quinta-feira, 26 de outubro de 2023

VOO 2547, MISSÃO À ÍNDIA

Aeroporto de Dabolim-Goa

Ten. Paraquedista Maria Arminda:
Foi no dia 18 de Dezembro, de 1961 que a Índia foi invadida pelas tropas da União Indiana no governo do seu primeiro-ministro, o Pandita Nehru, como à data se dizia.
Hoje vou recuar no tempo e relembrar porque tal facto fez parte da minha vivência cheia de emoções, que não se apagaram da minha memória.
 Luanda 1961, Maria Ivone Reis
e Maria Arminda Santos 
Prestava serviço em Angola, Luanda, como enfermeira pára-quedista, onde tinha sido colocada; tinha ali chegado a 12 de Outubro de 1961 na companhia das minhas colegas, Maria da Nazaré e Maria Zulmira – já falecidas - chegando a Maria de Lourdes, também apelidada de Lurdinhas, pelo seu aspecto físico mais franzino, cerca de duas semanas depois.
Terá sido entre os dias catorze a dezasseis de Dezembro que nos soou que se encontrava de prevenção uma companhia de pára-quedistas para a hipótese de ser necessário enviá-la para o Estado da Índia Portuguesa; havia notícias de uma possível invasão daquele território por parte dos Indianos, que estavam a concentrar as suas tropas nas nossas fronteiras. A 2ª companhia, comandada à época, pelo Cap. pára-quedista Heitor Almendra, a que estava destinada essa missão, partiria por via aérea até à Beira, através do canal de Moçambique, por ser geograficamente mais próximo desse nosso território e haver habitualmente uma ligação entre Goa e Moçambique assegurada pelos TAIP (Transportes Aéreos da Índia Portuguesa).
Dissemos que se fosse necessário também nos oferecíamos para ir; tínhamos a consciência de que por certo não poderíamos ir todas, dado o trabalho a desenvolver em Luanda. Trabalhávamos nos postos de socorros das companhias, íamos em missões de vacinação às tropas estacionadas na Base Aérea do Negage e outros locais, dávamos apoio ao bloco operatório do hospital militar e na Direcção do serviço de Saúde da Força Aérea, onde também eram tratadas as famílias dos militares e pessoal civil. Acresce ainda que assegurávamos o acompanhamento de feridos e doentes, nas denominadas “Evacuações Aéreas” entre Luanda e Lisboa.
Nessa manhã tratámos da esposa do Senhor Cor. Magro, que a acompanhava, e com quem desabafámos sobre a hipótese da nossa ida à Índia, ao que o mesmo respondeu com ar de troça: “Falam assim mas sabem que não vão, porque se tivessem que ir, se calhar não quereriam”. É claro que estava a brincar connosco pois, além de conhecer o nosso empenho, era acima de tudo nosso amigo. A conversa ficou por ali e combinou-se que à noite, eles viriam a nossa casa, para fazermos o tratamento à senhora.
O dia passou-se tranquilamente e não mais se ouviu falar da saída dos Páras, nem do seu embarque. Após o jantar a Nazaré e eu fomos chamadas à 2ª. companhia (sedeada em Belo Horizonte), a mesma que estava de prevenção, onde alguns militares apresentavam sintomas de paludismo.
Um avião DC-6 da Força Aérea estava a essa hora prestes a partir para Lisboa, com passageiros sem feridos ou doentes, pelo que nenhuma de nós previa viajar nesse voo. Acontece que um rádio chegado pouco tempo antes ao comando da Região Aérea, tinha entretanto dado instruções para embarcarmos com urgência nesse transporte a Nazaré e eu, ficando atrasada a hora de saída do DC-6 até ao nosso embarque.
O capitão pára-quedista Jerónimo Gonçalves dirigiu-se a nossa casa e tendo encontrado a Zulmira e a Lurdinhas, disse-lhes que “tínhamos que embarcar imediatamente no avião que aguardava a nossa chegada para partir” e informou-as de que “iríamos para a Índia”. Como ainda não tínhamos chegado o oficial saiu ao nosso encontro, enquanto as duas preparavam as nossas bagagens com algumas peças de roupa, umas a mais e outras a menos.
Daí a pouco chegámos nós nas calmas, muito longe de imaginar o que se estava a passar; ao vermos a Zulmira, excitadíssima, gritar-nos do alto da janela da pensão da dona Maximina, onde habitávamos, “despachem-se e subam depressa que têm que ir para a Índia”. Começámos a rir, pensando que elas nos estavam a pregar uma partida. Perante as malas de viagem prontas e as palavras do oficial é que ficámos convencidas e, tal como estávamos vestidas, despedimo-nos apressadamente sem tempo sequer para ver as roupas que nos tinham emalado, para um clima que não conhecíamos.
Na saída deparámo-nos com o senhor Coronel Magro, que vinha com a esposa levar a injecção; vendo todo aquele aparato e a nossa pressa interpelou-nos, acabando por saber naquele momento o nosso destino. Escusado será dizer que o senhor ficou perplexo, visto ser um dos comandantes da Região Aérea, mas como o rádio tinha chegado fora do horário normal, não tinha dele conhecimento. Despediu-se de nós, desejando-nos que a missão decorresse bem e ainda brincou acerca da conversa que tínhamos tido de manhã.
A pressa foi tanta que, chegadas à placa, entregámos as malas ao oficial responsável pela carga de embarque de passageiros e muito lestas nos vimos dentro do avião, sem que o restante pessoal se apercebesse. Foi o capitão. Jerónimo Gonçalves quem comunicou ao Senhor General Resende que já estávamos a bordo, a aguardar pelos restantes passageiros; O Gen. Resende era o responsável máximo da Força Aérea em Angola e possivelmente teria recebido a comunicação directa de Lisboa, tendo-se deslocado propositadamente ao aeroporto, para se despedir de nós. Pedimos desculpa pelo lapso e despedimo-nos do Senhor General, com certa estranheza, dado o insólito da situação.
No decurso da viagem para Lisboa comentámos entre nós, que não levávamos nenhum dinheiro nem roupa quente. Íamos com um vestido leve e de manga curta, dado que naquela data em Angola era verão e na metrópole inverno. Depois de quase vinte horas de viagem, com escalas em S. Tomé e na Guiné, chegámos ao aeroporto da Portela cerca das dezassete horas, com um dia gélido, de apenas quatro graus, segundo nos disseram.
Esperavam-nos o Senhor Coronel Kaúlza de Arriaga, Secretário de Estado da Aeronáutica e esposa a Senhora Dona Maria do Carmo Arriaga. Acompanhavam-no o seu chefe de gabinete, Tenente-coronel Troni e um dos oficiais às ordens, o Alferes Francisco Pinto Balsemão; o outro era o Alferes Francisco Vanzeller, que nós também já conhecíamos.
Pensávamos que teríamos tempo de arranjar alguma roupa mais apropriada, mas enganámo-nos. Fomos de imediato com o alferes Balsemão à Embaixada do Paquistão, para tratar do passaporte e do visto, sendo entretanto informadas de que iríamos para Carachi.
Um funcionário da Embaixada pediu-me mesmo se eu não me importava de levar uma encomenda com um relógio de pulso, um presente para a mulher - que se encontrava na parte oriental do Paquistão – a quem eu podia enviar a encomenda directamente do aeroporto de Carachi. Aceitei fazer esse favor ao senhor e fiquei com a encomenda.
Terminadas estas formalidades o alferes levou-nos de seguida para o local onde íamos jantar e entregou-me um envelope com dólares, para as nossas despesas, com a recomendação de que não levássemos nada que nos pudesse identificar como militares e que estivéssemos de novo no aeroporto às vinte e uma horas, para seguirmos viagem a bordo de um avião da TAP (um Super Constellation).
Após essas diligências dirigimo-nos ao Lar das enfermeiras do Hospital de Santa Maria, onde tínhamos trabalhado, e de onde tínhamos saído poucos meses antes. Ali jantámos, revemos colegas, arranjámos roupa adequada para a época e aproveitámos para telefonar à família, sem lhes darmos conta do porquê da nossa vinda e do destino seguinte. Inventámos para todos, que tínhamos vindo trazer doentes, mas por sermos poucas e haver necessidade de voltar, partiríamos de novo após o jantar, não dando tempo para uma visita. A minha família vivia em Setúbal mas, morando a da Nazaré na capital, mesmo assim ela não os foi visitar, tal “o secretismo”.
Todos acreditaram, mas umas amigas mais próximas fizeram questão de nos levar ao aeroporto e aí se despedirem. Esperava-nos o Ten-coronel Troni, que ao ver as acompanhantes disse “que já não embarcávamos, mas que tínhamos que ir com ele”. Não percebemos na altura essa mudança brusca de procedimento. Afinal fomos para ali ao lado, ao aeroporto militar de Figo Maduro. Foi a maneira das nossas amigas regressaram sem nós, não tendo desconfiado de nada.
Maria do Céu e Maria Ivone


