sexta-feira, 9 de junho de 2017

UM MAGRO NA PRISÃO DE GAGO COUTINHO


Numa terça-feira (dia de São NordAtlas), dia em que a maior parte dos militares aquartelados em Gago Coutinho ia à pista de aviação ver quem chegava e aguardar pela entrega do correio, o nosso Furriel Magro estava de Sargento de Piquete. Este serviço em Gago Coutinho era desgastante, já que o Comandante do Batalhão ordenava que o piquete, durante toda a noite, fizesse constante patrulhamento fora do quartel, ou seja, concretamente, patrulhar a vila.
O nosso Furriel Magro, após o render da parada, dirigiu-se ao alferes responsável pela oficina auto, alferes de origem indiana e do qual não se lembra o nome e ao qual requisitou dois Unimogs para o serviço do piquete (15 homens, incluindo furriel e condutores).
O alferes disse-me de, imediato, não ter viaturas operacionais, apenas um jeep disponível. Fiz-lhe ver que tinha de ir fazer segurança à pista de aviação, para o NordAtlas aterrar em segurança e tinha de, á noite, fazer o patrulhamento à Vila.
"Ó pá já lhe disse que não tenho viaturas operacionais, algumas já saíram em serviço e estes aqui estão para ser reparados, leve o jeep se quiser".
Perante esta situação eu disse para comigo: "Ai é assim, então esperem para ver no que isto vai dar!"
E não é que deu mesmo para o torto, pois até meteu prisão e tudo!
A hora da chegada do Nord, avião de carga (o barriga de ginguba , como lhe chamavam) era pelo meio da manhã. Avisei o pessoal de serviço de que não havia viaturas e ordenei ao cabo condutor que fosse buscar o jeep (um Willys) e que estivesse atento à chegada do avião.
Por volta das 10,30 horas o NordAtlas apareceu no ar e eu ordenei ao condutor do jeep que com 4 militares seguisse para a pista que eu seguiria a pé com os restantes elementos que estavam de piquete.
O avião sobrevoou a pista duas vezes e não aterrava.
Eu, entretanto, em passo de corrida com os restantes elementos do piquete, fui para a pista e dirigi-me ao alferes que estava de oficial de dia e informei-o que não havia viaturas operacionais e portanto a segurança à pista era efectuada por 4 militares que se deslocavam no jeep e eu seguiria a pé com os outros militares para completar a segurança.
Entretanto, o piloto deu indicação via rádio que não aterrava devido à falta de segurança em volta da pista.
Eu já seguia a pé com os homens, cinco de cada lado, na mata existente na orla da pista.
O avião deu mais uma volta e lá acabou por aterrar. Descarregou o que tinha a descarregar, embarcou quem tinha que embarcar e passados 30 a 40 minutos voltou a levantar voo. 
O piquete regressou nas calmas ao ponto de partida e quando lá cheguei estavam o Comandante do Batalhão e o Alferes Oficial de Dia à minha espera. Bati a respectiva pala e de imediato o Comandante ordenou ao oficial de dia que metesse todo o piquete na prisão, por 3 dias.
Lá fui eu e os restantes militares atrás do oficial de dia, o qual não sabia onde era a prisão, nem sequer se a mesma existia. Ao fim de algum tempo lá “encatrafiou” os 14 militares numa arrecadação e a mim disse-me que não tinha local para me prender. Eu ainda lhe disse que não me importava de ficar preso junto do pessoal que eu comandava, mas entretanto lembrei-me que na tropa existiam prisões separadas para praças, sargentos e oficiais.
Face a esta situação, disse-me para eu ficar preso na caserna dos sargentos. Eu lá fui para a minha cama e comecei a berrar que estava preso, que não me incomodassem e que exigia que me trouxessem o "tacho" à cama, o que assim veio a acontecer. O alarido por mim feito começou a surtir efeito e toda a gente queria saber o que tinha acontecido e, sempre que alguém se aproximava de mim para indagar o que tinha acontecido, eu, aos berros, corria com o pessoal dizendo que estava preso e não tinha direito a visitas e que fossem pedir autorização ao oficial de dia para me poderem visitar.
