quinta-feira, 28 de abril de 2022

ZECA AFONSO, RUI PATO e SALGUEIRO MAIA


Na EPC de Santarém, em 1969:

- Você é que anda a acompanhar o Zeca Afonso nos discos?"
- Sou, sim, meu tenente!
- Então fica já uma coisa combinada - sempre que eu estiver de serviço, o meu amigo leva a viola para o quarto do médico de serviço.

Como a maior parte de vós saberá, o Rui Pato, que tocava com o Zeca desde 1962, foi impedido de o acompanhar na viagem a Londres para a gravação do disco Traz Outro Amigo Também, por se ter envolvido nas lutas dos estudantes durante a crise académica de 1969. Também por isso, tal como todos os outros estudantes afetos à AAC (50!), foi expulso da Universidade - frequentava já o 4.º ano de Medicina - e castigado com o serviço militar.
Depois da recruta, em Mafra, Rui Pato foi enviado para Santarém, para o quartel de cavalaria, onde acabou por conhecer Salgueiro Maia. A seguir aos comandos, a cavalaria "era a pior arma porque estava preparada diretamente para a guerra na Guiné, tinha uma instrução própria", explicou ao DN em abril de 2019.
"Aí, foi um período duríssimo, porque foi instrução a sério, mas também teve os seus aspetos interessantes, que começou logo no dia em que fomos apresentados ao tenente Salgueiro Maia, que mandou destroçar a parada e se dirigiu a mim e ao João Pais Brito, que depois acabou por fugir".
"Você é que anda a acompanhar o Zeca Afonso nos discos? 'Sou sim, meu tenente'. Ora bem, vocês sabem que têm aqui um estatuto especial e que nós somos obrigados a vigiar-vos de uma maneira muito mais apertada do que aos outros recrutas que aqui temos?".
A resposta de Rui Pato e de João Pais Brito não se fez esperar: "Sabemos, sim". O espanto vem a seguir com o pedido de Salgueiro Maia: "Então fica já uma coisa combinada - sempre que eu estiver de serviço, o meu amigo leva a viola para o quarto do médico de serviço".
"E assim foi. E passámos umas noites animadas e nessa altura fiquei a saber quem era o Salgueiro Maia, isto ainda em 1969, quando ainda faltava bastante tempo para a revolução de 1974, em que já no posto de capitão teve um papel importantíssimo", contou ainda ao DN o RUI PATO.

E, já agora acrescento eu que, numa tertúlia em casa de amigos comuns, em Amiais de Cima, concelho de Santarém, ouvi o Fernando Salgueiro Maia cantar e tocar Zeca Afonso muito bem, com a sua voz tonitruante, enchia todo um salão sem precisar de microfone. Isto em 1980, já depois do regresso dos Açores, para onde tinha sido transferido em 1976.
(esta história tinha de ser contada com o devido destaque, o Rui Pato já a contou no seu mural, não sei se alguma vez aqui também em comentário, autorizou-me a contá-la aqui, tanto mais que é pública, consta num artigo do DN de há dois anos)

