quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A EXCELÊNCIA DO FIAT G91 R4 NO COMBATE AÉREO EM ÁFRICA, ENTRE 1966/ 1974

Na BA12 Bissalanca - Guiné

Este é um artigo destinado a todos os que se interessam pela Aviação Militar, e muito em especial pelos Aviões de Caça antigos e que equiparam a nossa Força Aérea.
Descreve ao pormenor não só meras tecnicidades, mas também as razões porque este caça em particular foi criado, a intenção de o colocar ao serviço da NATO, e a razão por que Portugal “ganhou” a facilidade de o poder utilizar com grande êxito na guerra do Ultramar ou Colonial.
Os detalhes técnicos do comportamento da aeronave em voo são da autoria do Gen. Pil/Av. José Francisco Nico, meu contemporâneo na Guiné,
Começaria assim por vos dizer que o G-91 foi construído quando a "guerra fria era muito quente" e a possibilidade de um ataque das forças soviéticas estava sempre presente. Por isso a NATO quis equipar as forças aéreas dos aliados europeus com um caça ligeiro, robusto e fiável, capaz de operar a partir de pistas improvisadas e que, além disso, introduzisse uma certa uniformidade visto que os meios que então equipavam as forças aéreas europeias primavam pela diversidade em todos os campos, desde a concepção passando pela operação e pela logística. O G-91 nasce assim para cumprir requisitos NATO e é escolhido como o melhor entre outros projectos. Podemos assim afirmar que em 1960, para os requisitos que devia cumprir, era a melhor coisa que existia.
BA12 - Bissalanca - 1970
Municiado com carga máxima
foto Ten.Gen. Jose F. Nico
O avião começou a ser fabricado para a RFA, Itália, Grécia e Turquia e só não teve mais compradores porque o projecto foi visto pela industria aeronáutica americana como uma grave ameaça à sua hegemonia. Foi por isso que os gregos e os turcos desistem do G-91 e aceitam em substituição os F-5 oferecidos pelos americanos. Foi a nossa sorte. E a sorte só não foi maior porque o modelo para os "gregos e turcos" tinha 4 metralhadoras 12,7 em vez dos dois DEFA 30mm. Embora não tenha provas documentais tudo leva crer que a NATO, dado o estado de tensão latente, entre os dois países, resolveu diminuir a letalidade dos aviões não fossem eles pegarem-se e acabarem a disparar com os DEFA uns contra os outros.
BA12 - Bissalanca 4/1966 - Montagem da Esquadra 121 Tigres - foto de Mário Santos

Quando tivemos de arranjar qualquer coisa para África, em 1965, os aviões que tinham sido encomendados por gregos e turcos estavam disponíveis e foi o melhor que conseguimos. Tinham apenas cinco anos e eram aviões perfeitamente actualizados para as tarefas que deviam cumprir.
Em operação, provou ser robusto, fiável e de simples manutenção. Tinha a velocidade que devia ter e não devia, nem era necessário ter mais. Era para voar baixo e tudo o que podia ser atacado tinha que ser adquirido visualmente. Ainda por cima o inimigo raramente andava em campo aberto e o seu ambiente preferido era a cobertura da vegetação. Portanto quem pensa que a velocidade era muito útil engana-se. No nosso caso era útil quando havia fogo antiaéreo mas nas outras situações não. Estava equipado com um sistema de reconhecimento fotográfico do melhor que havia naquela época, associado a um gravador de voz. Aqui o que falhava não era o avião. É que para obter informações de forma sistemática por reconhecimento fotográfico são necessários muitos aviões, horas de voo e muita gente no chão a explorar os filmes (pessoal de informações especializado). Não tínhamos nada disso e por isso o reconhecimento fotográfico foi sempre uma capacidade limitada. Estava equipado com um sistema de navegação autónomo. Naquele tempo não havia, nem sistemas de inércia, nem de GPS. Todavia o G-91 estava equipado com um radar Doppler associado a um sistema PHI, o que era um grande salto em frente neste tipo de aviões. Na prática não nos serviu de nada porque, como era um sistema de primeira geração, era muito pouco preciso. Com ele não se conseguiu chegar nenhum cruzamento de trilhos ou outra coisa qualquer de natureza pontual. A navegação tinha que ser feita confrontando o que se estava a ver no terreno com as cartas geográficas que utilizávamos.
Tinha uma cadeira de ejecção (Martin Baker) do melhor para a época. Foi a primeira em que o piloto se podia ejectar ainda no chão desde que que o avião tivesse 90 KIAS (knots indicated airspeed) de velocidade.
BA12 Bissalanca - 1/1968 - foto de Mario Santos

Resumindo, quando o recebemos o G-91 era um avião moderno e eficaz para as tarefas para que foi construído. Com o passar do tempo e o evoluir da indústria aeronáutica começaram a aparecer outros aviões melhor equipados, como é natural. Ao fazer a análise do G-91 não podemos pôr de lado os requisitos a que devia obedecer e a tecnologia disponível.
Não é razoável hoje em dia avaliarmos um avião de transporte construído nos anos cinquenta como o DC-6 com o Airbus 330 Neo.
Por: Mário Santos


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A VENDA ILEGAL DO B-26 A PORTUGAL



