sexta-feira, 25 de abril de 2014

NA MADRUGADA DO DIA DE HOJE


Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de um regime político.

Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de uma guerra, que consumiu gerações de jovens.

Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de uma guerra, que consumiu gerações, de pais, esposas, filhos, que viram partir, os seus meninos, maridos, pais. Uns milhares, para todo o sempre.

De alguns desses jovens, apenas regressou o nome, que jaz inscrito, numa fria lápide, junto ao rio, de onde um dia partiram, para sempre.


Recordo, ainda hoje, jovens a quem vi a vida a extinguir-se, ou já extinta, em nome de uma “Pátria, una, indivisível, do Minho a Timor”.

Em nome de uma Pátria, cujos dirigentes, não souberam ou não quiseram, interpretar os “ventos da História”.

Um dia, hoje já não muito distante, este episódio da História Portuguesa, à semelhança de outros, mais não será, que uma nota de rodapé.

Que, pelo menos, até ao desaparecimento do último sobrevivente, não sejam esquecidos, os jovens, que naquela guerra perderam, a inocência, a juventude, o sorriso, a alma, o sangue, o corpo, a vida.








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quinta-feira, 17 de abril de 2014

A PANELA DE PRESSÃO


Uma recruta
Estávamos na penúltima semana da recruta, a minha secção foi punida com uma carecada geral, e um fim de semana de serviço, por ser apanhado desenfiado numa noite de instrução nocturna. Cada um foi destacado para cumprir o castigo nos diversos serviços da base que funcionavam aos fins-de-semana. A mim coube-me o serviço de faxina nas cozinhas dos refeitórios, deram-me uma faca uma palete de sacas de batatas e vários contentores de plástico semelhantes aos usados para a recolha do lixo, e eu mais três felizardos passámos todo o dia a descascar batatas para dentro dos contentores, no fim da tarde tínhamos descascado a totalidade da palete, e fomos dispensados.
No Domingo, achei que aquilo já eram batatas a mais e comecei a pensar como é que
Messes
seria possível safarmo-nos a tamanha catrefa de batatas, no dia anterior tínhamos colocado todas as batatas,
 nos contentores de plástico com água a cobrí-las para que não se estragassem. Teria que ser por aí que teríamos que fazer a falcatrua... paletes de sacas de batata não faltavam, contentores também não, água a mesma coisa, resolvi dar uma volta pelo armazém da cozinha, uma pilha de tabuleiros de plástico atraiu-me a atenção, peguei num virei-o ao contrário e enfiei-o no fundo do contentor, com os seus vinte e cinco centímetros de altura, comia para aí uns bons quilos de batatas no final só tínhamos que distribuir as sacas que sobrassem pelas restantes paletes. 
Era Domingo de manhã, não havia ninguém à vista que pudessem interferir na “tramóia”, quando acabassem por descobrir os tabuleiros no fundo dos contentores, já nós estaríamos de férias, e ninguém se ralaria com isso, pois de certeza que os soldados que descobrissem a coisa não iriam fazer queixa sem saber quem iriam tramar, podendo até sobrar para eles.
As "panelas de pressão"
Estávamos a discutir se avançávamos ou não, quando começámos a ouvir alguém a cantar desafinadamente como se estivesse no banho, olhámos uns para os outros pela surpresa de não estarmos sozinhos e fomos trazendo tabuleiros até termos contentores para os enfiar, depois sentámo-nos calmamente a descascar o resto das batatas. Passaram uns minutos e entrou o Oficial de dia com o responsável pelas cozinhas, e em fundo continuava a cantoria. Depois de passarem por nós, o Oficial de dia resolveu ir espreitar o contentor que estávamos a usar, levantou a tampa e ficámos na expectativa, depois dele fechar a tampa e de seguirem em direcção á sala que tinha as panelas de pressão, atenção que não eram panelas como temos em casa, eram uns recipientes em forma de taça, com cerca de um metro e meio de diâmetro em material inox, com tampa hidráulica que fechava hermeticamente (autoclaves). 
Todos os dias tinham de ser lavadas por dentro, como as normais, para retirar os restos de comida, de modo a não adulterar o sabor e a qualidade dos alimentos nelas cozinhados, teriam um metro e sessenta de altura do nível do chão, e quando o oficial de dia e a restante comitiva entraram na sala, depararam-se com um espectáculo impensável, um dos soldados que tinha sido incumbido de lavar as panelas resolvera tomar banho dentro duma delas usando o vapor para aquecer a água, e o detergente industrial para se ensaboar. Era ele que cantava desafinadamente no “Jacuzi” para espanto dos presentes, não restando ao Oficial de dia outra atitude que não fosse dar-lhe ordem de prisão imediata, obrigando-o a marchar nu na sua frente para a prisão.
E quem era o banhista afinal, era o famoso “Zé do burro”, o mesmo que andava com o carro de recolha do lixo pela unidade, e que dizia a voz da caserna “ser o burro mais inteligente que ele”, mas ninguém tinha melhor vida que aquele “bacano” o burro já fazia hà tantos anos o serviço, que sozinho dava a volta à Unidade, e quando não vinham despejar o lixo no carro, zurrava até que alguém aparecesse e o mandasse embora do início ao final do percurso, e o Zé esse estava sempre desenfiado nalgum lado...
No dia seguinte, pensávamos nós que não haveria recolha do lixo, mas para espanto de todos, lá vinha o burro à frente com o carro, e o Zé “careca” e “murcho”, com um PA ao lado sob prisão, atrás.

Ota Abril de 1970.

