sexta-feira, 17 de outubro de 2014

SALSICHAS TROPICAIS

Messe dos Especialistas do AB4
Para quem não fez o serviço militar e não andou por África, é difícil compreender esta coisa tão simples como sentarmo-nos à mesa e comermos com gosto. 
Self-service do
AM 44 Luso
A Força Aérea, era tida como a Arma mais rica do sistema de defesa, e se nos abstivermos das condições pouco mais que precárias existentes nos destacamentos (no caso concreto do Leste de Angola, todos eles na linha da frente por onde passavam todas as grandes operações militares dos três Ramos das Forças Armadas Portuguesas) até a afirmação tinha um certo fundo de verdade, não por mérito das Chefias da FAP, mas mais por demérito dos restantes Ramos Militares.
Vem tudo isto a propósito da diferença abissal do "rancho" servido nas Bases proveniente das cantinas da Força Aérea, e dos "alimentos" fornecidos pelo Exército aos Especialistas e Pilotos nos destacamentos mais isolados. Culinária, não era disciplina ensinada na recruta, mas uma utilização mais racional dos alimentos disponíveis não teria sido uma perda de tempo e ganhar-se-ia em bem estar, mais empenho e satisfação do pessoal. 
Em longos períodos de forçada má nutrição, vinha ao de cima a tradicional capacidade de desenrasque dos Portugueses, depois de andarmos a comer latas de pêssego em calda durante dias, era necessário e urgente variar a "dieta alimentar". No Cazombo existia um cozinheiro, em Gago Coutinho e Neriquinha tínhamos que gramar a "ementa verde" como não existia uma delegação da manutenção militar, qualquer cantina proporcionava as tradicionais conservas de peixe e carne. 
Foi num rasgo gastronómico genial que a receita das salsichas tropicais foi inventada, experimentada e aperfeiçoada até à exaustão, prato simples, com alto teor calórico, e com ingredientes de fácil manuseamento até para nós que de trens de cozinha o que mais utilizávamos era o abre-latas.
Da receita base constava "por cabeça", uma lata de salsichas, variando o número e o tamanho destas consoante a fome dos comensais, uma lata de feijão encarnado, um ovo, uma cebola pequena, dois dentes de alho médios, sal, colorau, azeite e piripiri a gosto, (daí o tropicais). Num tacho introduzia-se a cebola e o alho picados, um fio de azeite suficiente para o refugado e parte do feijão para criar o molho, refugada a mistura, juntavam-se as salsichas cortadas em bocados a gosto, o feijão, e o ovo cozido à parte, migado miúdo, acertava-se o sal e aguardava-se que o feijão se envolvesse com o ovo e as salsichas formando uma pasta homogénea, apimentada a gosto com o gindungo ou piripiri. 
Quando inventei o acepipe, ninguém ligou à actividade frenética que se passava na copa, havia estômagos para tudo e nem toda a gente era tão má boca como eu, mas quando saí em direcção à mesa e o cheirinho do feijão atingiu as narinas dos meus companheiros de infortúnio, toda a gente quis ensopar o pão no molho, e rapidamente fiquei sem almoço, já que há sopas e "sopas".
Aprovada a receita, foi sendo enriquecida com outros ingredientes, qual "sopa de pedra", mas a original foi a que obteve mais impacto, e só nos perguntávamos como era possível que dois ingredientes (salsichas e feijão) que sozinhos comíamos a contragosto pudessem juntos ser tão apetitosos.

Gago Coutinho, 1973

Escrito por:
JFA OPC


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