sábado, 22 de outubro de 2011

ERA SÓ T6

A pedido do meu "irmão" Manuel Ribeiro da Silva, aqui vai:
O Vinhas tinha uma propensão natural para fazer asneiras. Sem maldade, mas ASNEIRAS!
Um dia estávamos no Lumege, em plena operação Siroco, quando chegou a notícia do desaparecimento de um avião da Aerangol que tinha saído do Cazombo para o Luso (salvo erro) e o pedido para que fosse feita uma busca. Lá fui no ALIII com o mecânico que, embora não tenha a certeza, penso que era o Palma.
O Aerangol - foto de José Carvalho
Encontrámos o avião, acidentado, algures na "chana" da Cameia, na rota prevista. Saímos do helicóptero e verificámos que todos tinham morrido excepto um dos passageiros, que tinha saído do avião e estava sentado sob uma árvore ali perto, ileso mas em estado de choque.
A noite estava próxima e seguimos para o Cazombo com o sobrevivente. Aterrámos já ao escurecer.
Durante a noite foi organizada a recuperação dos mortos. O helicóptero faria o transporte dos corpos para o Marco 25 (um pequeno destacamento do exército) que ficava a uns 10 minutos de voo do local do acidente. Uma parelha de T6 - e é aqui que entra o Vinhas! - faria a protecção ao pessoal no chão, visto que a zona era zona de guerra.
A chegar ao Cazombo - foto de José Carvalho
Quando chegou a altura de os levar, os mortos tinham, então, passado cerca de 24 horas sob calor intenso, estavam já hirtos e o cheiro que deitavam era muito mau.
Enquanto os T6 voavam em círculos sobre o local do acidente, os mortos foram "empilhados" na parte de trás do helicóptero. Três de cada vez. Os corpos tinham endurecido em posições que lhes davam um aspecto macabro, quase vivo, e o voo, por isso mesmo, foi feito a baixa altitude para que acabasse depressa. 
A "companhia" não era a mais agradável e eu só queria ver-me livre dos "passageiros".
Quando a última "carga" ficou pronta, eu disse (pelo rádio) ao Vinhas que poderia regressar ao Cazombo porque eu já não voltaria ali. Vi os T6, em formação larga, tomarem a direcção do Cazombo (Sueste) a uns 500 pés e, pouco depois, parti em direcção ao Marco 25 (Norte) sempre a "rapar" para chegar rapidamente ao destino.
Nesta última viagem o corpo "de cima" tinha ficado numa posição tal que uma das mãos estava no ar, muito perto da minha cara. Com as vibrações do voo, a mão "acenava" sem parar. Por mais que quisesse olhar para outra coisa, os olhos acabavam sempre na mão que me acenava. A tensão era enorme...
Pouco tempo após a descolagem, ia eu mais concentradíssimo que o Futre, o Vinhas resolveu fazer mais uma das suas brincadeiras (leia-se: asneiras). Sem dizer nada, tinha voltado para trás e passou com o T6, de "prego a fundo", pelo pouco espaço que havia entre o helicóptero e o chão, de trás para a frente. Não contente com isso, mal passou o helicóptero puxou o T6 quase à vertical. Mesmo à minha frente. A imagem que ainda lembro é a de um avião que me pareceu gigantesco e que cobriu completamente o meu campo de visão. A cabine do T6 parecia estar a passar junto aos meus pés. Era só T6!
Parelha de T6 - foto de Gonçalo de Carvalho
O "choque" foi tal que eu fiquei "paralisado" por alguns segundos. E ainda bem que assim foi porque se eu tivesse reagido, teria cortado a cauda do helicóptero com uma puxadela brusca no manche e não estaria aqui agora a contar a história. Quando finalmente me recompus chamei-lhe, pelo rádio, todos os "nomes bonitos" que me vieram à cabeça; o rol completo! O Vinhas deve, nesse momento, ter compreendido a asneira que tinha feito e nem respondeu.

Só voltei a encontrar o Vinhas alguns dias mais tarde e a animosidade já tinha passado.

por 






(in HUF do FB)

Sem comentários:

Enviar um comentário