sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

JURAMENTO DE BANDEIRA DO P1/74


14 de Maio de 1974
Camaradas recrutas,
Coube-me a honra e a responsabilidade de ser indicado para escrever e ler algumas palavras a vós destinadas, nesta cerimónia do vosso Juramento de Bandeira, coincidente com o Dia da Unidade; e, aquilo que poderia, à priori, ser como tácita aceitação de uma disposição superior, não o foi, na realidade, pela simples razão de que este ano, houve um 25 de Abril.
Já é do conhecimento geral os acontecimentos memoráveis desse dia, - de cuja extensão não temos ainda a noção exacta – em que um punhado de capitães desceu à rua, deu as mãos ao Povo e resolveu pôr cobro ao governo fascista, colonialista de Salazar e Caetano que, com mais ou menos repressões, com mais ou menos sorrisos demagógicos, com mais ou menos reformas revisionistas ia aniquilando o País, ia tornando Portugal numa Nação indesejável à luz do mundo, fazendo dele um dos recantos mais miseráveis do globo terrestre, para gáudio e enriquecimento de uma minoria, postada na exploração do próprio povo.
Terminou o fascismo e, graças ao Movimento das Forças Armadas / Povo, de imediato se lançaram as primeiras pedras na reconstrução de uma nação verdadeiramente livre, com respeito e defesa das liberdades individuais, sustentáculo inequívoco de um jogo em que as regras se resumem a FÓRMULAS DEMOCRÁTICAS DE EXISTÊNCIA.
Eis porque se tornou possível eu escrever, e mais ler, aqui, numa Unidade Militar de Portugal, qualquer coisa como isto que vos escrevi e estou lendo e que, ainda há bem pouco, me faria quase hesitar em pensá-lo. Ainda me lembro, sem saudade como é evidente, do discurso que há três meses o Alf. Magalhães proferiu, aqui, neste mesmo local, e das dificuldades por ele tidas, em escrever algo que não ferisse as “susceptibilidades governamentais”, nem colidisse com o seu esquema ideológico.
Por isso, e pelo o facto de esta ser (creio eu) a primeira cerimónia de Juramento de Bandeira deste país de Abril, deste Portugal resgatado, desta Nação ressuscitada, eu reafirmo da honra e igualmente da responsabilidade maior que a liberdade de expressão me aufere, na designação desta missão, cujas linhas vos dedico.
Ao fazê-lo, o meu pensamento vai primeiramente para todos aqueles que sofreram na carne, a irracionalidade do governo de Salazar e Caetano, para os presos políticos que no Tarrafal, em Caxias, em Peniche foram expostos aos maiores vexames e torturas, jamais possíveis e passíveis de serem idealizados no mundo actual. E quantos sucumbiram às mãos dos algozes...
Vai, do mesmo modo, para o Povo que durante meio século foi sistematicamente explorado e espoliado dos seus haveres e da justiça; desse povo enlutado que tudo deu sem nada receber.
Não esqueço, ainda, os corajosos filhos da Pátria que se recusaram a alimentar, a colaborar com o fascismo, e no estrangeiro buscaram melhor vida, já que neste canto só encontravam o lento caminhar para uma morte inútil, a fome, a miséria, a injustiça, a corrupção, em contraste flagrante com as benesses concedidas a meia dúzia de monopólios.
Um desses exilados, o extraordinário Manuel Alegre, a personificação incontestada da Voz da Liberdade, gritava lancinante lá de longe:

Não mais Alcácer Quibir
É preciso voltar a ter uma raiz
Um chão para lavrar
Um chão para florir
É preciso um País
Não mais navios a partir
Para o país da ausência.
É Preciso voltar ao ponto de partida
É preciso ficar e descobrir
A pátria onde foi traída
Não só a independência
Mas a vida.


O Tempo é de esperança, e mais de certeza. Já temos um País, com chão para lavrar, para florir; é preciso voltar ao ponto de partida!
Temos homens capazes de o cultivar, de o construir, de o engrandecer, de o amar... é preciso inventar o amor nesta terra que já foi de ódio.
E ao ver-vos diante de mim, de armas na mão, eu vejo, como dizia o poeta, o povo em armas. É preciso não vos esquecerdes que a vossa responsabilidade está em assegurar a paz, defender as liberdades individuais tal como o afirmam os princípios do movimento das Forças Armadas de 25 de Abril.
Da união do Povo com as Forças Armadas dependerá o bem estar social, a alegria de viver, a paz de Portugal.
No Povo sempre esteve e estará a razão de ser de um País.
Com uma farda vestida, um fato de macaco, uma batina, de qualquer modo que vos apresentardes, cabe-vos a responsabilidade e o dever de defesa total dos interesses da Nação.
Pela primeira vez neste País, o Juramento de Bandeira toma o significado e a projecção de uma defesa popular e verdadeiramente nacional.
Vós sois “os homens capazes duma flor, onde as flores não nascem”, como dizia também o Manuel Alegre.
É forçoso que construamos, dentro da nossa especificidade, um País novo, o País de Abril, onde os homens estejam – como referia Paul Valéry – “prontos a enfrentar coisas que nunca existiram”.
Sede dignos, igualmente das fardas que em 25 de Abril, de mangas arregaçadas, empunhando a raiva e o desejo de gritar bem alto “BASTA”, puseram fim ao governo cruel de Caetano, continuador do despotismo santacombadense.
Sede dignos desses homens e ajudai o País a aprender a soletrar palavras como LIBERDADE e AMOR.


Pilotos recrutas do curso P1/74 que os vossos aviões, e os conhecimentos aqui obtidos vos sirvam para estreitar as distâncias, na tal “Viagem do Homem para o Homem”.

A todos boa viajem!
António Ferreira Pinto
Alferes Miliciano

(Discurso proferido em 14/05/1974 na cerimónia do
Juramento de Bandeira do Curso de Pilotos Milicianos P1/74




Ordem Serviço nº 142 da BA1 de 22 de Maio de 1974 - 4º Habilitações militares
Juramento de Bandeira

Em 14 de Maio de 1974, concluíram com aproveitamento a Escola de Recrutas, tendo ratificado o Juramento de Bandeira os seguintes militares:
402/73/Sold/Cad/Pil – Domingos Martins Dias
403/73/Sold/Cad/Pil – Agostinho Lopes Pequito
404/73/Sold/Cad/Pil – António José dos Santos Coelho
406/73/Sold/Cad/Pil – João José Quelhas Milheiro
407/73/Sold/Cad/Pil – José Manuel Pinheiro S. Fernandes
408/73/Sold/Cad/Pil – Pedro Manuel Salgado Borges
409/73/Sold/Cad/Pil – José Manuel Ferreira Simões
410/73/Sold/Cad/Pil – Augusto Jaime da Silva Solho
416/73/Sold/Cad/Pil – António Joaquim Martins Carneiro
441/73/Sold/Cad/Pil – José Luís Romão Alves Mendes
451/73/Sold/Cad/Pil – Vítor Manuel Vieira Viegas
452/73/Sold/Cad/Pil – Pedro Manuel Dias Pissarra
453/73/Sold/Cad/Pil – Rui Alberto de Oliveira Sarmento
454/73/Sold/Cad/Pil – António Fernando Gomes de Almeida
457/73/Sold/Cad/Pil – João Manuel dos Santos Alves
458/73/Sold/Cad/Pil – Rui Manuel Barata de Oliveira Santos
460/73/Sold/Cad/Pil – Joaquim António Crespo F. da Silva
478/73/Sold/Cad/Pil – Vítor Fernando Anacleto V. Fragoso
483/73/Sold/Cad/Pil – Fernando Pereira Rodrigues
7/74/Sold/Cad/Pil – Edgar Carvalho Nunes Henriques
8/74/Sold/Cad/Pil – Carlos Alberto dos Santos Liberato
484/73/Sold/Cad/Pil – Carlos Alberto Lopes de Jesus
210/73/Sold/Al/Pil – Paulo Jorge Alves Bouçadas
417/73/Sold/Al/Pil – Jorge Manuel Pinho de Sousa
418/73/Sold/Al/Pil – João Francisco Horta de Almeida
421/73/Sold/Al/Pil – Carlos Manuel Pedro Ribeiro
422/73/Sold/Al/Pil – António Manuel dos Santos Viegas
423/73/Sold/Al/Pil – António Manuel dos Santos Gomes
424/73/Sold/Al/Pil – António Miguel Faria Pereira
425/73/Sold/Al/Pil – António Fernando Ladeira Bastardo
426/73/Sold/Al/Pil – Carlos Fernando Cunha Soares
430/73/Sold/Al/Pil – Vítor João Ramos Ferreira
431/73/Sold/Al/Pil – João Carlos Pires da Silva
432/73/Sold/Al/Pil – José Manuel Cúcio dos Santos
433/73/Sold/Al/Pil – Paulo Alexandre Ribeirinho C. Bandeira
434/73/Sold/Al/Pil – José Luís Patrício Pinto Coelho
435/73/Sold/Al/Pil – Custódio Joaquim Rita
436/73/Sold/Al/Pil – José Manuel Rodrigues Mourato
437/73/Sold/Al/Pil – Rui Manuel dos Reis Ferreira
438/73/Sold/Al/Pil – Fernando Jorge Lourenço Agudo da Conceição
439/73/Sold/Al/Pil – David Gouveia Cardoso
449/73/Sold/Al/Pil – Francisco Tavares Monteiro da Rocha
450/73/Sold/Al/Pil – António Carlos Moreira Marques
455/73/Sold/Al/Pil – José Marcelino Cordeiro C. Carvalho
456/73/Sold/Al/Pil – Artur Manuel Magalhães Pinto
459/73/Sold/Al/Pil – António Maria Silva V. Mendes
461/73/Sold/Al/Pil – Arménio Simões dos Santos
462/73/Sold/Al/Pil – Jacinto Francisco da Cruz
463/73/Sold/Al/Pil – Adriano José Malaca Rosa
476/73/Sold/Al/Pil – Pedro Manuel Ferreira dos Santos
477/73/Sold/Al/Pil – Carlos Fernando Reis Marques
479/73/Sold/Al/Pil – José Manuel Azevedo Lourenço
480/73/Sold/Al/Pil – Hélder José Chaves Rosário Dias
481/73/Sold/Al/Pil – Maximiano Augusto Miguel
482/73/Sold/Al/Pil – João Pedro Fernandes Antunes
485/73/Sold/Al/Pil – António José Branco Guedes de Magalhães
486/73/Sold/Al/Pil – Teófilo Joaquim Soares Salgado
487/73/Sold/Al/Pil – Luís Maria Novaes de Oliveira Tito
488/73/Sold/Al/Pil – Delmiro Dominguez Andion
489/73/Sold/Al/Pil – Jorge Manuel da Silva Rodrigues
2/74/Sold/Al/Pil – José Gonçalves Leonel
3/74/Sold/Al/Pil – Mário Correia Frazão
4/74/Sold/Al/Pil – António Rosa Gonçalves
5/74/Sold/Al/Pil – Lourenço Janeiro Martins
6/74/Sold/Al/Pil – Leonel Alberto Ferreira da Cruz

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ACIDENTE DO SKYMASTER 7502, EM S. TOMÉ.





No dia 23 de novembro de 1962, sexta-feira, por volta das três horas da madrugada, com chuva fraca, levantou voo do modesto Aeródromo Trânsito 2, da cidade de São Tomé, capital da então província ultramarina de São Tomé e Príncipe, o quadrimotor Douglas C-54D, Skymaster, registado como sendo o avião 7502 da Força Aérea Portuguesa, oriundo de Luanda e com destino final a Lisboa.

Com a lotação completa, trinta e dois passageiros, entre militares e civis, e com carga máxima, muito pesado e sem a velocidade necessária numa pista relativamente curta, saiu na direção do interior da ilha e não do mar, mas não conseguiu ganhar altura bastante para adquirir sustentação que permitisse superar as copas das árvores pelo que começou a roçar-lhes até perder altitude e se despenhar no solo, perto da praia da Roça Boa Entrada, a 3 quilómetros de distância, explodindo, já que estava atestado de combustível.


Num instante foi um inferno! Arrepiante, chocante, aterrador e o que se passou a seguir, indiscritível, até…
A Força Aérea Portuguesa perdeu 12 dos seus mais dedicados e briosos profissionais, cujos nomes respeitosamente recordam-se a seguir.

O resultado, na perda de vidas humanas, foi medonho! Em termos militares foram 12 os falecidos (dez tripulantes e dois passageiros) e, nos civis, 8, adultos e criança! 
Esta catástrofe atingiu de forma brutal jovens artistas do Teatro ABC, que tinham ido a Angola, participar em espetáculos dedicados aos militares portugueses, dado estar-se em plena Guerra Colonial.







Já antes, em 31 de janeiro de 1951, a aeronave 282, com as mesmas caraterísticas técnicas e registo USAAF 42-72477, despenhou-se no mar logo após levantar voo em treino noturno e por caudas desconhecidas, da Base Aérea das Lages, na Ilha Terceira, Açores, no sentido da Praia da Vitória, tendo morrido os seus 14 ocupantes, todos militares.
Foram 17 os aviões deste modelo que, ao serviço da Força Aérea, estiveram a operar em Portugal de 1947 a 1973.

SOBREVIVENTES:
JOÃO OLIVEIRA AMARAL
Alferes Mecânico Material Terrestre 
FRANCISCO COSTA SIMÕES
Alferes Serviço Geral 
JOSÉ VINHAS RIBEIRO
1º Cabo 866/A 
AVELINO ALMEIDA GONÇALVES
1º Cabo 369/RD
EVARISTO DIAS JOAQUIM
Soldado 128/60 
JOSÉ REBELO FERREIRA
Soldado 130/60 
FRANCISCO GONÇALVES MARRAFA
Soldado 106/60 
DAVID PEREIRA DA COSTA
Soldado 1101/60 
CARLOS CARVALHO MIRA
Soldado 115/61 
DELFIM PEREIRA
Soldado 120/61 
JOSÉ SOUSA LEITE
Soldado 122/59 
ANTÓNIO SILVA
Contramestre do Teatro ABC

Nota: este registo só foi possível graças à preciosa colaboração, que muito agradeço, das seguintes entidades: Arquivo Central da Força Aérea, Arquivo Histórico da Força Aérea, Hemeroteca Municipal de Lisboa e Radiotelevisão Portuguesa. Foram, ainda, consultados os seguintes periódicos: JORNAIS - Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Século. REVISTAS - Flama, Mais Alto e Século Ilustrado.

Em Blog Alberto Helder