quinta-feira, 21 de abril de 2022

DOS FEITOS POR GUIDAGE OU OS DIFÍCEIS CAMINHOS DA LIBERDADE



No dia 22 de Maio de 1973, a minha companhia tem tudo pronto para seguir para o Cumeré(1), com vista a regressar a Portugal. A boa disposição é permanente e total.
A companhia, depois de uma comissão quase permanentemente actuando como unidade de intervenção, com a consciência do “dever cumprido”, dá largas à sua alegria, provocando o pessoal das outras unidades com o velho “Periquito vai no mato... que a velhice vai no Bissau”.
Pelas 19 horas recebo uma chamada de Bissau que me informava ir receber uma mensagem ordenando que a nossa companhia não seguia para o Cumeré mas para outro lado, com vista a fazer uma operação de 6 dias antes de embarcar.
Nesta altura, o PAIGC desencadeava uma ofensiva em pinça, a norte por Guidage(2)  e a sul por Guileje. Esta última posição já tinha sido ocupada pelo PAIGC, que capturou todo o material lá existente, depois de vários dias de cerco e bombardeamentos; a norte, lutava-se por Guidage. Na zona de Guidage, as flagelações do mês de Maio de 1973 passaram de 50, no mês anterior, a 167. O IN(3)  passou a utilizar mísseis terra-ar, do que resultou serem abatidos 1 avião DO-27 que acabava de evacuar feridos da pista de Guidage, um avião T-6 de uma patrulha de 2, que foram ver o que tinha acontecido ao DO-27, e um avião Fiat G91. Dos aviões abatidos resultou a morte de todos os ocupantes do DO-27 e de um dos outros pilotos, pois um deles pôde ser recuperado depois de se atirar em pára-quedas.
O único acesso a Guidage passava por Binta, a cerca de 20 km; no itinerário, o IN implantou um campo de minas anticarro e antipessoal, com a originalidade de, pela primeira vez, as minas anticarro rebentarem com a simples “pica” (pau com um pedaço de verga de ferro na ponta e que servia para, picando o terreno, ouvir o bater do ferro na mina). Antes das minas, a última coluna de reabastecimento a Guidage foi atacada consecutivamente durante cerca de 24 horas, tendo a escolta esgotado praticamente todas as munições de armas ligeiras que transportava, pelo que as viaturas com o restante material e os nossos mortos foram abandonadas no terreno, tendo as NT(4) retirado em boa ordem para Guidage, sofrendo 4 mortos, 8 feridos graves e 10 ligeiros. O Batalhão de Comandos foi enviado às bases IN localizadas no Senegal – operação “Ametista Real” – para tentar diminuir a impetuosidade do ataque mas, apesar de destruir material diverso, teve de retirar face a que o IN lhes surgiu com viaturas blindadas e sofreram 16 mortos, sendo dois oficiais, e 20 feridos.
Uma companhia de paraquedistas e um destacamento de fuzileiros tentam abrir o itinerário e conseguem chegar a pé a Guidage, mas com 3 mortos e vários feridos, depois do destacamento de fuzileiros ter caído no campo de minas e os paraquedistas terem sofrido uma emboscada em campo raso, onde o IN utiliza canhão sem-recuo em tiro directo.
Por volta de 20 de Maio, existiam cercadas em Guidage as seguintes unidades: a companhia de Guidage; a companhia que escoltou o último reabastecimento de Bissau sem problemas; a companhia de Farim, que teve de abandonar as viaturas, posteriormente bombardeadas e destruídas pela Força Aérea quando o IN as descarregava; a companhia de paraquedistas; o destacamento de fuzileiros; e o efectivo de cerca de uma companhia de comandos, constituído pelos homens das várias companhias que tinham actuado no Senegal mas, por cansaço ou ferimentos, não tinham podido retirar a pé para Binta; por fim, 1 furriel e 2 praças, únicos sobreviventes do pelotão de artilharia em apoio, cujas peças o IN tinha feito o alvo preferido (num dos ataques, o IN, que fazia tiro com observadores avançados, como numa carreira de tiro, acertou em cheio no abrigo da guarnição de uma das peças e fez 4 mortos e 3 feridos graves); existiam, ainda, 2 pelotões de milícias que, de Bigene, se dirigiram para Guidage, sendo emboscados no caminho e tendo sofrido 1 morto e 2 feridos graves.
Do desenrolar de várias acções na zona de Guidage, as NT sofreram mais 5 mortos e 23 feridos, sendo 7 graves, além de, dentro de Guidage, terem sofrido 3 mortos e 24 feridos, depois de prejuízos graves no aquartelamento. Nova coluna de reabastecimentos fica retida em Farim, pois no itinerário Mansoa-Farim foi atacada, tendo sido destruídas 3 viaturas, que ficaram no terreno, para além das NT terem sofrido 4 mortos e 16 feridos, sendo 9 graves, incluindo um oficial. Destas acções resultaram cerca de 70 mortos e muito mais feridos para o PAIGC, entre 5 e 22 de Maio de 1973.
No Sector Sul, continuava a acção IN, tendo abatido 2 aviões Fiat G91, com a morte de um dos pilotos, para além de atacar em força Catió e Cufar, e dificultar os trabalhos na estrada Cadique-Jemberem. Na sua luta por Guidage, o PAIGC utilizou a Art.ª pesada e ligeira do CE 199/E/70, apoiada por infantaria do CE 199/B/70 e CE 199/A/70, além de um grupo especial de mísseis terra-ar que, para além do referido, pode ter sido o responsável pelo desaparecimento de outro avião DO-27. Em armamento, o IN utiliza nesta altura  peças 120 mm, de tiro rápido, foguetões 122 mm, morteiros 120 e 80 mm, canhões-sem-recuo de 7,5 e 5,7, lança-granadas-foguete RPG 2 e RPG 7, isto para além do armamento ligeiro normal e mísseis Strela terra-ar.
Com estes brilhantes antecedentes, não foi fácil prever qual a operação a desencadear. A 23 de Maio, pelas 06.00, inicia-se a cambança(5)  do Rio Mansoa, em João Landim; pelas 08.30, estamos em Bissau no Combis(6), e começamos de novo a receber material de guerra para substituir o que tínhamos entregado com vista a embarcar para o Continente. Aqui começam os problemas. Em primeiro lugar, não havia granadas de morteiro de 81 ou 60 para fornecer, pois estavam esgotadas, não havia lança-granadas 8,9 (arranjámos 2 por especial deferência), pois estavam a aguardar a devolução a uma unidade que as tinha mandado arranjar; não havia cantis para toda a gente, arranjou-se depois um cantil por homem, o que se sabia ser manifestamente insuficiente. Enquanto isto decorria, desloquei-me ao Comando-Chefe saber o que acontecia. Como eu previ, íamos seguir para Binta-Farim, com vista a, com mais uma companhia de comandos, uma companhia de indígenas e outra companhia de atiradores de Farim, abrir o cerco a Guidage, ao mesmo tempo que os sitiados tentavam também abrir caminho. Pergunto porquê a minha companhia, quando já cumpriu a comissão. A resposta deixa-me elucidado. Íamos nós por não haver mais ninguém, isto é, tudo o que estava disponível era o pessoal que ia regressar à Metrópole e, de entre este, a nossa companhia – porque tinha tido bom comportamento em combate – foi “escolhida”; isto é, se tivesse mau comportamento vinha para o Continente, como tinha bom comportamento continua na “guerra”. Que melhor incentivo para a “vitória militar!”
Como o itinerário Binta-Guidage está minado, querem que a companhia leve quase uma tonelada de trotil para fazer rebentar as minas. Se fôssemos a fazer isso, nunca mais chegaríamos ao objectivo, para além de que não é nada agradável transportar explosivos em zonas minadas e de emboscadas permanentes. Para não entrar em conflitos complicados, acabamos por levar 100 quilos de trotil, que nunca chegaremos a utilizar, mas, como não temos granadas, talvez sirvam para responder “à pedrada”.
Depois de uma comissão, onde a dedicação foi total, para além das baixas não substituídas deixamos ficar em Bissau, com baixa à enfermaria, 14 homens; os outros também não vão famosos. Os meios auto também são poucos. Para garantir o transporte do pessoal com um mínimo de segurança temos de, em Farim, “roubar” uma Berliet à companhia de transportes de Bissau.
Em 26 de Maio, chegámos a Binta, onde já se encontravam as outras forças. Verifico que estão 3 capitães, alguns alferes, pouca comida e, para cúmulo, temos de dividir as munições com as outras subunidades, pois ainda estão pior que nós. Para uma missão de tal responsabilidade e de que só tomaria plena consciência depois de chegar a Guidage, local onde compreendi como foi possível Dien-Bien-Phu, não havia nenhum oficial “superior”. Assim, os capitães fizeram uma mensagem para o Comando-Chefe onde pediram um oficial superior com vista a comandar a operação. Claro que nenhum apareceu, mas, entretanto, houve muitas “baixas” ao HM 241(7)  e passaram a ver-se menos majores nos cafés de Bissau.
No dia 29 de Maio, pelas 05.00, iniciámos a abertura do itinerário Binta-Guidage. Cerca das 10 horas, ao ser picada, foi accionada uma mina anticarro, de que resultou um morto (ficou somente um bocado do tronco, pois o resto desapareceu), um furriel cego e 2 feridos ligeiros. Foi ordenado ao pelotão a que pertenciam as baixas para, em 2 Unimogs, fazer a evacuação para Binta, onde a companhia local os evacuaria para Farim e daqui para Bissau, em face de já não haver evacuações aéreas no local, devido à existência de mísseis terra-ar. O pelotão que fez a evacuação aproveitou a oportunidade e não voltou, como lhe tinha sido ordenado, e assim ficámos com menos 2 viaturas e cerca de 30 homens. Talvez para que o mau exemplo não se espalhasse, esta deserção colectiva em frente do IN, apesar de constar no relatório da operação, não originou qualquer procedimento disciplinar. Após o incidente e conforme o planeado, iniciamos a progressão a corta-mato, levando na frente uma viatura D 6 que abria o caminho junto com uma Berliet. Outra Berliet seguia em segundo lugar, a uns 300 metros, levava somente o condutor com um homem ao lado, tinha a caixa de carga cheia de cunhetes abertos, com todo o tipo de munições, prontas a utilizar – era a nossa arma secreta, o “self-service”. Até ali, o PAIGC tinha utilizado a táctica de ataques frontais em linha, com forte potencial de fogo, em que cada homem armado levava 2 a 3 carregadores, para o substituírem, caso fosse ferido ou morto, evacuarem e continuarem o ataque. Esta maneira de actuar vinha do Vietname; o ataque decorria em vagas sucessivas até esgotadas as munições, as NT terem de retirar, altura em que era desencadeado o ataque final. Com a nossa arma “selfservice” estavámos sempre prontos a responder taco-a-taco.
Um grupo do PAIGC, estimado em 120 elementos, atacou-nos pelas 12.00, utilizando a técnica já descrita, ao mesmo tempo que batia a zona com morteiros de 82 mm. Poucos minutos depois de ter sido repelido o primeiro ataque, o PAIGC volta, mas com as NT já remuniciadas. Voltam terceira vez, tentando envolver-nos, depois de nos fixarem pontualmente; também já desta vez estamos remuniciados e tínhamos adoptado um dispositivo em L para prever o envolvimento. Os ataques duraram mais de uma hora. Pelas 14.00, tinham desmaiado 6 homens, vítimas do cansaço e da insolação, consequentes de, desde o nascer do dia, estarem a pé e ao sol, carregados com todo o material bélico possível, depois debaixo de fogo terem rastejado, envolvidos na poeira do seu movimento e na consequência dos vários rebentamentos, terem para beber a água de um cantil por homem, que já há muito tempo tinha sido gasta. Com seis homens desmaiados por insolação, sem água para lhes dar e com todo o pessoal cansado, a situação não era brilhante, pois que, para levar cada homem, eram pelo menos necessários 4, mais 4 para render os primeiros; dava uma hipoteca de cerca de 60 homens só para se encarregarem do transporte. Felizmente, a coluna de reabastecimento de Bissau veio avançando, para aproveitar o novo itinerário aberto, e assim houve a hipótese de subirmos para as viaturas, continuando a companhia de comandos e a de Farim na testa da coluna. Atingida a bolanha do Cufeu, entrou-se em contacto com a companhia de paras que vinha de Guidage ao nosso encontro. Na região de Ujeque, o nosso corta-mato encontrou a antiga picada, apresentando chão firme e sinais de abandono, pelo que tentámos seguir por ela, só que, pouco depois, rebentava nova mina debaixo da quarta viatura da coluna, um Unimog 404; quando o pessoal saltou para o lado, um militar accionou uma mina antipessoal e ficou sem uma perna. De imediato se voltou a sair da picada e a seguir a corta-mato. Pouco depois, entrámos em contacto com o destacamento de fuzileiros retido em Guidage e que veio apoiar o nosso movimento. Quase às 18.00, foi a coluna novamente atacada, agora sem consequências para as NT e de curta duração, face à impetuosidade da resposta. Ao cair do dia, esgotados, chegámos a Guidage pelas 19.00.
Guidage, ao anoitecer, tinha um certo aspecto de irreal; o chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam em ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia. Houve grande regozijo e azáfama com a nossa entrada, pois era necessário preparar tudo para os cercados regressarem ao alvorecer do novo dia, sem dar tempo ao PAIGC para minar o novo itinerário; por outro lado, era necessário dispersar os homens, pois os ataques eram frequentes. Como que para nos cumprimentar, pelas 21.00 somos flagelados por morteiros 82, com as granadas a cair em grupos de 5 e, para cúmulo, granadas nossas de 81 mm das capturadas na coluna de reabastecimento e agora disparadas pelo morteiro 82. Felizmente, destas granadas algumas não rebentam e, por sorte, são as que caíram mais perto de nós.
No dia seguinte, pouco depois do alvorecer, inicia-se a coluna de regresso com o pessoal que até à data tinha sobrevivido e que, para além dos sofrimentos que já padeciam, deitados sobre colchões velhos saltavam como pipocas cada vez que a Berliet passava num buraco.
Um mês depois, a 30 de Junho de 1973, seria a nossa vez de regressarmos a Bissau, onde ficamos fora das escoltas às colunas para Farim e no intervalo fazer segurança ao arame farpado de Bissau.
Só em Outubro de 1973 regressamos ao Continente, com 6 meses de comissão a mais. Durante 40 dias, devido a só termos sido informados de que íamos efectuar uma operação por 6 dias, não tivemos outra roupa para além da que tínhamos no corpo, que, entretanto, por falta de lavagem e com largos meses de uso intensivo, começou a apodrecer nas virilhas e nas covas dos braços, as calças começaram a abrir pelas costuras e a transformar-se em safões. A barba por fazer dava a todos o aspecto de salteadores ou de loucos, as micoses e outras erupções de pele eram gerais. Quando chegamos a Bissau, seguimos para o Combis, onde ficamos fechados, pois ninguém se podia aproximar e ver o “nosso estado”.
Mas em Guidage nem tudo foram más recordações, em especial a camaradagem e o comportamento da população; mas, mesmo os maus momentos são recordados como um sonho, tal a dimensão do não-senso em que se concretizaram.
A primeira característica de Guidage como “Nave dos Loucos” é o de não haver qualquer tipo de horário; tanto se podia comer a primeira refeição às 3 h da manhã com às 11 ou 12, isto porque todas as horas eram boas para os bombardeamentos do PAIGC, mas em especial as horas normais das refeições eram as escolhidas. Em Guidage só havia 1 hora de água por dia e esporadicamente luz para iluminar pontos suspeitos, porque o gasóleo para os motores trabalharem era pouco e não se sabia quando vinha mais.
A enfermaria e o depósito de géneros tinham sido praticamente destruídos; como assistência sanitária tínhamos um sargento enfermeiro e alguns maqueiros, mas com o material disponível só poderíamos fazer o mais elementar em primeiros socorros.
O pessoal dormia e vivia em valas abertas ao redor do quartel, esporadicamente errava-se por lanços por entre os edifícios ou do que deles restava; se o movimento se tornava mais normal, lá apareciam umas granadas de morteiro 82 para nos fazer lembrar que devíamos ter mais cuidado. Como dormir no chão não é muito agradável, na primeira oportunidade passei revista aos escombros e tive sorte: descobri, dentro de um armário que tinha pertencido a um alferes madeirense, que ficou sem uma perna, uma farda n.º 3 que me permitia lavar o camuflado, uma escova de dentes, e, como prenda máxima, um bolo de mel e uma garrafa de vinho da Madeira, quase cheia e inteira no meio de tudo partido. Com isto, fiz uma pequena festa com 3 ou 4 homens, porque era preciso juntar mais gente. Nesta altura, pensei em, depois de regressar a Bissau, ir ao HM 241 saber quem era o alferes, para lhe agradecer tão opíparo banquete, mas tal não foi possível e ainda hoje tenho esse pecado na consciência. Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo da Artilharia, onde houve 4 mortos e 3 feridos graves. O abrigo foi atingido em cheio por uma granada de morteiro 82, com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com cibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, cor castanha, com 2 a 3 mm de espessura, rachada como barro seco; o odor envolvente era um pouco azedo mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão; depois de dar volta aos 8 que lá se encontravam, consegui encontrar o que estava menos sujo, tirei-lhe a capa, mas o cheiro que se encontrava dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar, debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala, onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado, que, sem esforço, ganhou um colchão e sem saber de onde tinha vindo.

