quinta-feira, 29 de julho de 2021

EVACUAÇÃO, LUGAR PARA MAIS UM !


Esta é mais do nosso dia a dia em Gago Coutinho.
Seria pelo ano de 1973 mas também não é muito importante, era mais uma das muitas evacuações para um qualquer aquartelamento do Exército naquele fim de mundo.
Sabíamos que era grave visto sair DO e Heli.
Chegados ao destino o Heli segue para a zona do ataque e nós ficamos a aguardar, sabíamos que havia no mínimo 7 feridos graves.
Enquanto esperávamos e como era meio dia fomos á cozinha a ver se nos davam algo para comer, lembro-me, que ia um pandemónio por todo o lado só se via pessoal a chorar era tudo pessoal novo (maçarico) com um mês de Leste e por isso foram ao mato carregar material para compor o aquartelamento. Só que eles, sem experiência, foram lá quase desarmados e já se está a ver no que resultou. Chegados á cozinha eu e o piloto, não digo quem é pois ele não gosta de ser nomeado, há coisas que não se esquecem o "tacho" era jardineira, o cozinheiro até nos disse, não sei como conseguem comer com esta desgraça, nós nem respondemos, para quê era o nosso dia a dia, vamos comer que daqui ao Luso vamos chegar tarde.
Entretanto chega o Heli com os primeiros feridos, só visto, o enfermeiro em choque, nós a ajudar a fazer os curativos com lençóis rasgados, enfim fizemos o que pudemos e toca a meter a primeira maca, segue-se a segunda, pendurada com cordas nas longarinas, há que improvisar, a segunda maca pronta se arreia o de baixo não se safa! Estava a fechar a porta e olho para o terceiro, ele não dizia nada mas os olhos diziam tudo, levem-me, eu olhei para o piloto que adivinhou o que ia dizer, e diz-me: tás maluco onde queres meter o gajo?! Eu só disse: descola com os três!

Ele mediu a pista com os olhos e diz: ou descolamos ou fodemo-nos os cinco! Digo para o 3º. ferido: oh pá tens que ir sentado no bordo da janela até ao Luso. Coitado, ele queria era sair dali, e eu ainda lhe disse não mexas em nada, se destrancas a porta vais parar lá em baixo.
Avião pronto a descolar aproveitamento da pista ao máximo e fomos para o ar, foi uma viagem horrível, pelo estado dos feridos a quem pouco ou nada podíamos ajudar senão procurar chegar ao Luso o mais rápidamente possível.


Mas chegados ao Luso, entregues os feridos aos cuidados do pessoal médico findou o nosso dia, arriscamos contra todas as regras de segurança, mas "sacamos" mais um ou pelo menos fizemos o possível, arriscámos e ganhámos.
Enfim era o nosso trabalho, só espero que esses camaradas se tenham safado.

Por: Fausto Tomaz - MMA DO e T6


quinta-feira, 22 de julho de 2021

MEMÓRIAS DE ANGOLA - 1973 O ANO EM QUE FUI AO ESTRANGEIRO SEM PASSAPORTE

BA9 - Luanda


Como furriel miliciano MAEQ, com uma sub especialidade em Fotografia Aérea, primeiro curso de sempre na FAP, estava baseado no Comando da Região Aérea 2, Luanda.
O meu trabalho incluía operar a máquina fotográfica WILDE que se montava na barriga do PV2, adaptado para isto. A máquina usava um filme de grandes dimensões, fazendo fotogramas de 23 cm x 23cm. De série, os PV2 transportavam bombas neste compartimento, chamado de “bomb bay”. Eram bombas de 50 kg em série que, como cabo especialista no Luso tantas vezes tinha carregado.
Certo dia, o capitão pilav. que comandava a secção de fotografia aérea, de cujo nome infelizmente já não recordo, informou-nos que iríamos fazer uma missão especial de fotografia, mas que incluía um certo secretismo, vital para o sucesso da operação.
PV2 com pintura anti-radiação

Foi preparado o PV2 com uma tinta antimíssil pois haveria o risco de sermos alvejados. Na véspera da missão fui informado que iríamos fazer duas passagens sobre uma cidade no Congo, Ponta Negra. A primeira passagem seria para alinhar a câmara sobre a área alvo e a segunda para tirar as fotos. Uma vez atravessada a fronteira, qualquer intercomunicação entre mim, o cabo especialista Goulão o Comandante, e o Navegador deveria ser feita em francês! Isto prometia...
Pela madrugada, fomos recolhidos das nossas residências pelo motorista da carrinha de transporte e, como tantas das outras vezes, levados à BA9, ao lado do aeroporto de Luanda.
Em vez de branco e prateado, a nossa aeronave tinha agora uma cor cinzento esverdeada, baça. Então esta era a tal tinta especial que nos iria proteger dos possíveis mísseis do Congo Brazzaville! Boa sorte, pensamos nós.
Os pilotos, o nosso capitão e um navegador, dirigiram-se para a sala de operações para prepararem o plano de voo e alguns minutos depois lá entramos para o aparelho. Não levávamos connosco qualquer identificação. Tão cedo e já se apercebia mais um dia quente.
AM95 - Cabinda


A nossa viagem prosseguiu em direcção a Cabinda, AM 95, que seria o nosso destino para esse dia. Como sempre, nunca me cansava de olhar para a paisagem lá em baixo, ora savana, ora arvoredo denso, recortada pelo serpenteado dos rios, brilhando como espelhos sob o sol escaldante. A contrastar com o calor lá em baixo, fazia fresco dentro, e como era hábito, trouxera agasalho suficiente. Enquanto piloto e navegador se ocupavam com o seu trabalho, tanto eu como o Goulão passávamos pelas brasas ou olhávamos lá para baixo, vendo o terreno lentamente a passar. Como se sabe, o ruído no interior não permitia qualquer conversa extensa, limitando-nos a berrar se precisássemos de o fazer. O intercomunicador estava ligado ao comandante e co-piloto.
Ao fim de umas horas, vislumbramos sinais de uma povoação e um rio, e soubemos que tínhamos chegado a Cabinda.
Tinha chovido e havia no ar um cheiro refrescante e húmido.
Depois de tudo arranjado, incluído refeição e alojamento, um passeio pela cidade, umas cervejas no bar e cama. Amanhã seria o dia...
Partimos cedo, depois de um pequeno-almoço reconfortante e, alguns minutos depois da descolagem, vejo pela escotilha um avião da FAP, um B26 a voar em paralelo, não muito distante. O comandante informou-nos que era o capitão Canto e Castro que ira escoltar-nos até à fronteira. A partir dali, estávamos por nossa conta!
B26