Fomos então informadas do conteúdo da missão. Íamos para o Paquistão Ocidental para a cidade de Carachi, onde já se encontravam há alguns dias as nossas colegas a Maria do Céu e Maria Ivone, que estavam muito cansadas; nós íamos revezá-las no seu trabalho, como reforço, no acompanhamento de mulheres e crianças, famílias de militares a prestar serviço nesse território, que estavam a ser retiradas, de Goa, através da ponte aérea assegurada pelos TAIP e posteriormente evacuadas para Lisboa pelos aviões da TAP. Estavam nessa missão o chefe da mesma, um representante do nosso Ministério do Ultramar, o Dr. Espinheira, o Major médico da Força Aérea, Dr. Fernandes Tender e o sr. Rodrigues, Relações Públicas da TAP.
O Aeródromo Base nº,1 de Figo Maduro, estava em silêncio e pouco iluminado, o que estranhámos; o avião da TAP mantinha-se ali, imobilizado, parecendo que esperava por algo para ser posto em marcha e rolar para a pista. Pouco depois apareceu o Chefe do Estado Maior da Força Aérea, General Mira Delgado, que nos veio desejar boa viagem; ficámos um pouco curiosas e apreensivas perante tanta despedida e votos para que tudo corresse pelo melhor.
Colocaram-nos na zona da 1ª. classe do avião, comunicando-nos que qualquer pergunta do pessoal de bordo sobre a nossa presença deveria ser remetida para o piloto, comandante Magro (que viemos a saber posteriormente ser irmão do Coronel que estava em Luanda). Fomos informadas de que só sairíamos, definitivamente, em Carachi.
Passado pouco tempo sentaram-se atrás de nós cinco ou seis homens trajando à civil; soubemos mais tarde tratar-se de oficiais e sargentos do nosso exército, da arma de engenharia, enviados à pressa nessa missão. Ouvimos o ruído de um carro, que pude divisar da janela do avião, um carro grande, com capota de lona vi encostar ao avião, não tendo conseguido detectar mais pormenores. Passado pouco tempo arrancámos para a placa do estacionamento do aeroporto, para a entrada do pessoal de cabine, duas hospedeiras e um comissário de bordo que, penso eu, só nesse momento souberam para onde iam voar, porque nos perguntaram pelos bilhetes; respondi-lhes que perguntassem ao comandante o avião.
Por volta das onze da noite locais descolámos rumo ao nosso destino. Nessa altura, disse à Nazaré: “Com todo este aparato, achas que nos vai acontecer alguma coisa? Uma das hospedeiras deu-nos cobertores para nos taparmos e dois banquinhos para descanso das pernas, pois a viagem ia ser longa e nós, poucas horas antes, tínhamos chegado dum local bem distante. Dormimos tranquilamente algum tempo, até porque estávamos muito cansadas e havia que recuperar forças para o que viesse.
Recordo-me que quando acordei para não mais dormir até à chegada no outro dia já de noite, talvez por volta das vinte horas locais, ter sobrevoado as costas da Itália, Grécia, Turquia, as Ilhas de Rodes e Chipre, até fazermos a primeira paragem no Líbano, na cidade de Beirute, onde almoçámos e o avião foi reabastecido.
Toda aquela vista aérea me encantou, pois foi feita com condições atmosféricas favoráveis e o mar mediterrâneo por baixo de nós, de tons de verde e azul, fascinou-me. A aproximação ao Líbano mostrava-nos uma cidade que me parecia ser linda. Não deu na ida para a apreciarmos, mas na vinda pudemos visitá-la. Ao sairmos para o restaurante reparámos então no avião seguiam umas dezenas de rapazes, que tinham em comum peças de vestuário iguais: nuns, eram as camisas, noutros as gravatas, ou sapatos e até as meias. Não nos foi difícil de adivinhar que se tratava de militares.
A vida é um misto de acasos e emoções. Aconteceu que na nossa mesa se sentou, entre outros, um jovem que na minha frente me olhava, parecendo rebuscar na sua memória a minha fisionomia, para chegar à conclusão de onde me conhecia. Porém, eu com a minha memória de elefante, que afirmam que tenho, reconheci-o de imediato. Comíamos em silêncio, quando o rapaz mete conversa e me diz conhecer-me, embora não se lembre donde. Sorri nessa altura e perguntei-lhe se não tinha uma cicatriz, por cima do ombro direito, respondendo-me afirmativamente, muito espantado.
De repente, exclama “Srª. enfermeira Lopes Pereira, o que faz aqui no meio de nós?” ao que lhe respondi, que ia no mesmo passeio turístico que ele. Ficou espantado e de repente começou a falar do que os jornais tinham noticiado sobre as primeiras mulheres pára-quedistas e eu pedi-lhe que se calasse. Tinha estado internado no meu serviço no Hospital de Santa Maria, meses antes de ir para a tropa e por esse facto, estava muito presente na minha memória.
Despedi-me dele em Carachi; continuou viagem para Goa, ficou prisioneiro e nunca mais o vi. Prestes a chegarmos ao Paquistão o comandante mandou avisar-me que possivelmente teria que seguir directamente para Goa e assim sendo, não nos deixava em Carachi. Eu como mais antiga, era a interlocutora, respondendo que as ordens que recebera eram para ficar ali e não noutro lado.
C-54 Skymaster
Não sabíamos o que se estava a passar mas o comandante, via rádio, sabia que o assalto ao aeroporto podia estar eminente. A invasão já tinha começado e o avião dos TAIP, que deveria estar em Carachi, para fazer o transporte do material de guerra e os militares para Goa, que connosco tinham viajado, não tinha conseguido sair, pelo que o nosso avião fez uma paragem técnica. O pessoal saiu para comer e voltar para continuar a viagem. Nós ficámos em Carachi e, talvez por volta da meia-noite, soubemos que o aeroporto em Goa tinha sido bombardeado; desconhecíamos o que acontecera ao avião e a todos os que iam a bordo, incluindo a tripulação.
Na viagem até Carachi fomos muito bem tratadas pelo pessoal de cabine, de cujos nomes tenho pena de não me recordar. O comissário de bordo, ao conversar connosco, contou-nos que era casado e que esperava ser pai do primeiro filho, pois a mulher estava grávida de seis meses. Quando se soube que o bombardeamento tinha sido no desembarque em Goa, as palavras do comissário não me saíam do pensamento, embora estivesse preocupada com todos os que iam naquele avião, com menos sorte que nós.
Ninguém no grupo sabia da missão, que aquele avião ia chegar e o que transportava. Carachi era uma cidade de espionagem intensa e estava em guerra há anos com a União Indiana, por integração do território de Caxemira, cuja posse ambos reivindicavam. Se o governo indiano soubesse desta missão, da ajuda e das facilidades de manobra que o governo paquistanês nos tinha concedido, por certo nos teriam abatido, daí todo o grande secretismo à volta deste voo.
A Maria do Céu quando viu chegar o avião e este se imobilizou, disse ao Dr. Tender: “parece a Maria Arminda que vem ali à janela, mas não pode ser, porque ela está, em Angola”. Foi um espanto para todos a nossa chegada - os homens pareciam pertencer a grupos desportivos, até transportavam alguns sacos de rede com bolas, o que eu e a Nazaré não tínhamos visto, na paragem em Beirute e ficámos espantadas e convictas de que se tratava de uma missão secreta.