Em Guidage havia o “passatempo diário”. Consistia em adivinhar quando se comia; a ração diária consistia em um punhado de arroz e uma pequena salsicha de aperitivo ao almoço e jantar, isto porque não havia outra coisa para comer, salvo se, de entre os escombros do depósito de géneros, surgia alguma surpresa. No depósito de géneros, praticamente inteiros, tínhamos os sacos de farinha e de arroz, para além das latas de salsichas; tudo o mais estava desfeito. Sob o ponto de vista alimentar, a odisseia consistia em fazer pão; tínhamos farinha mas não tínhamos fermento; fizemos as misturas mais incríveis de restos de medicamentos moídos, tentando levedar a massa, mas o calor envolvente secava-a antes de azedar; assim, o nosso pão consistia nuns pequenos bolos de farinha, estilo broas de Natal, que nós chupávamos.
Nas horas a que normalmente deveríamos comer, costumávamos ser obsequiados com um grupo de 5 granadas de morteiro 82 enviadas pelo PAIGC (5 era o número de granadas que conseguiam pôr no ar ao mesmo tempo).
Em Guidage, não havia falta de passatempos, isto porque, estando Guidage construído sobre a fronteira com o Senegal e com a pista de aviação já no terreno do Senegal, existia, cerca de 2 km para o interior da República do Senegal, uma estrada paralela à fronteira, que durante a noite era extraordinariamente concorrida, em especial pelas colunas do PAIGC, escoltadas por blindados de origem russa. No silêncio da noite, e conforme o sentido do vento, ouvíamos o chiar das lagartas e o barulho dos motores, que pareciam vir na nossa direcção. Não tínhamos uma única arma anticarro e todas as granadas de bazuca eram antipessoal, pelo que, se o PAIGC avançasse com os blindados, restava-nos retirar em boa ordem. Para cúmulo, sabia que até 1968, em Moçambique, as unidades praticamente só tinham granadas anticarro, que utilizavam como antipessoal. Que agradáveis noites aquelas em que, de ouvido no solo, tentávamos saber se eles vinham ou iam! Bem, mas havia outros passatempos. Por exemplo, um sargento enfermeiro passava o tempo com velas de estearina a tapar os buracos do corpo de um militar nosso, de uma companhia de tropa especial, para que o corpo não começasse a cheirar mal, isto porque a companhia ameaçava desertar quando ele começasse a apodrecer.
Mas nem tudo era mau, pois os mortos das outras companhias foram, sem problemas, enterrados na parada, fora os que ficaram abandonados na picada. Mas, percorridos estes anos, no fundo do nosso espírito nacional-porreirista, não há problemas, porque, segundo dizem as consciências do antigo regime: “A guerra estava ganha!”... 