A necessidade de substituir o bombardeiro português e a frota de apoio aéreo aproximado em África durante a Guerra Colonial, composta pelo PV-2 Harpoon e pelo F-84G Thunderjet, levou à aquisição pela Força Aérea Portuguesa de um novo bombardeiro em meados dos anos sessenta.
Mas seria difícil adquirir novas aeronaves por causa do embargo de armas das Nações Unidas então em vigor contra Portugal, então métodos especiais tiveram que ser usados. No final de 1964, com a decisão de adquirir o B-26 Invader, foi estabelecido um contato com um vendedor de armas para tentar obter 20 aeronaves B-26 Invader. 
O negociante de armas, Luber SA em Genebra, assinou um acordo com a Aero Associates do Arizona para fornecer 20 aeronaves que seriam reformadas pela Hamilton Aircraft. O primeiro B-26 seria entregue em 30 de abril de 1965 e o último em janeiro de 1966. Além da aeronave, muitas peças de reposição e acessórios também seriam incluídos na compra. 
Não está claro como as licenças de exportação foram obtidas, mas em maio de 1965 a primeira aeronave, pilotada por John "Jeff" Hawke, foi transportada de Tucson para Tancos, Portugal, passando por Rochester, Torbay, Canadá, e Santa Maria, Açores. Em agosto de 1965, sete aeronaves já haviam sido entregues. 
Em setembro, a alfândega dos EUA prendeu Hawke e outras pessoas envolvidas no negócio de armas e impediu que um C-46 que transportava peças de reposição para Portugal deixasse os Estados Unidos.

B-26 na OGMA após revisão (ver ficha técnica do B-26) durante o período de teste na OGMA em outubro de 1971. Observe o distintivo do Devil e o "D" vermelho (Devil) no leme. (L.Tavares)
A forma como entrou no inventário da FAP foi, no mínimo, pouco ortodoxa, e o seu serviço não só foi curto como cheio de dificuldades e incidentes. 
Quando em meados dos anos sessenta a FAP percebeu a necessidade de substituir a frota de bombardeiros em uso na África, representada pelo fiel mas cansado PV-2 e de alguma forma pelo F-84G Thunderjet, de imediato chegou à conclusão de que a tarefa não seria fácil, sobretudo devido ao embargo de armas das Nações Unidas então em vigor contra Portugal. 
Portanto, logo ficou claro que "vias especiais" teriam que ser usadas para obter as aeronaves necessárias. Como a escolha recaiu sobre o B-26 Invader, foi estabelecido contato no final de 1964 ou início de 65 com um corretor de armas para tentar obter 20 B-26. A sucessão de acontecimentos que finalmente conduziram à chegada a Portugal do 7 B-26 está bem contada nos livros “The War Business” e “Foreign Invaders”, pelo que aqui apenas vamos retomar a história.  
Aliás, é um facto bastante engraçado que o escritor (L.Tavares), embora mais ou menos ciente do que se passava com a FAP nos anos sessenta, só tenha sabido do negócio depois de ler (na American Library em Lisboa), o reportagem publicada no "The Saturday Evening Post" nos anos sessenta. 
Voltando aos fatos, a busca por aeronaves iniciada pela Luber SA em Genebra (o traficante de armas) terminou com um acordo com a Aero Associates do Arizona para o fornecimento de 20 aeronaves que seriam reformadas pela Hamilton Aircraft. A primeira aeronave deveria ser entregue até 30 de abril de 1965 e a última até janeiro de 1966. Muitas peças de reposição e acessórios também seriam incluídos. 
Até hoje não se conhece muito bem a forma que se usava para obter as licenças de exportação mas em Maio de 1965 o primeiro avião pilotado por John Hawke (que recebia 3.000 USD por cada voo), foi transportado de Tucson para Tancos em Portugal através de Rochester, Torbay ( Canadá) e Santa Maria (Açores). Assim que chegou a Tancos, o piloto foi imediatamente transportado para o Aeroporto de Lisboa para apanhar o primeiro avião de regresso aos EUA. 
John Hawke era um tipo pitoresco como já tinha em seu diário de bordo de piloto da RAF, uma perseguição de um U-2 que havia sobrevoado Chipre quando ele estava baseado lá... Em 1968 participou das filmagens do filme "A Batalha da Grã-Bretanha" pilotando o B-25 usado como navio-câmera e, finalmente, alguns anos depois, desapareceu sem deixar vestígios ao sobrevoar o Mediterrâneo. 
Algumas fontes dizem que quando ele estava entregando a segunda aeronave foi forçado a pousar em Washington, e quase preso, mas ao mencionar o codinome "Sparrow" foi imediatamente libertado. Em agosto de 1965, quando a sétima aeronave já havia sido entregue, a alfândega dos EUA finalmente entrou em ação e em setembro Hawke e outras pessoas envolvidas foram presas na Flórida. 
Ao mesmo tempo, um C-46 carregado com sobressalentes para voar para Portugal também foi impedido de deixar os EUA. 
Assim, em setembro de 1965, a FAP era a orgulhosa proprietária de 7 B-26 completos com provisões para armamento (pelo menos os circuitos elétricos de bombardeio e canhão), mas com poucos sobressalentes e sem armamento. 
As séries 7101 a 7107 foram emitidas para o B-26, repetindo pelo menos em parte as séries atribuídas em 1952 ao SA-16 Albatross. 
Devido à falta de sobressalentes, até 1970 era muito difícil colocar em serviço todos os sete, mas pelo menos foi possível iniciar os testes operacionais com três aeronaves: 7104 (com controles duplos) voou pela primeira vez após revisão em 26 de setembro de 1967, 7106 em 28 de julho de 1969 e 7107 em 9 de setembro de 1970. O espaçamento das datas mostra muito bem as dificuldades enfrentadas na preparação da aeronave. 