OPC ACO

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A ORIGEM DA CONTINÊNCIA MILITAR

A continência militar tem uma origem comum com o nosso hábito de apertar a mão, e ambos datam dos tempos em que, geralmente todos os homens andavam armados.
Quando dois homens se encontravam, em boa paz, cada um deles levantava a mão direita para mostrar que não trazia qualquer arma e que se podiam aproximar em segurança. Quando os civis deixaram de trazer armas, continuou o hábito de levantar a mão direita, em forma de saudação. Tornou-se, depois, o costume de tocar as mãos e finalmente, passou-se ao aperto de mão, tal como hoje o conhecemos. Algumas pesquisas indicam que a continência foi criada na época medieval, onde os cavaleiros, para identificarem-se aos seus superiores abriam a parte frontal de seu elmo, com um movimento similar ao de prestar continência.
Diante do rei, os cavaleiros, que se protegiam com enormes armaduras, eram obrigados a se identificar. Para isso, tinham de erguer a viseira do elmo, o capacete medieval, com a ponta dos dedos da mão direita. O gesto era também um sinal de paz, porque com a mão no elmo o cavaleiro não poderia sacar a espada – e assim evitava reacções hostis e era um sinal de respeito na presença dos soberanos.
Com o tempo esse costume espalhou-se também entre os membros de um exército: a mão levada a testa era o início de um aceno amigável; servia também como uma espécie de senha, pois tinha muitas variações para confundir os inimigos.
No caso daqueles que continuaram a usar armas – os militares- o levantar a mão tornou-se uma questão mais grave, resultando daí a actual continência ser cerimoniosa. Continência é a saudação militar e uma das maneiras de manifestar respeito e apreço aos seus superiores, pares, subordinados e símbolos.
A iniciativa de prestar continência deve vir sempre da patente inferior e obrigatoriamente respondida pelo superior hierárquico. Talvez por isso – como em tudo na humanidade – algumas pessoas confundam esse nobre gesto com afirmação de superioridade ou mesmo para ratificar a condição “inferior” de seus comandados, originando inclusive, casos de abuso de “superioridade” de alguns militares de patente mais elevada, que muitas vezes não correspondem ao cumprimento.
A saudação militar conhecida como "bater continência".
Nem em todas as Forças Armadas têm o mesmo modo de cumprimentar.

Nos vários Ramos das Forças Armadas dos vários países, há formas diferentes de fazer continência: as palmas da mão nem sempre são posicionadas da mesma forma, dando origem a que por exemplo sejam feitas com a palma virada para fora
Histórias curiosas e ao mesmo tempo verdadeiras.
1º.
Um soldado desatento passou pelo capitão e não o cumprimentou da maneira correcta. Imediatamente o oficial chamou a atenção do soldado, aos berros e exigiu que ele lhe prestasse continência 50 vezes seguidas. Dessa maneira – acreditava o capitão – ele aprenderia a lição e não cometeria novamente esse ato de insubordinação.
E assim fez o soldado, seguidamente movimentando seu braço direito enquanto o capitão realizava a contagem.
Um pouco mais afastado, um coronel observava tranquilamente o desfecho da cena. Ao final das 50 continências, é o coronel quem intervém:
Capitão, vi que o soldado prestou 50 continências para o senhor. Pois bem, é seu dever retribuí-las.
2ª.
Um soldado, também desatento, passando por um general esqueceu~se de lhe fazer a continência e quando se apercebe do erro ficou sem saber o que fazer.Enchendo-se de coragem pediu para falar com o general, o que lhe foi concedido.Na sua presença desfaz-se em desculpas.O general depois de ouvir o soldado manda-o em paz, alertando no entanto que nunca se esqueça de cumprimentar o sargento...