Por Salgueiro Maia

(1) - Campo Militar de Cumeré, próximo de Bissau, onde se processavam as operações de chegada e partida das unidades de reforço metropolitanas. (2) - Em linha recta, a distância de Bissau a Guidage é idêntica à distância Lisboa-Caldas da Rainha. (3) - Abreviatura de “inimigo”. (4) -  Abreviatura de “nossas tropas”. (5) - Termo local que significa “travessia de rio”. (6) - Abreviatura de Comando de Bissau. (7) - Hospital Militar de Bissau. 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

O EXTRAVIO DA CADERNETA MILITAR











Quando em 1983 me surgiu um contrato de trabalho para Angola, através de uma empresa inglesa, tive a necessidade de obter uma licença militar para me poder ausentar para o estrangeiro. Foi nesta altura que senti a falta da caderneta militar. Como nunca apareceu na minha residência, nem no posto da PSP mais próximo, comecei por me deslocar à BA1-Sintra onde passei à disponibilidade, mas aí nada constava em relação à caderneta. Seguidamente fui ao EMFA-Estado Maior da Força Aérea, e também não havia qualquer documento que me pudesse valer. Foi-me sugerido ir a um Arquivo Militar na Avenida de Berna em Lisboa, onde me desloquei, mas não foi encontrado nenhum documento comigo relacionado. Só me faltava fazer mais uma tentativa de ir à SEA-Secretaria de Estado da Aeronáutica. No dia seguinte lá fui, e quando me encontrava ao balcão a expor o meu problema, eis que surge um primeiro sargento que tinha estado no AB4 no meu tempo precisamente. Expliquei o motivo de estar ali, ele prontamente se dispôs a procurar documentação que me pudesse ser útil. Após alguma espera veio ter comigo e disse-me, que a minha caderneta não constava, mas para me dirigir ao DRM de Setúbal onde existia parte do meu processo. No dia seguinte lá fui à secretaria, gentilmente atendido por um sargento, que depois chamou um capitão a quem expus a situação. Alguns minutos depois, o capitão disse que era possível adquirir a licença militar que eu precisava, e que me seria passada uma segunda via da minha caderneta militar, mediante uma fotografia e comprovativo de morada actual. Gostaria de saber se com alguns de vós se passou o mesmo, ou se foi caso único. Abraço Por: Antonio Pereira

quinta-feira, 7 de abril de 2022

OPERAÇÃO SACANDICA


Há 61 anos tinha inicio a Operação Sacandica, em Angola, utilizando os Páraquedistas o salto em paraquedas para a colocação em operações, no Norte desta Província, junto à fronteira do ex-Congo Belga.
Na altura, esta povoação era o último reduto importante sob controle do inimigo.
Os Páraquedistas ultimam os preparativos, estuda-se a zona, prepara-se o equipamento, armas nos respetivos sacos, prontas para o primeiro embate com o IN. Quase todos são principiantes em saltos em combate (anteriormente tinha havido em Quipedro e Serra da Canda), a descontração reina, mesmo sabendo que não haverá qualquer bombardeamento prévio. O responsável pelo lançamento é o T.Cor. Alcínio Ribeiro, ser largado pelo Comandante é uma honra que poucos Páraquedistas sentiram. Os comandantes de secção não se cansam de lembrar as regras de segurança, logo após a aterragem: arma em posição de fogo e varrer tudo o que pareça inimigo, sem descurar a posição dos companheiros.
Uma viagem de 350 quilómetros, na reta final é bem visível o vale que se abre em direção a Norte, no sentido do azimute para o objetivo. De súbito sente-se a redução das rotações dos motores e uma ligeira oscilação da carcaça barulhenta indica a correção da rota. Aos poucos nota-se o terreno com nitidez, vislumbram-se inúmeras palhotas e lavras com verduras.
Sacandica está à vista, o largador coça o bigode e afirma:
- Até parece o campo do Arripiado, vão fazer um salto com aterragem serena!


Os primeiros a saltar servem de sonda e orientação da predominância do vento. Uns a seguir aos outros e depois de mexerem as pernas e os braços, outros bebendo um golo do cantil preparam-se para a luz verde. No ar...apercebem-se que em lugar da planura do areal do Arripiado, vão encontrar um local com árvores por todo o lado, no entanto, apercebem-se da fuga do inimigo, que provávelmente não contava com este meio de infiltração.
Mais de metade dos Páraquedistas aterraram nas árvores, tendo algumas mais de vinte metros de altura. Depois da reorganização foi tempo de partirem para as missões. Uma delas foi cortar um tronco para servir de poste à Bandeira Nacional, em mais uma povoação reconquistada à UPA. Nos dias seguintes é visível a boa disposição numa foto do próprio Comandante, junto dos seus homens, em Sacandica, tal como o segundo Comandante da Região Aérea de Angola.