Quando chegámos ao ponto combinado, o B26 abanou as asas umas quantas vezes como que em despedida e a desejar-nos boa sorte, e lá atravessámos o rio para terras desconhecidas e proibidas. No momento da travessia, todas as comunicações foram cortadas e a nossa missão seria de comunicar prontamente se víssemos algum ponto luminoso a deslocar-se para nós. O comandante teria poucos segundos para fazer uma manobra de diversão e sair da trajectória de algum míssil. Isto se o míssil não fosse daqueles tão sofisticados que seguem o seu alvo, mesmo com desvios. Sendo realista, que hipóteses poderíamos ter de fugir a um projéctil num avião tão pesado e quase obsoleto, dos tempos da segunda guerra mundial? Nossa Senhora...
Na realidade, chegamos à cidade, o nosso alvo, pouco tempo depois. Como planeado, o piloto apontou à trajectória, seguindo uma artéria principal da cidade e, depois de passarmos os limites da cidade, fizemos uma manobra de 180 graus, ligamos a câmara e toca a disparar. Agora era a nossa única “chance”.
Tirando fotos com a Wilde,
a bordo do PV2

Enquanto um olhava para o visor da câmara e informava o comandante para fazer as devidas correcções de deriva com, “gauche”, “droite” o outro mantinha os olhos bem abertos para os potenciais mísseis. Mísseis esses que nunca chegaram, felizmente. Ainda não muito descansados, e com a adrenalina no máximo, atravessámos novamente o rio, que marcava a fronteira, e fizemo-nos directamente a Luanda. Os espíritos estavam altos e todos nos congratulámos com o bom sucesso da missão. Missão cumprida!


Por: Álvaro Santos Sá 



quinta-feira, 15 de julho de 2021

ENFERMEIRAS PARAQUEDISTAS, UM QUADRO QUE SE EXTINGUIU

BA3 Tancos - 1961 - Do 1º. curso de enfermeiras, Céu Vidigal, Ivone Reis, Lurdes Rodrigues, Zulmira André, Arminda Pereira e o director do curso capitão Fausto Marques.


Foram 47 as enfermeiras para-quedistas que passaram e prestaram serviço no quadro que foi da Força Aérea.
A todas, para que não sejam esquecidas a minha simples e singela homenagem.
De referir apenas que algumas enfermeiras se inspiraram naquela que foi a piloto e para-quedista Isabel Rhilvas.
Refiro ainda que o primeiro curso foi apelidado de "seis Marias". (Vitor Sotero Cavaleiro)
.............
Quando a enfermeira Rosa Serra escreveu um livro sobre as enfermeiras paraquedistas, e a seu pedido, enviei-lhe um testemunho, passado com a Enfermeira Gisela, que não chegou a ser publicado, por opção da editora, e que passo a reproduzir:
Queridas companheiras de tempos de dor mas também de alegrias, relato dois episódios que me marcaram muito e que foram vividos com a presença de uma de vós.
A primeira foi quando da minha primeira saída para uma evacuação.
Aterrámos, saltei com a maca na mão e de imediato me colocaram nela um homem com o ventre todo aberto e a esvair-se em sangue. Colocado no heli a enfermeira começa de imediato a procurar-lhe veias e a injectá-lo, tentando aliviar-lhe as dores e mantê-lo vivo até ao Hospital. Eu via tudo aquilo desenrolar-se perante os meus olhos incrédulos para tanto horror e estupefacção perante a calma, aparentemente serena, com que ela acertava nas veias, apesar da vibração do heli e das convulsões que o ferido exibia.
A determinado momento, o ferido com um rosto que nunca esquecerei, pálido, olhos semicerrados e revirados para cima, aperta na mão uma medalha, que trazia pendurada num fio ao pescoço, com uma foto esmaltada de uma mulher e uma criança, e beija-a dizendo: “ adeus minhas queridas que nunca mais vos vejo”.
Impotente perante a situação curvo-me e toco-lhe no peito dizendo-lhe: “não digas isso que estamos mesmo a chegar ao hospital”. Ele põe a medalha na boca, morde-a e, com as duas mãos agarra-me no pulso, revira os olhos e tomba a cabeça para o lado.
Os últimos minutos, até aterrar no hospital, foram feitos com aquelas mãos fortemente cerradas no meu pulso, eu chorando compulsivamente, e a enfermeira dando conta que todo o seu esforço e luta para roubar aquele homem das garras da morte tinham sido em vão.
Apesar do desfecho infeliz, que certamente a não deixou dormir tranquila naquela noite, tal como a mim, nos dias seguintes lá estava ela a lutar novamente, com toda a sua determinação, para que uma vida fosse salva e fizesse valer a pena todo o esforço e determinação empreendidos.


A segunda foi numa operação com comandos africanos em Teixeira Pinto.
Transportámos as tropas até uma área determinada no mato e regressámos ao aquartelamento aguardando ordens para mais tarde, após o seu confronto com o inimigo, recolher os elementos transportados.
Estávamos a meio da operação quando recebemos ordens para levantar voo e evacuar um nosso elemento que estaria ferido.
Dirigimo-nos ao local e ao aterrar, quando me preparo para saltar com a maca, vejo um comando africano, alto e esguio no seu camuflado, dirigir-se, pelo seu próprio pé, ao heli, com a sua arma numa mão e um saco de pano na outra, e com aspecto de estar em transe hipnótico.
Abro a porta do heli e desço para o terreno para lhe abrir a porta lateral traseira, mas ele entra e senta-se no meu lugar, com um ar muito hipnótico e a transpirar desalmadamente, e coloca o saco de pano, tipo daqueles de ir ao pão, com atilho na boca do saco, entre a cadeira onde se sentou e a da enfermeira.
Eu, privado do meu assento, entro para a parte de trás e sento-me nos bancos traseiros, frente à enfermeira.
Durante o voo, ela começa a fazer-me sinal que sente um cheiro forte vindo saco e interroga-me, por gestos, se sei o que será. Faço-lhe sinal que não, e ela olha para o comando que continua em estado de transe com o olhar muito distante, mas sem qualquer ferimento aparente.
Passam-se uns minutos e novamente a enfermeira me faz sinal do mau cheiro que vem do saco, e tenta com dois dedos alargar o atilho do saco, sem que o comando se aperceba. Após insistir mais um pouco logra alargar suficientemente a boca do saco e dissimuladamente curva a cabeça para espreitar o seu interior.
Subitamente ouço um grito abafado da parte dela e vejo o seu ar aterrorizado, o que me faz olhar rapidamente para o saco.
A cena é macabra, dentro do saco está a cabeça do inimigo que o comando tinha morto e que, devido à sua religião, a tinha degolado para que o espírito desse homem não o perseguisse no futuro (ouvi essa explicação já após o entregarmos na enfermaria com febres altíssimas).
Foi um susto que nos apanhou de surpresa e que não esqueci tão cedo. Para a enfermeira não deve ter sido fácil deparar-se com aquela cena, ainda mais que tinha os dedos a milímetros da cabeça decepada.


Espero que estes dois episódios sirvam para que melhor se compreenda o valor e a coragem das mulheres que tanto fizeram para minimizar o sofrimento de quem na guerra lutou.
Com a minha sincera e estimada consideração


Por: Nuno Almeida “poeta”
1º cabo MMA – Guiné Jan/Nov 1972


quinta-feira, 8 de julho de 2021

DOIS SUSTOS SEGUIDOS !