Aquela noite foi um pesadelo, não nos deitámos, apesar do alojamento disponibilizado ser nas instalações do aeroporto, num piso térreo, que as várias companhias estrangeiras que nele operavam tinham para descanso das tripulações. O nosso era da Companhia da KLM. Apesar de muito cansadas permanecemos por ali a fim de sabermos mais algumas informações através dos paquistaneses, porque de Lisboa ainda menos se sabia e de Goa, nem pensar. Mais nada se soube e foi com forte angústia que por ali fomos ficando, em alerta a novos acontecimentos.
Entretanto encontrava-se ali estacionado outro avião da TAP que iria transportar algumas crianças e as últimas mulheres e que aguardava partida para Lisboa; entre elas estava uma grávida, em fim de gestação. Foi decidido que seguiriam nesse voo a Céu e a Ivone e que ficaríamos nós, Nazaré e eu. com os restantes elementos da missão, até chegarem ordens de Lisboa. A ansiedade que nos tomou, também tomou a parturiente, que começou a dar sinais evidentes de que o parto podia ocorrer a qualquer momento - o que teria acontecido, se o avião tivesse ido para o ar. Foi de imediato acompanhada pela Maria do Céu e internada numa clínica obstétrica local, tendo nascido uma menina. O pai, um sargento enfermeiro do exército, foi, como todos os outros militares, feito prisioneiro e só veio a conhecê-la, meses depois, quando da sua libertação.
No dia seguinte continuávamos sem notícias, nem de Goa nem de Lisboa. Nessa tarde o Dr. Tender foi confrontado com telefonemas anónimos, em que o interlocutor perguntava se ele era militar, bem como o restante grupo. Essa ocorrência deixou-nos a todos um pouco apreensivos, pois tínhamos sabido que algum tempo antes uma hospedeira da TWA tinha sido assassinada. Quando o avião estava prestes a sair, o comandante foi avisado de que deveria aguardar, porque estavam a caminho dois aviões, que conseguiram descolar de Goa, em condições muito desfavoráveis e escapar ao controle dos radares indianos.
Foi com grande alegria que vimos chegar a tripulação, com o avião que nos transportara, bem como o dos TAIP, que não tinha podido anteriormente descolar de Goa, trazendo o pessoal civil que trabalhava no aeroporto e o director da Emissora de Goa. Com os novos acontecimentos ficámos todos em Carachi, até a senhora ter alta; no dia vinte à tardinha, o avião dos TAIP (ainda com marcas dos estilhaços de bombas) iniciou a viagem de regresso, transportando-nos a nós e a todas as pessoas que tinham conseguido fugir, as restantes mulheres e crianças e a nossa nova passageira recém-nascida.
O avião da TAP ficou no aeroporto, para reparação, tinha sofrido mais estilhaços que o nosso. O que nos trouxe, pilotado pelo comandante Solano de Almeida, era um DC4, muito mais lento, um quadrimotor a hélice, enquanto a primeira aeronave era turbo-hélice e mais rápido. Soubemos de imediato, que seria uma viagem muito mais demorada e com escalas pelo meio. Preocupava-nos além dos condicionalismos existentes, o bem-estar de todos os que estavam a bordo, até porque alguns dos passageiros estavam psicologicamente abalados. Tinham embarcado à pressa, apenas com a roupa que traziam na altura vestida. Acima de tudo preocupava-nos a recém-nascida e a sua mãe. Passámos desde então a assumir o papel de enfermeiras hospedeiras, o que teve a virtude de nos trazer distraídas e ocupadas.
Saímos na noite do dia vinte e a primeira paragem foi na Síria, em Damasco, apenas para reabastecimento; daí seguimos para o Líbano rumo à cidade de Beirute, onde pernoitámos, sobretudo para descanso da tripulação, que era única para toda a viagem. Este percurso, segundo o que os pilotos nos disseram, foi mais demorado porque o avião tinha que subir lentamente acima dos montes da cordilheira do Líbano, que separa este país da Síria, não sendo as condições as mais favoráveis, pelo que teve que subir em espiral até atingir a altitude de segurança.
No dia seguinte, vinte e um à noite, descolámos para mais um percurso; mas a paragem na cidade de Beirute tinha-me permitido visitá-la, pois era linda e com duas zonas distintas: uma parte mais antiga, no centro, e outra, nova, de enormes edifícios, que lhe valeu pela sua imponência a designação da “Riviera do Oriente”.
Aterrámos em Beirute já era escuro, com mau tempo e chuva intensa; e foi debaixo desta, que a Nazaré e eu deixámos o hotel onde estávamos alojados e procurámos uma farmácia próxima para comprar, material de penso a fim de tratarmos o cordão umbilical da bebé, que ainda não tinha caído. Escusado será dizer que sem qualquer protecção e a água a entrar no pescoço e a sair nos calcanhares, nos deixou molhadas até aos ossos, mas foi por uma boa causa.
Aproximava-se o Natal e a cidade com enfeites alusivos ao mesmo, com cedros e pinheiros de montanha, fascinou-me. Actualmente e com o grau de destruição que caiu sobre a mesma, a paisagem deve ser muito diferente e alguns daqueles imponentes edifícios da zona moderna, penso que foram em parte destruídos nos conflitos mais recentes, a avaliar palas imagens televisivas que nos têm sido mostradas nos últimos anos.
Na permanência em Carachi, também fui, mas sozinha, ao centro da cidade, tendo utilizado um riquechó, tipo lambreta com capota de lona, onde o dono levava uma esteira. Era cerca do meio-dia e para meu desespero, chegou a um local onde se encontravam vários veículos iguais, mandou-me descer e apontou-me a zona para onde eu me deveria deslocar a pé. Dito isto, puxa pela esteira e virou-se ao que julguei ser para Meca e com os outros, ficou a fazer as suas orações.
Eu ficara num local onde se situavam os Bancos e assim vestida à ocidental a cruzar-me com os naturais, as mulheres de saris e lenços na cabeça, os homens de calças largas e de turbantes, fizeram-me ter algum receio, até porque me veio ao pensamento a história da hospedeira raptada e assassinada, anteriormente à nossa chegada.
Achei a cidade suja; uns vendedores ambulantes nuns carros do tipo dos da venda de castanhas em Portugal, comercializavam um caldo espécie de sopa, ao mesmo tempo que mascavam uma pasta encarnada, que muitas vezes cuspiam para o chão, o que me enojou fortemente e me fez retardar a saciação da fome, que começava a sentir. O trânsito era caótico, com carros sempre a apitar no meio de veículos motorizados, onde também passavam como meio de transporte, vacas e camelos. Uma verdadeira babilónia, que gostei de apreciar, pela sua excentricidade.
A Nazaré aproveitou o dia para visitar uma religiosa sua amiga, que se encontrava num convento no deserto, a uns quilómetros de distância, tendo feito também só, o percurso num táxi que alugou no aeroporto. Finda a visita, a religiosa com outras Irmãs, veio trazê-la na sua viatura por receio e porque era preciso chamar da cidade, um novo transporte.
