sexta-feira, 20 de março de 2015

O CAÇADOR DE NUVENS

Do livro de Alex Shearer
Desde pequeno que sempre que, em conversa de circunstância, os adultos me perguntavam: "e então o que é que tu queres ser quando fores grande?" Eu fazia um compasso estudado de espera e disparava: "Quando eu for grande, quero ser caçador de nuvens!". 
Para mim nada seria melhor que cruzar os céus, qual "Super Homem" e furar nuvens para ver o que continham; se me queriam ver feliz, era deixarem-me estar deitado de costas, braços cruzados atrás da cabeça olhando o céu em busca de nuvens, adivinhando-lhes as formas, e sonhando como seriam magníficas as suas viagens sem destino pelo azul infinito, uma paixão que acabou por passar com a adolescência. 
Quando, feita a recruta tive que decidir em qual das especialidades ingressaria, estava dividido entre OMET ou MMA (estudar as nuvens, ou furá-las) mas devido à influência de um amigo de infância, acabei por ir para OPC e mais uma vez as nuvens perderam em função da minha escolha. 
Mais tarde, com a especialidade terminada, colocado em Tancos, sem ninguém para
BA3 Tancos
conversar em longos turnos de cifra e posto de rádio, ia regularmente para a torre de controlo que 
ficava imediatamente por acima do posto de rádio, conversar com os controladores de serviço depois de transmitir a meteorologia que era enviada de hora a hora para Lisboa, e as conversas incidiam sobre o serviço, e as nuvens vinham invariavelmente à baila... 
Por curiosidade aprendi-lhes os nomes, e as formas, das mais baixas ás mais altas, Estratos, Estratocúmulos, Nimbo Estratos, Cúmulos, Alto Estratos, Alto Cúmulos, Cirros, Cirro Cúmulos, Cirro Estratos e as que eram diferentes de todas as outras devido à sua formação e evolução vertical de que mais gostava, os Cúmulo Nimbos. 
Veio a mobilização, o primeiro destacamento e a inevitabilidade e o espanto de como OPC, na ausência de um OCART ou OMET, ter de controlar aviões ou de fornecer informações em tempo real sobre as condições meteorológicas à vertical, foi o pânico de errar e o confronto com a realidade, nunca em tempo algum aos OPC'S foi explicado sucintamente como fazer controlo aéreo, ou uma observação meteorológica, quando podia um avião ter condições meteorológicas seguras para aterrar/descolar, ou como fazer as leituras do vento ( sua direção, intensidade e caracterização) do tecto (altitude tipo e caracterização das nuvens) da visibilidade horizontal (distância da visibilidade em Metros/Quilómetros) da pressão atmosférica, (em Bares) e o mais importante prever como seriam as suas evoluções durante a duração do voo entre o ETD e ETA, (tradução) tempo estimado da descolagem e aterragem. 
Se pensarmos que numa viagem de Henrique de Carvalho a Neriquinha, na época das chuvas, tínhamos as quatro estações do ano nesse período... 
Neriquinha, forte chuvada
Quando efectuei lá o primeiro destacamento, a urgência sobre uma rápida previsão do tempo à vertical era tão decisiva que se não fosse credível e efectuada num curto espaço de tempo, o avião nem sequer carregava os materiais, frescos e outros, ficando toda a gente sem correio e alimentos durante mais quinze dias, com todas as implicações inerentes... 
E não se pense que bastava dizer pomposamente que o tempo estava (CAVOK) abreviatura do Inglês (ceiling and visibity ok) traduzindo: (à vertical da pista, visibilidade horizontal acima de 10 KM, ausência de; nuvens abaixo de 1500 metros ou 5000 Pés, especialmente Cúmulo Nimbos, Chuva, trovoadas ou tempestades de areia ou pó) portanto, bom tempo, valesse essa informação o que valesse, para que o avião descolasse, as tripulações exigiam rigor nas informações antes de descolar, pois tinham
plena consciência da precariedade das previsões feitas a olho, e em Neriquinha só havia um OPC e um MR, portanto toda a responsabilidade recaía sobre o OPC. 
No Cazombo existia uma estação meteorológica e um OMET, que fazia essencialmente 
Aparelho de estação metereológica
observações para estatísticas, era o OPC que "a olho" dava o tempo à vertical aos aviões do destacamentos, salvo se cheirasse a "peixe graúdo", aí as coisas eram tratadas com mais cuidado. 