Na BA12-Bissalanca em 1970

Em 1970 estas primeiras aeronaves foram enviadas para a Guiné-Bissau como um destacamento para serem testadas em clima tropical (data desta prova a insígnia "O Diabos" apresentada em algumas aeronaves). Em 30 de abril de 1971, a aeronave 7107 sofreu um pequeno acidente ao pousar na Ilha do Sal, em Cabo Verde, fraturando a perna da roda do nariz e danificando as hélices. 
Enquanto isso, a Força Aérea estava sempre tentando por todos os meios disponíveis, obter peças de reposição e armamento. Muitos contatos e visitas (incluindo pelo menos uma ao Brasil que também operava o B-26 na época) foram feitos. Um dos primeiros contactos para este efeito tinha ocorrido em 1967, o que resultou numa visita ao depósito de Chateaudun em França em setembro de 1967 durante a qual foram postos à venda 13 ex-Armée de l'Air Invaders, incluindo alguns exemplares interessantes como Z- 007 e 7 radares de aeronaves equipados. Todos tinham entre 3.000 e 8.000 horas totais. A oferta foi rejeitada provavelmente devido ao estado da aeronave. 
Algumas ofertas espontâneas também foram recebidas, sendo uma das mais interessantes a que propunha em janeiro de 1971, vender para FAP 6 ex Guatemalteca B-26 (listados abaixo) por 950.000 USD cada FOB Miami !!

A acompanhar a carta com a oferta, encontravam-se algumas fotos em que constavam 420, 424 e 428 todos pintados de cinzento e com 6 canhões. Mencionou-se também a possibilidade de obter também ex-nicaraguense B-26 e uma foto mostrava 603 e 604 de F.A. Nicarágua.
Esta oferta voltou a não ser aceite, mas finalmente obtiveram-se muitas peças sobressalentes em França que permitiram a remodelação completa da aeronave iniciada no início de 1971 na OGMA. 
A aeronave foi completamente desmontada, as longarinas reforçadas (como a USAF havia feito alguns anos antes) e o armamento instalado. Também durante este trabalho as janelas traseiras foram cobertas. 
Em novembro de 1971, todas as aeronaves haviam sido reformadas, exceto a 7104, que foi descartada devido à forte corrosão encontrada quando a decapagem começou, e a 7102, que deveria ser concluída em janeiro de 1972. Todas tinham nariz sólido, exceto a 7102. A tabela abaixo mostra o primeiro voo data em Portugal desde a entrega dos EUA e tempo total desde a entrega:

Após a conclusão, muitas viagens de teste foram feitas em 1972 para Açores, Madeira e Canárias. O autor nunca esquecerá o pássaro esguio que viu muitas vezes em 1971 partindo para voos de teste, durante seu serviço como jovem engenheiro na OGMA ! 
Finalmente, em 1973, as 6 aeronaves restantes foram enviadas para Angola para substituir o F-84G da Esquadra 93 (talvez a primeira vez que aeronaves de combate a hélice substituíram jatos em um esquadrão operacional) 
Eles foram usados até 1975, principalmente para reconhecimento armado, e parece que os pilotos gostaram da aeronave com seu longo alcance e bom desempenho. Talvez o único detalhe estranho fosse a forma de entrar na aeronave: pela asa, entrando na cabine por cima, com os pés primeiro. 
Todos os seis foram deixados em Angola em 1975. A revista FlyPast de julho de 1996 publicou a foto de um deles, visto junto com outros três 50 km ao sul de Luanda. O nosso amigo Leif Hellstrom (um dos autores do livro "Foreign Invaders"), emprestou-nos algumas fotos nas quais se podem ver os restos do 7102, 7103, 7106 e 7105. 
Se um foi levado para Cuba depois de 1975, como dizem algumas fontes, só poderia ter sido 7101 ou 7107.

 B26 ex-FAP no Museu Nacional do Ar em Havana - foto de Paul Seymour




Para ver o artigo original http://www.oocities.org/tavaresl.geo

John "Jeff" Hawke

John "Jeff" Hawke,
ao centro-esquerda

Jeff Hawke gostava muito de localizar e pilotar aeronaves cinematográficas.
Uma vez presidente da empresa americana Euramericair, entre outras coisas, ele voou em um dos Mosquitos no Esquadrão 633. Ele também operou o avião da câmera para a Batalha da Grã-Bretanha 'The Psychedelic Monster'.
No momento de sua morte, relatos da imprensa disseram que John Hawke havia contratado um Piper Aztec alguns meses antes e mais tarde foi pescado no Adriático.
O corpo a bordo carregava uma carteira de piloto de Miami em nome de John Hawke.
Dizia-se que o ar condicionado estava com o u/c e os flaps abaixados e mostrava danos inconsistentes com os esperados em uma vala. No período desde que o ar condicionado foi contratado pela primeira vez, ele foi repintado em "pintura anti-radar". Na época, havia vários boatos circulando.
Isso aconteceu no início dos problemas na Iugoslávia 
O asteca em que John 'Jeff' Hawke aparentemente morreu era o G-OESX .
A aeronave foi recuperada em 28 de dezembro de 1991 e poderia estar lá por até 2 meses. 
Além de pilotar o avião da câmera B25 em 'The Battle of Britain' e também trabalhou em Empire of the Sun, Sky Bandits, White Nights, Sweet Dreams e Hanover Street. Com exceção da Hanover Street, ele era coordenador aéreo ou conselheiro em todas elas. 
Em 1965, Gregory Board contratou Hawke para tentar entregar aqueles vinte B-26 Invaders a Portugal para uso em suas guerras coloniais africanas. Isto, apesar do embargo da ONU contra a venda de armas a Portugal. Na verdade, Hawke entregou sete invasores antes que os EUA encerrassem a operação, resultando na prisão de Hawke e na tentativa de prisão de Board, que fugiu dos EUA com, supostamente, a maior parte do dinheiro do negócio. No julgamento subsequente de Hawke, ele alegou o envolvimento da CIA, mas foi absolvido de qualquer maneira. Board ainda está vivo e funcionando algures na Austrália. 
É interessante ler os relatos dessas atividades do amigo de Board e Hawke (e autor da aviação) Martin Caidin porque suas histórias e as histórias documentadas geralmente são bem diferentes. Martin Caidin baseou o personagem principal de seu livro Anytime, Anywhere em uma compilação de Board e Hawke. Todos os três eram personagens "maiores que a vida", pelo menos aos seus próprios olhos. Duvido que ainda haja muito espaço para tais "personagens" da aviação. 