Na véspera à tarde ela e eu já tínhamos andado num táxi da marca Gogomobil, que era pequeníssimo, conduzido por um homem, muito alto e com um mau aspecto, que dizia saber onde ficava o convento, mas na realidade não sabia. Quando o vimos sair da estrada e meter para um bairro da periferia quase sem luz, onde os homens nas soleiras das portas e fumando os seus cachimbos, descansavam acompanhados de alguns camelos, começamos a ter receio de prosseguir a viagem. Estava prestes a anoitecer e o condutor por informação que outro lhe dera, dizia-nos que esse convento ficava no meio do deserto. Pedimos-lhe então a conta e apanhamos outro carro, que ali estava e regressámos ao aeroporto, felizmente sem mais incidentes. Esta missão foi um misto de aventuras e emoções, mas ainda não tinha terminado.
Descolámos então de Beirute, no dia vinte e um de manhã, desejosos de chegar a Lisboa; nesse percurso apanhámos tanta turbulência que julgávamos que o avião ia cair. Alguns passageiros começaram a ficar assustados e o nosso médico, o Dr. Tender, quase que desmaiou. O susto por que passámos foi tão grande, que resolvemos fazer o baptismo da menina, “sob condição”, fórmula existente na Igreja Católica para situações de urgência, como morte iminente, não invalidando um baptismo, a posteriori, por um sacerdote. A menina a partir daquele momento foi por nós, considerada nossa afilhada.
Após muitas horas de voo, aterrámos debaixo de chuva intensa em Palma de Maiorca, conscientes do perigo que tínhamos corrido, sabendo dos buracos feitos pelos estilhaços na fuselagem do avião na sequência do bombardeamento do aeroporto de Goa. Na viagem um dos tripulantes de nome Vinhas, com quem mais tarde viemos a contactar de perto e com quem voámos muitas vezes, porque era um navegador da Força Aérea, mostrou-nos um estilhaço de uma das bombas lançadas, que tinha apanhado antes de fugir.
Nessa noite pernoitámos na ilha, de onde saímos no dia seguinte, vinte e dois, com um sol radioso, que nos permitiu desfrutar a linda vista aérea e nos animou o espírito. Lisboa estava mais próxima e até já sentíamos o cheiro do Natal.
No final desse dia, avistámos a nossa capital e todos nos animámos; porém, ao sairmos do avião fiquei impressionada com o mar de gente que aguardava a nossa chegada, na ânsia de saberem mais notícias dos acontecimentos e de familiares que tinham sido feitos prisioneiros. A televisão mostrou no noticiário essa chegada e a minha família viu-me aparecer na saída e desfez as dúvidas com que tinha ficado na semana anterior.
Quando em Portugal se soube da invasão dos nossos territórios na Índia, a minha cunhada, tinha dito para o meu irmão: “A tua irmã não voltou para Angola, foi de certeza para a Índia”. E tinha razão, foi por um acaso que não fui lá parar, porque talvez não tivesse tido a sorte de regressar.
Também em Angola, quando se soube do sucedido e o que acontecera ao nosso avião, a Zulmira e Lurdinhas, foram nessa tarde à igreja do Carmo mandar rezar uma missa pelas nossas almas, convencidas que tínhamos morrido nessa ocasião. Contaram-nos depois que a Zulmira dizia para a Lurdinhas, ”Como é que vai ser agora, que grande responsabilidade só ficámos as duas e ainda por cima perdemos as nossas grandes amigas”, respondendo a outra que haveriam de se arranjar; e choravam ambas copiosamente, até que o Dr. Varela - que as acompanhara - lhes disse que ia procurar saber mais notícias, para as tranquilizar; não era fácil, pois as notícias não chegavam a Luanda tão rapidamente, só pela comunicação oficial, por meio dos chamados “Rádios”.
Graças a Deus que cheguei a esta data para recordar todas as emoções vividas nessa missão, tendo todas nós sido condecoradas, pelo então Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, com o Grau de Cavaleiro de Benemerência. No dia seguinte depois de cumpridas as formalidades militares, fui à Baixa comprar um casaco por causa do frio, mas tinha dificuldade em caminhar a direito, parecia embriagada por efeito de tantas horas de voo.
No dia vinte e quatro passei no barco para o outro lado do Tejo e com a chuva a cair, vi partir a última camioneta que me levaria para Setúbal. Não podia ali ficar parada mais tempo naquele lamaçal, isto porque o cais de embarque de Cacilhas, era de terra batida. Felizmente apareceu um conterrâneo que estava nas mesmas condições, alugámos um táxi e dividimos a meias a despesa e cheguei a casa. Foi o melhor presente que tive: bater à porta dizer que era eu e não, o Pai Natal, abraçar os meus irmãos e festejar essa quadra com a minha família. Depois do Ano Novo, apanhei com a Nazaré outro avião, de regresso a Luanda.
Maria Zulmira
Esta missão estava cumprida e foram muitas as que realizei ao longo de quase dez anos de vida militar, a maioria nos ex-territórios ultramarinos, de Angola, Guiné e Moçambique, entre outros.
Passados meses sobre a nossa missão, em Maio dá-se início ao repatriamento dos prisioneiros, tendo sido para eles uma eternidade o período em que ficaram privados da liberdade. Foram então nomeadas para essa nova missão, a Maria Zulmira, e a Maria Ivone que rumaram para Carachi. Porém, foi à Ivone que coube o papel de ir ao campo de prisioneiros, como hospedeira da companhia francesa da UAT e acompanhar, entre outros, o General Vassalo e Silva no seu regresso.
Começava outro capítulo da Nossa História Colonial. Tínhamos perdido os territórios do Estado da Índia, a nossa “Jóia do Império”, que tantas tormentas tinham dado aos nossos valorosos navegadores. Confesso que tive pena, nós ficámos mais pobres, sentimentalmente e culturalmente, foi uma perda que a muitos de nós deixou marcas, mas todos sabemos, não ter sido possível, pelas armas, virar os acontecimentos, a nosso favor.
“FOI O COMEÇO DO FIM, DA NOSSA EXPANSÃO ULTRAMARINA, NO ORIENTE E EM ÁFRICA E DO FIM DO NOSSO IMPÉRIO COLONIAL”.
Todos os anos, quando chega o dezoito de Dezembro, recordo e revivo esta missão sem nunca ter esquecido aquela criança, que hoje tem quarenta e nove anos. Algumas vezes perguntei à Ivone por ela e manifestei vontade, de a procurar. Por parte da Ivone tinha havido um contacto entre ambas, mas posteriormente, perdera-se.
Rosa Serra
Nesta data, através de felizes acasos, a minha amiga e colega enfermeira pára-quedista Rosa Serra conseguiu o seu contacto e deu-mo. Finalmente sabia do seu paradeiro. Pude por isso falar-lhe, dar-lhe os parabéns, por mais este aniversário, saber que se chama Ivone Cruz, que é casada, tem uma filha e um filho e vive no Caramulo. A sua mãe já faleceu, mas o seu pai embora idoso, ainda vive.
Assim como eu sempre digo,” A VIDA É OS DIAS QUE NOS LEMBRAMOS”.
Espero que Deus me permita por mais alguns, lembrar-me desta data, que para muitos, foi dolorosa e lhe possa continuar a dar os parabéns.