Na minha primeira época de chuvas em Angola, marcaram-me dois acontecimentos meteorológicos extraordinários, uma praga de gafanhotos, num dia de calor abrasador, e em seguida um dilúvio que os afogou a todos; e uma chuvada terrível, com um barulho ensurdecedor nas chapas de cobertura do nosso bar, que depois verificámos não ser granizo mas girinos e pequenos sapos aos milhares, que tinham sido sugados de um rio ou chana, e despejados literalmente sobre o AB4, infestando as valetas em cimento, o nosso e todos os lagos e poças, fazendo cada sapo com o seu coaxar, uma barulheira infernal primeiro, e depois de secas as poças e mortos os sapos, um cheiro pestilento que ninguém aguentava. 
Cúmulonimbos
Em meses de Gago Coutinho, nunca declarei a pista fechada devido ao mau tempo, embora muitas vezes frentes ameaçadoras de formações de "Cúmulo Nimbos" do Grego: Cúmulos (literalmente montão ou montanha de nuvens) mais Nimbus (chuva) qual esquadra de cruzadores dos céus ameaçassem desfazer tudo sob toneladas de água, vento e estática. Mesmo no interior do posto de rádio, sempre que eles apareciam e na época das chuvas eram visitas frequentes, sem vir cá fora sentíamos a sua presença, trabalhávamos em cima de estrados de madeira, para evitar o óbvio, as antenas canalizavam para o posto de rádio as ondas eletromagnéticas, mas também milhares de "Volts" no caso de um raio as atingir, e um simples movimento de aproximação aos emissores e aos seus campos eletromagnéticos, tinha como consequência o eriçar de todos os pelos e cabelos do corpo, ou do acender de uma lâmpada fluorescente, simplesmente assente em cima destes sem estar ligada à corrente, ou do rodar errático de uma caneta ou esferográfica ou outro objecto metálico no tampo da bancada, depois era o ruído de fundo a aumentar nos receptores até eles estarem quase à vertical e de seguida um "estranho" silêncio nas frequências, de onde desapareciam todos os sinais, e por fim o ribombar inequívoco e troante da sua presença.
O cacimbo matinal

Embora fossem as nuvens para mim mais ameaçadoras, não eram as únicas que eram temidas pelas tripulações, de manhã bancos de nevoeiro erguiam-se dos rios e solo húmidos e espraiavam-se por vastas áreas, impossibilitando as descolagens ou aterragens, ou cerradas borrascas de cúmulos, debitavam toneladas de água em frentes de quilómetros, movidas a ventos que os alinhavam impossibilitando o seu atravessamento, e levantando enormes nuvens de pó que impediam a visibilidade obrigando a longos desvios de rota.
Ainda hoje inconscientemente, passados mais de quarenta anos, de manhã tenho aquela necessidade intrínseca de ir à janela olhar o céu e espeitar as nuvens, como moro perto do mar ainda sorrio quando os vejo, vindos da linha do horizonte marítimo, castelos de Cúmulos Nimbos em formação, qual invencível armada, e vêm-me à memória os sons e cheiros da terra molhada da Mãe-África.


OPC (ACO) - 71/73

1 comentário:

  1. Uma bonita dissertação acerca do que era om trabalho dos METEO, e também dos que embora não o sendo, mesmo tendo um mini-curso, também o fizeram por via das circuntâncias.

    Sérgio Durães
    OPC 70/72

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