Este par de imagens abaixo, B-26B s/n 7101 armados com quatro bombas, fotografadas na BA9 em Luanda refletem certamente a sua utilização como plataformas militares.

Abaixo, a mesma aeronave em um esquema de pintura antimísseis verde-oliva.


As fotos abaixo foram tiradas entre 1993 e 1994 em Luanda, os destroços desapareceram desde então.

fotos de Robert Wilsey

fotos de John F Crompton




Em Douglas A/B-26 Invader
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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A ESQUADRILHA DE ABASTECIMENTO

A Esquadrilha de Abastecimento ao lado direito


A Esquadrilha de Abastecimento, a seguir ao hangar era a segunda maior estrutura do AB4.
Começou desta forma, em 1963, a exemplo de outras estruturas, num barracão. Faziam parte do primeiro grupo de especialistas de Abastecimento, constantes na foto de 30/9/1963, João
 Botas, Monteiro, Matos Silva, Morgado, Seabra, Neves, Gomes e Soares.
Em 1963

No início ano de 1971, fruto do incremento das operações no leste, com o aumento do número de aeronaves, os PV2 tinham sido transferidos da BA9 para o AB4, também esta estrutura da logística sofreu um acréscimo, tanto em pessoal, como em material sobressalente para as aeronaves e restantes equipamentos.

Grupo de Esp. Abastecimento, em 1969

As TO s e o RAMFA, neste período e subsequente, estavam na sua máxima força. Não seria por falta de resposta da nossa Esquadrilha, que a parte operacional não cumpriria as suas missões. Para tanto, também foi aumentada a capacidade de armazenagem e reforço dos mais variados stocks. Do simples parafuso, “oring”, ou transístor, à asa ou motor, ou o famoso arame de frenar (!) estávamos aptos a satisfazer a nossa “clientela”. Autêntico “Bricor” actual !

Agante, Neves (autor) e
Ramalho, em 1971

Foi-nos exigido um esforço suplementar de trabalho, regra geral executado de noite. Recordo-me, que á época se atravessava na base uma fase de “contestação” e uma certa “passividade” ao trabalho, procurando-se com esta atitude demonstrar a nosso descontentamento perante a situação que se vivia com o fraco serviço fornecido pelas messes. A enfermaria, nesta fase, nunca teve tanta procura, por alegadas “debilidades” físicas e na procura de suplementos vitamínicos. Era mais uma forma de pressão, para a melhoria alimentar! Felizmente, que pouco tempo depois este problema foi ultrapassado, a partir da altura, que o comando nomeou para gerente das messes o Cap. Amarino, também ele de Abastecimento
Era um trabalho que não deveria ser feito por nós. A Base tinha as suas oficinas e seria um assunto de sua competência, mas, o nosso Chefe Cap. Maia, fez questão de o executar e nós nunca poderíamos deixá-lo ficar mal com a empreitada. Portanto, metemos mãos á obra e os perfis “dexion”, as placas de contraplacado, foram devidamente preparadas montadas e a estanteria necessária entrou rapidamente em utilização.


É evidente, que regra geral, estas noitadas terminavam com mais uma petiscada e umas Nocais…para o restabelecimento das energias ! 
Toda esta lembrança, serve apenas para salientar, que éramos uma equipa excepcional e camarada, sem distinções entre o pessoal do quadro, miliciano e civil que compunha a Esquadrilha. Durante este período nunca houve, quem necessitasse, ou pretendesse tão pouco, impor-se pelas divisas, nem quem desrespeitasse as hierarquias das chefias. 

Convívio da Esqª. de Abastecimento, na sanzala do Caxico, em 6/2/1971

Não é por acaso, que o nosso Chefe, o Capitão Celestino Moreira Maia, era conhecido pelo “pai dos especialistas” !

DESCANSE EM PAZ!



Por:




quinta-feira, 17 de agosto de 2023

BATALHÃO DE CAVALARIA 8322, OS ÚLTIMOS EM HENRIQUE DE CARVALHO E NO AB4.


HISTÓRIA DO BATALHÃO

O Batalhão de Cavalaria 8322/74 foi mobilizado nos termos da nota número 5153/PM, de 12 de Outubro de 1974, da 1ª. Repartição do E.M.E., sendo constituído com base no 4º. turno de 1974, tendo como unidade mobilizadora o Regimento de Cavalaria Nº.3 de Estremoz, onde no dia 5 de Março de 1975, começou a sua organização sob o comando do Tenente Coronel de Cavalaria Luís de Lorena Birne. Este período decorreu até 4 de Abril de 1975, seguindo-se depois períodos sucessivos de licença até ao dia 11 de Maio, foi portanto em pleno P.R.E.C. (Processo Revolucionário em Curso), em que a frase mais ouvida era “Nem mais um soldado para as Colónias”, que seguiu para Luanda o Comandante Luís Birne, acompanhado do Oficial de Operações Major Jesus da Silva.

