudiu-a a dobrar, saiu mais feliz, chegou à nossa querida base do AB4, dormiu mais descansado, sem não exclamar antes, como se fosse uma oração:- "Ah, Amália, merecias um monumento, cá da nossa malta!"
E não é que a grande senhora foi "parar" ao Panteão Nacional!? Sou um homem de paixões e de fortes convicções, com alma de artista, tal como ela a Diva, o era. Mas, que talvez não acreditasse, agora começo a crer que, sim senhor, Deus existe, e por vezes, Ele nos houve!
Um fraterno e sentido abraço, e... até ao nosso encontro, nos Céus das nossas aventuras com asas! 

Por:

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ABASTECIMENTO DE LAGOSTA

Nord em Gago Coutinho
Vila Gago Coutinho, todas as semanas chegava pelo Nord Atlas, com destino à companhia dos “paras” aquartelada em Ninda, um carregamento de lagosta, carregamento esse que transbordava para o DO 27, a fim de seguir para Ninda, juntamente com o correio.
Acontece que lagosta era coisa rara naquelas paragens (cerca de 600 km de Luanda) e não era justo que só os “paras” lhe metessem o dente.
Então apesar de haver um “espião” dos paras junto connosco em Gago Coutinho, o “Jackie”, tínhamos de lhes deitar a mão em local “reservado” e só durante o voo para Ninda, que durava apenas 30 minutos. Então após levantarmos voo eu passava para a zona de carga, descosia com um certo cuidado a saca das lagostas, e tudo o que era buraco no avião, levava uma lagosta, de forma que quando aterrávamos os mirones dos “paras” não conseguissem ver nenhuma “antena” a espreitar pelos buracos onde as colocava.
Pista de Ninda


No regresso enchia o nosso frigorífico com lagostas para a semana, e como sempre os nossos amigos “paras” lá ficavam com as suas desconfianças e com a impressão de que a saca das lagostas tinha encolhido na viagem.