Maria Arminda Santos
Ex: Tenente Enf. Pára-Quedista

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

EVACUAÇÂO EM METANGULA


Um amigo pediu-me para escrever uma pequena história de uma evacuação em combate, para uma apresentação a um grupo de veteranos. Resolvi partilhar esta pequena história com os meus amigos, sobre uma evacuação real na picada entre Vila Cabral e Metangula. Os nomes dos tripulantes e dos médicos aqui descritos são virtuais.
A evacuação aqui descrita aconteceu presumivelmente em 26AGO1972, na picada que liga a cidade de Vila Cabral a Metangula nas margens do Lago Niassa. Em Metangula estavam sedeados um destacamento da Marinha e um batalhão do Exército.
Pelas 07 horas da manhã acordo meio atordoado pela voz do “Sinistro”. “Sinistro” era o nome carinhoso que nós pilotos tratávamos os cabos das comunicações que nos traziam as mensagens com os pedidos das evacuações urgentes. Acordei estremunhado, mal vi o “Sinistro” não tive dúvidas, era uma evacuação e não me enganei. Ainda meio acordado, li a mensagem, uma evacuação urgente, TEVS (Transporte de Evacuação Sanitária), na picada entre Vila Cabral e Metangula, três feridos graves e dois feridos ligeiros, nas coordenadas 12º 58´S / 35º 09´E. Achei estranha esta evacuação, era bastante raro a colocação de minas nesta picada, pois era considerada uma zona relativamente segura. Enquanto visto o fato de voo e calço as botas, pedi ao “Sinistro” que acordasse o alferes Silva dos T-6 e os cabos Caniça e Júdice dos helicópteros e preparassem as máquinas com plenos de combustível e duas macas em cada um dos helicópteros. O alferes Travanca, um jovem piloto de helicóptero, chegado há cerca de dois meses a Moçambique, era o seu primeiro destacamento no Niassa, iria ser o meu “asa”.
Ao fim de cerca de 25 minutos o T-6 G, pilotado pelo furriel Caramelo, que nos fazia a escolta, descolou da pista de Vila Cabral, os dois helicópteros, pilotados por mim e pelo Travanca, descolaram imediatamente a seguir. O T-6 com maior velocidade que os helicópteros, andava num vai e vem permanente à nossa volta, numa zona praticamente livre de ameaça antiaérea, voávamos a uma altitude média de 1000 pés. Ao fim de cerca de 15 minutos estávamos à vertical da coluna de viaturas, era bem visível a destruição de uma das berliet, com a frente completamente destruída, incluindo a cabine. O local escolhido para a aterragem estava a cerca de 25 metros da picada e tinha espaço suficiente para a aterragem dos dois helicópteros. Ao fim de alguns minutos descolámos em direção do hospital militar de Vila Cabral com os feridos.
No meu helicóptero vinham os dois feridos mais graves e um sentado, que presumi pelo seu aspeto ser um ferido ligeiro. O ferido na maca de baixo estava com um aspeto terrível com as tripas de fora e envolto numa mistura de sangue e terra, mas, o que vinha na maca de cima, parecia muito pior, o seu braço esquerdo estava quase decepado, as duas pernas estavam num estado lastimoso, pareciam presas por fios. Comentei com o meu mecânico, o Caniça: “Este gajo não se safa, há muito tempo que não vejo um ferido em tão más condições”.
Por volta das 9 da manhã aterrámos no AM e fomos tomar o pequeno-almoço no bar. Por volta do meio-dia, decidi ir ao hospital ver como estavam os feridos da evacuação, convidei o Travanca para ir comigo. Nunca o tinha feito antes, mas uma enorme ansiedade invadia o meu espírito. No hospital militar, junto à sala de operações, encontrei um dos médicos meu amigo, descalçando as luvas cirúrgicas, bastante ensanguentadas, enquanto comia uma sandes e bebia um coca-cola. Perguntei-lhe como estavam os soldados que trouxéramos de manhã bem cedo. A sua resposta foi inequívoca: “entra e vê pelos teus olhos”.
Entrei na sala através de duas portas transparente e flexíveis, o cheiro a produtos químicos era intenso, lembro-me de ver o cirurgião, com uma serra na mão, qual talhante, pronto para cortar a perna dum dos infelizes soldados. Comecei a ficar agoniado e a ver tudo a andar à roda, rapidamente sou amparado por dois enfermeiros para fora da sala. Já na rua, com o ar fresco e limpo, recuperei o equilíbrio. Antes de voltar ao AM convidei o Travanca para bebermos uma cerveja e estabilizar as emoções. Ele olhou para mim e questionou-me: “Irmão é sempre assim tão difícil”
Efetivamente, pensava que já estava vacinado contra recaídas deste tipo. No princípio não foi fácil, mas depois a gente habitua-se e blinda-se psicologicamente. Mas hoje tive o reaparecimento dos sintomas de uma doença que estava quase curada. Inevitavelmente, por mais que blindássemos as nossas emoções, nunca somos indiferentes à dor, ao sofrimento e à morte.
Ao fim da tarde, o Dr. Freixedas, o capitão médico-cirurgião e o Amaral, aparecem no AM para uma cerveja e dois dedos de conversa. Já não via o Amaral há algum tempo, depois de seis meses como médico na companhia de Nova Viseu, voltou de novo ao hospital. A nossa conversa acabou por derivar para a evacuação da manhã. Perguntei pelo soldado em piores condições, as notícias do meu amigo não são nada animadoras. Ficou sem as duas pernas, um braço e os testículos, enfim se sobreviver será um ser vegetativo. No fim o capitão médico volta-se para mim e dispara á queima-roupa: “porque não demoraste mais uns minutos”?
Fechei os olhos por alguns segundos a meditar na minha resposta e finalmente retorqui: “Meu capitão o senhor teve a vida dele nas suas mãos, porque o salvou”? A sua resposta foi exemplar. Nós, médicos e vocês pilotos, cumprimos a nossa missão, não nos cabe e nem podemos decidir pela morte.

