sexta-feira, 11 de maio de 2012

A MOLA...

(Para não melindrar ninguém, não vou dizer nomes de pessoas nem de locais.)


Uma ideia simples pode dar origem a um sistema muito prático. 
É o caso da mola que levanta o banco de trás do ALIII. Como todos se devem lembrar, quando os bancos de trás não tinham peso em cima, sob o efeito da mola, levantavam-se e ficavam na vertical, encostados à “parede” de trás, deixando livre todo o espaço para trás das costas dos bancos da frente. Esse espaço poderia então ser ocupado por todo o tipo de “carga”: macas para feridos, o canhão, sacos de correio, víveres para um destacamento isolado, etc. O ALIII era, assim, um veículo muito versátil e adaptado às diferentes necessidades da guerra. Toda esta versatilidade devia-se, em boa parte àquela simples... mola!
A imaginação (e atrevimento!) do Jofre mostrou-me, um dia, ainda mais uma utilidade para a dita mola.
Eu era um “maçarico” e o Jofre estava a “largar-me em destacamento”. Naquele princípio de manhã reinava a calma no pequeno destacamento da FAP, encostado ao aquartelamento a que dava apoio aéreo e que era a sede da Companhia do exército. O pequeno-almoço tinha acabado havia pouco e da sala de rádio vinham os sons próprios de todas as manhãs. No entanto a calma estava prestes a acabar...


Chegando com passo decidido, entrou pela pequena sala de refeições o Sr. Major do exército. Sem mesmo dizer bom dia “disparou” em direcção ao Jofre: “Preciso que me leve, de helicóptero, ao destacamento “xis”. Quando a frase chegou ao fim ainda o Jofre não tinha chegado à posição vertical que o posto do visitante exigia. Aprumando-se mas pondo os pontos nos is, o Jofre respondeu-lhe: “Não é assim, Sr. Major. Nós estamos aqui para dar apoio à sua Companhia mas isto obedece a normas. A Companhia deve fazer um pedido de apoio e eu analiso se o posso satisfazer ou não. Neste caso digo-lhe já que não posso. O helicóptero não é um táxi. Estamos aqui para satisfazer as necessidades operacionais como, por exemplo, evacuações sanitárias”. 
O Major não se deu por vencido e disse: “Então vá preparando o helicóptero porque daqui a dez minutos vai receber um pedido de evacuação.” E saiu.
“Lá vamos nós levar este gajo.” – disse o Jofre, consciente do que se seguiria. E saímos todos em direcção ao helicóptero para o preparar para sair.
Eu, maçarico, fiquei espantado com o à vontade do Jofre perante um... Senhor Major.
Pouco tempo depois reapareceu o Major, com um pedido (escrito) de evacuação. E lá fomos! O Jofre aos comandos. O mecânico e eu nos lugares da frente e o Major no banco de trás. A viagem duraria cerca de 20 minutos.
Pelo caminho o Jofre foi-me mostrando algumas referências no terreno e dando alguns conselhos. Ao mesmo tempo ia comentando a prepotência e falta de respeito de alguns militares que usavam os galões para impor a sua vontade. Aquela situação tinha, visivelmente, incomodado o Jofre. Claro que o Major não tinha auscultadores e não podia ouvir a conversa. Aliás, em “grande operacional”, nem o cinto tinha posto.
A curta viagem correu bem e o destino já se avistava ao longe quando o Jofre se agitou no banco e se voltou para o painel de instrumentos ao mesmo tempo que nos dizia para não nos assustarmos mas que iria pregar uma partida ao Major. E que partida!...


Bruscamente, o Jofre pôs o passo em baixo e, sem o cinto, o Major foi “disparado” contra o teto enquanto que a mola fez aquilo para que foi desenhada: levantou o banco que se encostou à parede de trás. Quando, quase de imediato, o Jofre repôs o passo, o Major bateu estrondosamente no “chão”. 
Durante o resto do percurso o Jofre, simulando uma grande preocupação, continuou a mexer em tudo no painel de instrumentos. O Major, muito assustado e sem entender o que se passava, nem se levantou mais até à chegada ao destino.
Aterrámos junto ao destacamento e o mecânico foi abrir a porta ao Major que saiu imediatamente.
Como previsto, não havia ninguém para evacuar. O Major, embora o Jofre lhe tivesse garantido que seria capaz de voltar “sem problemas”, decidiu fazer a viagem de regresso em viatura.
O Jofre tinha razão: embora tivéssemos rido bastante, a viagem de regresso passou-se “sem problemas”. Quanto a mim, aprendi que uma simples mola pode ter um papel importante na demonstração de quem é quem.

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2 comentários:

  1. Algns desses senhores tinham o rei na barriga e como tínhamos cara de putos abusavam um bocado.Mas ouvi algumas histórias do Jofre sobre esse
    tipo de gente.E creio que alguns até ficaram apeados, qdo não enjoados.
    Carlos Gaspar

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