PARTIDA PARA LUANDA

C.C.S - Dia 18 de Maio de 1975 às 23H00, chegada no dia 19 de Maio de 1975 ás 07H25. 
1ª. Companhia - Dia 19 de Maio de1975 ás 23H00, chegada no dia 20 de Maio de1975 ás 07H30 
2ª. Companhia - Dia 21 de Maio de1975 às 23H00, chegada no dia 22 de Maio de1975 às 07H30 
3ª. Companhia - Dia 22 de Maio de1975 ás 23H00, chegada no dia 23 de Maio de1975 ás 07H30

No Grafanil


Durante quatro dias o batalhão esteve “hospedado” no Grafanil, seguindo depois em coluna motorizada para Henrique de Carvalho, primeiro a CCS no dia 23 de Maio, comandados pelo capitão Avelino Alves Pereira. No dia 25 de Maio, com destino a Henrique de Carvalho e Camissombo e sob o Comando do capitão Rolim Oliveira e Barbosa Soares, saiu a 1ª. e 2ª. Companhia. A 28 de Maio, com destino ao Camaquenzo (Dundo) saiu a 3ª. Companhia sob o Comando do Major Correia de Araújo. 
A zona de destino do Batalhão tem como característica principal o facto de ser dominante o grupo étnico Lunda-Quioco, sobejamente descrito em várias publicações.

SITUAÇÃO EM MAIO DE 1975

ELNA (FNLA) - Comandante Filipe - 1.100 Homens 
FAPLA (MPLA) - Comandante Orlog - 1.100 Homens 
FALA (UNITA) - Comandante, Aurélio - 500 Homens

Por esta altura estavam instalados no terreno forças da ELNA (FNLA), FAPLA (MPLA) e FALA (UNITA), onde procuravam a hegemonia no campo politico e militar, tendo já realizado uma série de acções inconvenientes, tais como ocupações de instalações, roubo de viaturas e justiça privada que se traduzia por um processo de degradação da situação que inevitavelmente conduziria ao confronto armado entre ambos.

HENRIQUE DE CARVALHO/SAURIMO

Foi neste contexto revolucionário que o Batalhão de Cavalaria chegou à Lunda “O Batalhão de Cavalaria 8322 tinha muito boa gente, nomeadamente alguns graduados muito bons, tanto do quadro como milicianos. Um inesquecível exemplo, entre outros foi o 1º sargento de Cavalaria António Delfino Roque. Um excelente ponto de apoio para a acção de comando no Batalhão, sempre pronto a dar bons conselhos aos mais novos e a ampará-los, em especial quando as cabeças andavam desorientadas e os disparates estavam à solta.” 
(Mário Jesus da Silva – “Sortilégio da Cobra”)

SITUAÇÃO EM 30 DE MAIO DE 1975

Comando e CCS - Quartel de Saurimo 
1ª. Companhia - Quartel de Saurimo 
2ª. Companhia - Camissombo 
Grupo de Combate - Cacolo 
3ª. Companhia - Camaquenzo (Portugália) 
Grupo de Combate - Saurimo - Reforço à 1ª. Companhia

“O incumprimento dos acordos de Alvor e os excessos já eram prática diária dos Movimentos de Libertação, nesta fase, mais frequentes pelo MPLA e pela FNLA do que a UNITA. (…) O MPLA e a FNLA estavam a receber do exterior bastante Armamento, tanto ligeiro como pesado, que as autoridades Portuguesas não conseguiam controlar, nem pouco nem muito. 
Acostavam Navios cargueiros em Ponta Negra no Congo Brazzaville, com bastante material soviético para o MPLA. O material Americano para as FNLA chegava por meios aéreos a Kinshasa, sendo encaminhado para a 
Base Kinkusu." 
(Mário Jesus da Silva – “Sortilégio da Cobra”)

Este era o cenário que nos esperava na Lunda, que na língua dos Ambungos significa “terra abandonada”, e que fora em tempos antigos território do lendário reino do Muatiânvua. Nas margens do Rio Cuango está a sua principal riqueza, os diamantes. 
Nos primeiros dias de Junho a situação na Lunda agravou-se progressivamente, vindo a culminar com dois dias (11 e 12 de Junho) de violenta confrontação armada entre a ELNA (FNLA) de Holden Roberto e as FAPLA (MPLA) de Agostinho Neto, que resultou na destruição dos quartéis da FNLA. Alguns elementos desta força com receio de nova ofensiva refugiaram-se no nosso Quartel. 

MPLAs



Com esta acção as forças do MPLA ganharam um ascendente moral que aproveitaram para garantir o predomínio da zona, bem como consolidar a sua influência no eixo Luanda - Henrique de Carvalho. 
As nossas tropas durante este confronto começaram por recolher os oficiais que tinham ficado na messe numa situação muito vulnerável visto que a mesma se encontrava próxima do quartel do ELNA. 
Em 12 Junho, logo que a luz do dia tornou possível, saiu a pé o grupo de combate do Furriel Barroco e Romão, com a missão de recolher o representante das FAPLA do Exército Unificado. Este Grupo de Combate garantiu a segurança para a retirada de oficiais do AB4 e famílias que estavam retidas pelo fogo em casas na cidade. Utilizando um megafone, obteve um primeiro contacto com quartel das FAPLA, o que permitiu o abrandamento do tiroteio. Às 9H00, um grupo de combate saiu para transportar o médico ao Hospital e recolheu alguns civis e militares isolados. 
Às 10H00, um grupo de Combate escoltado por elementos do E.M.U. (Exército Unificado) saiu a fim de procurar obter o cessar-fogo no local onde se verificava a confrontação mais violenta, o que só foi possível cerca das 12H00.