Esta situação era caricata já que a caserna era grande e dormiam lá vários militares que tinham forçosamente que comigo conviver, mas eu fazia questão de cumprir o meu papel de preso, ponto final!
No segundo dia, pela manhã, o 1º. Sargento Humberto (um militar culto e de bom nível) veio
junto de mim, perguntou-me se podia falar comigo e disse-me: "Olhe lá ó Magro, você está a levar isto numa de desportiva, mas olhe que as férias vão-lhe para o caraças e esta coisa, a andar prá frente, pode vir a dar-lhe cabo da vida. Trate mas é de arranjar uma folha de papel de 25 linhas e faça já uma exposição-reclamação dirigida ao Comandante, contestando a prisão, pois pelo que eu já soube, você não tem culpa absolutamente nenhuma do sucedido."
Eu segui os conselhos do 1º. Humberto e lá redigi a reclamação. O alferes responsável pela oficina auto foi testemunha e confirmou a inexistência de viaturas operacionais, o alferes oficial de dia confirmou que eu me apresentei junto dele na pista, informando-o que não tinha viaturas e que a segurança da pista, ainda que deficiente por falta de viaturas, foi efectuada a pé. O 1º. Sargento Humberto, introduziu-lhe alguns termos e preceitos militares e lá mandei entregar a exposição ao Comandante.
Na tarde do 2º. dia de prisão o Comandante mandou chamar-me ao seu gabinete, através do oficial de dia. Dirigi-me para o Gabinete do Comandante, mas antes passei pelo local onde estavam presos os soldados e encontrei a arrecadação aberta e sem ninguém.
Lá segui para o gabinete, entrei bati a pala e fiquei em sentido aí a uns 2 metros da sua secretária. O Comandante era um homem baixote e de bigodinho e óculos grandes. Tinha sido anteriormente, segundo diziam, Comandante da polícia, creio que em Lisboa e, portanto, estava habituado a resolver tudo através da prisão, penso eu.
Depois de olhar para mim e para a folha de 25 linhas, levantou novamente o olhar para mim e disse-me: "olhe isto que está aqui escrito não vale nada". Eu reagi afirmando: "Meu Comandante o que aí está escrito é a pura realidade do que se passou a não ser que o meu Comandante pretendesse que eu com um jeep de 4 lugares tivesse lá colocado 15 militares e isso eu não fiz nem nunca farei".
O Comandante respondeu-me: "Pode-se retirar, o seu capitão está ausente, eu irei falar com ele logo que ele chegue, a fim de me informar acerca da sua valia militar".
Retirei-me e, mal tinha saído do gabinete, dei com a presença de alguns soldados que tinham estado presos, cá fora á minha espera (souberam da minha ida ao gabinete do Comandante) e de imediato me interrogaram: "O que é que o 'Zé da Fisga' (alcunha do Comandante que os soldados criaram) lhe quer? A nós já nos libertaram porque amanhã vamos participar numa operação de 3 dias e precisavam de nós". "Ai é?!" - disse eu - "Se calhar a mim vai-me suceder o mesmo".
Foi verdade e eu também alinhei nessa operação de 3 dias. O episódio da prisão de todo o piquete acabou no segundo dia devido á necessidade dos 15 militares para uma operação. O capitão nunca me tocou neste assunto, o que me leva a crer que o Comandante nunca lhe falou sobre o episódio do piquete que foi todo engavetado por não ter viaturas operacionais para efectuar o serviço de segurança á pista de aviação.

Conclusão:
- 15 militares foram presos por não existirem meios que possibilitassem a execução do serviço de que estavam incumbidos!
- Os mesmos 15 militares foram soltos no 2º. dia de prisão, a fim de participarem numa operação!

Ele há coisas que, de tão absurdas, só mesmo na guerra é que podem acontecer. 

Por: Rogério Alberto Valente Magro
ex-Fur. Milº Atirador de Infantaria CCAÇ 1719
Angola - 1967/1969 



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