Cangamba, fez-me lembrar um dia que saímos de Gago Coutinho com dois T 6 para dar apoio à tropa em Cangamba, a tripulação era composta pelos pilotos Lima e Pinheiro, infelizmente já falecidos, e eu MMA.
Era manhã, tudo a correr bem, chegados á vertical de Cangamba depois da volta da praxe o Lima e eu entramos na final para aterrar enquanto o Pinheiro se mantém afastado.
De repente ouvimos o Pinheiro aos berros pelo rádio, ó Lima olha o trem! Mas ele concentrado na aterragem não ouvia ninguém. A minha aflição quando me apercebi que íamos aterrar de papo, tarde de mais e foi a papada.
Não sei se algum de vós passou por isto, saímos da pista e paramos numa lavra de milho que havia perto da pista, a urgência era fugir, assim, dar ás pernas, tendo em conta que o avião ia abastecido, e o maior terror erram os dois ninhos de roquetes que iam debaixo das asas.
Depois, só me lembro de me irem buscar ao fim da pista, corri tanto com o paraquedas às costas, nem me lembrei de  o tirar, o que resultou ficar com a barriga das pernas pisadas. Contaram-me depois, que o Lima sabendo que levava o mecânico tinha andado à minha procura, foi quando me encontraram no fim da pista.
A estória podia ter acabado aqui, mas ao outro dia chega nova parelha de T6 com o Capitão Acabado, eu já escaldado, meti-me logo no T6 do Cap. Acabado, e não é que a dez minutos de Sessa o desgraçado do T6 começa a "tossir"?! Porra, safo-me duma e já estou noutra!
Diz o Capitão Acabado, temos Sessa á vista, e eu digo-lhe: a pista é curta.
Bom, Gago Coutinho era já ali, vamos tentar chegar lá.


Pouco a pouco com o saber, experiência e habilidade, ou com a ajuda de mais qualquer coisa, graças a este grande homem chegamos a Gago Coutinho com o motor a dar as últimas.
Na pista estava todo o pessoal á nossa espera. O Sousa com uma garrafa de vinho do Porto que foi escoada de imediato, a aventura correu bem, mas no outro dia já estávamos a voar para outro sítio qualquer, a aventura de ontem estava esquecida.

Por:



quinta-feira, 1 de julho de 2021

O MORTEIRO


Mais um início de tarde escaldante de Verão, na praça principal da Vila nada bolia, era a hora habitual em que a população se resguardava do sol ou dormia uma sesta retemperadora. Na esplanada do Café Central, para além das mesas e cadeiras, o mestre Henriques como era seu hábito, dormitava num equilíbrio instável, abandonado dentro de um gibão preto de grosso surrobeco, só perturbado por algumas escassas moscas que teimavam em disputar o único ser vivo que resistia ao calor da tarde, toda a gente fugira para as sombras acolhedoras do Café Central e da Barbearia do "Xixóia", já me tentara infiltrar em ambos os locais mas tinha sido rapidamente enxotado para não incomodar os raros e destemidos fregueses que naquela hora tinham ousado fazer-se à canícula para sair de casa.
Como nunca fora capaz de dormir a sesta, arrastava-me preguiçosamente pelos bancos junto à praça dos táxis, tentando matar o tempo com alguma coisa de interesse que me ajudasse a aguentar, até que o resto da canalha, viesse novamente para a rua e pudéssemos gozar mais uma tarde de magníficas férias grandes.
Dirigi-me mais uma vez até ao chafariz com o intuito de molhar a cara e matar a sede, quando terminei, reparei curioso que um pardal com uma enorme palha de trigo atravessada no bico teimava em atirar-se contra a sirene do quartel dos bombeiros do outro lado do largo, aquilo era no mínimo muito estranho, desloquei-me rapidamente para fugir ao sol inclemente e aproximei-me da entrada do quartel situado entre o Café Central e a Papelaria Havanesa, passei o largo portão e procurei o melhor ângulo que me permitisse ver tão insólito acontecimento sem que o Sol me encandeasse, aquilo que mais me chamou a atenção foi verificar que a sirene tinha as lâminas semicerradas, mas de alguns dos espaços saíam pedaços de palha de trigo semelhantes à que o pardal transportava, após ter dado voltas ao corpo da sirene com a palha no bico esvoaçando para cima e para baixo, percebeu que não conseguia entrar, abandonou a palha e desapareceu, levando com ele o único motivo de interesse que me trouxera até ali, olhei em volta desanimado reparando no único ser vivo em movimento, o mestre Henriques desistira de brigar com as moscas e dirigia-se amparado na grossa bengala de vime, vagarosamente, para a barbearia do Xixóia, o que me levou de novo ao chafariz para beber mais uns golos de água.
Tudo parecia voltar ao normal, quando subitamente um homem irrompeu pela praça vindo dos lados do campo montado numa bicicleta e gritando a plenos pulmões:  há fogo! há fogo! Acudam que há fogo! saltando da bicicleta em andamento e entrando no quartel a correr, enquanto a bicicleta se estatelava no chão... nem acabei de beber, já tinha a tarde garantida, corri para ver tudo desde o tocar da sirene, a chegada dos bombeiros e a saída dos carros, o 2º Comandante Bogalho não estava presente, mas a esposa Dona Conceição, que vivia com ele no quartel, dirigiu-se rapidamente para o quadro de Comando, enquanto ouvia a descrição atabalhoada do local e do tipo de fogo para poder dar com o toque da sirene a informação aos bombeiros, todos eles voluntários, que viriam já com a certeza do que tinham de enfrentar (fogo na vila ou fora, acidente na vila ou fora, afogamento na Alverca, no Tejo ou fora).
Quando ela accionou a alavanca da sirene corri para fora para ver o arranque e o início do silvo, mas nada aconteceu, voltei para dentro expectante enquanto ela com ar de espanto accionava desesperadamente o manípulo para cima e para baixo e nada acontecia, pelas luzes do quadro era possível verificar que havia electricidade, mas a sirene não arrancava, virando-se para mim gritou, tu que corres mais depressa, vai chamar o Comandante que deve de estar no café Central, para que ele venha cá para resolver a situação... Corri com quantas forças tinha e entrei no café atirando com as cortinas metálicas que impediam as moscas e os pobres de entrar, provocando o olhar reprovador dos clientes presentes e gritei: a sirene não trabalha, dirigindo-me ao Comandante, a dona Conceição mandou-me chamá-lo... 
Ele levantou-se com ar de enfado e virando-se para o empregado de balcão ainda confirmou, ó António! há corrente? Depois da resposta afirmativa deste, dirigiu-se comigo e mais uns quantos atrás para o quartel, a dona Conceição já tinha telefonado ao marido, que estava de serviço no matadouro municipal e este já lhe dissera para ela arranjar alguém que fosse tocar o sino a rebate enquanto a sirene não arrancasse, foi isto mesmo que ela transmitiu ao Comandante mal este chegou ao quartel, depois de também ele tentar dar o arranque da sirene sem que nada acontecesse, mandou alguns dos presentes tocar o sino a rebate, pois era uma das formas de convocar os bombeiros; entretanto o Comandante e os presentes começaram a abrir os portões para a saída das viaturas e a pôr em marcha os motores para que estas arrancassem assim que conseguissem chamar os bombeiros, o primeiro carro a sair seria o enorme camião Ford aberto, de transporte de pessoal e quando este já estava cá fora, chegaram os que tinham ido tocar o sino, dizendo que a igreja estava fechada e que não conseguiam tocar o sino... O comandante virou-se para a dona Conceição e perguntou-lhe se já tinham entregue os morteiros especiais que mandara fazer para a festa de angariação de fundos para comprar material?
Ela benzeu-se e disse-lhe; estão lá dentro! Ele virando-se para um dos presentes disse-lhe: ó Joaquim pega aí nessa escada e encosta-a ali ao muro da parte de dentro que eu já lá vou ter, dirigindo-se para o interior do edifício de onde voltou com um morteiro enorme, com uma cana com mais de dois metros e perto de um quilo de pólvora preta, dirigindo-se aos presentes sentenciou; agora é que vocês vão ver como acordo a vila toda e ponho aqui a corporação num instante; quero toda a gente fora daqui que isto não é nenhuma brincadeira, um bicho destes até arranca um braço a um homem... Eu fugira esbaforido como toda a gente para o outro lado da rua e refugiara-me atrás do tronco mais grosso de um dos plátanos que davam sombra à praça e á esplanada do café.
O Comandante, trepara pela escada, subira ao muro e num gesto teatral, olhou a meia dúzia de basbaques enquanto encostava a cigarrilha, que entretanto acendera, no cu do rastilho do morteiro, gozando com as caras de espanto dos presentes, mais ridículas ainda quando vistas do cimo do muro de onde as contemplava sobranceiramente, as faúlhas começaram a sair do cano do rastilho e o barulho começou a ser cada vez mais assustador, o Comandante já não tinha a cara sobranceira que apresentava quando iniciara o lançamento e parecia que os segundos decorridos se iriam eternizar, mas por mais que ele levantasse e baixasse o foguete como para o incentivar a subir, ele continuava perigosamente sem lhe sair da mão, os presentes começaram a gritar-lhe que o largasse, enquanto o seu rosto se transformara numa máscara de medo, toda a gente já se barricara em tudo o que podia dar alguma protecção e não restou ao assustado Comandante outra solução que a de largar a cana do monstro e olhar horrorizado enquanto ela batia no chão na vertical e o peso descentrado da pólvora obrigava a cana a cair na direcção da rua D. Afonso Henriques, o Comandante na precipitação da fuga desequilibrara-se e caíra de costas para o interior do Quartel, eis senão quando, o morteiro finalmente arrancou, fulminante, qual míssil rasando o chão em direcção á porta poente da barbearia... na cadeira mais distante desta o mestre Henriques, ressonava após lhe terem feito a barba, na outra junto à porta por onde entrara o morteiro, o mestre barbeiro fazia a barba a um outro cliente quando o foguete lhe passou junto ás pernas atravessando a barbearia indo enfiar-se na dispensa onde se guardavam os utensílios usados no ofício, o pó da espuma de barba, os rolos de papel para limpar as navalhas, as toalhas, os perfumes, e os artigos de limpeza...
Aos gritos de fujam, fujam, dos presentes fora da barbearia, todos, mestre barbeiro e clientes fugiram pelas três portas abertas do estabelecimento, todos menos o mestre Henriques, que dormia e lá ficou, com o foguete a incendiar tudo com as faúlhas e na iminência de explodir, do meu local de observação, via parte das pernas, o gibão e uma manga caída de onde saía uma mão e pouco mais, e o pior aconteceu, um estrondo descomunal que estremeceu tudo e todos, estilhaçando os espelhos e vidros das portas, arrancando-as, enquanto uma nuvem de pó branco encobria todo o edifício e parte do largo. Passados segundos de pânico, toda a gente correu para a barbearia esperando o pior, quando do meio da nuvem surgiu um fantasma todo branco cambaleando, aos gritos de: ai que me mataram... ai que me mataram... toda a gente recuou de pavor e estupefacção, no êxtase da situação, gritei em pânico: fujam que é o fantasma do mestre Henriques, arrancando uma gargalhada geral aos presentes... O fogo entretanto já assumira contornos de tomar conta do estabelecimento, quando o Comandante, que entretanto se recompusera gritou para os presentes, vão buscar uma mangueira para apagarmos o fogo!
O bom do mestre Henriques fora arrastado para a esplanada, enquanto um dos empregados do café trazia numa bacia com água um toalha molhada para ele tirar os quilos de pó de barba da cara e mãos, mas era necessário ir com ele ao hospital, pois estava cheio de escoriações provocadas pelos estilhaços da explosão, para além de estar aflito dos tímpanos, e isso só era possível de verificar por algum médico ou enfermeiro. Entretanto começavam a chegar os primeiros bombeiros enquanto se apagava o fogo da barbearia, mas era preciso ir apagar o fogo no campo que originara toda aquela confusão, e por cada um que chegava tínhamos que lhe gritar que o fogo não era aquele, mas sim outro e eles lá iam equipar-se sem perceberem nada do que se passava ali...
Com o lançamento da água, todo o pó de barba derramado ia-se tornando numa onda de espuma que transbordava do interior pelas três portas, formando uma camada escorregadia que já dava pelos joelhos dos que mais perto combatiam o fogo do interior, e a cada novo voluntário que de bicicleta ou a pé correndo se aproximavam do quartel, era necessário gritar-lhes que travassem as bicicletas e o passo, pois ao menor descuido a queda era certa...
Depois de haver o número mínimo de voluntários necessário ao combate dos dois fogos as viaturas lá foram saindo, mas nunca como naquela tarde eu tivera tanto para contar aos meus preguiçosos companheiros de brincadeira...
E afinal porque é que a sirene não tocara? O pardal que eu vira com a palha no bico e a companheira, resolveram fazer o ninho dentro da sirene, mas um golpe de vento, ou o acumular das palhas no interior fizeram cerrar as lamelas bloqueando a entrada e a saída, o desespero do macho era por a fêmea do casal, estar lá dentro provocando a sua morte e a avaria da sirene.
Dias mais tarde, quando fizeram finalmente a festa para angariação de fundos, para compra de material e reconstrução da barbearia, ouve concerto pela banda, música e bailarico, mas foguetes é que não, que para o susto já bastara o que acontecera, mas festa que não metesse “morteiros” não era festa...        

JFMA (ACO)     
Golegã, 15 de Agosto de 1957

sexta-feira, 25 de junho de 2021

A GUERRA - ÓDIO E VINGANÇA


A guerra deixa marcas e traumas para toda a vida.
Hoje ela continua a entrar-nos casa a dentro via TV, mostrando imagens de violência, destruição e morte, recordando-nos tempos passados na juventude tão longe do Mundo em que vivíamos e de onde tantos não mais regressaram.
Ao longo de cinquenta anos pouco ou nada falei e muito menos escrevi sobre testemunhos de alguma intolerância e crueldade, há sempre o receio de melindrar irmãos e camaradas de armas que lado a lado cumprimos o nosso dever perante a Pátria, num conflito que hoje a esta distância nem todos encaramos do mesmo ponto de vista, e fazemos igual balanço, isto com o direito e liberdade de opinião que legalmente nos assiste.
Como soldado ao serviço da Pátria assumo a minha cota parte nessa guerra tanto pessoal como coletivamente, mas há actos desumanos que não cometi nem me sinto responsável e que continuam a pesar-me na consciência.
Não pretendo aqui fazer alguma condenação em particular, pois sabemos que atrocidades foram cometidas pelos dois lados, mas sim repudiar a guerra em si que leva a actos desumanos e tresloucados que posteriormente em tempo de paz faz sentir remorsos a quem os cometeu já sem a possibilidade de ementa e reverter o mal.