TESTEMUNHOS 
“A guerra que começou em Saurimo a 11 de Junho, levou para sempre os meus sonhos de adolescente, tinha 16 anos em 1975. Nesse dia terrível, muitas pessoas morreram. Muitas casas ficaram marcadas pela fúria da guerra. Dentro da Igreja onde nos encontrávamos, quando fomos surpreendidos pelo intenso tiroteio, alguns projécteis entraram, não atingindo ninguém, graças a Deus. A meu Pai infelizmente, coube uma tarefa não muito agradável, como ele trabalhava na Câmara Municipal de Saurimo, e manipulava uma máquina escavadora, foi designado a abrir valas para enterrar os corpos daqueles que haviam sido vitimados. Foi triste. Infelizmente, são factos que não poderia ocultar, pois fazem parte da história. 
Depois de passarmos o primeiro confronto dentro da Igreja, vimo-nos obrigados a refugiar nas matas, nós dormíamos dentro dos carros. Meu Pai ia à cidade pegar mantimentos. Até que um dia, um amigo de meu Pai, avisou-o de que o pessoal que lutava, sabe-se lá porquê, estava disposto a atacar as matas. Então nós, como muitos Saurimoenses, procuramos refúgio na Base Aérea de Saurimo.
 


Foi difícil, pois as autoridades militares não queriam que nós entrássemos na área da Base. Do lado de fora do arame farpado estavam famílias que temiam por suas vidas. Inconformados por não podermos entrar, acampamos do lado de fora. Mas, a certa altura foi autorizada a nossa entrada na Base. Cada um se virou como pôde, nós e uns amigos fizemos barracas de chapas de Zinco, e durante a noite dentro delas nós dormíamos. Durante o dia, ficávamos por ali, olhando todos que deixavam para traz toda uma vida. Para tomarmos banho e fazermos nossa higiene pessoal, contávamos com o carinho dos soldados do exército português, que permitiam que usássemos os banheiros. Fizemos alguns amigos do exército Português, um deles que marcou muito nossa vida foi o "Benfica", um soldado muito legal, este não era o nome dele, mas era assim que o conhecíamos, por ser natural de Benfica em Lisboa. 
Foram dias difíceis, mas de uma certa forma, todos ali estavam felizes, pois suas vidas haviam sido poupadas. 
Enquanto aguardávamos, o avião que nos levaria para Luanda, meu Pai e outros civis, acompanhados de uma escolta militar, levavam em camiões, as coisas que havíamos conseguido pegar de dentro das nossas casas. 
Entretanto o avião que nos levaria a Luanda chegou .


(Texto de Isabel de Barros em 
http://www.isabelbarros.hpg.ig.com.br/principal.htm)

Sobre as 17:00. O meu amigo Alberto Ucawenhi e eu fomos ao liceu para ver se tinham saído as notas. Naquele tempo as aulas terminavam no dia 10 de Junho "Dia do nosso poeta Camões". Não conseguimos o nosso objectivo porque os professores ainda estavam reunidos para pôr as notas.
Bom, como nós éramos 
acólitos da catedral, então decidimos acudir ao rosário das 17:45 e depois à Missa. 
Naquele dia celebrava um padre capelão da força aérea, porque o padre Moreira estava ausente. Além disso para nós era bom que celebrara o padre capelão da força aérea, porque depois da missa sempre dava-nos 20 escudos a cada, e naquele tempo era muito dinheiro. Às 18H00 começamos a preparar as coisas da missa porque a celebração começaria as 18H15. Estávamos já preparados para sair exactamente as 18H15, quando começou um ruído estranho que o Alberto pensou que era um problema do microfone. Mas como aquilo aumentava o padre celebrante disse-me que fosse a ver o que estava passando. Naquele momento vi como pessoas que estavam na rua entravam na Igreja. Naquele preciso momento estalou o que seria o início da miséria que o povo angolano sofreu durante 30 anos. Estivemos na Igreja até as 14H00 do dia 12, com fome, crianças chorando de fome e sede...Saímos da Igreja, as ruas estavam cheias de cadáveres de militantes da FNLA, porque a guerra nesse momento era entre o MPLA e a FNLA. Lembro-me que fomos a casa e não encontramos ninguém e saímos correndo até a estrada do aeroporto, apanhamos uma boleia e fomos ao aeroporto onde estivemos 2 dias e depois voltamos andando até Terra Nova, na casa do Alberto. Eu estive praticamente 4 dias sem ver a minha família. Era situação terrível, de desconfiança, morreu muita gente, algumas foram vítimas de ódios e vinganças entre angolanos. Não foi um problema de tribalismo ou racismo mas sim de ódio contra aquelas pessoas que pensávamos de distinta forma o que pertencíamos a opções políticas que não era o grupo marxista do MPLA. Eu sou katokue, mas fui expulso do colégio e fui a continuar os estudos no Seminário Mayor do Huambo onde estive até a minha saída para a Europa, quando tinha apenas 
19 anos. 



