sábado, 15 de abril de 2017

MEMÓRIAS DE HENRIQUE DE CARVALHO E CAZOMBO


- Dedicado ao piloto Miguel Abecassis -

Apenas para situar as coisas, fui cabo meteorologista na incorporação de Janeiro de 68, e estive em Angola entre Maio de 70 e Junho de 72. 
Lá longe, em Henrique de Carvalho dei de caras com um vizinho de Lisboa, do meu bairro (do Restelo), mais ou menos da minha idade. Era o Miguel Abecasis, um dos filhos mais novos de um rancho grande (julgo que 10 ou à volta disso). O bairro do Restelo é um conjunto de 400 casas mandadas construir mesmo no final dos anos 40, penso que os primeiros habitantes (como a minha família) instalaram-se lá em 52 ou 53. Todas as casas têm generosos quintais, para delírio da miudagem (eu tinha 4 ou 5 anos), e nós circulávamos entre os quintais, e eu, também o mais novo de sete, brincava com o Miguel, as coisas da altura, a macaca (ou avião, como lhe chamávamos), o berlinde, as corridas de carrinhos Dinky Toys ou de caricas com as imagens de futebolistas nos beirais dos passeios, e descidas de carrinhos de rolamentos. 
Passaram os anos e perdemos o rasto um do outro, a vida levou-nos para trajectos diferentes, menos a opção pela Força Aérea. Comecei por encontrá-lo em Henrique de Carvalho, e algum tempo depois, no Cazombo. 
O Miguel Abecasis era um bonitaço e fazia grandes estragos entre as meninas de Henrique de Carvalho e entre as filhas dos oficiais, era aventureiro (é o espírito de piloto), sedutor, muito simpático (embora reservado) e cativava as pessoas. 
Dei com ele em Julho / Agosto de 70 no Cazombo.




Agora vou contar a história tal como me lembro, mas é possível que, passados 46 anos, estejam a passar umas nuvens na memória. 

Um dia, o Miguel estava a entrar para um T6, e eu a olhar enquanto ele subia a escadinha de ferro, diz ele: Queres vir? E eu, meio atrapalhado, nunca tinha andado “naquilo”, mas na alegria dos meus 21 anos da altura, disse que sim. 
Não me recordo que tenha sido feito qualquer registo da minha presença naquele voo, simplesmente subi a escadinha também, e instalei-me no banco de trás, um miúdo excitado na maior aventura da sua vida… 
O Miguel disse-me que ia à caça. Perguntei-lhe se era caça de “turras”, ele disse-me que não, era caça mesmo. Fiquei a meditar e a imaginar caça em Africa, pacaças, palancas, coisas assim. 
E levantámos. Em vez de seguir numa direcção em linha reta afastando-se do aeródromo, dei com ele a tentar assustar-me na brincadeira (e parcialmente conseguiu) a fazer algumas passagens sobre a pista, primeiro faz um tonneau (fantástica experiência) depois aproximou-se do chão e começou a fazer um voo rasante, a uns 6 ou 7 metros do chão, em direccção a duas antenas (ao lado da pista). Eram duas varas de ferro afastadas uns 10 metros uma da outra, com uns 15 metros de altura, (que naquela altura não tinham nenhum cabo ou antena a uni-las). E eu a ver a aproximação e a pensar, “o gajo é doido, vamos bater com uma asa numa das varas, caraças”. Bom, no último momento virou o manche (ou mancho?) e passou as asas de horizontal a vertical, e passou alegremente entre as duas varas ! Ufffff….e eu a gritar-lhe “ganda doido, olha que eu quero voltar a Lisboa”!!! Mas acho que ele não ouviu, o barulho dentro da carlinga de um T6 é enorme… 
Então afastámo-nos para norte, (disse-me no fim do voo que tínhamos ido até meio caminho entre o Cazombo e a fronteira norte do quadrado do Cazombo) a uns 50 Kms do aeródromo. Só percebi que tínhamos chegado onde ele queria quando desceu e fez duas ou três voltas até a uns 100 metros de altitude, em círculos, e depois subiu novamente e mete o avião quase a pique, (aí acagacei-me…) e eis que começa a disparar as metralhadoras das asas. Espectáculo!!! Aquilo fazia estremecer o avião com alguma violência, e visto a partir do meu lugar atrás do piloto, tinha a imagem nítida do tracejado das balas em “V” até ao solo (senti-me num avião do major Alvega dos livros de quadradinhos), e lá em baixo começo a ver uma manada de animais (soube depois que eram vacas de mato) a cair, umas a seguir às outras! Fez mais uma passagem a disparar e depois subiu, colocando-se, em círculos, aí a uns 300 a 500 metros de altitude. Não percebi para quê andar ali às voltas, até que vejo um Alouette III por baixo de nós a aproximar-se do chão e a pousar junto às vacas caídas, mortas (as sobreviventes debandaram, naturalmente). Aquilo demorou bem mais de meia hora, lá de cima eu não percebia bem o que se passava, só quando voltámos ao Cazombo é que o Miguel me explicou: Tínhamos ficado aos círculos em voo relativamente baixo para indicar ao heli o sítio preciso onde estava o produto da caça, e do heli desceu um mecânico (que tinha sido talhante na vida civil), e com uma faquinha muito afiada, de lâmina curva, separou das carcaças aquilo que tinha mais “chicha”, mais carne, as cochas e os lombos, e encheu o heli até ao limite possível de carga. 
Ao jantar desse dia, e nos dias seguintes o rancho melhorou substancialmente entre o pessoal da FAP… 

Junto duas fotos do Miguel Abecasis (é o que está à civil a ler uma revista) e de mim (fardado, de óculos, à direita) numa carrinha que nos levava e trazia entre o AB4 e a cidade (Henrique de Carvalho). Lembro-me muito bem das caras dos outros presentes nas fotos, mas nomes….nicles !!! 
PS: O Miguel, infelizmente, já faleceu há anos, com uma complicação de várias maleitas graves. Era filho do General PILAV Krus Abecasis (também já falecido, em 2012, com 92 anos).

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