No resgate e evacuação dos nossos irmãos do inferno das zonas de combate, feridos, estropiados, tudo fazíamos para os ajudar, muitas vezes sob a angústia e o sentimento de impotência para lhes aliviar o sofrimento, mas jamais senti desejo de vingança ao evacuarmos também prisioneiros feridos precisando de socorro, era uma missão fundamentalmente humanitária desprovida de rancor e ressentimento.
Há momentos e imagens de crueldade que teimam em permanecer na minha memória e não consigo apagar, um pesadelo se repete entre tantos com toda a sua carga arrepiante e de repulsa.
--‐-‐‐-‐------------
Algures em Muéda na placa do AM 51, concentração de grupo de tropas de combate após Heli assalto com limpeza do local e imediata recolha no final da operação.
Não fizeram prisioneiros !
Na sua posse os troféus de guerra, armas e alguns artefactos, instrumentos de caça, uma velha lata de petróleo transformada em viola, galinhas degoladas.
Mas eis que o impensável acontece;
uma mão tira algo do bolso do camuflado, na palma dessa mão duas pequenas orelhitas cor de chocolate tingidas de sangue devido ao corte da cabeça a que pertenciam e por certo de uma criança.
Isto sob o sorriso triunfante de quem exibia como seu troféu esta crueldade e barbárie perante o espanto e horror dos presentes.
Uma câmara de repórter regista a imagem, de imediato chega um superior dando uma reprimenda ao responsável deste acto bárbaro mandando-o apresentar-se de imediato no seu gabinete operacional.
Que sentimento de revolta e agonia perante este quadro atroz, não pode valer tudo na guerra, tem que haver uma réstia de humanismo e compaixão.
Na guerra é facilmente ultrapassada a fronteira entre a tolerância e a crueldade, o ódio povoa sempre os campos de batalha, um sentimento que por vezes leva a atrocidades de ambos os contendedores.
Que me perdoem os camaradas que possam pensar, que ao reavivar feridas pretendo condenar ou cruxificar alguém que arriscou a sua vida no cumprimento do dever como soldado ao serviço da Pátria.
Não! Mas há actos irrefletidos e inqualificáveis que não podem ser branqueados, sob pena de nos tornarmos uns monstros.
Nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida a um seu semelhante, mas na guerra e nas zonas de combate havia que matar para não morrer.
No entanto, com um pouco de humanismo no meio de tanta adversidade e rancor também podem acontecer actos de amor e compaixão, e eles existiram no campo de batalha e foram muitos.
A guerra é feia dura e cruel, apenas nos filmes se reveste com alguns contornos de romantismo.
Não há bons e maus combatentes, há apenas aqueles capazes de perante os limites intoleráveis procurarem ser humanos para cumprirem a sua missão.
---------------‐-------
Alguém que muito prezo escreveu :
"HÁ DÉCADAS QUE DEIXEI DE CULTIVAR O ÓDIO, PORQUE APRENDI COM UMA DURA LIÇÃO QUE A VIDA ME IMPÔS; O ÓDIO ACABA ESTUPIDIFICANDO"
Eu também aprendi !
Não sinto ódio por ninguém, e tenho relutância em pronunciar a palavra inimigo.
O QUE TODOS PRECISAMOS É AMOR !
Francisco Serrano -Mecânico de Helicópteros
Moçambique 71/72



quinta-feira, 17 de junho de 2021

VOO NOCTURNO

Cazombo - foto de Gonçalo Carvalho


Pois é o voo noturno era proibido, mas às vezes acontecia.
Um dia, no Cazombo, estava eu de alerta no nosso gabinete da linha, todos na cavaqueira, quando ao final da tarde toca aquela campainha que dava o sinal de aviso para DO ou Héli.
Era estranho àquela hora, mas ordens são ordens, rápidamente o DO fica pronto, chega o piloto neste caso o Patrício, diz ele: vamos embora que se faz tarde!
Olhei para ele e digo: a esta hora já nos f.....!
Descolagem em direção a um qualquer aquartelamento do exército, era relativamente perto.
Chegados ao destino, o evacuado era um soldado ferido grave rapidamente embarcado. Como sabem o dia é curto, o dia a findar as preocupações no regresso a aumentar, ainda disse ao Patrício: é pá não vamos ter tempo!
Mas devido á gravidade do ferido lá descolamos.
Como era de prever a meio do regresso fez-se noite, uma noite escura como breu, íamos calados, lá em baixo na mata viam-se de onde em onde fogueiras, porque "eles" estavam lá.
Continuámos a voar práticamente calados, até que ao longe se começa a ver o clarão das luzes do Luso, respiramos de alívio, alinhamos com o rádio farol, contactamos com a torre do Luso e a aterragem é efectuada sem problemas. 
Na placa esperava-nos todo o pessoal da linha, o chefe Isidro "Meirim" e mais atrás o comandante Sachetti, ele e o  Patrício seguiram para as Operações, eu fiquei a a ajudar os maqueiros e a amarrar o DO.
Moral da estória arriscamos, para salvar um camarada ferido com gravidade, mas voar de noite naquela zona era de cortá-las.
Foi mais uma missão arriscada de entre muitas, felizmente correu bem, talvez o camarada se tenha safado, nós fizemos o que pudemos ainda que infringindo as regras.


Ano 1973, MMA Tomaz

sexta-feira, 11 de junho de 2021

ENFERMEIRO EM S. TOMÉ.