Por: Gen. Alfredo Cruz


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A EXCELÊNCIA DO FIAT G91 R4 NO COMBATE AÉREO EM ÁFRICA, ENTRE 1966/ 1974

Na BA12 Bissalanca - Guiné

Este é um artigo destinado a todos os que se interessam pela Aviação Militar, e muito em especial pelos Aviões de Caça antigos e que equiparam a nossa Força Aérea.
Descreve ao pormenor não só meras tecnicidades, mas também as razões porque este caça em particular foi criado, a intenção de o colocar ao serviço da NATO, e a razão por que Portugal “ganhou” a facilidade de o poder utilizar com grande êxito na guerra do Ultramar ou Colonial.
Os detalhes técnicos do comportamento da aeronave em voo são da autoria do Gen. Pil/Av. José Francisco Nico, meu contemporâneo na Guiné,
Começaria assim por vos dizer que o G-91 foi construído quando a "guerra fria era muito quente" e a possibilidade de um ataque das forças soviéticas estava sempre presente. Por isso a NATO quis equipar as forças aéreas dos aliados europeus com um caça ligeiro, robusto e fiável, capaz de operar a partir de pistas improvisadas e que, além disso, introduzisse uma certa uniformidade visto que os meios que então equipavam as forças aéreas europeias primavam pela diversidade em todos os campos, desde a concepção passando pela operação e pela logística. O G-91 nasce assim para cumprir requisitos NATO e é escolhido como o melhor entre outros projectos. Podemos assim afirmar que em 1960, para os requisitos que devia cumprir, era a melhor coisa que existia.
BA12 - Bissalanca - 1970
Municiado com carga máxima
foto Ten.Gen. Jose F. Nico
O avião começou a ser fabricado para a RFA, Itália, Grécia e Turquia e só não teve mais compradores porque o projecto foi visto pela industria aeronáutica americana como uma grave ameaça à sua hegemonia. Foi por isso que os gregos e os turcos desistem do G-91 e aceitam em substituição os F-5 oferecidos pelos americanos. Foi a nossa sorte. E a sorte só não foi maior porque o modelo para os "gregos e turcos" tinha 4 metralhadoras 12,7 em vez dos dois DEFA 30mm. Embora não tenha provas documentais tudo leva crer que a NATO, dado o estado de tensão latente, entre os dois países, resolveu diminuir a letalidade dos aviões não fossem eles pegarem-se e acabarem a disparar com os DEFA uns contra os outros.
BA12 - Bissalanca 4/1966 - Montagem da Esquadra 121 Tigres - foto de Mário Santos

Quando tivemos de arranjar qualquer coisa para África, em 1965, os aviões que tinham sido encomendados por gregos e turcos estavam disponíveis e foi o melhor que conseguimos. Tinham apenas cinco anos e eram aviões perfeitamente actualizados para as tarefas que deviam cumprir.
Em operação, provou ser robusto, fiável e de simples manutenção. Tinha a velocidade que devia ter e não devia, nem era necessário ter mais. Era para voar baixo e tudo o que podia ser atacado tinha que ser adquirido visualmente. Ainda por cima o inimigo raramente andava em campo aberto e o seu ambiente preferido era a cobertura da vegetação. Portanto quem pensa que a velocidade era muito útil engana-se. No nosso caso era útil quando havia fogo antiaéreo mas nas outras situações não. Estava equipado com um sistema de reconhecimento fotográfico do melhor que havia naquela época, associado a um gravador de voz. Aqui o que falhava não era o avião. É que para obter informações de forma sistemática por reconhecimento fotográfico são necessários muitos aviões, horas de voo e muita gente no chão a explorar os filmes (pessoal de informações especializado). Não tínhamos nada disso e por isso o reconhecimento fotográfico foi sempre uma capacidade limitada. Estava equipado com um sistema de navegação autónomo. Naquele tempo não havia, nem sistemas de inércia, nem de GPS. Todavia o G-91 estava equipado com um radar Doppler associado a um sistema PHI, o que era um grande salto em frente neste tipo de aviões. Na prática não nos serviu de nada porque, como era um sistema de primeira geração, era muito pouco preciso. Com ele não se conseguiu chegar nenhum cruzamento de trilhos ou outra coisa qualquer de natureza pontual. A navegação tinha que ser feita confrontando o que se estava a ver no terreno com as cartas geográficas que utilizávamos.
Tinha uma cadeira de ejecção (Martin Baker) do melhor para a época. Foi a primeira em que o piloto se podia ejectar ainda no chão desde que que o avião tivesse 90 KIAS (knots indicated airspeed) de velocidade.
BA12 Bissalanca - 1/1968 - foto de Mario Santos