(Texto de Katxoukue 
em http://groups.msn.com/ComunidadeVirtualdeSaurimo)

NO CAMISSOMBO

A 2ª. Companhia que estava no Camissombo tinha como missão controlar e dar apoio aos refugiados Catangueses (cerca de 300), chefiados pelo General Natanael Mbumba, que estavam instalados no mesmo quartel, e maior efectivo numa “ferme” a 20Km a norte. Na “ferme” permanecia o Capitão Elísio Figueiredo, oficial de ligação do Alto Comissário junto dos refugiados, a quem competia a responsabilidade primária de orientar a conduta dos mesmos. 
Não obstante, todo o apoio logístico era dado pelo Batalhão de Cavalaria 8322. 
Aquando do tiroteio de 20 de Julho os Catangueses pretenderam tomar de assalto a arrecadação do material de guerra para se apoderar do Armamento, que só não aconteceu por firmeza da parte das nossas tropas.

NO AERODROMO BASE Nº.4 EM SAURIMO

No dia 22 de Junho de 1975, a CCS deslocou-se para a Base Aérea Nº4, a 4 Km de Saurimo, o mesmo sucedendo à 1ª. Companhia, no dia 30 de Junho. 



Em 10 de Julho, juntou-se o Grupo de combate da 2ª. Companhia que se encontrava aquartelado no Cacolo, mas de seguida marchou para o Camissombo para se juntar à sua Companhia, que tinha como missão principal o apoio aos refugiados Catangueses, evitando que estes se imiscuíssem nos conflitos entre os movimentos. A 3ª. Companhia que estava no Camaquenzo reuniu-se ao batalhão, em 29 de Julho e a 20 de Agosto, foi a vez da 2ª. Companhia deixar o Camissombo e juntar-se às restantes Companhias que já estavam no AB4.
Depois de uma semana de grande tensão e incidentes, verificou-se em 16 e 17 de Julho, em Saurimo, a confrontação que viria a ser decisiva na conquista da hegemonia na Lunda.
Quando o tiroteio se iniciou o Major Jesus da Silva encontrava-se no quartel das forças unificadas com um Furriel, que viria a ser recolhido por um grupo de combate que entretanto saíra da AB4 sob o Comando do Major Correia de Araújo.
No dia 17 Julho pelas 10H00 saiu um Grupo de Combate e dois Majores da E.M.U. deslocando-se até ao Governo do Distrito a fim de levar alimentação ao Governador, que permaneceu sempre no local. Pelas 11H00, o Major Jesus da Silva em conversações com o Comando do MPLA, foi informado que os confrontos só terminariam com a expulsão das forças da FNLA, o que viria a acontecer após 20 horas de tiroteio ininterrupto, tendo como base armas pesadas.
Os sobreviventes da FNLA e UNITA debandaram e entregaram-se no nosso quartel, o que viria a acontecer em Camisssombo (20 de Julho), Portugália (20 de Julho), Dala (18 de Julho), Cuango (22 a 26 Julho), Caungula (26 de Julho) e outros locais.
Por esta altura o Quartel de Saurimo, onde estava aquartelada o que restava das Forças Integradas, era o refúgio de alguns soldados da ELNA.
Como entretanto se verificava o avanço das forças do MPLA sobre o Quartel e para evitar o colapso das Forças Integradas, decidiu-se estabelecer contacto directo com as FAPLA (MPLA) a fim de suspender a sua progressão, a troco da entrega do armamento apreendido da FNLA. Após um encontro “tormentoso” com os soldados das FAPLA, o Comandante concordou em cessar todas as acções, uma vez que o FNLA se encontrava completamente derrotado.
Recolhidas as armas, estas foram transportadas numa viatura para o quartel do FAPLA (MPLA). Aí chegados, ao abrir a porta da carrinha, um elemento do ELNA que estava preso naquele quartel atirou uma granada de mão para o interior originando uma enorme explosão e incêndio da viatura.
Pelas 19H00, realizou-se uma reunião com o Comandante das FAPLA, ficando acordado o patrulhamento misto, a fim de terminar com os roubos que entretanto já se tinham verificado.
A população civil entretanto refugiou-se no interior da AB4, de acordo com um plano previamente estabelecido.
Ainda no dia 19 de Julho, dada a tensão local, seguiu de Saurimo para o Camaquenzo por via aérea, uma comissão mista formada pelo representante de ELNA no EMULUNDA, por um Comandante das FAPLA e pelo Major Jesus da Silva com o apoio do Comandante da 3ª. Companhia Capitão Carlos Gonçalves e da Diamang conseguiu-se acordar a retirada para o Zaire de todos os destacamentos da ELNA, a fim de evitar mais mortos.
Este acordo teve curta duração pois no dia seguinte as forças do MPLA atacaram a ELNA.

EMULUNDA (Estado Maior Unificado da Lunda)

ELNA - FNLA - Major Afonso Jovelino 
FAPLA - MPLA - Major João Ernesto Liberdade 
FALA - UNITA - Major António Pinheiro Canjundo

Militares do EMULUNDA


Este Comando deslocou-se várias vezes aos mais variados sítios para acalmar a situação, nem sempre com sucesso, mas foi possível pelo menos atenuar as consequências dos conflitos e manter uma posição de dignidade para as nossas tropas. 
Em todas estas acções foi sempre recebido o máximo de apoio do Governador do Distrito, Coronel T. Ramos. 
Após as confrontações armadas, elementos dos Movimentos derrotados foram acolhidos no AB4, tratados os feridos, alimentados e depois evacuados: cerca de 100 ELNA e outros 100 FALA. 
Estas acções provocaram situações de grande tensão com as FAPLA, que, apesar dos acordos, pretendiam apoderar-se de alguns elementos sob nossa protecção, ameaçando atacar o quartel, o que nos obrigou a um serviço esgotante, por se ter intensificado as medidas de segurança e algumas vezes o ocupar de posições. 
A 3ª. Companhia que estava no Camaquenzo reuniu-se ao batalhão em 29 de Julho e a 20 de Agosto foi a vez da 2ª Companhia deixar o Camissombo e juntar-se às restantes Companhias que já estavam na AB4. 
No final de Julho só persistiam alguns elementos da UNITA na região Mussuco-Luremo, altura em estas forças se concentravam em Saurimo. Deste facto resultou um novo crescente de tensão que culminou com novos confrontos em 7 de Agosto, ficando o MPLA com predomínio total do distrito da Lunda.