O sucesso desta operação e outras idênticas recorrendo ao salto operacional, veio demonstrar a grande mobilidade das Tropas Páraquedistas em situações de iminente perigo, apoio a outras tropas sitiadas no terreno ou ocupação táctica de posições estratégicas. Neste caso concreto, com as vias terrestres obstruídas, a deslocação era perigosa e mais morosa.

*Bibliografia: adaptação livre do livro de Joaquim Coelho "O Despertar dos Combatentes".

quinta-feira, 31 de março de 2022

A HISTÓRIA DA POLÍCIA AÉREA


Ao longo deste artigo vamos dar a conhecer parte significativa da história da Polícia Aérea; das mulheres e dos homens que a construíram desde o nascimento da Força Aérea até à atualidade. Vamos falar da participação nas guerras de África, na Base Mãe de Tancos, nos símbolos da Especialidade, no armamento e nas viaturas. Vamos abordar as diversas facetas do emprego operacional da Polícia  Aérea, nomeadamente nas atividades cinotécnicas de guarda e de deteção de odores, de proteção da força, de inativação de engenhos explosivos e de segurança militar e defesa imediata das Unidades do Ramo.
BA9 porta de armas em 1966


DA GUARDA DE POLÍCIA À POLÍCIA AÉREA
A Guarda de Polícia
O primeiro diploma que definiu os quadros e efetivos da Aeronáutica Militar em tempo de paz «bem como os efetivos normais em pessoal das bases aéreas, unidades, formações, estabelecimentos e outros órgãos territoriais afetos às forças aéreas», o Decreto-Lei 39071, publicado em 31 de dezembro de 1952, não contemplava ainda pessoal destinado às tarefas de segurança e defesa.
No entanto, a história da força que, desde a fundação da Força Aérea Portuguesa procede até hoje à vigilância do património humano e material do Ramo, tem como protagonistas iniciais militares provenientes de diversas unidades do Exército, essencialmente do Regimento de Lanceiros, voluntários ou cumprindo o serviço militar obrigatório (SMO), e Praças, Sargentos e Oficiais oriundos dos dois serviços de Aeronáutica!
Aviação, e que integravam os então designados serviços de Guarda de Polícia à Unidade.
No seu percurso como Ramo independente, e à medida que a Força Aérea se autonomizava, ainda que continuando a ser fornecida por pessoal formado no Exército, o Serviço de Guarda de Polícia foi sendo substituído por Serviço de Guarnição e Defesa Próxima, criado pelo Decreto-Lei 39921 de 23 de novembro de 1954.
Datam ainda, desta altura, as primeiras referências documentais ao Serviço de Polícia de Aeronáutica ou de Polícia Militar de Aeronáutica. Comprovam-no publicações nas Ordens de Serviço de 1954 e 1955 da Base Aérea n.° 2, Ota, e da Base Aérea n.° 4, Lajes.

A Polícia de Aeronáutica (PA) da Base Aérea n.° 2
A primeira referência à Polícia de Aeronáutica terá surgido em 1954. No anexo à Ordem de Serviço (OS) n.° 246 da BA2, publicada em 3 de setembro de 1954, encontramos o «Regulamento Provisório da Polícia de Aeronáutica da Base»:

«REGULAMENTO PROVISÓRIO DA POLÍCIA DE AERONÁUTICA DA BASE
1.- A Polícia Militar de Aeronáutica (PA.) é constituída por:
1 Oficial (Comandante) 1 Sargento ou Furriel (Auxiliar do Comandante) 4 Primeiros-Cabos 21 Soldados.
2.- O serviço da P.A. é permanente e da responsabilidade do respectivo comandante, o qual em todas as ordens e instruções dadas deverá ter em vista as circunstâncias locais.
3.- Ao comandante da P.A., além das atribuições especiais que lhe sejam conferidas, compete-lhe:
a) Cumprir e fazer cumpriras normas determinadas pelo Comando da Base;
b) Elaborar e submeter à aprovação superior todas as directivas que considere necessárias a uma eficaz acção da PA.;
c) Promover a instrução e adestramento do pessoal;
d) Manter a disciplina e o bem estar dos seus subordinados;
e) Formular as instruções relativas ao serviço diário, organizando os respectivos horários;
f) Determinar os itinerários e horários das rondas normais exteriores, dos quais será dado conhecimento em impresso próprio ao oficial de dia, para este providenciar o fornecimento de transporte (Jeep) e que um dos sargentos de serviço acompanhe a ronda;
g) Rondar, sempre que de tal veja necessidade, as povoações e estradas limítrofes da Base, num raio até 20 quilómetros, verificando o estado de atavio e compostura do pessoal e o transito das viaturas militares pertencentes à Unidade;
h) Estabelecer os deveres especiais do pessoal da P.A. não prescrito no R.G.S.E, ou neste regulamento.
6 - O uniforme da PA. é o regulamentar; usando um braçal distintivo de cor azul e um capacete da mesma cor; ambos com as letras PA.
(...)
7 - São deveres de todo o pessoal da PA.:
(...)
c) Manterem sempre a máxima correcção e aprumo militares, de modo a constituírem exemplos permanentes para os seus camaradas;
d) Auxiliarem, quando tal lhes for solicitado, qualquer civil, em especial velhos, mulheres ou crianças;
e) Serem delicados e respeitadores, nunca abusando dos poderes especiais que lhes são conferidos;
f) Não esquecerem nunca que a sua missão é de prevenir e não de procurar; faltas ou transgressões;
13.- Este regulamento anula todas as determinações anteriores referentes à PA.»
(Assinado pelo Comandante Interino, Tenente -Coronel Aviador José Costa Franco)
Porta de armas e posto de vigia da BA9 em 1966

O corpo de Polícia Aeronáutica da Base Aérea n.° 4
A instalação da Força Aérea dos Estados Unidos da América (USAF) na Base das Lajes, na sequência da cedência de facilidades no âmbito de acordos com os EUA, no seu plano de defesa de 1953 (Plano de Operações 1/53), previa um dispositivo de defesa constituído por Serviço de Vigilância e Alarme, forças de defesa estática, forças de defesa móvel e forças de defesa passiva, além de serviço de informações e contra-espionagem e serviço de segurança contra sabotadores. A segurança da Base das Lajes foi planeada considerando a área alargada da Ilha Terceira pelo que contou, desde essa altura, com militares portugueses provenientes do Exército, dos quadros da Força Aérea e da Guarda Nacional Republicana, assim como com militares norte-americanos.
A preocupação em modelar a designação das forças responsáveis pelo controlo de acessos e circulação na Base ao ainda jovem Ramo das Forças Armadas levou à nomeação, em 1955, de um conjunto de militares provenientes do Exército ou dos próprios quadros da Força Aérea, para um serviço designado por Polícia Aeronáutica.
De acordo com o Artigo 1O.° da OS n.° 151 de 31 de maio de 1955 da Base Aérea nº.4:
«Artº. 10º - Polícia Aeronáutica:
a. Que, a partir de amanhã, é criado um Corpo dePolícia destinado ao  serviço de guarnição e vigilância da base (...).
b. Que, a partir de amanhã, fica a cargo da PA:
1° - O serviço de guarda ao Quartel de Santa Rita;
2° - O serviço de guarda ao Posto de Polícia n.° 2;
3°- O serviço de vigilância e ronda na Base.»
Este Corpo de Polícia era constituído por 1 Oficial, 1 Sargento, 10 Cabos e 22 Soldados.