Quando me apresentei ao Comandante Silveira, logo depois de ter aterrado em São Tomé, no Aeródromo de Trânsito nº2 em Agosto de 1972, tentei fazer as apresentações tal como tinha aprendido na escola da Ota, na disciplina de Instrução Militar Teórica (a que nós chamávamos “arre macho sentado” – a instrução militar prática ou ordem unida era “arre macho em pé”- alguém se lembra?).
- Apresenta-se o primeiro cabo MM….
- Ó Carlos Gato, deixe lá as formalidades e diga-me o que é que fez na base do Montijo.
- Trabalhei na electricidade e instrumentos do P2V5 durante um ano e depois cerca de sete meses nos motores e hélices do mesmo avião.
- E antes da tropa o que é que fez?
- Era estudante e andei nos escuteiros.
- E o que aprendeu nos escuteiros que possa ser útil?
- Fiz um curso de primeiros socorros, aprendi orientação…
Muito bem. Seja bem-vindo ao aeródromo. Como não temos aviões vai ficar na secretaria como os outros MMA. O seu chefe vai ser o Sargento Oliveira, etc, etc.
Algum tempo depois chamou-me ao gabinete e fiquei alarmado. O que é que eu fiz?
- Carlos Gato, O nosso enfermeiro vai deixar-nos. Precisam dele em Luanda. Fale com ele pois ele vai passar-lhe a chave do armário dos medicamentos. Você é o novo enfermeiro.
- Quê? Mas eu não percebo nada disso.
- Percebe sim, você tem um curso de primeiros socorros dos escuteiros.
Não sei se ele acreditava muito nos escuteiros ou se foi uma forma de me incentivar ou mesmo dar o armário a guardar a alguém.
Levei a coisa a sério e tentei fazer o que pudesse. Dava comprimidos (aspirinas) aos cozinheiros (um caboverdiano e um santomense) frequentemente, pois queixavam-se de dores de cabeça. Pequenos curativos aos cortes que faziam com as facas.
Só me lembro de uma ajuda a sério que dei a um camarada. O 1º. cabo Silva, especialista mecânico de rádio.
Um dia chegou ao pé de mim e perguntou-me:
- Será que podes ajudar-me? Tive um acidente e tenho as costas feridas. Fui ao médico do exército e este mandou por tintura e andar com as costas ao ar.
Não era um camarada com quem tivesse grandes relações. Infelizmente na juventude, temos pouca maturidade e criamos grupos de amigos relegando outros grupos. Em adultos é que percebemos os erros cometidos.
Mas voltemos à estória que vinha a contar.
Efectivamente os enfermeiros do exército “pintavam” as costas do camarada com tintura de mertiolato, um desinfectante bactericida muito usado nas zonas tropicais. Veio a seguir ao mercuro-cromo e era muito parecido com tintura de iodo.
Ele tinha escoriações enormes no tronco (escoriação é um misto de ferida e queimadura causada pela fricção), resultantes de uma queda de motociclo na estrada. Acho que ele tinha uma Kavasaki ou uma coisa parecida.
A camisa andava sempre tingida daquela mistela que lhe aplicavam e ele sofria dores horríveis quando da aplicação. Resolvi ajudá-lo e falei com o capitão Silveira.
- Sr. Comandante, posso ajudar o nosso camarada que está a sofrer muito mas, não tenho material para isso.
- O que é que pretende fazer e quanto custa?
Lá expliquei – era um balúrdio, caríssimo. O melhor que havia no mercado daquele tempo e já tinha aplicado na metrópole a conselho da minha namorada que sabia destas coisa.
- Está bem, se tem a certeza que é bom, mande comprar e ponha o camarada em condições.
Vieram caixas e caixas de Topi-furazona. Eram uns pensos vaselinados com produto antibacteriano que se aplicavam directamente sobre queimaduras de 2º. e terceiro grau, dando uma sensação de frescura (ao contrario da tintura que dava ardor) e um poder curativo muito mais rápido.
Penso que o tratamento durou duas semanas, mudávamos os pensos de dois em dois dias. Era toda a região dorsal. Imaginem a quantidade de pensos com cerca de 15x15cm.
Ficou impecável. Eu próprio me admirei. Sem cicatrizes. Trabalho de enfermeiro feito à pressa.
Ficámos amigos.
O bichinho ficou e, em 1981, tirei um curso de instrutor de primeiros socorros na Cruz Vermelha Portuguesa e andei pela região de Setúbal, a ensinar a arte aos bombeiros e população. O INEM só existia em Lisboa.
Fiz formação em todas as empresas por onde passei. Socorri vários camaradas acidentados, uns mais graves que os outros. Sempre que havia desgraça no trabalho, lá me vinham chamar.
Graças ao incentivo do Grande Capitão Silveira, um senhor que respeitava os seus colaboradores ajudando-os quando precisavam e repreendendo-os quando mereciam.
Esta estória é uma pequena homenagem e agradecimento a ele, esteja ele onde estiver.
Obrigado Sr. Comandante!

Por: Carlos Gato






sexta-feira, 4 de junho de 2021

A PRISÃO DO AB4

Porta de Armas e Casa da Guarda em fundo


Zé Mário e Antunes


Dos equipamentos do AB4, a Casa da Guarda era talvez uma das menos conhecidas pela maioria do pessoal, apesar de ficar logo à entrada da Base.
Uma das suas dependências era a prisão.
Porque felizmente, poucos a conheceram, trago algumas opiniões expressas ultimamente por alguns camaradas PAs, numa recente publicação no nosso grupo do Facebook.

José Neto - PA 1965/67:
Já que trouxeram à baila a prisão do AB4, que se situava no edifício da Casa da Guarda, aqui vai uma foto que tirei na antecâmara da prisão, a guardar "três presos" que, na verdade, não o eram. Era uma prisão com dois compartimentos que nem grades tinha. Os detidos estavam ali a cumprir as penas de prisão e dali não podiam sair até que terminassem as penas. 

Joaquim Caratao - PA 1968/70:
Em 1970 se não me falha a memória, um soldado de que não me recordo o nome, apenas sei que era natural de Fátima, conseguiu destruir uma daquelas camas de ferro Mod. FAP que equipavam as celas e com os destroços destruiu a porta da dita cela onde se encontrava detido. Não terá sido trabalho fácil pois quer a cama quer a porta tinha uma robustez considerável. Só foi possível levar a cabo esta loucura com o completo desequilíbrio psíquico em que se encontrava. 

José Rosa - PA 1968/70:
Boa memória Caratao ! Foi esse mesmo conhecido como o Fátima quem destruiu a porta da cela, também te lembras bem que o dito Fátima punha tudo em estado de sítio era desordeiro .

Joaquim Caratao
Joaquim Caratao:
Zé. E já agora impõe-se levar a história de alguns presos até ao fim! O Pára que te referes que eu não vou naturalmente citar o nome, "Chamar-lhe-ei apenas M" depois de bem bebido levou a cabo com outro companheiro uma investida nocturna ao bar. Como consequência dessa traquinice levou seis anos de prisão maior com expulsão das Forças Armadas ... Desta vez calhou-me a escoltá-lo para Luanda com destino a uma prisão que ninguém sabia qual seria. Apresentado no CMD da 2ª Reg. Aérea comecei a percorrer tudo o que era presidio civil e militar de Luanda sem que conseguisse que alguém o recebesse, assim andei três dias até pedir na Secção de justiça da Região Aérea para devolver o preso ao AB4. Foi então decidido que levaria no dia seguinte o detido para um Campo de Trabalho no deserto de Moçâmedes, próximo de Roçadas e se designava por Campo de trabalho do Péu Péu.
E Lá fui num PV2, como CMD do avião o Cap. Coias que era um inimigo figadal do dito Soldado por problemas que tiveram entre eles no Cazombo. O Capitão não sabia quem era o preso e quando o viu não conteve um comentário menos oportuno ao que o Soldado respondeu com vernáculo. Confesso que ainda hoje fico incomodado ao recordar o local onde foi deixado o M...
Entreguei-o ao Director do Campo que distava 15 Kms de Roçadas. Anos depois encontrei o M..., fiquei satisfeito quando ele me segredou que aquela prisão havia sido o melhor que lhe aconteceu na vida pelos ensinamentos e pelas prespectivas que lhe criou no futuro. Não cumpriu a pena completa com a emergência do 25 de Abril. Coisas da vida. 

