sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MAIS UMA ESTÓRIA DA BA4 E A SILVER STAR NO PEITO DE UM "DESCALÇO".



Quando cheguei á BA4 após terminar o curso de MMA, verifiquei que na ilha Terceira, na época, havia imenso desemprego e muitas pessoas viviam num imenso bairro de lata junto à base e para sobreviver, aceitavam o que mais degradante havia desde prostituição.

O porto de mar da Praia da Vitória era da responsabilidade da Força Aérea e o responsável era geralmente um sargento da Força Aérea.

A seguir o que vou contar foi-me transmitido pelo então 1º. sargento Granja, um bom homem, que foi instrutor na Ota nas aulas de motores práticos, e posteriormente fui encontrá-lo no AB4-Henrique de Carvalho.

Quando chegava um navio para descarregar materiais para a base, normalmente era necessário pessoal para a estiva. Então, quando as pessoas sabiam da chegada do navio, os estivadores eram provenientes daquele bairro de lata, e para garantirem o trabalho de alguns dias, mandavam as mulheres (se ainda fossem novas, ou então as filhas se já estivessem na “idade”) a inscreve-los. Era esse o ambiente naquela ilha, o que fazia com que as moças da Terceira aspiravam casar com um americano, ou um português, que as levasse dali para fora.

Agora a Silver Star no peito de um “descalço”

Esta estória já não me recordo quem me a contou. Mas de certeza que foi um dos sargentos mais antigos da base.

Constava, que havia um “descalço” (nome porque eram conhecidos os habitantes daquela região, por serem muito pobres não tinham dinheiro para comprar sapatos) que, quando ia à missa, aos domingos, envergava o seu fato domingueiro, e levava ao peito uma condecoração americana, a Silver Star, que foi ganha pelo seguinte: Após a segunda guerra mundial a base era muito percorrida por aviões americanos, e na altura a pista da base podia ser atravessada por pessoas que moravam na região.


Um dia uma fortaleza voadora ao aterrar, despenhou-se e ficou completamente destruída. Entretanto o nosso amigo “descalço” viu o acidente e foi o primeiro a chegar ao pé da aeronave, viu que no meio dos destroços havia um par de botas, e não esperou agarrou nas ditas botas e puxou-as o que fez com que o dono das botas viesse atrás, salvando-o de uma morte certa.

Em reconhecimento por ter salvo aquela vida, as autoridades americanas agraciaram-no com a Silver Star.

Na nossa messe, as refeições eram servidas por pessoal civil, e corria entre a rapaziada que o chefe dos empregados de mesa, convidava sempre alguém que fosse ate casa dele para garantir um pequeno pecúlio com a mulher do próprio.


Por: Orlando Coelho


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO


CAZOMBO - 10 de Outubro de 1973

Já passava das 06:30h da manhã, estava no duche e a preparar-me para mais um dia de trabalho, uma vez que desde que tínhamos chegado ao CAZOMBO voávamos todos os dias.
Senti a água fria a escorrer pelo meu corpo, ainda a pensar naquele corpo esguio, com a pele parecida com a do bicho da seda, os seus seios pequenos (mas firmes), com mamilos espetados no meu peito, e com todo o seu corpo colado ao meu. Por norma ia todas as noites dormir ao Qimbo.

- ROSADO!!! ROSADO!!!
Oiço a voz de alguém que me era conhecida.
- ALERTA! ALERTA! Temos um TEVS (evacuação).

Saio do banho a correr e visto-me à pressa (meias, boxers, fato de voo, botas...). Olho para o relógio. Recordo-me que passava um minuto das 07:00h. Saí da camarata e logo me encontrei com o Jaime Anastácio, piloto indicativo “Tack”. Saudamo-nos e ele colocou-me a par da situação rapidamente.

Um Berliet que vinha de LUMBALA para o CHILOMBO tinha accionado uma mina e havia feridos. Fomos a correr até ao hangar, onde estava estacionado o DO-27. Subo para o avião e ocupo o meu lugar ao lado do “Tack” que iniciou a marcha com leve aquecimento e começamos a rolar em direção à pista. Alinhamos, descolamos e subimos quinhentos pés com o rio ZAMBEZE sempre à vista. Cerca de 20 minutos depois sobrevoamos CHILOMBO. Aterramos e desligamos o motor. Quando abrimos as portas já vinha em nossa direção o oficial dos fusos, Luís Queiroz.