Resumindo, quando o recebemos o G-91 era um avião moderno e eficaz para as tarefas para que foi construído. Com o passar do tempo e o evoluir da indústria aeronáutica começaram a aparecer outros aviões melhor equipados, como é natural. Ao fazer a análise do G-91 não podemos pôr de lado os requisitos a que devia obedecer e a tecnologia disponível.
Não é razoável hoje em dia avaliarmos um avião de transporte construído nos anos cinquenta como o DC-6 com o Airbus 330 Neo.
Por: Mário Santos


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A VENDA ILEGAL DO B-26 A PORTUGAL



A necessidade de substituir o bombardeiro português e a frota de apoio aéreo aproximado em África durante a Guerra Colonial, composta pelo PV-2 Harpoon e pelo F-84G Thunderjet, levou à aquisição pela Força Aérea Portuguesa de um novo bombardeiro em meados dos anos sessenta.
Mas seria difícil adquirir novas aeronaves por causa do embargo de armas das Nações Unidas então em vigor contra Portugal, então métodos especiais tiveram que ser usados. No final de 1964, com a decisão de adquirir o B-26 Invader, foi estabelecido um contato com um vendedor de armas para tentar obter 20 aeronaves B-26 Invader. 
O negociante de armas, Luber SA em Genebra, assinou um acordo com a Aero Associates do Arizona para fornecer 20 aeronaves que seriam reformadas pela Hamilton Aircraft. O primeiro B-26 seria entregue em 30 de abril de 1965 e o último em janeiro de 1966. Além da aeronave, muitas peças de reposição e acessórios também seriam incluídos na compra. 
Não está claro como as licenças de exportação foram obtidas, mas em maio de 1965 a primeira aeronave, pilotada por John "Jeff" Hawke, foi transportada de Tucson para Tancos, Portugal, passando por Rochester, Torbay, Canadá, e Santa Maria, Açores. Em agosto de 1965, sete aeronaves já haviam sido entregues. 
Em setembro, a alfândega dos EUA prendeu Hawke e outras pessoas envolvidas no negócio de armas e impediu que um C-46 que transportava peças de reposição para Portugal deixasse os Estados Unidos.

B-26 na OGMA após revisão (ver ficha técnica do B-26) durante o período de teste na OGMA em outubro de 1971. Observe o distintivo do Devil e o "D" vermelho (Devil) no leme. (L.Tavares)
A forma como entrou no inventário da FAP foi, no mínimo, pouco ortodoxa, e o seu serviço não só foi curto como cheio de dificuldades e incidentes. 
Quando em meados dos anos sessenta a FAP percebeu a necessidade de substituir a frota de bombardeiros em uso na África, representada pelo fiel mas cansado PV-2 e de alguma forma pelo F-84G Thunderjet, de imediato chegou à conclusão de que a tarefa não seria fácil, sobretudo devido ao embargo de armas das Nações Unidas então em vigor contra Portugal. 
Portanto, logo ficou claro que "vias especiais" teriam que ser usadas para obter as aeronaves necessárias. Como a escolha recaiu sobre o B-26 Invader, foi estabelecido contato no final de 1964 ou início de 65 com um corretor de armas para tentar obter 20 B-26. A sucessão de acontecimentos que finalmente conduziram à chegada a Portugal do 7 B-26 está bem contada nos livros “The War Business” e “Foreign Invaders”, pelo que aqui apenas vamos retomar a história.  
Aliás, é um facto bastante engraçado que o escritor (L.Tavares), embora mais ou menos ciente do que se passava com a FAP nos anos sessenta, só tenha sabido do negócio depois de ler (na American Library em Lisboa), o reportagem publicada no "The Saturday Evening Post" nos anos sessenta. 
Voltando aos fatos, a busca por aeronaves iniciada pela Luber SA em Genebra (o traficante de armas) terminou com um acordo com a Aero Associates do Arizona para o fornecimento de 20 aeronaves que seriam reformadas pela Hamilton Aircraft. A primeira aeronave deveria ser entregue até 30 de abril de 1965 e a última até janeiro de 1966. Muitas peças de reposição e acessórios também seriam incluídos. 
Até hoje não se conhece muito bem a forma que se usava para obter as licenças de exportação mas em Maio de 1965 o primeiro avião pilotado por John Hawke (que recebia 3.000 USD por cada voo), foi transportado de Tucson para Tancos em Portugal através de Rochester, Torbay ( Canadá) e Santa Maria (Açores). Assim que chegou a Tancos, o piloto foi imediatamente transportado para o Aeroporto de Lisboa para apanhar o primeiro avião de regresso aos EUA. 
John Hawke era um tipo pitoresco como já tinha em seu diário de bordo de piloto da RAF, uma perseguição de um U-2 que havia sobrevoado Chipre quando ele estava baseado lá... Em 1968 participou das filmagens do filme "A Batalha da Grã-Bretanha" pilotando o B-25 usado como navio-câmera e, finalmente, alguns anos depois, desapareceu sem deixar vestígios ao sobrevoar o Mediterrâneo. 
Algumas fontes dizem que quando ele estava entregando a segunda aeronave foi forçado a pousar em Washington, e quase preso, mas ao mencionar o codinome "Sparrow" foi imediatamente libertado. Em agosto de 1965, quando a sétima aeronave já havia sido entregue, a alfândega dos EUA finalmente entrou em ação e em setembro Hawke e outras pessoas envolvidas foram presas na Flórida. 
Ao mesmo tempo, um C-46 carregado com sobressalentes para voar para Portugal também foi impedido de deixar os EUA. 
Assim, em setembro de 1965, a FAP era a orgulhosa proprietária de 7 B-26 completos com provisões para armamento (pelo menos os circuitos elétricos de bombardeio e canhão), mas com poucos sobressalentes e sem armamento. 
As séries 7101 a 7107 foram emitidas para o B-26, repetindo pelo menos em parte as séries atribuídas em 1952 ao SA-16 Albatross. 
Devido à falta de sobressalentes, até 1970 era muito difícil colocar em serviço todos os sete, mas pelo menos foi possível iniciar os testes operacionais com três aeronaves: 7104 (com controles duplos) voou pela primeira vez após revisão em 26 de setembro de 1967, 7106 em 28 de julho de 1969 e 7107 em 9 de setembro de 1970. O espaçamento das datas mostra muito bem as dificuldades enfrentadas na preparação da aeronave. 