José Rosa
José Rosa:
A prisão do AB4 era na casa da guarda em frente à porta de armas , haviam duas celas mesmo em frente aonde o pessoal de guarda dormia. Lembro-me ainda de alguns presos que por lá passaram em particular desse PA que era conhecido por Fátima, e de um que tinha sido Paraquedista, e foi parar à prisão por ter assaltado o bar de Sargentos ele e um alentejano que não recordo o nome nem numero, tenho uma recordação desse paraquedista que nunca vou esquecer. Fui eu cabo PA e um soldado de nome Cordeiro que era transmontano nomeados para o escoltar ao tribunal a Luanda para ser ouvido pelo Juiz. Quando estava dentro do tribunal fez-me andar atrás dele, pois eu tinha medo que ele fugisse e depois quem ia para a prisão era eu.
Recordo-me muito bem dele, ele era PA e não se dava nada bem com os bicos de pato, às vezes ia à camarata deles para fazer bagunça.

Joaquim Caratao:
Zé! O dito companheiro era de difícil trato. Sofreu um tal ataque de fúria que redundou naquela destruição toda. Como o Mundo é pequeno uns anos depois encontrei-o em Fátima, conheceu-me, conversamos um pouco, disse-me que tinha sido transferido para o Negage depois de cumprir o castigo após aquele destempero que teve. Mas... ainda continuava muito nervoso. 
Também passei muitas noites naquele local. Será bom recordar que os Cabos da PA, pelo menos entre Outubro de 1968 e Outubro de 1970 alinhavam dia sim dia não, chegou-me a acontecer sair de um serviço e entrar noutro no mesmo dia, entretanto aconteciam os imprevistos e lá estava o pessoal a alinhar quer em escoltas quer noutras actividades muito vulgares naquele tempo. Também os Soldados não tinham muito melhor sorte para além de guarnecer as torres durante a noite onde no tempo do cacimbo a temperatura era glacial, ainda lhes sobejava quase sempre mais um ou outro biscate que estava sempre á espera. Não era fácil ser PA naquele campo de férias. Ainda assim julgo que a maioria destes camaradas guarda suaves recordações daquele tempo, daquelas idades, e de muitos dos camaradas que conseguiam minimizar os sacrifícios que eram pedidos ao pessoal. 
Artur Santana

Artur Santana - PA 1968/71:
Pois é Caratao eram os soldados dia sim dia não nas Torres, Paióis, Rondas á Noite na cidade, e Porta de armas era uma vida infernal e para vocês Cabos também o pior era as torres que se passava lá um frio de rachar. Foi duro já passou e agora resta a saudade da rapaziada que andam por aí a quem desejo uma grande felicidade e um grande abraço 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

A HISTÓRIA SECRETA DOS MIRAGE PORTUGUESES

Ilustração do que poderia ter sido o Mirage IIIEPL com as cores da época

Durante grande parte da guerra colonial, os jactos de combate da Força Aérea Portuguesa (FAP) foram decisivos em todas as frentes do conflito e praticamente intocáveis até ao aparecimento do míssil Strela na Guiné.
A intensificação da guerra nesta colónia levou a FAP a procurar um novo avião de combate capaz de executar quer missões de combate aéreo quer de ataque terrestre. A escolha recaiu no caça supersónico francês Mirage. No entanto, as negociações entre os dois países seriam difíceis com a França a levantar várias restrições quanto ao uso dos aviões nas colónias portuguesas, principalmente na Guiné.
Ao longo de 1974, a questão dos Mirage é discutida várias vezes com as autoridades francesas, que insistem em não permitir o estacionamento dos aviões na Guiné por causa das relações privilegiadas que Paris tem com o Senegal.
O número de aviões negociado (32 unidades) indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo português enviar o caça francês para Angola e Moçambique, mas a história secreta dos Mirage portugueses acabaria com a Revolução de Abril, embora a França acabasse por autorizar a venda deste caça de elevada performance. 
Embora dispondo de jactos de combate F-84 Thunderjet, em Angola e do Fiat G.91, na Guiné e em Moçambique para operações de contra-guerrilha, as forças portuguesas em África sentiam falta de um avião de elevada performance capaz de levar uma boa carga de armas e efectuar bombardeamentos em profundidade no território inimigo e, no caso, de incursões sem protecção aérea, capacidade de combate aéreo. Em poucas palavras, a Força Aérea precisava de um caça moderno, não só para ataque ao solo, como também para missões de defesa aérea e que tivesse um papel dissuasor no conflito africano. Uma vez que Portugal estava sujeito a um embargo de armas decretado pela ONU, as possibilidades de escolha eram muito reduzidas e as chefias da Força Aérea consideravam que o Mirage francês era, neste contexto, a melhor opção.
O interesse pelo caça da Dassault começa a desenhar-se em 1968/69, quando a Força Aérea desenvolve vários estudos exaustivos sobre o rearmamento da FAP (1).  A aviação militar tinha entrado na era supersónica e aviões como o Mirage representavam esta nova tendência. Esta nova realidade estava espelhada nas definições do futuro caça da FAP, que constavam do estudo principal de rearmamento desenvolvido pela Força Aérea a partir da directiva M-19 do chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), de Outubro de 1968.
O estudo em questão visava o reapetrechamento global da Força Aérea e, num dos capítulos, definia os requisitos do futuro caça, que devia ser um avião bimotor, capaz de atingir Mach 2 em voo horizontal e com uma velocidade ascensional que permitisse atingir os 40 mil pés em tempo inferior a 5 minutos. Além destas especificações gerais, o estudo resultante da referida directiva definia também outros requisitos operacionais, que incidiam sobre a capacidade de armamento, a possibilidade de utilizar pistas em altitude, em climas quentes (como era o caso de África), além da capacidade de fazer um voo directo entre a ilha do Sal, em Cabo Verde, e Lisboa. O caça francês conseguia cumprir praticamente todos estes requisitos (excepto na questão do motor), sendo, desta forma, a melhor escolha (2). 
A opção pelo Mirage é reforçada em 1970, numa informação que o general CEMFA Brilhante de Paiva envia ao secretário de Estado da Aeronáutica, José Pereira do Nascimento, em que considera que “no que respeita à aviação de caça a preferência deve recair nitidamente no Mirage, independentemente da maior economia do F-5. Trata-se de aviões de caça de elevada performance e, a escolha de uma máquina de características inferiores, já nesta data, conduzir-nos-ia à obsolescência mesmo antes dos aviões entrarem em serviço.” (3) 

O problema dos caças americanos

O trabalho produzido demora, no entanto, algum tempo a chegar ao conhecimento do ministro que tutela a Defesa, o general Viana Rebelo, pois só em Abril de 1971, o secretário de Estado informa o ministro, referindo claramente que a prioridade da FAP é a aquisição de aviões de caça modernos quer para uso em África, quer para a defesa do continente. O plano de rearmamento prevê a compra de 64 aviões, 28 para a defesa da metrópole e 36 para a defesa das colónias, mas Pereira do Nascimento admite numa primeira fase do plano a “redução da quantidade a adquirir, para ganhar experiência e avaliar da evolução da situação, mas numa posição que permita actuar, se necessário, com alguma eficácia”. Desta forma, o governante considera que um quantitativo de 30 aviões (27 monolugares + 3 bilugares) será suficiente, estimando que o custo da aquisição ascenda a 2,2 milhões de contos.
Na longa lista de aviões analisados, o Mirage surge como o preferido, pois segundo o documento é “o avião cujas características mais se aproximam das especificações propostas, não obstante ser monomotor.” Ainda na lista de preferências, o Northrop F-5A surge como segunda opção e o Phantom F-4C, como terceira, embora o governante português admita que a pouca compreensão dos EUA em relação à política portuguesa em África, não permita a aquisição de qualquer avião de origem americana, restando apenas o Mirage.(4)   De facto, Washington tinha uma posição crítica sobre a guerra colonial portuguesa e era praticamente impossível que vendesse qualquer tipo de avião que pudesse ser usado em África, restando a Portugal apenas a opção francesa.

