segunda-feira, 23 de abril de 2012

CAPINAR COM HÉLICE

DO 27 Para a descolagem 
Decorria o ano de 1969, quando o comandante da esquadra, capitão Cóias, me incumbiu de acompanhar o fur. Piloto Abecassis no voo de adaptação do DO 27, com a viva recomendação de não permitir brincadeiras.
Após a preparação do avião, lá nos dirigimos para a pista, após um bom aquecimento do motor, com todos os procedimentos, pois o Abecassis era “maçarico”, descolamos e subimos até 3000 pés de altitude, a normal para voo de cruzeiro.
Eis que nos depara uma maravilhosa vista do rio Chicapa serpenteando através de uma “chana” com o capim bem crescido, ultrapassando os 2 metros de altura naquela época do ano, e o nosso amigo Abecassis disse: - É pá, e se fizéssemos uma “rapada”? – o que respondi – não te esqueças o que disse o capitão! – ao qual ele retorquiu – só se fores fazeres queixinhas! – e eu atingido em cheio no meu orgulho, repliquei – claro que não!
Então o nosso “herói” empurrando o manche para a frente, picou o avião até atingirmos uma altitude, em que do meu lado via a roda do trem a uma altura do capim, cerca de um metro, e lá fomos “rapando” o capim, a uma velocidade de 180 nós aproximadamente. Entretanto, devido ao serpentear do rio, ao atravessarmos de uma margem para outra, perdeu-se a referencia da altura do capim, e quando chegamos à outra margem, vejo a roda do meu lado a entrar pelo capim adentro, ouço um barulho ensurdecedor, do capim a bater na barriga do avião, e bocados de capim a voarem à nossa volta, cortados pelas pontas do hélice. 
Entretanto, tudo isto em instantes que me pareceram uma eternidade, o Abecassis com a minha “ajuda” puxa o manche para a barriga, e lá vai o avião a ganhar altitude, e após breves instantes o Abecassis, tremendo como varas verdes, pede-me um cigarro para tentar acalmar, e claro eu também não me encontrava lá muito calmo, até tinha dificuldade em tirar o cigarro do maço, também fumo um.
Quando acalmamos foi a vez de verificar os “estragos”, e verifico que do meu lado, entalados, no disco do travão, pedaços de capim, pergunto ao Abecassis como estava o lado dele, o que me responde, que do lado dele também tinha capim agarrado ao disco do travão. Sugiro que quando aterrássemos, ele não dirigisse o avião de imediato para a placa de estacionamento, e permanecesse uns minutos na pista, a fim de dar tempo a que eu saísse a fim de limpar os travões.
Qual não foi o meu espanto, quando saí do avião e verifiquei que havia pedaços de capim entalados no estabilizador horizontal, junto à fuselagem, e também metidos no saco da antena de VHF.
Após fazer a “limpeza”, lá nos dirigimos para a placa de estacionamento. Quando parou o motor verifiquei que cerca de um palmo da ponta do hélice para dentro se encontrava verde, como se estivesse a cortar “caldo verde”. 
No fim disto tudo, claro que o capitão Cóias, pela minha boca não soube de nada.
DO 27 "Capinando" o arvoredo - foto de Eduardo Cruz



Nota: Esta estoria poderá ter algumas imprecisões por ser escrita 34 anos após os acontecimentos.


Lisboa, 01 de Junho de 2006