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

CHISSOIA



– «Quando a luz difusa que anuncia o amanhecer tropical começou a dar cor ao casario da cidade [de Luanda], havia já na marginal um movimento desusado. Ao fundo da avenida, frente ao porto, a praça fora engalanada com bandeiras e a tribuna erguida na véspera, recheada de cadeirões forrados a veludo vermelho, aguardava, imponente, a chegada das individualidades. Comemorava-se o Dez de Junho e Portugal, de Camões e da Raça, e os heróis iam ser solenemente exaltados.
Do alto do pedestal a estátua do navegador, erguida no centro do largo, olhava a baía a que os raios do sol nascente douravam já as águas tranquilas, como se aguardasse ainda a chegada das naus, deslizando suaves e silenciosas, como cisnes negros de asas brancas.
Nesse tempo, a população descia dos morros e barrocas sobranceiras à zona ribeirinha, esperando que os nautas varassem os botes na praia para o encontro dos mundos que "o mar já unia". Agora, a baía, que se recorta como um sensual dorso de mulher, foi pudicamente coberta com o manto verde das palmeiras da marginal, e na comunhão dos mundos só as naus estão ausentes. Portugal e o mar ali estavam, marcando presença perante uma população que, a pouco e pouco, tomou a côr da mestiçagem de sangue e vivência, deixando perplexo, quem se interrogasse, de que raça se iriam enaltecer as virtudes naquele dia!
A praça fora enchendo. As cadeiras da tribuna tinham sido ocupadas e um general, em voz monocórdica e enrouquecida, lia o discurso onde salientava que quinhentos anos de esforço, e querer, uniam o herói que, ali imortalizado em pedra, olhava absorto o oceano sem fim, aos heróis de hoje que, frente à tribuna, aguardavam o agradecimento da Pátria reconhecida.
Perfilado, com a dignidade de um bem-nascido, altivo no camuflado verde, o Chissoia aguardou o chamamento e a leitura do louvor em que era descrito o seu acto de bravura. Subiu os degraus da tribuna e, como se fosse talhado em ébano, sem mover um músculo, abriu o peito largo onde o general, quase em bicos dos pés, lhe colocou uma Cruz de Guerra, dizendo-lhe em voz baixa que Portugal sentia orgulho por ter filhos como ele. Regressou ao lugar na fila dos heróis e, erecto, assistiu ao desfile de estandartes dos batalhões espalhados pelos confins do território, à passagem do corpo de fuzileiros, do regimento [CI] de comandos, dos flechas e dos leões de Cabinda, que em marcha acelerada entoavam canções guerreiras. A cavalaria fechou o desfile a galope curto, com garbo e tradição.
Era impressionante a portugalidade que se respirava e as gentes, de todas as cores, que tinham emoldurado a praça, ao dispersar derramavam na cidade a confiança inabalável no Portugal granítico e multirracial que, naquela manhã, tinha estado presente naquele largo, frente ao porto.
Quando conheci o Chissoia era ele já um veterano de guerra, não que fosse velho, pelo contrário, apenas começara cedo e aprendera depressa. Parece que desde pequeno acompanhava o pai como pisteiro de elefantes. O Lucusse, onde nascera, era uma zona de passagem dos paquidermes que, nos seus itinerários até ao rio Lungué-Bungo, muitas vezes destruíam o trabalho de meses no arranjo das lavras. Entre os animais e os aldeões travava-se uma luta pela sobrevivência, em que nem sempre eram os humanos os vencedores. Era assim natural que os caçadores, convidados pelo governador do distrito [do Moxico] ou pelos homens importantes da província, fossem vistos com agrado pelas populações, pois além de abater alguns animais, afugentando por algum tempo as manadas, deixavam toneladas de carne que, mesmo dura e fibrosa, o soba e o velho Chissoia ficavam encarregados de distribuir. Aos brancos só os dentes interessavam, e o velho pisteiro aguardava que os crânios enterrados apodrecessem para lhes retirar as presas que, numa próxima visita, entregava já limpas de medula.
Foi nessa época que os Chissoias, pai e filho, se tornaram amigos de gente importante. O profundo conhecimento das matas e a perícia em seguir e interpretar trilhos como quem lê um livro, aliados à camaradagem que a aventura comum proporciona, permitiu-lhes sentar-se, conversar e comer lado a lado com os grandes da terra que, amiúde, os presenteavam como prova de reconhecimento. O prestígio do velho Chissoia era grande perante as populações, não só dos povoados próximos, como de toda a região.
Corriam tranquilos os primeiros anos da década de sessenta. A luta que se ateara no Norte do território não tinha chegado ainda às planícies sem fim do Leste. As matas eram seguras e, logo pela manhã, as mulheres seguiam em fila e sem receios, para as lavras onde recolhiam lenha e mandioca para o sustento da prole.
1971 - Com. Chissóia dos
Flechas
Uma madrugada apareceu no Lucusse um grupo de gente estranha à região. Vinha armada e queria falar com o soba. Depois de uma longa conversa, e perante a atitude de incompreensão e até de alguma hostilidade, o chefe do grupo resolveu utilizar um meio de persuasão mais eficaz e, perante a população aterrorizada, fuzilou o soba por ser um chefe corrupto e o velho Chissoia por ser lacaio dos colonialistas. O filho fugiu para a mata e, passados dias, chegou à capital do distrito, onde contou o sucedido. Acompanhou depois a força militar que foi enviada para a zona e seguiu, até ao fim, a pista de rastos humanos como o pai lhe ensinara a seguir a dos elefantes.
A partir dessa época ficou ligado ao destacamento militar que foi aquartelado na povoação. O seu conselho e actuação foram sendo cada vez mais imprescindíveis, acabando por ser integrado nas forças irregulares, chefiando um grupo de homens escolhidos por si e com relativa autonomia.
Quando a luta de defesa do território foi alargada ao Leste para suster a tentativa do inimigo de alcançar o planalto central por essa via, a táctica das nossas forças teve que se adaptar ao terreno plano e com grandes extensões pouco povoadas. A Força Aérea iniciou então uma colaboração íntima nas operações terrestres, proporcionando uma maior mobilidade através de helicópteros e aviões ligeiros. Foi nessa época que conheci o Chissoia, e muitas horas passadas em amena conversa, junto das fogueiras que aqueciam as noites frias das savanas de leste, caldearam a amizade e a admiração que desde então sentia por ele.
Uma tarde, quando o crepúsculo já anunciava a noite que cairia breve, perto do Lago Dilolo, quando o seu grupo dava protecção a um movimento das nossas tropas, houve uma emboscada e dois soldados feridos jaziam no chão dentro do campo de tiro do inimigo, que continuava a alvejá-los.
Passado o primeiro momento de surpresa, o Chissoia levantou-se e, a descoberto, com a arma ao quadril, fazendo fogo para se proteger, foi buscar um e, depois, o outro, arrastando-os para lugar mais seguro.
Foi por esse acto de bravura que o Chissoia esteve presente naquele Dez de Junho, em que o general se esticou para lhe pendurar a condecoração na farda honrada e que, passados tantos anos, algures num recanto de Portugal, dois homens de meia idade podem recordar, em reuniões de família, como uma vez, quando estavam no Ultramar, um preto lhes salvou a vida.
O ano de setenta e quatro decorreu convulso! A esperança inicial, transmitida pelos novos políticos no poder, em vez de tranquilizadora e bem colocada, parecendo ter a percepção da complexidade dos problemas a enfrentar, fora substituída por dúvidas cada vez mais angustiantes. As cidades tinham acolhido com palmas os guerrilheiros vindos das matas, aplaudindo-os como actores inesperados, num final de acto antecipado e improvisado, mas antes do fim do ano muitas das mais importantes povoações eram já palco de lutas entre os diversos movimentos, com recurso a armas pesadas, que destruíam tudo o que fora construído com sacrifício e amor.