Lisboa, 01 de Junho de 2006

sexta-feira, 20 de julho de 2012

CONVERSAS NA CIDADE Nº.2


Nota Introdutória
Com proveniência da Base e chegados à cidade para uma estadia de várias horas, os nossos convidados “especiais” encontram-se precisamente no cruzamento do “Hotel Pereira Rodrigues”.
Uma das avenidas, seguindo para Ocidente e passando resvés à “Fotolux”, caminha para o cinema “Chikapa”. Outra, projectando-se para Norte, reflecte uma paralela ao pequeno jardim do Hotel, dando rumo ao velho mercado e ao bar do “Estrela D`Alva”. Do Sul, acabou de chegar a carrinha da Base com os seus “veraneantes”, e para o Oriente, apenas a picada junto aos quartos do Hotel – atalho que servia aos destinos dos edifícios dos Correios, Palácio do Governo, Capela e Rádio Saurimo.
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Marrador – O Vito e o Joca despertos para darem “guiso” à língua, chegaram à tal dita “Las Vegas”. Na encruzilhada do “fala-fala”,… e nada se diz, no local próprio das “calhandrices”, e de “peito feito”- tal e qual como dois galitos da índia se tratassem, eis que afinam o “lamiré”, mas num tom mais citadino …,… elegante para a “gente da Alta”. Vou dar corda aos falantes…
VITOHummm…Humm…
JOCATemos boi?
VITO - Lá estás tu!... Não estás a ouvir o “quissanje” a tocar?
JOCA – Bruxooo… Há batuque na esplanada, e já sei porquê…
VITO – Estou à espera… Dá à língua.
JOCA – Não ouviste falar no casório do Dinis? Trata-se do seu casamento, e os “toca-toca” são o grupo da Base. Os da “FAP”
VITO – O quê?! Os do “Cacimbo”?
JOCA – Yes, meu! E têm como Maestro, o celebríssimo Bilinhos a dar à “guita”.
VITO – Hummmm…
JOCA – Lá estás tu a chamar a “vaca”…
VITO - Escuta-me os acordes das guitarras, retira-me os “bemóis”, conjuga-me os “sustenidos”, e o que é que te fica retido nos tímpanos?
JOCA – Eh pá…Eh pá… Há uma certa desafinação!... Talvez alguma guitarra com cordas de marinheiro ou, “nocal” em excesso?!...
VITO – Olha! Olha o “IIM Careca”!... Saca-lhe novidades.
JOCA – “IIM Careca”? Estás a ficar gago ou, com a garganta seca? É o QUIM. Se falasses em alhos – já lhe tinhas colocado o “Q”!...
VITO – Ehhh… Quim. “Tweia kuno ao Muata”.
JOCA – Com esses termos quiôcos…ainda chateias o “especial”.
VITO - Só estou a chamá-lo. Estamos na Terra dos “Lunda”.
QUIM – “Moio Weno”… “Gungungo”?
VITO – “Moio”… ainda conheço!...Agora, com feno?! Só se for aqui para o Joca !...
QUIM – “Moio Weno” é um cumprimento mais completo em “Quiôco language”. E “gungungo” – é a perguntar se estão com força e sadios.
JOCA – Estamos sadios. Com força?! Nem tanto! Aqui o Vito está a ficar gago e precisa de molhar a goela…e amolecer o feno!
VITO – Quim, dormiste no “Hotel Palhota”? Eu, e o Joca, fomos os primeiros a chegar à cidade e tu já cá te encontravas…Estadia no “quimbo”? Por isso…é que sabes falar bem o “matumbo”!...
QUIM – Estás a ver miragens. O melhor é irmos às “cucas” para o Lux Bar.
JOCA - Já vamos. Vou chamar aqueles “canhicas” para me engraxarem os sapatos. Quero cruzar as pernas e mostrar as “ferraduras” sem timidez.
VITO – Bruxooo. Acertaste na “mouche”. Também quero. Oh Quim, aguarda pela malta. Oh… “xacala”, vem cá ao “Muata”. Quanto levas pela graxa? Quanta “falanga”? Vá…tu, e o teu mano, vamos ver quem é o melhor, mais rápido, e cantante.
JOCA – “Canhica”, quero música com o pano. Ginga, puxa, puxa…
VITO – Este sim! Até põe “sustenidos” no bater do pano. Ehhh… “cambutinha”!... Pareces um barrote queimado, mas trabalhas bem. Puxa…puxa…
QUIM – Até bato o pé … para acompanhar o batido do pano… O Conjunto aqui em baixo é melhor do que o do casamento! As notas musicais da esplanada estão a sair como bolas de sabão… Poc…poc…poc…
VITO – Meninos, já chega de tanta “cuspidela” no pano. Apanhas-me distraído, e da graxa – só sai cuspo? Toma cinco “falangas” e não digas que vais daqui…O quê? “falanga Kake”? É pouco?!
JOCA – Deixa. Eu dou mais cinco “falangas”. “Moio”, “moio”. “Zungo Kawaxi”.
QUIM – Um dos “canhicas” disse “tuje”!...
VITO – Aihhh… O Joca perguntou-me há momentos se tínhamos boi. Agora, Os “matumbos” dizem “muge”?!...
QUIM – “tuje”…”tuje” – “bull shit”!...
Marrador – Nesta “lenga-lenga” de encruzilhada, lá se ia passando o tempo duma forma descontraída, antes de se deslocarem para outras paragens. E que paragens? Mais metro, menos metro, e esbarrava-se com as sanzalas, com os musseques e os quimbos!... Deambulava-se de canto, sobre canto – na conversa fiada!...
VITO – Há tempos atrás fui apanhado neste local…com uma pinta do caraças!...
JOCA – Deram-te os gases?
VITO – Não. Mas fiquei azedo que só me deu vontade de tirar o “cabaço” à filha do pedreiro.
QUIM – Do pedreiro da Base?
VITO – Sim, sim. A que trabalha no Rádio Clube Saurimo. Olha!... colega do Dinis… Essa linda, como uma “tusula tchibandala”. Telefonou para a Base a querer falar comigo. O telefonista, nosso conhecido, encaminhou a chamada para mim a dizer que se tratava duma donzela que me queria segredar. Afiei a “dentola”, parafinei o “pífaro”, afunilei o bigode, insalivei a garganta, e numa voz suave e doce…anunciei-me. “Faça favor de se espremer”… falava assim o galanteador!... Ela, meigamente, com uma voz de derreter aço, convenceu-me a esperá-la neste local à frente de nós. Aqui, no jardim do Hotel, às 15:00 h, defronte daquelas janelas dos quartos do “Pereira Rodrigues”.
JOCA e QUIM – Vieste cá?
VITO – Vim. Quem não teria vindo? Com aquela voz – até me achei o “Elvis Presley”!...
JOCA e QUIM – Não pares. Acaba a “marração”. Talvez nos arranjes companhia para trincarmos as “moelas”…
VITO – Esperei … esperei … e já cansado e com o pescoço pendente de tantas curvas voltear – desanimei. Quando me desloco para sair da “ratoeira”, eis que lá de cima do Hotel oiço uma risada desenfreada. Era a “mula” com a pança cheia de gozo….
JOCA – Caíste? E as colegas a curtirem, também?
VITO – Deixa, deixa, que ainda lhe abato o “cabaço” e não pagarei nada ao “soba”.
QUIM – Não te aborreças com essa. Num baile do “Chikapa” fui para a convidar para uma dança, e quando ela se levantou da cadeira, gulosa para me abraçar, dirigi-me para a colega do lado e tomei a outra como minha dançante.
JOCA – Deste-lhe uma “tampa”?
QUIM – Das grandes. Parecida com a “Carlota” da feira – aquela que vende rifas!… Para gozona, gozona e meia…
VITO - Gozona, e…toda!. Toda, e no “sundji” dela.
JOCA – Maldoso!...
VITO – Vamos, vamos à “cuca” e à “nocal”, ali no Lux Bar. Depois, das “moelas”, comemos uns “pi-pis” com “gindungo” a valer. Segue-se uma “bilharada”, e tomamos rumo ao “Estrela D`Alva” ao encontro dos “Neves” – companheiros de estrada batida.
JOCA – Já me está a dar a “nzala”. Só “fominha” amarela!...
QUIM – Atacamos! Ainda mal nasceu o dia…e já vai longa a “cavacada”!...
Marrador - A poucos metros do cruzamento, situava-se o famoso Lux Bar, na avenida de maior circulação. Neste lado da avenida e até ao dobrar de ambas as esquinas, ficavam nos prédios de dois andares; a Foto Lux, o Banco, lojas comerciais diversas. Defronte, tínhamos o jardim com arvoredo crescido e alguns bancos. Caminhando para o Norte, a poucos metros e no topo do jardim, saía uma perpendicular de estrada oriunda do velho cinema “Chikapa” e Capela – com seguimento para a direcção do Oriente, Bar das Bombas de gasolina, (Mobil), Luso.
O segundo destino dos nossos “capangas” seria o “Estrela D´Alva”, e para isso, teriam que descer a avenida, cruzar com a via da Capela-Luso, passando a roçar pela paragem dos camiões e autocarros de passageiros, pelo velho mercado indígena e pela Casa de Circunscrição Florestal de Angola … onde morava a belíssima Amélia, a de cabelos loiros...loiros de arrepiar. Apre….. Até breve O amigo