O Serviço de Polícia e Defesa Próxima em 1957
Em 31 de dezembro de 1957, cinco anos após o estabelecimento da Força Aérea como Ramo independente das Forças Armadas, surgiu, pela primeira vez em documento oficial, integrado no quadro do Serviço Geral, referência ao quadro de "Serviço de Polícia e Defesa Próxima». Foi no Decreto-Lei n.° 41492, no primeiro reajustamento dos quadros e efetivos da Força Aérea, relativo ao pessoal militar permanente e privativo deste Ramo, Sargentos e Praças readmitidas, assim como ao pessoal militar não permanente, Sargentos Milicianos e Praças não readmitidas.
Em 18 de abril de 1958, conforme a Portaria n.° 16666, o Subsecretario de Estado da Aeronáutica mandou que fossem transferidos dos anteriores Quadros de Especialistas e do Serviço Geral (serviço de guarnição, secretaria e parque (Polícia Militar)) para o Serviço de Polícia e de Defesa Próxima, 14 Segundos-Sargentos ou Furriéis e até 58 Primeiros-Cabos. A partir de 1959 foi possível a criação de subunidades de Polícia e Defesa Próxima em todas as unidades do Continente.

A instalação da Esquadrilha de Polícia e Defesa Próxima na Base Aérea n.° 5 em 1959
De acordo com a Ordem de Serviço n.° 127 da BA5, em Monte Real, publicada no dia 15 de setembro de 1959, passaram desde essa data a desempenhar funções na Esquadrilha de Polícia e Defesa Próxima o Aspirante a Oficial Miliciano Hélio Bettencourt (Comandante), o Primeiro-Sargento Francisco Neves, o Primeiro-Cabo Manuel Sobral e ainda 36 Soldados.

1959 e 1960 - As primeiras referências à POLÍCIA AÉREA
As primeiras menções à Polícia Aérea em documentação oficial terão surgido nas Ordens de Serviço n.° 122 da BA2, publicada em 13 de maio de 1959; n.° 19 da BA5, publicada em 23 de janeiro de 1960; e n.° 110 da BA2, publicada em ide maio de 1960.
Ordem de Serviço n.° 122 de 13 de maio de 1959 da Base Aérea n.°2
«Artigo 5°. - RONDAS DA POLÍCIA AÉRFA
Que, diariamente, a partir das 16.40 até as 00.00h devem ser feitas rondas pela polícia aérea ao longo da estrada Nacional n.° 1 entre Cheganças e o posto de abastecimento de combustível existente no lugar conhecido pelo "Pinheiro Grande"- Ota.
- Finalidade:
Não permitir a presença de praças estacionadas ao longo deste troço de estrada e obrigar a cumprir as normas de boa conduta militar.»
Ordem de Serviço n.° 19 de 23 de janeiro de 1960 da Base Aérea n.° 5
«Art°6.° Que passem a observar-se as seguintes normas relativas à Polícia Aérea:
1. Fica a partir de hoje dispensada de todo o serviço de faxinas.
2. Terá camarata privativa (enquanto possível,).
3. Terá no refeitório mesas separadas do restante pessoal.
4. Fica autorizado a fumar durante o serviço de plantão (salvo nos casos em que tal prática não seja aconselhável: junto dos aviões, carros de combustíveis, carros de plenos, etc) por ser serviço com duração de 12horas.
5. Forma sempre em separado, à direita da formatura, comandada por um cabo da PA, ou por um soldado mais antigo presente, se não houver outros graduados.»
Ordem de Serviço n.° 110 de 7 de maio de 1960 da Base Aérea n.° 2:
«Art.° 1º. - POLÍCIA AÉREA - SERVIÇO INTERNO:
Que, durante a época calmosa, o serviço interno a cargo das praças da PA passe a ser feito com barrete de campanha das 07.00 até à montagem do reforço, hora a que passarão a fazer uso do capacete.
Esta concessão é feita até 1-11-1960.»
BA12 Bissalanca, 1968

ÁFRICA: INSTALAÇÃO DA FORÇA AÉREA EM 1961
Entre 1961 e 1974, período em que as Forças Armadas Portuguesas estiveram envolvidas em conflito bélico com diversos movimentos de libertação províncias ultramarinas, nos Teatros de Operações de Angola, Moçambique e Guiné, a Polícia Aérea esteve presente, nestes territórios1 desde o início até ao fim, na segurança e defesa das infraestruturas, aeronaves e pessoal da Força Aérea.
A Força Aérea estava organizada em três Regiões Aéreas: a 1ª. Região Aérea, que incluía as unidades do Continente, ilhas dos Açores, Madeira e Cabo Verde e ainda a Guiné; A 2ª. Região Aérea, que cobria Angola e São Tomé e Príncipe; e a 3ª. Região Aérea, que abrangia Moçambique e Timor.
Existiram subunidades PA na Guiné, no Aeródromo-Base (AB) n.° 2 mais tarde BA12 em Bissau; em Angola, na BA9 em Luanda, noAB3 no Negaje, no AB4 em Henrique de Carvalho; e em Moçambique na BA10 na Beira, no AB5 em Nacala, no A86 em Nova Freixo, no AB7 em Tete e no AB8 em Lourenço Marques.
Cada um destes aeródromos tinha vários Aeródromos de Manobra (AM) na sua dependência.
O Memorando nº.7/61 do Estado-Maior da Força Aérea, 2ª. Repartição, de 15 de junho de 1961, relativo à preparação da instalação de Unidades da Força Aérea nestes territórios, refere o dispositivo previsto, em meios aéreos e forças de defesa, que inclui Companhias de Polícia Aérea:
"(...)
4. Base Aérea nº.9 - E
m Luanda, para uso operacional por aviões F-84 e devendo possuir instalações para uma Companhia a 4 Pelotões de Polícia Aérea.
5. Aeródromos Base -  Serão criados dois - NEGAGE e HENRIQUE CARVALHO - devendo ambos ser preparados para F-84G, incluindo faixas asfaltadas, JP-4 e paióis. As suas instalações compreendem as necessárias a uma Companhia a 2 Pelotões de Polícia Aérea.»
Nas Unidades da Força Aérea em território ultramarino, tal como na metrópole, os militares em serviço de Polícia Aérea desempenhavam múltiplas tarefas relacionadas com a manutenção da disciplina, a segurança militar e a defesa imediata das unidades. É interessante ler, devendo, no entanto, ser enquadrada com a época, como era regulado o acesso ao embarque de passageiros da BA9, em 1961, e o empenhamento do pessoal da Polícia Aérea, extraído da OS n.° 230 do AB3 de 30 de dezembro de 1961:
"(...)
2. A entrada de passageiros na BA n°9 é feita unicamente pela porta de armas mediante mediante a apresentação ao militar da PA. do bilhete de passagem ou guia de marcha.
O militar da PA. fará sempre a identificação de todos os passageiros pelos seus bilhetes de identidade, verificando especialmente as fotografias e os nomes.
O militar da PA. nomeado para este serviço é o sargento da guarda.
3. Após a identificação o sargento da guarda mandará uma das praças (armada com pistola metralhadora) que se encontre de folga na casa da guarda, acompanhar os passageiros e respetivas bagagens ao local de embarque, seguindo o trajeto indicado pelas setas colocadas ao longo dos arruamentos.
4. Chegados ao local do embarque a praça da guarda entrega os passageiros ao oficial da PA que se encontra naquele local e pede licença para se retirar.
5. No local do embarque o pessoal da PA. constituído por 1 oficial, 11º. cabo e 1 soldado, nomeados de véspera para esse serviço e usando todos braçais azuis da PA. procederá da seguinte maneira:
a) O oficial identifica cada passageiro pelo seu bilhete de identidade; verifica se o nome dele consta da lista de passageiros a embarcar que
recebeu na véspera e descarrega-os nessa lista e descarrega-os nessa lista.
b) Elabora uma relação nominal dos que apenas são portadores de guia de marcha.
c) Em seguida passa revista a toda a bagagem dos passageiros coadjuvado neste serviço pelo cabo miliciano e o soldado e no caso de serem encontrados materiais explosivos ou armas apreende-as. Os volumes conforme são revistados vão sendo marcados com um sinal a giz.
d) Os passageiros são igualmente revistados quando o oficial suspeitar de algum. Todavia, quando se trate de uma senhora, deve o oficial proceder da seguinte forma:
- Mandá-la revistar pela empregada da Alfaiataria da Base.
- Não a deixar embarcar ordenando ao cabo miliciano que a acompanhe até à porta de armas, expulsando-a do aquartelamento, quando não se queira deixar revistar.»
AM31 Maquela do Zombo, 1964

1963, A PRIMEIRA RECRUTA DE PRAÇAS COM DESTINO À POLÍCIA AÉREA.
Em 19 de Julho de 1953, na Base Aérea n.° 3, em Tancos, 400 soldados terminaram o primeiro curso de 
especialização em Polícia Aérea, integrado na primeira recruta da especialidade de Serviço Geral.
Depoimento do Soldado PA 510/63 Fernando Silva, um dos militares formados na primeira recruta de praças com destino à Polícia Aérea:
«No dia 17 de janeiro de 1963 apanhei o comboio de Lisboa em direção ao Entroncamento e daí para Vila Nova da Barquinha. Cheguei depois à Base Aérea n.° 3, em Tancos, acompanhado por diversos camaradas que fui encontrando no comboio, e que tinham o mesmo destino. Apresentámo-nos ao Oficial de Dia e entregamos a Guia de Marcha. Recebemos o quarto, a roupa da cama e o fardamento. No dia seguinte, em 78 de janeiro de 1963, pelas 08H00, fizemos a primeira formatura onde fiquei a conhecer o meu número. Era o 510/63 e fiquei no nono pelotão.
A recruta durou três meses. Aprendemos a marchar a reconhecer os postos e as divisas e galões, e a fazer fogo com a espingarda Mauser 98K e com a pistola Walther.
Fiz juramento de bandeira na Esquadra de Instrução de Polícia Aérea (EIPA), então comandada pelo Tenente Mota Carmo. 15 dias depois voltámos para tirar a especialidade onde, me recordo, o Primeiro sargento Paraquedista Oliveira nos ensinou as táticas da guerra de guerrilha.
Três meses depois, já em julho de 1963, terminou o martírio de seis meses: Ganhámos a Boina Azul.
Depois, vi embarcar muitos dos meus camaradas com destino a África. Em 25 de agosto de 1963 calhou-me seguir o mesmo caminho e embarquei no paquete  Vera Cruz, com destino a Luanda, de onde deveria, mais tarde , seguir para Moçambique.
No dia 19 de setembro de 1963 parti para Nampula, onde recebi o número 115/63, e a partir daqui fiz destacamento em Mueda por dois meses. Era assim, cada pelotão que seguia para Mueda era rendido ao fim de dois meses.
Em Nampula fazíamos sobretudo serviço à Porta de Armas, rondas pela cidade e aos cinemas, Guardas de Honra e outras cerimónias. Até que um dia a viatura em que seguíamos se voltou com um estrondo. Fui transportado para o hospital em estado grave e, quando recuperei, soube que alguns camaradas que seguiam comigo tinham falecido.
Hoje, conservo a Boina Azul que ganhei em 1963, que guardo com carinho, amor, estima e orgulho.»


1965, A INSTALACÃO DA PA NA BASE AÉREA N.°11 
BA 11, 1968
Depoimento do Alteres Miliciano PA José Manuel Marques dos Santos Costa:
«Em 1965 saímos da Base do Montijo para a de Beja, eu, um Pelotão PA composto por 30 soldados e cabos, três furriéis e um sargento. A nossa missão era controlar pessoas e viaturas, fazer a segurança do perímetro da base, a manutenção da ordem interna e as guardas de honra.
Na época, na Base que nascia em Beja, só existia um Capitão nas lnfraestruturas. As pistas estavam em construção, havia somente uma pequena pista, e começavam a construir-se os alicerces dos hangares. Havia, sobretudo, grande movimento de camiões e algumas, poucas, casas onde trabalhavam engenheiros das «Infras» e onde estava também o refeitório do pelotão. Ficámos instalados num pré- fabricado onde diariamente hasteávamos a Bandeira Nacional.
No início, as rondas eram efectuadas a pé e só mais tarde recebemos um «Jeep» e um condutor; o que permitiu dar a conhecer a «Boina Azul» à cidade de Beja. Passámos também a fazer rondas na cidade.
Vestíamos o uniforme PKS e utilizávamos a pistola metralhadora FBP e a pistola Walther.
Antes da nossa chegada o controlo de entradas era inexistente, apesar de haver uns vigilantes civis que não  eram respeitados, sobretudo pelos camionistas, e que viram com grande entusiasmo a nossa chegada.
Com a nossa acção, usando meios muito limitados pois não havia rádios nem sequer bicicletas, conseguimos fazer respeitar limites de velocidade controlar as entradas de veículos e pessoas e manter a ordem e a segurança no transporte de trabalhadores. 
À entrada da Base havia um Posto de Controlo com comando de cabo que funcionava H24/24, além de rondas apeadas, conseguidas com o reduzido número de dispensas no fim-de-semana. Depois da alvorada e do içar da Bandeira, com o Pelotão formado, havia sempre uma sessão de Ginástica de Aplicação Militar; GAM, (é linda!) que frequentemente os nossos vizinhos civis aplaudiam. Muitas vezes, ao fim do dia, a equipa PA de voleibol jogava contra os engenheiros das lnfraestruturas e a de futebol, aos fins de semana, defrontava equipas das redondezas. Nos quatro meses que durou a nossa missão recebemos uma delegação de altas individualidades alemãs e altas patentes da Força Aérea, além de visitas avulsas de inspectores alemães, onde a Bandeira Nacional se revelou de grande utilidade para mostrar quem mandava naquele território.»

OS SIMBOLOS
Utilizado inicialmente na
boina azul
«O espírito de corpo e a coesão apenas são gerados por duas fontes, e só por elas em conjunto. Todos os livros de história militar assim o ensinam. A primeira fonte é o treino contínuo e a execução de exercícios bem sucedidos. A segunda fonte é o exercício de atividades da especialidade, levada ao extremo. Só através destas práticas é possível levar o soldado a conhecer os seus poderes ou capacidades.(...) Só o orgulho de suportar trabalhos e de vencer dificuldades e perigos forja nos homens o espírito de corpo e a honra da sua arma ou especialidade»

(TGen Vasquez, despacho na Informação n.° 51/88 doGabinete de Segurança Interna e Defesa Anti-Aérea, sobre a proposta da criação de um distintivo de função para a PA datado de 23 de junho de 1988)

Os símbolos são parte essencial da consciência e da identidade do grupo. Os símbolos agregam vontades, alinham comportamentos, fortalecem a coesão e o espírito de corpo. São ainda depositários das memórias coletivas, conferindo-lhes grandeza e poder. E em torno dos símbolos que os grupos se unem, pois carregam a história e glória do que simbolizam.
O Escudo Romano
Foi oficialmente introduzido pela portaria n.° 658/82 de 1 de julho, e é, ainda hoje, o distintivo da especialidade de Polícia Aérea.


A Boina Azul
Pela sua visibilidade e distinção, a boina azul é, desde a sua introdução, o elemento de maior simbolismo na identidade da Polícia Aérea. O sacrifício necessário para a conquistar, pela exigência física e pela necessidade de superação colocadas durante a fase da instrução, torna alto o valor do prémio recebido por quem se atreve e é bem sucedido na sua conquista.

A primeira referência à boina azul, enquanto artigo de fardamento de uso exclusivo pelos elementos da Polícia Aérea, data de 1963, inserida na Ordem de Serviço n.° 37 do Estado-Maior da Força Aérea, publicada em 23 de julho desse ano.


O Bastão, o Braçal e o Capacete PA
O braçal representa, tipicamente, no meio militar, o identificativo visual do pessoal a quem foi atribuída uma missão de serviço. Ao longo da história da Força Aérea é conhecido o uso, pelos militares em serviço na Polícia Aeronáutica ou na Polícia Aérea, de um braçal azul com caracteres PA de cor branca, ou, mais tarde, de um braçal branco com os mesmos caracteres em cor azul.
O capacete, habitualmente utilizado em conjunto com o braçal e o bastão nas rondas ao exterior das Unidades, apresentava as mesmas cores e caracteres.

O Código de Honra da Polícia Aérea
(MCOFA 114-1, Normas de conduta da Polícia Aérea, dezembro de 1985, capítulo 3)
O "Código de Honra da Polícia Aérea» constitui um núcleo de normas e virtudes por que se devem pautar os militares da Polícia Aérea.

CÓDIGO DE HONRA

«Eu sou da Polícia Aérea. Leal ao meu País e ao Ramo das Forças Armadas que sirvo. Sou devotado ao dever e asseguro a integridade do pessoal e do material da Força Aérea contra tudo aquilo que os possa ameaçar.
Uso o meu distintivo de autoridade com dignidade e compreensão e suscito com o meu exemplo os mais elevados padrões de conduta, apresentação, cortesia e competência.
Não posso obter da minha posição quaisquer regalias, favores ou benefícios.
Cumpro os meus deveres de maneira firme, cortês, e imparcial, independentemente da pessoa com quem contacto.
Esforço-me por merecera respeito dos meus camaradas e de todos aqueles com quem trabalho ou trato.»



Extraído da Revista Mais Alto 31

quinta-feira, 24 de março de 2022

MEMÓRIAS DO AB4

No Conselho Administrativo

As memórias das terras do fim do mundo, em certa medida são mais acerca de uma trabalheira incrível, afinal tirei muito proveito disso, foi a minha Universidade da vida, aprendi imenso, conheci pessoas fantásticas, entre alguns poderei começar por aquelas equipas de Futebol e Andebol, dali o Raminhos, o Alcantarilha, o Morais, tinha sido guarda redes do ASA, gabava-se de ter ido a Lisboa jogar com o Benfica para a Taça (infelizmente já faleceu) o Restolho, o Laranjeira, o António Sequeira, o Álvaro Barroso, o Hermínio Martins, o falecido Parreira e tantos outros.

Por outro lado tive uma equipa como não outra, o Comandante João da Cruz Novo (um homem honesto e sério, o único problema é que não sabia sorrir pela frente), o Segundo Comandante Pinho Freire, um sorridente, costumava dizer; "-faz o teu melhor, se tiveres dúvidas vem ter comigo". O meu verdadeiro chefe na questão das contas, o Cap. Lobo da Fonseca, formado em economia e finanças (ainda não sei porque foi para a FAP), depois o primeiro Rodrigues, queria mandar na secção de vencimentos, quando não conseguia dar conta do recado virava as costas, arranjava uma desculpa de urgência e dizia; "-oh Russo se precisares de mim chama-me"! Eu respondia-lhe assim; "-isto de darem promoções de velhice é uma merda"! Então o tipo ia-se, quantas vezes isto aconteceu.
Confraternização do pessoal do CA com o 2º.comt. Pinho Freire (3º.à dtª.)

De vez em quando estas e outras vem-me à memória, recordando os tempos em que éramos “meia dúzia” e nos conhecíamos pelo nome ou alcunha.
Pós julho de 1967, com o despoletar da guerrilha no leste tudo mudou, tanto do Exército como dos nossos tudo se alterou, as capacidades de crescimento estavam espremidas.
Mais uma viagem
Nesses primeiros tempos ia a todos os destacamentos levar os envelopes com a "massa". Cheguei a ir
à Luiana, um destacamento do Exército, somente barracas de lona, um calor dos diabos, eles tinham um frigorífico a petróleo, mas que não fazia frio, fizeram um poço para através dum saco preso com uma corda arrefecerem a bebida, ali não havia problemas de guerra, havia muita caça, através do Nord, mandavam carne para Gago Coutinho e recebiam bebida tabaco e munições.
Nós portugueses temos o espírito do desenrascanço!
O Luso cresceu como uma estância de férias, o Nobre (Pensão) cresceu, depois foi o Hotel, isto tudo entre 1967 e 1969.
Na Pensão Nobre

Apetece-me acrescentar de que nos anos seguintes a Administração Portuguesa tentando manter o controle das Colónias, a verdade é que já não tinha poder económico para prosseguir com a guerra, não seria possível continuar com maquinarias terra e ar obsoletas, ao tempo uma afirmação de um gajo graúdo da África do Sul ali mesmo no AB4, por estas e outras durante alguns anos desapareceram os meus documentos militares.
Sempre aprendi mais com as turbulências da minha vida, a FAP deu-me muitos conhecimentos, responsabilidade e disciplina.
Bons tempos, um pedaço de nós fica espalhado na experiência e na saudade, impagável.

Por: Floriano Silva