Na BA12-Bissalanca em 1970

Em 1970 estas primeiras aeronaves foram enviadas para a Guiné-Bissau como um destacamento para serem testadas em clima tropical (data desta prova a insígnia "O Diabos" apresentada em algumas aeronaves). Em 30 de abril de 1971, a aeronave 7107 sofreu um pequeno acidente ao pousar na Ilha do Sal, em Cabo Verde, fraturando a perna da roda do nariz e danificando as hélices. 
Enquanto isso, a Força Aérea estava sempre tentando por todos os meios disponíveis, obter peças de reposição e armamento. Muitos contatos e visitas (incluindo pelo menos uma ao Brasil que também operava o B-26 na época) foram feitos. Um dos primeiros contactos para este efeito tinha ocorrido em 1967, o que resultou numa visita ao depósito de Chateaudun em França em setembro de 1967 durante a qual foram postos à venda 13 ex-Armée de l'Air Invaders, incluindo alguns exemplares interessantes como Z- 007 e 7 radares de aeronaves equipados. Todos tinham entre 3.000 e 8.000 horas totais. A oferta foi rejeitada provavelmente devido ao estado da aeronave. 
Algumas ofertas espontâneas também foram recebidas, sendo uma das mais interessantes a que propunha em janeiro de 1971, vender para FAP 6 ex Guatemalteca B-26 (listados abaixo) por 950.000 USD cada FOB Miami !!

A acompanhar a carta com a oferta, encontravam-se algumas fotos em que constavam 420, 424 e 428 todos pintados de cinzento e com 6 canhões. Mencionou-se também a possibilidade de obter também ex-nicaraguense B-26 e uma foto mostrava 603 e 604 de F.A. Nicarágua.
Esta oferta voltou a não ser aceite, mas finalmente obtiveram-se muitas peças sobressalentes em França que permitiram a remodelação completa da aeronave iniciada no início de 1971 na OGMA. 
A aeronave foi completamente desmontada, as longarinas reforçadas (como a USAF havia feito alguns anos antes) e o armamento instalado. Também durante este trabalho as janelas traseiras foram cobertas. 
Em novembro de 1971, todas as aeronaves haviam sido reformadas, exceto a 7104, que foi descartada devido à forte corrosão encontrada quando a decapagem começou, e a 7102, que deveria ser concluída em janeiro de 1972. Todas tinham nariz sólido, exceto a 7102. A tabela abaixo mostra o primeiro voo data em Portugal desde a entrega dos EUA e tempo total desde a entrega:

Após a conclusão, muitas viagens de teste foram feitas em 1972 para Açores, Madeira e Canárias. O autor nunca esquecerá o pássaro esguio que viu muitas vezes em 1971 partindo para voos de teste, durante seu serviço como jovem engenheiro na OGMA ! 
Finalmente, em 1973, as 6 aeronaves restantes foram enviadas para Angola para substituir o F-84G da Esquadra 93 (talvez a primeira vez que aeronaves de combate a hélice substituíram jatos em um esquadrão operacional) 
Eles foram usados até 1975, principalmente para reconhecimento armado, e parece que os pilotos gostaram da aeronave com seu longo alcance e bom desempenho. Talvez o único detalhe estranho fosse a forma de entrar na aeronave: pela asa, entrando na cabine por cima, com os pés primeiro. 
Todos os seis foram deixados em Angola em 1975. A revista FlyPast de julho de 1996 publicou a foto de um deles, visto junto com outros três 50 km ao sul de Luanda. O nosso amigo Leif Hellstrom (um dos autores do livro "Foreign Invaders"), emprestou-nos algumas fotos nas quais se podem ver os restos do 7102, 7103, 7106 e 7105. 
Se um foi levado para Cuba depois de 1975, como dizem algumas fontes, só poderia ter sido 7101 ou 7107.

 B26 ex-FAP no Museu Nacional do Ar em Havana - foto de Paul Seymour




Para ver o artigo original http://www.oocities.org/tavaresl.geo

John "Jeff" Hawke

John "Jeff" Hawke,
ao centro-esquerda

Jeff Hawke gostava muito de localizar e pilotar aeronaves cinematográficas.
Uma vez presidente da empresa americana Euramericair, entre outras coisas, ele voou em um dos Mosquitos no Esquadrão 633. Ele também operou o avião da câmera para a Batalha da Grã-Bretanha 'The Psychedelic Monster'.
No momento de sua morte, relatos da imprensa disseram que John Hawke havia contratado um Piper Aztec alguns meses antes e mais tarde foi pescado no Adriático.
O corpo a bordo carregava uma carteira de piloto de Miami em nome de John Hawke.
Dizia-se que o ar condicionado estava com o u/c e os flaps abaixados e mostrava danos inconsistentes com os esperados em uma vala. No período desde que o ar condicionado foi contratado pela primeira vez, ele foi repintado em "pintura anti-radar". Na época, havia vários boatos circulando.
Isso aconteceu no início dos problemas na Iugoslávia 
O asteca em que John 'Jeff' Hawke aparentemente morreu era o G-OESX .
A aeronave foi recuperada em 28 de dezembro de 1991 e poderia estar lá por até 2 meses. 
Além de pilotar o avião da câmera B25 em 'The Battle of Britain' e também trabalhou em Empire of the Sun, Sky Bandits, White Nights, Sweet Dreams e Hanover Street. Com exceção da Hanover Street, ele era coordenador aéreo ou conselheiro em todas elas. 
Em 1965, Gregory Board contratou Hawke para tentar entregar aqueles vinte B-26 Invaders a Portugal para uso em suas guerras coloniais africanas. Isto, apesar do embargo da ONU contra a venda de armas a Portugal. Na verdade, Hawke entregou sete invasores antes que os EUA encerrassem a operação, resultando na prisão de Hawke e na tentativa de prisão de Board, que fugiu dos EUA com, supostamente, a maior parte do dinheiro do negócio. No julgamento subsequente de Hawke, ele alegou o envolvimento da CIA, mas foi absolvido de qualquer maneira. Board ainda está vivo e funcionando algures na Austrália. 
É interessante ler os relatos dessas atividades do amigo de Board e Hawke (e autor da aviação) Martin Caidin porque suas histórias e as histórias documentadas geralmente são bem diferentes. Martin Caidin baseou o personagem principal de seu livro Anytime, Anywhere em uma compilação de Board e Hawke. Todos os três eram personagens "maiores que a vida", pelo menos aos seus próprios olhos. Duvido que ainda haja muito espaço para tais "personagens" da aviação. 

Este par de imagens abaixo, B-26B s/n 7101 armados com quatro bombas, fotografadas na BA9 em Luanda refletem certamente a sua utilização como plataformas militares.

Abaixo, a mesma aeronave em um esquema de pintura antimísseis verde-oliva.


As fotos abaixo foram tiradas entre 1993 e 1994 em Luanda, os destroços desapareceram desde então.

fotos de Robert Wilsey

fotos de John F Crompton




Em Douglas A/B-26 Invader
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