As Forças Armadas portuguesas, desviadas dos seus objectivos e da sua missão, assistiam a tudo como espectadoras, ocupando, salvo raras excepções, um lugar pouco digno.
A partir do meio do ano setenta e quatro, começaram a chegar a Lisboa os soldados do fim da era imperial. Traziam estampada no rosto, na farda e na mente, a parte negativa da revolução.
A população civil começara há muito a sair face à insegurança em que se passou a viver, e muitos de nós, militares, habitávamos as casas vazias onde tínhamos vivido com as famílias, aguardando o fim da missão.
Uma noite ouvi um bater tímido de palmas no quintal da casa que ainda ocupava. Quando abri a porta, o Chissoia e a família estavam à minha frente.
"Preciso de ajuda!" atirou, quase envergonhado.
"Entrem e sentem-se por aí", disse, apontando os caixotes onde embalava o que queria levar de regresso a Lisboa. "Cadeiras já não há!", concluí.
 A mulher e os filhos acocoraram-se, silenciosos, junto à parede da sala. Eu e ele sentámo-nos frente a frente, como sempre tínhamos feito, cada um em seu caixote.
 "Estamos abandonados!", começou. "Três dos meus homens foram detidos por um dos
movimentos de libertação, e foram mortos...".
"Não pode ser", interrompi. "Vocês terão que ser protegidos nos acordos que se fizeram", afirmei, procurando eu próprio dar convicção ao que dizia.
 "As patrulhas deles procuram-nos sem que alguém nos dê protecção!...".
"Isso não faz sentido! A responsabilidade aqui ainda é nossa... o comandante do batalhão é a autoridade!", exclamei indignado.
 "Fui ao comando militar hoje à tarde. Um tenente de barbas, que parece ter chegado há pouco tempo, disse-me uma coisa que me deixou sem dúvidas...".
"O que foi?", perguntei.
"Quando soube o meu nome, perguntou o que é que eu esperava que acontecesse aos lacaios e traidores do povo...". As lágrimas dançavam-lhe nos olhos sem cair, como se a raiva e o orgulho as segurassem. "Isso foi o que disseram ao meu pai em Lucusse antes de o fuzilar...", e num desabafo murmurou: "Só que esses eram negros... um tenente branco não me pode dizer isso... porque aqui o traidor é ele... eu fui condecorado, o general disse-me que tinha orgulho de mim, de um português como eu... quando esse homem souber o que me disseram...".
Olhei-o cheio de amargura, sem ter a coragem de lhe dizer que esse general assumira agora outras funções e que ele, Chissoia, era uma ligeira sombra na sua memória, nas suas preocupações...talvez na sua consciência.
Desceu sobre nós um silêncio pesado e trágico. Olhávamo-nos mudos. Os caixotes em que nos sentávamos e a casa vazia que nos albergava, pareciam ser tudo o que restava do mundo em que até aí tínhamos vivido.
Subitamente, a filha mais nova, com os cinco anos a reluzir-lhe na face risonha, levantou-se e, sem quebrar o silêncio, foi apanhar do chão uma boneca de cabelos loiros que uma das minhas filhas tinha deixado para ser enviada nos caixotes. Voltou a acocorar-se junto à mãe com a boneca nos braços, cantando-lhe baixinho uma canção de embalar, que certamente aprendera com as mães negras do bairro onde vivia.
A pouco e pouco a força telúrica da melodia, quase murmurada, foi aquecendo o silêncio,enchendo-o da energia profunda da África eterna, renascida das cinzas, verdejante depois das queimadas. A alma foi-se-nos erguendo como se a canção fosse um hino que nos devolvia o ânimo e, em silêncio, ambos procurávamos já a solução que todos os problemas têm.
"Eu posso arranjar passagens para Luanda no avião de amanhã", alvitrei, buscando saída.
"Luanda não é o meu povo. Só lá fui uma vez...", referia-se à data da condecoração. "Lá ficamos ainda mais desprotegidos".
"Posso tentar que vão para Portugal, mas, pelo que sei, não vai ser fácil nem rápido", disse,recordando as notícias que nos chegavam pelas tripulações.
"O mais difícil é sair daqui com a família. Com eles não consigo passar sem ser visto".
"Mas sair para onde?", perguntei, sem vislumbrar a solução.
"Tenho gente na mata, que me mandou recado. Há movimentos que não se importam de nos aceitar.
Precisam de homens com experiência para as guerras que vão chegar."
"Que posso fazer?", interroguei com desalento, pensando no papel que teríamos ainda de representar na tragédia que se vislumbrava já no horizonte.
"Aquela pista que uma vez abrimos para utilizar só em operações especiais, continua boa e abandonada...", sugeriu a medo, consciente do que pedia. "Podemos ser postos lá?...".
Eu tinha presente a localização da pista. Fora aberta na orla de uma mata, longe de povoações,apenas para ser utilizada em operações que se desenrolassem perto da fronteira.
"Já mandei os meus homens sair da cidade, só ficaram duas mulheres, eu e a minha família; se nos puder ajudar...".
Sabia o risco que corria ao dizer-lhe que sim. A zona já fora evacuada pela nossa tropa e, ainda que isolada, poderia andar perto algum grupo que não hesitaria em abrir fogo se nos visse aterrar.
Pela minha memória passou aquela madrugada em que tinham chegado ao acampamento os dois soldados feridos, mas salvos pelo Chissoia.
O Portugal que eu era devia um sacrifício, um acto de gratidão, ao Portugal que ele, Chissoia,deixara já de ser.
Dormiram essa noite na minha casa depois de ter ido buscar, furtivamente, as duas mulheres e mais duas crianças, evitando as patrulhas que circulavam pelas ruas desertas da cidade. De manhã, muito cedo, meti-os no jipe que ainda me estava distribuído, e dirigi-me à base onde tinha o avião para regressar a Luanda logo que a minha missão ali estivesse cumprida.
Descolei e tomei o rumo da pista que nos aguardava na mata. Daí ao Lucusse seriam uns dias de caminho árduo, mas era preferível percorrê-lo a serem abatidos como traidores.
Lucusse (foto de Gonçalo Carvalho)
A faixa deserta estava mergulhada no silêncio hostil das coisas abandonadas. Tudo estava agora vazio, dominado pela mata que parecia querer recuperar para si a pista, como cicatrizando umaferida aberta. Aterrei e, para não parar o motor, mantinha-o a baixas rotações. O hélice provocava um som triste de chicotadas que, repercutindo-se de árvore em árvore, ia morrer nos confins da floresta.
O Chissoia ajudou a família a descer rapidamente do avião, conhecendo perfeitamente o perigo que todos corríamos se, por acaso, um grupo dos novos senhores da guerra nos surpreendesse. Ao sair colocou-me, num gesto mudo, a mão sobre o ombro, dizendo assim tudo o que nem eu nem ele tínhamos coragem para dizer. Depois, caminhou apressado à frente do seu pessoal em direcção à mata. As mulheres e os filhos seguiam-no em fila indiana. Não teve mais um olhar, mantinha o porte altivo e digno que sempre lhe conheci. Um a um, vi-os desaparecer entre as árvores, como se a floresta os engolisse. Só a mais pequena, a última da fila, se deteve um instante e, voltando-se, com a boneca de cabelos loiros na mão, fez-me adeus e sorriu, num gesto puro de quem não sabe que se despede para sempre.
Fiquei a olhar o sítio onde desapareceram, aguentando a solidão imensa que me gelava a alma.
Quantas traições, quantos abandonos e deslealdades serão necessários para erguer e desfazer um Império?
Em quantas praias desertas teremos deixado companheiros? Em quantas matas teremos abandonado gente que em nós confiou? Quantas vezes desertámos das responsabilidades que assumimos?
Quantas vezes traímos?
Descolei e, já no ar, dei por mim a pedir a Deus protecção para o camarada perdido.
No dia seguinte, o mecânico que passou inspecção ao avião, entregou-me uma medalha da Cruz de Guerra que encontrou caída no chão, junto ao banco em que o Chissoia se sentara.»