De repente ouvimos um grande estrondo (mais um rebentamento), e avistamos um fuso a correr enquanto gritava que que mais um Berliet tinha acionado outra mina quando tinha saído de CHILOMBO em auxílio. O Luís Queiroz solicitou-nos que verificássemos a situação a partir do ar, por isso, descolamos novamente. Passados poucos minutos de voo, avistámos o fumegar característico do resultado da rebentamento de minas. Avistavam-se alguns corpos no chão, catapultados pela força da explosão. Mais à frente avistamos uma viatura parada com a frente arrancada pela explosão que nos antecedera, enquanto outro seguia já a caminho de CHILOMBO com os feridos. Regressamos de imediato, pois ai já não havia mais nada a fazer ali.


De regresso ao avião, abri a porta traseira, retirei a maca e verifiquei se tudo no compartimento estava em ordem. Entretanto chegava o ferido, acompanhado pelo enfermeiro, com as pernas das calças ensanguentadas e já com o soro aplicado. Rapidamente o ferido foi transportado para a nossa maca, e colocado dentro do DO-27. Certifiquei-me que amarrava bem a maca, enquanto o enfermeiro se acomodava ao lado do ferido, a controlar o frasco do soro. Tarefa concluída, fecho a porta do avião e ocupo o meu lugar. O “Tack” já estava preparado e começa o procedimento para colocar o avião em marcha. Averiguou de que lado estava o vento, alinhou-o e descolámos. Subimos para os 8 000 pés. Passados uns minutos passamos os morros de CAZOMBO e começamos a avistar o espelho de água imenso que era o lago DILOLO. Estávamos a fazer a rota mais rápida em direção ao LUSO mas a mais perigosa pois estávamos a voar sobre a CAMEIA – zona de atividade do inimigo do grupo do VOINA. Continuamos a voar com 75% de potência, numa tentativa de chegar mais rápido ao LUSO para entregar o ferido, que se encontrava em estado gravíssimo devido ao traumatismo e perda de sangue. Os médicos e enfermeiros já se encontravam a postos para nos receber.


Após 1 hora e 40 minutos de voo, recebemos instruções da torre de controlo do AR LUSO para aterrar. Olhei para o enfermeiro e ele fez-me sinal com o dedo para baixo. O “Tack” tinha acabado de parar o motor do DO-27, quando o enfermeiro confirmou que o alferes médico Carlos Borges Lopes, do batalhão de caçadores 4212/73, tinha acabado de falecer. O acidente resultou do rebentamento de duas minas anti-carro, e deu-se na picada a 200 metros da primeira ponte das quatro sobre o rio LUANDO. Um momento de grande tristeza para todos nós.

Após a entrega do ferido, o “Tack” preencheu o livro de voo e eu dei instruções aos bombeiros para lavar a maca e o avião por dentro, devido ao excesso de sangue. Peço, também, ao meu camarada de alerta para abastecer o avião de combustível e verificar o nível de óleo. A ambulância já se afastava para o hospital enquanto eu e o “Tack”, cabisbaixos, fomos diretos à messe para nos servirem alguma coisa, uma vez que o almoço já tinha terminado. Tentámos comer, mas nada passava pela garganta. 

Ouvimos a sirene de alarme a tocar, mas pensamos que não era nada connosco. Enganamo-nos! Naquele momento entrava o Pedro Dinis (Mike Delta), a gritar que tínhamos de voltar para o CAZOMBO, uma vez que existiam mais feridos e era necessário efetuar as respetivas evacuações.
Ingenuamente pensei que depois de comer podia esperar por transporte para a cidade, que me podia refrescar debaixo do duche na república, dar uma volta pelo LUSO, rever camaradas e descansar na minha cama, no meu quarto. Rapidamente acordei deste sonho. Peguei no tabuleiro da comida, saudei os cozinheiros, arrumei as minhas coisas e saímos a correr para o  avião para voar para CHILOMBO. 
Descolamos e iniciamos a subida até aos 7000 pés, rumo ao CHILOMBO. Após cerca de duas horas de voo, aterramos. Embarcámos os feridos no avião, já com o sol a desaparecer no horizonte. Na viagem de regresso, estabilizamos nos 6000 pés, rumo ao CAZOMBO. Subitamente o “Tack” informa-me que vai desligar as luzes do avião, porque vê no horizonte dezenas de pequenas fogueiras , que suspeita que poderem pertencer ao inimigo e atacar-nos se nos identificarem A partir daí, efetuamos o resto do voo com os parcos instrumentos de voo do DO-27.

Já perto do CAZOMBO, contactámos o OPC de serviço, para preparar a aterragem. Foi providenciada uma viatura, com as luzes acesas para indicar o início da pista de aterragem e as laterais da pista com lamparinas. Os faróis de aterragem do DO-27 pouco iluminavam. Um pouco a tacto, lá foi feita a aterragem.