SITUAÇÃO EM 4 DE SETEMBRO 1975

Comando e CCS - DONDO 
1ª. Companhia - CAMBAMBE 
2ª. Companhia - DONDO 
3ª. Companhia - CATETE 

NO QUANZA SUL 

Em 29 de Agosto de 1975 os primeiros escalões da CCS e 2ª. Companhia deslocaram-se em Boeing dos TAM (Transportes Aéreos Militares) de Henrique Carvalho para Luanda, deslocando-se depois para o Dondo em coluna militar.

Em 1 de Setembro foi a vez da 1ª. e 3ª. Companhia, que numa coluna chefiada pelo Major Correia de Araújo trouxe até ao Dondo material, bagagens e viaturas do Batalhão de Cavalaria 8322, chegando no dia 4 de Setembro.
Em virtude das confrontações verificadas em Malange e Salazar, com as consequentes destruições e por outros motivos que se desconhecem, as tropas que estavam aquarteladas nestas localidades recolheram a Luanda deixando o nosso Batalhão isolado em Saurimo a cerca de 1.100 Km e a 800 Km do Dondo onde permaneceu uma Companhia até à nossa chegada.
Para a deslocação do B.CAV., houve que previamente realizar o movimento de uma força constituída pela 2ª. Companhia a Malange onde passou a escoltar até Saurimo a coluna das Viaturas que haveriam de transportar para o Dondo, importante nó rodoviário, o Batalhão de Cavalaria 8322.

Esta viagem decorreu sem problemas, no entanto, já no regresso uma força das FAPLAS no Cacuso não queria permitir a passagem a viaturas civis, assunto este que foi resolvido por meio de conversações.
Registou-se um acidente de viação e muitas avarias, o que obrigou a paragens sucessivas, tendo de se abandonar 6 viaturas. O facto desta coluna de cerca de 80 viaturas ter chegado intacta ao destino, sem apoio aéreo e sem qualquer ponto de apoio militar ao longo do percurso e com ligação Rádio deficiente, foi um milagre.
A 1ª. Companhia seguiu para Cambambe, barragem que abastecia de energia eléctrica Luanda, Catete, Dondo, Salazar, Malange e Gabela e a 3ª. Companhia para Catete, terra de onde era natural Agostinho Neto.
Os segundos escalões da CCS e a 2ª. Companhia deslocaram-se de DC6 dos TAM do AB4 para Luanda no dia 2 de Setembro seguindo depois em coluna rodoviária para o Dondo.
Na hora da partida, feito o balanço da nossa presença, julgo que a missão de acompanhar o processo de descolonização, harmonizando as oposições entre os Movimentos de Libertação e garantir protecção às populações refugiadas, se não foi totalmente bem sucedida, foi no entanto desempenhada com uma grande dignidade, pois numa altura extremamente difícil garantimos sempre a posse das nossas instalações até à completa retirada.

As nossas actividades foram nesta altura bastante reduzidas, visto que toda a zona se encontrava sob domínio do MPLA, e a poucos dias da independência.



Texto e fotos extraído do Blog do B.Cav. 8322/74

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

BA2 - OTA (HISTÓRIA)



A Base Aérea da Ota foi criada em 31 de dezembro de 1937 e instalada inicialmente em Alverca passando a ter em 1939, a designação de Base Aérea nº 2 (BA2).

vídeo da cerimónia inaugural

Em 14 de abril de 1940 as novas instalações, constituídas junto à povoação da Ota, são inauguradas e aí são ativadas unidades operacionais com aviões "Gloster Gladiator", "Junkers JU-52" e "Junkers JU-86".



Em maio de 1941, as aeronaves "Mohawk"; "Aircobra"; "Wellington"; "Hurricane"; "Spitfire" e "Blenheim" - vieram reforçar os efetivos da Base Aérea nº 2. Parte destes aviões foram cedidos pela Inglaterra de acordo com o Tratado sobre a utilização dos Açores.



Em janeiro de 1953 são aumentados à carga os primeiros aviões a reação da FAP, dois "De Havilland Vampire". Em 15 de maio do mesmo ano, os primeiros 25 aviões "F-84 G Thunderjet" são aumentados à carga e tornam a BA2 a mais importante Base Aérea até ao fim da década.



No ano de 1960 a BA2 sofreu uma transformação radical, deixando de ser uma Base Operacional para ser uma Base de Instrução.

Em novembro de 1976 foi criado o Centro de Instrução nº 2 (CI2), para a instrução elementar de pilotagem (com aviões Chipmunk), especialistas de radar e para a integração das escolas de formação e preparação militar técnica.



Em 1992 a designação de Base Aérea nº2 é alterada para Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea (CFMTFA), integrando o acervo que constitui o património logístico e administrativo da BA2 e CI2, assumindo todos os deveres e obrigações inerentes aos orgãos desativados.