(Carlos Acabado, in “Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida")

sexta-feira, 28 de março de 2014

OS GALINÁCIOS


Quando ia destacado para Gago Coutinho, levava normalmente um “suplemento alimentar”, à base de muitas latas de conservas e fruta enlatada, e a razão era bem simples, a comida para a arraia miúda era “confeccionada” pelo Batalhão do Exército, numa cozinha igual à de todos os outros quartéis espalhados pelo Leste de Angola, um telheiro negro do fumo, com um buraco no chão onde introduziam a lenha, por baixo da “baixela” onde inventavam todos os dias as receitas que aniquilavam qualquer tentativa de dar aos alimentos a simples função de  alimentar o pessoal.
O refeitório
De salientar que mesmo não havendo condições para comermos nas nossas instalações, (os pilotos comiam na messe de Oficiais do Batalhão), os especialistas, improvisaram mesa e cadeiras e comiam no hangar só para não passarem por mais essa humilhação de terem que ir comer ao outro lado, com: hora marcada, formatura, cornetada, e outras regalias proporcionadas aos praças do Exército. Não que não comêssemos a mesma sopa desenxabida, e o prato principal que muitas vezes nem conseguíamos identificar, a mesma fruta de terceira ou quarta escolha, para não falar do célebre vinho de pipa, que se fosse analisado, denunciaria todas as adulterações sofridas desde as berças Continentais onde o envasilharam, sem saber qual seria o destinatário, passando por todos os intermediários, até chegar aos confins da savana.
Vem tudo isto a propósito, da fominha que se passava nos destacamentos, por vezes tão intensa, que não nos deixava pensar noutra coisa que não fosse em comida, a sério, daquela que as nossas mães faziam e a que a gente nem ligava, fartos, de barriga cheia, mas que aqui até quase morríamos de saudade.
Num desses períodos de “avareza” em que a comida andava tão má que até slides merecia, não morresse-mos todos envenenados e ninguém adivinhasse o porquê, resolvi “instigar” os MMA’s e os Pilotos uma vez que eram eles que faziam o abastecimento de frescos aos destacamentos dependentes do Batalhão de Gago Coutinho, para que confiscássemos alguma coisa decente e tenra, onde pudesse-mos ferrar o dente. 
DO 27 preparando a saída
Numa terça-feira, depois do Nord ter descarregado tudo e descolado, o nosso DO, começou a efectuar os abastecimentos de frescos e correio. 
Como combinado com eles, escondi-me no compartimento junto com a carga, e assim que descolámos, saquei da faca de mato, e abri o enorme saco de plástico cheio de frangos, que a viagem era curta, e peguei um frango pelas patas, para o transferir para o nosso saco, o frango estava prezo com os outros e eu fui exercendo cada vez mais força para o separar e retirar do interior do saco, eis senão quando dou comigo com as patas do frango na mão, concluindo para meu espanto, que os frangos estavam “tão frescos” que mesmo crus os ossos das coxas se separaram da carne, estavam roxos assim como os orifícios deixados pelo esforço que exercera. Voltei a enfiar os ossos nos orifícios, atei os sacos, e “confisquei” uma data de caixas de rações de combate, que escondi por diversos sítios do compartimento de carga, essas pelo menos, podiam ser ingeridas sem mais acidentes.
Na volta quando toda a gente já afiava o dente paro o churrasco, fizemos um refeição de “carnes (latas) frias” e guardámos a vontade de comer para melhores tempos, ou quando nos fosse permitido ir à caça.

Gago Coutinho, 12/1972
OPC ACO

quinta-feira, 20 de março de 2014

BASE AÉREA DA OTA

O QUE SE ESCREVEU EM 1940


Inaugurou-se no dia 14 de Abril do corrente ano de 1940, a Base Aérea nº2, magnificamente instalada em vastos terrenos a Ota, cerca de Alenquer. É uma obra grandiosa e única no seu género em Portugal, sobretudo no que diz respeito ao aquartelamento. Constitui com os seus edifícios e as suas oficinas, um estabelecimento militar de primeira categoria, amplo, limpo, banhado de luz e possuindo acomodações para 150 homens e 60 aviões.   
Na nova unidade da aviação distinguem-se a parte de comando e aquartelamentos e a de aeronáutica propriamente dita. Na primeira, ficam quatro alas distintas mas edificadas de modo igual. Passada a porta de armas que tem anexas duas pequenas casas -uma para a guarda e outra servindo de prisão- vê-se `esquerda a primeira construção que é a “messe” de oficiais. Consta de: um “hall” de boas dimensões+, adaptado a sala de estar; balneários de sistema moderno; uma cozinha forrada a mármore e com o respectivo fogão; uma esplêndida sala de jantar, um bar pequenino; uma sala de leitura e outra de visitas. Para os oficiais solteiros há vinte e um quartos, dispostos ao longo do corredor.
No corpo do edifício fronteiro estão instalados o comando, a secretaria, o gabinete do oficial de serviço, a biblioteca, uma de conferências, onde se encontra um valioso friso fotográfico que foca as diversas fases do desenvolvimento da aviação militar em Portugal. À entrada, dois belos azulejos fixam uma parede gloriosa da viagem ao Brasil, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e a chegada do primeiro avião português, há anos a uma das nossas colónias do Ultramar.
As acomodações para os soldados, na ala que lhe é destinada, são esplêndidas e modernas. Amplos dormitórios, correspondendo a cada cama um belo armário com cabides. Balneário, também servido por água quente fria. Uma boa sala de jantar com mesas de ferro e tampos de mármore branco, tendo cada praça a sua cadeira de ferro.
Uma sala enorme com inúmeras janelas é exclusivamente destinada ao curso de instrução primária.Temos, depois o edifício dos sargentos, igual aos anteriores, onde também ficam a cozinha privativa, a sala de jantar, os balneários e os refeitórios.
A Sul e Norte do aquartelamento e, consequentemente, fora dele, estendem-se dois bairros, tudo casas alegres, cheias de sol. Destinam-se estes bairros aos oficiais e sargentos casados. O dos primeiros é o do Sul. Dezanove edifícios com dois andares, espaçosos, de linhas elegantes.
O bairro dos sargentos fica ao Norte e constituem-no vinte e oito construções, compostas de rés-do-chão e um andar.

Afastados algumas centenas de metros dos edifícios de aquartelamento e comando, encontra-se o conjunto de “hangares” e oficinas. Logo em frente, estende-se a pista, que é um grande quadrilátero alongado no sentido Norte-Sul.
Os gigantescos “hangares”, cuja grandiosidade só se pode avaliar bem quando neles se penetra, estão repletos de material aeronáutico, desde grandes aviões de bombardeamento até às mínimas peças acessórias, incluindo os “caças” e os aparelhos de treino.
Não faltam, também, as patrulhas de “caças” de protecção não só da própria unidade como dos bombardeiros trimotores e bimotores com que o nosso Exercito do Ar foi recentemente enriquecido.
São três grupos de “hangares” de que a nova base dispõe: um de Montagem e esquadrilha de caça e dois para bombardeiros completamente metálicos. Ao lado do primeiro ficam os armazéns com material de substituição e, em edifícios anexos, as oficinas apetrechadas com a mais variada maquinaria para reparações.

Numa dependência reparam-se e ensaiam-se motores; noutra regulam-se aparelhos de precisão. Em várias secções trabalha-se nas diversas matérias-primas que compõem a complicada estrutura de um aeroplano.
O pessoal goza também de todas as comodidades. O director das oficinas tem o seu gabinete e uma secretaria para os serviços respectivos. Os artífices dispõem de vestuário higiénico e dum refeitório amplo.
Em arrecadações devidamente protegidas está armazenado o material destinado à actividade bélica dos aviões de bombardeamento.
O serviço de abastecimento dos aparelhos é feito por tanques gigantescos, com a capacidade para 50.000 litros cada, enterrados e protegidos contra ataques aéreos.Para a limpeza está instalado um motor de ar comprimido, ligado por uma rede de tubos que pode chegar onde se encontre o material.
Viaturas automóveis, pesadas e ligeiras, asseguram os serviços de transporte e sanitário, prontos à primeira chamada, nas espaçosas garagens edificadas ao cimo do recinto dos aquartelamentos.
Esta magnifica obra do Estado Novo que, como já dissemos, é no seu género, a melhor e Portugal, e importou em cerca de dezoito mil contos.

Por:








sexta-feira, 14 de março de 2014

CONVERSAS NA CIDADE Nº.8

AS TRÊS TORRES
Nota Introdutória
No princípio era o “Verbo”, e o verbo estava com as Torres de Controlo, e uma das Torres era a nossa Deusa “Majestosa” – símbolo máximo do A.B.4.
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Marrador – Neste texto vamos apresentar a família “Torres”. A avó, a mãe e a filha. Cada uma com a sua história peculiar fixada no tempo, como se de uma verdadeira família humana se tratasse. A velhinha, a bonitona e a bebé. A primeira, nasceu há longos anos!...
Vamos conversar com ela…,…
VITO – Minha menina, qual é a sua “graça”?
GUIDA – Neste futuro e já afamado A.B.4, deram-me o nome de Guida. Mas como ainda sou uma criancinha, tratam-me por Guidinha.
VITO – Em que ano nasceste, Guidinha?
GUIDA – Em Novembro de 1962 e fui instalada com base na minha mobilidade precoce.
VITO – “Andor”, minha pombinha bailarina!...Quem foi o teu papá? 

GUIDA – Dizem as más-línguas que foi o Bem-Haja, um dos pioneiros do A.B.4. Cansou-me tanto com as andanças pelas pistas que aprendi a correr logo que vim ao Mundo.
VITO – E o teu avô?
GUIDA – O Capitão Trovão a quem chamam de Horta.
VITO – Horta? Horta de couve ou, horta do Faial?
GUIDA – Isso não está sob o meu controlo. Só controlo passarinhos…
VITO – Passarinhos!... Que passarinho primeiro te saiu na rifa?
GUIDA – Olha! Um Pê Vê. Um daqueles que mais parecia um vira latas da 2ª. Guerra Mundial ou, da Coreia!... Tinha um “berlinde” na crosta para se guiar pelas estrelas. No ar, parecia um navio de guerra!...
VITO – Sentias DO dos passarinhos?
GUIDA – Essas DO´s a quem apelidavam de 27, só apareceram em 1963. Pareciam umas “coquetes” a esvoaçarem de Destacamento em Destacamento. Por essas bandas fora, não tinham as minhas manas para falarem. Borboletas!...
VITO – Com as borboletas não se lhes juntaram uns gafanhotos, também?GUIDA – Sim, em Abril desse ano chegaram letras e algarismos… Tiveram o cognome de T-6. Grandes máquinas de guerra!...
VITO – Assististe a tudo, ou seja, viste nascer o “Verbo”!...
GUIDA – O “Verbo”!... Eu era a Torre Móvel, eu era o Radar, eu era a Casa de Campo!...
VITO – Tipo capoeira andante!... Como “verbo”, o que vias em teu redor?
GUIDA – Via, via o pessoal a trabalhar na construção deste AB. Dormiam no edifício das “Infras” e comiam na casa do Vítor Sá. Eu, circulava, circulava e via tudo. Via barracas e tendas e via a minha filha a ser construída, mas o controlo era feito em cima de mim. E, eu, caminhava, caminhava e, por isso me apelidaram de Móvel…
Marrador: No princípio era o “Verbo”, e o verbo nasceu assim!...Havia uma pista de laterite que servia a DTA e continha um estacionamento para viaturas junto da aerogare de alvenaria. Existia uma pista já aberta e em processo de asfaltagem que viria a ser a pista do A.B.4. O pessoal das infraestruturas esfolava-se a trabalhar e, os primeiros aviões a visitarem este aeródromo foram os PV-2, DO´s e T-6. Em 1963 deram-se os fogos reais já com o Com. Agrup 11. Foram os T-6 que nos treinos das guarnições ajudaram a definir rotas de aproximação. Tiraram-se no ar fotos das posições a bordo dum T-6 e, na altura dos ditos fogos, já havia a Torre fixa no A.B.4, próxima aos vizinhos dois T-6 e um PV-2 que participaram numa das sessões de fogos AA. Respeitante a esta Torre- (a filha da mãe) – deixem a conversa para o VITO.
VITO – Que linda “Majestosa” me saíste, pomposa Torre!... Tua mãe Guida foi a tua briosa.
E o teu pai, algum sanzaleiro?
MAJESTOSA – Meu pai, foi o capitão que vagueava pelo “Quimbo”!...
VITO – Nasceste ainda a tua mãezinha era uma criança, “matumbinha”!...Violação logo à nascença?!
Majestosas – Havia pressas!...Os combates estavam para ribombar. O reboliço impunha a “cobrição” da guerra!...
VITO – A Guidinha deixou o andarilho e, tu subiste até aos vinte e cinco metros. Comeste muita “fubinha”!...Majestosa estática, bela raça!...Atravessada de “Black & White”, és rija que nem uma pera. Aposto que durarás por décadas!...
MAJESTOSA – Aguentei guerras infinitas e ainda me mantenho de pé. Flexível, mas sólida e resistente ao tempo. Velhinha, e já visualizo a minha filhinha ao meu lado a dar os primeiros passos!...
VITO – Tens muitas histórias contidas nessa memória, adivinho.
MAJESTOSA – Tantas, tantas como reais e fictícias. Lendas e cruéis, bonitas e aventureiras. Mas…já as contei tantas vezes que os meus “residentes” estão fartos de as ouvirem!...
VITO – Aqueles que adormeciam no teu colo quando deveriam controlar o tráfego aéreo?! Os faroleiros do ar?!...
MAJESTOSA – Sim, esses bêbedos e sorvedores de “nocais” e “cucas”. Dorminhocos de maca e comedores de chouriça do “puto”. Por isso, é que tenho a minha sala de estar a cheirar a bafio!...
VITO – Conta, conta as tuas histórias para os velhotes recordarem como se fossem criancinhas inocentes.
MAJESTOSA – Tantas, tantas, que só te darei uns tópicos. Vitinho meu, lembras-te do teu primeiro cagaço? Tu que estás aqui armado aos cucos com as tuas perguntas…não te lembras do teu 1º. dia nesta tua Majestosa? À noitinha tiveste um pesadelo com os “turras” a assaltarem-te a gaiola. Cobardolas!... Recordas o roncar do tal avião fantasma que nos sobrevoou e abanou pela calada da noite? E os Ovnis que disseste que viste e, não viste ou, viste? Já zingavas por todos os cantos que até desceste pelo para raios num dia de trovoada. “Corrécio”, maltrapilho que até tremeste como varas verdes ao saberes que um Boeing iria aterrar no A.B.4. Meteste-te debaixo dos equipamentos a fingires que não tinhas fonia!... Só “caguefes”!...Só lias livros de “cowboyada” nas horas de ponta que nem viste o T-6 do Corredeira a sair da “auto-estrada” com uma poeirada, tipo Formula 1. Até a DO do Alex quis aterrar na tua careca fazendo escadinhas no ar. Malandreco dum raio!... Para te despedires da tua “catraia”, o teu substituto na Torre ia causando um choque aéreo. Olha, que sarilhos, meu fala-barato!... E nos dias de trovoada?! Acoitavas-te no seio das minhas entranhas cagadinho de medo, medricas!... Enfim, eu só servia de escritório para escreveres as tuas cartinhas para as meninas do “puto”, feito valentão!...
VITO – Gaita, não se pode falar contigo. Descartas tudo para cima dos “controlas”!...
MAJESTOSA – E, ainda não acabei…meu “magarefe”. Escapaste-te de levares umas porradas do capitão “gancho”. Desenroscavas as lâmpadas do tecto para dormires mais tranquilo, anh!...
VITO – Oh minha pombinha linda, estavam fundidas com o teu abanar constante. A tua carcaça só bailava ao sabor do vento!...
MAJESTOSA – Aldrabão. E os equipamentos? Baixavas-lhes o som para não te
incomodarem e, um dos mesmos ficava sintonizado no batuque dos merengues!... Eu bem ouvia o piloto Pinheiro todo aflito a chamar por ti lá para os lados de Gago Coutinho. Coitado, amedrontado com toneladas de nuvens a mijarem-lhe em cima e com um fogo-de-santelmo a lamberem-lhe as asas do “teco-teco”, e tu a ríres-te despregadamente.
VITO – “Atão”, chamei Luanda!...
MAJESTOSA – Chamaste Luanda ou, a Rosa? Seu capador de flautas!...Ligrinhas.
VITO – Hoje acordaste com dores na garganta. Estás a ficar rouca de tanta asneirada.
MAJESTOSA – Se não dormi foi porque te deu para apanhares borboletas às tantas da madrugada. Sempre com o holofote ligado para as cegares e, eu, às moscas!...Depois, como pisaste as formigas cadáveres trouxeste para o meu soalho aquele cheiro a podre. A tua rendição só comentava: “Porra, esta Torre anda podre”!...Pois, eu é que me tinha cagado, claro!...
VITO – Bem, havia pior do que eu, certamente!
MAJESTOSA – Havia, havia aquele que só se embebedou uma única vez, mas que durou dois anos. Era ele e o Cossa da Meteorologia. Descia pela varão do para raios feito bombeiro. Depois, pensando que tinha lá em baixo, encostado às minhas pernas o cavalo, montava na “kinga” e começava a relinchar seguindo para o Bar dos “sorjas”.
VITO – “Cum caraças”. És cá uma “cusca” maldosa! Vê lá se não transmites esse veneno todo à tua filha Deolinda. Pela tua barriga, estás prestes a desovar!...
MAJESTOSA – Teria muito para contar… Ainda me lembro de quando estavas a vazar as tuas águas lá do topo da minha garupa. O Comandante seguia no seu Volkswagen preto, e teve que ligar o limpa vidros, interrogando-se donde é que se situavam as nuvens num dia a descoberto. Faziam da Majestosa uma discoteca a céu aberto. Tudo vosso!...
Marrador – Meus caros leitores, não se excitem com a conversa desta venenosa pois, nem tudo foi verdade…Só as questões piores! Agora, passamos à terceira Torre – a filha da Majestosa, neta da Guida.
Vive junto à sua mãezinha na presente data.
VITO – Deolinda, minha pequenina. Nasceste há pouco tempo, mas já és tão grande!...
LINDA – Quem és tu, meu “matumbo”?
VITO – Sou o “controla” dos brancos. Tua mãe não te falou de mim?
LINDA – Olha-me este “xacala”, o “samuto” do “puto”!...Ainda és vivo, pacaça?
VITO – Cangalho velho é a tua mãe e ainda não caiu!
LINDA – Pensas que ainda tens “gungungo”, sua próstata entupida? Já olhaste para a tua sombra?
VITO – Olha, olha, eu que pensava que a Majestosa ensinava a filha a ter boas maneiras!...Camafeu danada! Estás armada em senhora dos ares a controlares os gafanhotos “dos brazuca”?
LINDA – Já vi que ainda andas “malufado”. “Tweia kuno”. Sobe o elevador e saúda-me com um “Moyo weno”, à maneira quiouca.
VITO – Assim já gosto do teu falar, minha “tchenge”. Aprecio deveras as “tusulas” deste Condado. Ehhh pá, ehhhh pá!... Vestiste o teu “quitengue” domingueiro? “kukuata” a minha ofensa de há momentos!...
LINDA – Os “lungas” de outrora pertencem ao passado. A guerra terminou e, os tempos são outros, agora.
VITO – “Kusakwila”. Acabemos com os “kukongas” de mal dizer.
LINDA – Vês a minha “koi-koi” junto de mim? Aquela que te serviu de poleiro? Sempre reguila, mas boa mãe!
VITO – Ensinou-te as boas maneiras? Sofredora de tantas guerras!... E tu, jovem e encantadora Torre, como te tens dado nestes tempos de Paz?
LINDA – “Sepa liami”, os tempos são outros. Estamos no bom caminho. Já se construíram novas instalações neste velho aeródromo e, por aqui se transacionam as “kamanguitas”!... A par das novas modernices, caem as velhas e históricas construções.
VITO – Pois, o hangar já se avista sem telhas, a tua mãe já torta e cega. As Messes…ao Deus dará, e os morais do Clube dos Especialistas?
LINDA – “Zungo”, não digas nada. Vão servir como painéis nos corredores do novo aeroporto!...Relíquias do passado, pinturas de celebridades!...
VITO – Hummm!... “picada” asfaltada até à capital, “pó pós” à maneira. “Matumbos”… mais cultos!...
LINDA – Tudo vai rolando. Muitos “canhicas” falam do pai branco com certa nostalgia!... Escrevam umas cartitas e organizem uma excursão para verem a cidade de Saurimo, cada um por si. Eu, com a minha mãe “A Majestosa”, daremos as boas vindas aos “Especiais” do A.B.4. Faremos uma grande festa com “malufo”, “catchipembe”, “maconha” no “mutopa”. “Pwos” à fartazana, “gomas tchinguvos” a batucar, maningue de “tusulas” “nu cafena”, e “funge” para comer!...
Nos finais… a celebérrima “IACAMOKA” para reatar as pazes eternas entre os guerreiros de ambas as partes. Fiquem-se com os versos dum piloto que se inspirou lá para as serras de Montesinho!...

“MOYO UÉ, TWEIA KUNO”, com “GUNGUNGO”!...


VOZES AMIGAS

Ouço as vozes tão perto e tão distantes,
Que me chegam repletas de amizade,
A despertar em mim uma saudade
Cujo pungir eu não sentia antes.

Batem os corações mais anelantes,
Que aliviam minha alma em ansiedade,
E suavizam a dura soledade,
Em noites preguiçosas, fatigantes.

E pra além da distância no espaço
Acompanha-me sempre o vosso abraço
Refeito de calor e simpatia.

Ó amigos que amo e compreendo!
Também eu, tantas vezes, vos relembro
Em horas de tristeza e alegria.
  
Língua Quioca
Matumbo – inculto                                                                                                                               
Fuba – farinha de mandioca
Xacala – grande chefe
Samuto – homem
Gungungo – com força, cheio de energia
Malufado – embriagado
Tweia kuno – vem cá, chega aqui
Moyo weno – saudação respeitosa
Tchenge – mulher bonita
Tusula – rapariga
Quitengue – pano colorido
Kukuata – desculpa
Lunga – homem
Kusakwila – obrigado
Kukonga – disparate, ditotes
Koi-koi – velha
Sepa liami – meu amigo
Kamanga – diamante
Zungo – cala-te
Canhica – criança
Catchipembe – aguardente
Maconha – liamba, tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Pwo – mulher
Goma tchinguvo – tambor
Nu cafena – dançar
Funge – farinha cozida
Iakamoka – grito de guerra
Kinga - bicicleta
Recolha histórica:
Manuel Flórido Bem-Haja e Mário Arteiro
Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue
Versos:
Pil. Júlio Corredeira

Até Breve
O Amigo