Já com o avião parado, era necessário abastecer, para que estivesse pronto para o dia seguinte. Com tudo terminado, suspirei de alívio, naquele que foi um dia de muito trabalho e tristeza. Finalmente como alguma coisa e descanso. Há que estar preparado para o próximo dia.

 Por: Fermelindo Rosado



 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

...E, COMO SEM ESPERAR, VIM DE FÉRIAS AO PUTO!


O embarque
Como introdução devo dizer que sempre viajei de e para Angola em Boeing 707.
Aquando da minha mobilização e após dois adiamentos de embarque, finalmente em 3 de Outubro de 1970, chegou o dia.
Já estava cansado de despedidas, se não embarca-se nesse dia já tinha jurado, não voltava a casa, ia para Montejunto.
Para surpresa, esperava-nos um voo no 707 da TAP “Lourenço Marques” especialmente fretado para transporte de militares da FAP com destino a Angola.
Era tempo de substituir muitos que estavam a "lerpar" meses, caso meu amigo Quim Gomes, e falava-se no incremento do dispositivo na ZML.
Postal TAP do Lourenço Marques

Chegados a Luanda passados um dias sou colocado no AB4-Henrique de Carvalho, na altura considerada a Base do desterro em Angola.
Ainda em 1970, alguém me informa, que tínhamos a possibilidade de requerer a vinda de férias á Metrópole com viagem nos nossos aviões. Com franqueza, não tinha grande preocupação em vir cá de férias, era um tipo “livre” não tinha qualquer compromisso amoroso, para além dos meus pais.
Acabei por fazer o tal requerimento, e logo se verá o que vai acontecer. Certo, é que nunca mais liguei nem me preocupei com o eventual despacho.
Passou-se o ano de 1971 e na semana de Natal sou informado que tinha chegado um rádio com o deferimento da viagem, marcada para esse semana, pelo que deveria embarcar para Luanda e aguardar embarque para Lisboa.
Foi uma total surpresa!
Há que tratar das formalidades, há que informar o meu chefe direto, na altura o 1º. Sargento Matos Silva mais conhecido por “Rato d’água”, que posto ao corrente da situação, pura e simplesmente me recusa a concessão de férias para o efeito. Não há problema chefe! Nestas coisas há que falar com quem manda verdadeiramente. Assim nada como falar com o chefe mor, o Capitão Maia, que apanhei de seguida e a quem transmiti a nega do Matos Silva.
O Capitão Maia com a sua habitual bonomia, responde-me:
“Ho pá, não ligues, despacha-te vai tratar da tua vida e vai lá de férias”!
E assim foi, burocracia tratada, embarque para Luanda.
No dia 23 lá estava nos TAM, mas nem na lista de reserva constava o meu nome.
No voo desse dia, era só oficialato superior, famílias, amigos, cão gato, periquito...e "sopeiras" dos senhores oficias. O voo TAM mais parecia um voo da "agência de viagens FAP".
Escusado será dizer, que eu e muitos mais ficámos em terra e a hipótese do Natal com a família já era.
Paciência, não se pode ter tudo! Como recurso lá tive de "asilar", com os meus amigos de infância, D. Adozinda e seu filho André, que viviam na Terra Nova e com quem passei a consoada de Natal.
Julgo que nos dias 24 e 25 não houve voos.
Embarquei no dia 26 ou 27, talvez 27 porque 26 foi um domingo. Em Lisboa, muito frio, para quem vinha equipado com a farda de verão, e sigo para o Porto.
Chegado a casa, para surpresa da D. Maria minha mãe, pois não tinha avisado ninguém, foi a verdadeira surpresa.
- Oh rapaz, o que fazes aqui, não estavas em Angola?
- Estava mãe, mas deixaram-me vir a casa!
Entre a passagem de ano e dias seguintes, o tempo foi passado em convívio com a família e amigos. Tive também de "tratar" uma carrada de chatos com que fui brindado, provavelmente, na última noite passada nos adidos da BA9, experiência que nunca tinha vivido, mas segundo o tratamento fornecido pelo meu amigo Aníbal da drogaria, ficaram todos de costas!
Bom, o tempo passa e há que preparar o regresso, destino AT1. Só que, volta a repetir-se a cena do primeiro embarque, duas vezes sem vaga. Só á terceira tentativa e após muita pressão lá consegui embarcar, senão ainda hoje estava de férias (!), já estávamos em meados de Fevereiro.
Após quase 2 meses, finalmente de regresso a Henrique de Carvalho, já havia malta que pensava que eu tinha "desertado", faltavam 8 meses de comissão ! 
E foi esta, ao correr da pena, a saga da viajem de férias ao Puto!

Por: A. Neves