quinta-feira, 12 de julho de 2012

NOMES QUE FIZERAM A HISTÓRIA DA AERONÁUTICA PORTUGUESA


O ar exercerá sempre um enorme fascínio sobre o Homem. Isto acontece há séculos, em todo o Mundo, e os portugueses não poderiam ser diferentes. Portugal é conhecido por ser um país de marinheiros, de navegadores, de gente corajosa que se lançou ao mar para descobrir novas terras. No entanto o nosso país também tem marcado grandes e importantes páginas da História da aviação, mesmo que tais factos sejam menos conhecidos ou, então, apenas menos divulgados. Muitos nomes ficarão para sempre ligados ao percurso da aviação e um conjunto deles escreve-se em língua portuguesa.

Vale a pena conhecer melhor quem foram os pioneiros, os primeiros a aceitarem as mais perigosas aventuras. Muitos são os nomes e as historias que vale a pena conhecer, porque ninguém fica indiferente ao acto de voar, não há quem não reaja ao ruído de um motor de avião.

Os feitos históricos dos aventureiros nacionais devem encher de orgulho a nossa herança, mesmo que tenham passado anos demais sobre esses factos históricos.
D. Luís de Noronha
O primeiro aviador português a voar no nosso céu com brevet da F.A.I. chamava-se Luís de Noronha e acabou por falecer no mesmo ano em que obteve tal distinção. Sócio do Aero Clube de Portugal e um dos grandes incentivadores da aviação nacional, tanto militar como civil, promoveu a constituição de escolas de aeronáutica.
Morreu a 24 de Julho de 1913, na sequência da queda do aeroplano que pilotava, numa apresentação nas Festas da Cidade de Lisboa, daquele ano.
Jorge de Castilho
Visto como um verdadeiro cidadão do Mundo, Jorge de Castilho nasceu em Lisboa a 23 de Maio de 1880, e morreu no outro lado do Mundo, na Austrália, mais propriamente em Melbourne, em Fevereiro de 1943. Estudou engenharia na universidade de Louvaina, na Bélgica, regressando a Lisboa sem o curso terminado, matriculando-se, então, na Escola Politécnica de Lisboa. Em 1902, entrou na Escola do Exercito, onde tirou o curso de Oficial de Infantaria.
Foi promovido a alferes em 1906 e, dois anos depois, partiu para Moçambique como ajudante do governador. Em 1910, foi nomeado governador do distrito de Damão, lugar que ocupou durante quatro anos. Em 1914, passou à situação de licença e partiu para o Brasil, onde se dedicou ao ensino. Com a entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra, regressou e foi integrado CEP.
Participou na Primeira Travessia Nocturna do Atlântico Sul como navegador do Argos em 1927.
No ano seguinte, foi promovido a major e colocado na arma da Aeronáutica, prestando igualmente serviço na Comissão de Cartografia do Ministério das Colonias. Entre 1929 e 1932, executou trabalhos de delimitação de fronteiras em Angola e Moçambique. Em 1937, foi promovido a coronel e nomeado chefe dos Serviços Meteorológicos do Exercito. Nesse mesmo ano passou à reserva.
Crédito: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa