quinta-feira, 16 de abril de 2015

ACIDENTE DO T6 1789 (II)

O 1789 acidentado
Não me recordo a data em questão mas lembro-me perfeitamente de ser um Sábado. 
O comandante do destacamento, Eduardo Cruz, estava a acabar a sua comissão e embarcava de regresso a Portugal nessa semana, pelo que o Alferes Lorena (destacado no Cazombo) veio de Henrique de Carvalho nesse sábado para o substituir e assumir o comando do destacamento. 
O Lorena chegou ao destacamento por volta das 11:30 já perto da hora do almoço. Ainda antes de almoçarmos, enquanto estávamos apenas os dois perguntei-lhe: “Olha lá, o que queres fazer á tarde? Queres voar ou fazer alguma coisa?” 
Lorena - E pá, tu é que conheces aqui a zona, portanto tu é que sabes. 
Fidalgo - Ok, vamos fazer o seguinte então, tenho um objetivo que fica perto do rio Cubango, detetei esse alvo há umas semanas com o Cruz, podíamos ir lá hoje fazer uma surpresa aos Turras. 
Lorena - Ok, vamos lá então, segues tu como chefe da parelha.

T6 armado
Disse então ao Lorena para ele levar apenas bombas, e que eu iria levar bombas e metralhadoras para fazer umas rajadas no fim do bombardeamento. Mandei armar o meu T-6 com duas bombas de 50kg para fazer dois passos de tiro, o T-6 do Lorena salvo erro foi armado também com duas bombas de 50kg e 6 bombas de 15kg. Não me recordo se eu também carregava bombas de 15kg, talvez não pois já levava as metralhadoras. 
Lembro-me ainda de lhe dizer que caso o rádio falhasse, para ele me seguir e largar as bombas exactamente onde eu largasse.
Enquanto nos preparávamos para a missão, o mecânico (MAEQ) Soares abordou-me e perguntou se poderia vir comigo. Disse-lhe que não, que ele sabia perfeitamente que nos bombardeamentos estávamos expressamente proibidos de os levar no cockpit, mas para ele perguntar ao Alferes Lorena se poderia ir com ele à responsabilidade do Alferes. Passados alguns minutos vi o mecânico a equipar-se com o para-quedas e capacete, iria afinal no avião do Lorena.
Parelha de T6 descolando para a missão



O voo até ao alvo era relativamente curto, cerca de 20 minutos ou no máximo 30 minutos de voo. Chegando ao local, passei imediatamente ao primeiro passo de tiro, largando uma bomba de 50kg. Saio de cena, e fico a olhar o avião do Lorena a ver onde iria meter a bomba. O T-6 do Lorena começa então a fazer uma picada, mas muito suave, tão suave que nem sequer lhe chamaria picada. Entretanto não vejo nenhuma bomba dele a explodir, “Carago… o que é que esse gajo está a fazer?!”
Fidalgo - “Número 2? O que se passa? 
A única resposta que ouvi foi uma série de ruídos e estática, continuei sem perceber o porquê dele não largar a bomba e passei de imediato ao segundo passo de tiro. Ao largar a segunda bomba de 50kg, espreito e vejo mais uma vez que o Lorena não largou qualquer bomba. 
Fidalgo - “Não sei o que se passa contigo, mas se estiveres a ouvir-me vou acabar isto com as metralhadoras”. 
Entro então no alvo, a cerca de 1000 pés e por usar agora as metralhadoras entro num ângulo de picada bastante mais suave do que anteriormente com as bombas. Fiz a primeira passada, e então quando estou a sair da segunda passada ouço um estouro enorme, um BOOM ensurdecedor e sinto o avião a estremecer todo. Só pensei “esses filhos da… estão a tentar disparar qualquer coisa contra mim!”. Segundos depois procuro o avião do Lorena e avisto-o a sair do local. Meto-me atrás dele e vejo-o a descer, lentamente mas a perder cada vez mais altitude até entrar pelas árvores dentro.
"Escondido" no arvoredo
Só mais tarde vim a saber que o estouro e o impacto que senti no avião, foi das bombas que o Lorena largou antes de cair enquanto o meu T-6 estava tão próximo do solo. Ele despejou-as todas de uma vez em modo emergência, não seria suposto saírem armadas, mas saíram e por muito pouco a onda de choque das explosões não me deitaram abaixo. 
Dei duas passadas apenas em cima do local onde caiu para não chamar a atenção dos "Turras" (1). 
Na primeira volta sobre o T-6 despenhado vejo a cabina deles aberta, e na segunda volta já vi os dois em pé cá fora do avião. Saí de imediato dali, e segui rumo à Chiumbe que ficava ali perto, cerca de 8 minutos de voo, e onde tinhamos um quartel do exercito. 
No trajeto agarrei no meu mapa e escrevi “T-6 CAÍDO DE EMERGÊNCIA, SIGA O RUMO X”. Ao sobrevoar o quartel, que era bastante pequeno e ficava em cima de um morro, fiz uma passagem em voo lento, flaps e trem de fora, cabina aberta, tudo o que pudesse baixar a velocidade do T-6 ao máximo mas sempre a controlar a velocidade para não correr o risco de entrar em perda. Passei sobre eles com uma velocidade de cerca de 80 mph ou menos, atirei o mapa lá para baixo, recolhi trem de aterragem e flaps e fiz uma volta. Vi-os com o mapa na mão e logo de seguida o Unimog a fazer-se ao rumo que lhes indiquei. Segui então para a base em Gago Coutinho e contactei Henrique Carvalho para informar o Comandante da base e de Esquadra sobre o acidente. 
A noite foi péssima, para além da preocupação pelos camaradas que ficaram entregues à sua sorte no local dos guerrilheiros, o Cabo OPC vinha chamar-me quase de 20 em 20 minutos, “O Comandante quer falar consigo, precisa de saber mais isso ou aquilo.”
Ao fim da noite mal dormida, ainda quase antes de nascer o dia descolamos para identificar o local do acidente de forma aos helicópteros resgatarem piloto e mecânico. Seguia também um PV-2, que não ia a fazer quase nada senão “show-off “ para meter medo aos Turras, uma vez que apenas eu sabia o local exato da queda.
Para piorar o cenário, o T-6 havia ficado parcialmente escondido no meio das árvores. Nessa manhã quando localizamos o T-6 caído, fiquei espantado ao ver o avião completamente destruído, não queria acreditar no que via pois no dia anterior o T-6 estava praticamente inteiro no meio das árvores. Só mais tarde vim a saber que o problema que fez o avião cair, foi uma fuga de óleo que já se transformava em fogo fazendo o Lorena decidir uma aterragem de emergência em vez de seguir para a pista mais próxima. Essa mesma fuga de óleo transformou-se numa pequena chama após a queda do T-6, consumindo-o lentamente até chegar aos depósitos de combustível que acabaram por explodir passadas algumas horas. 
Após serem localizados, só lançaram o very-light quando ouviram o ruído dos helicópteros a aproximar-se, pois sabiam que estavam cercados por guerrilheiros que andaram à sua procura durante toda a noite. No dia anterior logo após o acidente, afastaram-se do avião e do local para não serem apanhados pelos turras.
João Fidalgo
Acabaram por passar a noite em cima de uma árvore, em que até para urinar faziam pela perna abaixo para não denunciarem o esconderijo aos turras, que faziam tudo por tudo para os capturar.
O resgate acabou por se dar por volta do meio-dia, foram resgatados por para-quedistas que se encontravam destacados em Ninda, entretanto não assisti ao resgate uma vez que já tínhamos retornado à Gago Coutinho.
Pouco tempo depois do resgate segui com o DO-27 para Ninda com o Tenente Andrade salvo erro, para fazer a evacuação de ambos para Gago Coutinho por se encontrarem com alguns “maus tratos”. Estava aos comandos do DO-27 quando o Lorena entrou no mesmo para ser evacuado, virei-me para trás e disse-lhe apenas “ficas a dever-me uma!”, referindo-me ainda às bombas que quase me mandaram ao chão.
O Lorena foi-se embora nesse mesmo dia para o Luso e passado pouco tempo também acabou a comissão, pelo que não voltou mais ao destacamento, tendo eu ficado sozinho em Gago Coutinho por algumas semanas ou meses, até a chegada de outro piloto no destacamento

Depois desse dia nunca mais o vi, tendo encontrado o Lorena como piloto na TAP já passados vários anos.


(1) Termo utilizado para referir o IN


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1 comentário:

  1. É Fidalgo, era e foi o último voo do Lorena em Angola. Houve festa RIJA na casa em Henrique de Carvalho. A história depois da aterragem de emergência foi do caraças ...
    Eu e Afonso Costa fomos os helis dos Saltimbancos que resgatámos o Lorena e o companheiro duma noite "bem passada".
    Carlos Melo Vidal no FB de Daniel Fidalgo

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