O bom aliado francês

Desde final dos anos 50, que existe uma boa relação entre Portugal e a França no campo político e militar. Portugal apoia claramente a guerra francesa pela manutenção da Argélia e também a política do general De Gaulle de criar uma força nuclear francesa independente da NATO e aceita a instalação na ilha das Flores, nos Açores, de uma estação de rastreio de mísseis balísticos. O acordo é assinado a 7 de Abril de 1964, sem qualquer pedido de contrapartidas pela parte portuguesa, estando implícito no espírito do acordo que as facilidades concedidas por Portugal teriam uma influência positiva em qualquer ajuda militar que Paris pudesse prestar a Lisboa. E, de facto, o Governo francês apoia claramente o esforço militar de Portugal em África entre 1960 e 1970, pois o próprio De Gaulle considera que o interesse da França é coincidente com a permanência de Portugal no continente africano. (5)  
A França torna-se assim no maior fornecedor de armas a Portugal entre 1964 e 1971, com vendas que ascendem a 700 milhões de francos franceses. (6)
Mas, com a chegada de Georges Pompidou ao Eliseu, em 1969, a política externa francesa começa a mudar verificando-se uma maior aproximação aos países africanos, designadamente os de língua francesa, uma política que vai provocar problemas nos fornecimentos de armas a Portugal. Basta dizer que no período de 1972/1974 as vendas francesas decaem para 190 milhões de francos, o que mostra bem a mudança de relação entre Paris e Lisboa. Um sinal desta mudança é dado pelo próprio ministro dos Estrangeiros francês, Maurice Schumann, ao seu homólogo português, Rui Patrício, durante uma visita que este faz a Paris em Janeiro de 1971. Durante as conversações no Quai d’Orsay, o governante francês refere claramente que “a França tinha acordos muito rigorosos com os Estados francófonos e um acordo mesmo de defesa com o Senegal” e que Portugal devia evitar criar problemas com o Senegal.(7)  Esta extrema sensibilidade da França em relação ao Senegal marcará todo o processo de  negociações em torno dos Mirage.

Os primeiros contactos

Em finais de Abril de 1971, o ministro Viana Rebelo analisa então os planos da FAP, que são depois enviados ao Conselho Superior da Defesa Nacional, sendo decidido efectuar os primeiros contactos de prospecção junto das autoridades francesas. Em meados de Novembro, o director de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa francês, o general Hughes de l'Estoile, visita Portugal para uma conferência no Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional e tem encontros com as autoridades militares portuguesas e com o ministro Viana Rebelo. Já depois destes encontros, o general avista-se com o embaixador francês em Lisboa, Jacques Tiné, com o intuito de se inteirar acerca das intenções portuguesas a respeito do Mirage. O embaixador comenta com o oficial francês que sobre o assunto tem ouvido várias versões. Numa das versões, os portugueses estariam interessados em 20 a 30 aviões para distribuir pela “metrópole e os três territórios de África”, noutra versão estavam apenas interessados em 12 aviões para estacionar na metrópole. No entanto, percebe-se pelo desenrolar do diálogo, que Tiné considera que o mais provável é que os Mirage sejam usados na metrópole e nas colónias. Ora, a diplomacia francesa não vê com bons olhos o estacionamento na Guiné ou, em alternativa, na ilha do Sal, em Cabo Verde, onde a Força Aérea tinha uma base, pois mesmo aí os Mirage conseguem operar (embora no limite do seu raio de acção) sobre a zona Guiné-Senegal, um facto confirmado pelo general francês. Em suma, a diplomacia francesa não quer criar problemas com o Senegal por causa de Portugal. L´Estoile revela ao embaixador a conversa que teve com os chefes militares e o com ministro Viana Rebelo, em que foi manifestado claramente o interesse português em ter “aviões supersónicos, nomeadamente para a defesa dos territórios em África” e que, nesse sentido, Lisboa não estava disponível para aceitar qualquer restrição quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois “os aviões eram pela sua natureza móveis e deviam de intervir onde o perigo estivesse presente.” (8)  O general suspeita que seja esta posição que o ministro português vai defender junto do seu homólogo francês, num encontro previsto para Paris, em Dezembro.
De facto, em 21 e 22 de Dezembro, Viana Rebelo desloca-se a Paris para tratar da renovação do acordo das Flores e dos problemas pendentes relativos ao fornecimento de material de guerra por parte da França. Rebelo encontra-se com o ministro de Estado e da Defesa, Michel Debré, e a discussão incide principalmente na renovação do acordo luso-francês dos Açores, assim como nas encomendas de material de guerra que estavam atrasadas. (9)  Rebelo é, certamente, informado nessa altura que, poucos dias antes, a questão dos Mirage tinha sido debatida na Comissão Interministerial de Estudos de Exportação de Material de Guerra (CIEEMG na sigla francesa), uma comissão constituída por delegados de 5 ministérios e que decide a venda ou não de material bélico ao exterior.(10)
O Mirage 5 foi uma das aeronaves em equação

O pedido português

A 17 de Dezembro, a CIEEMG tinha analisado um pedido português para uma possível aquisição de 18 caças Mirage III ou 5 e, durante a reunião, o representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha levantado várias objecções ao negócio considerando que a presença do caça francês nas colónias portuguesas provocaria protestos contra a França, nomeadamente no Senegal e na Guiné-Conacri, sendo, por isso, contra a venda dos aviões a Portugal. A reunião da CIEEMG termina sem grandes conclusões e é decidido submeter o assunto à consideração do primeiro-ministro Chaban-Delmas. Dois meses depois, em Fevereiro, Delmas comunica a sua posição à CIEEMG autorizando os contactos com o Governo português e salientando que antes de qualquer autorização de venda deverão ser fixadas as condições de estacionamento dos aviões. (11)  Mas em Lisboa, o assunto vai-se arrastando e percebe-se que o Governo de Marcelo Caetano não tem orçamento para tais aquisições. Basta dizer que a verba total para reequipamento das forças armadas nessa época era de 1.5 milhões de contos (12), o que dava para comprar 25 aviões Mirage a preços de 1969. A própria Direcção dos Assuntos Económicos e Financeiros (DAEF) do Quai d’Orsay dá conta disso em Maio de 1972, depois de uma comunicação do embaixador francês em Lisboa, que relatava o forte interesse dos militares portugueses em adquirir o avião.(13)  Em nota ao próprio ministro, a DAEF refere que da parte portuguesa, o assunto está em “ponto morto” e que não vê pressa em o Governo português concluir qualquer acordo.(14)  É óbvio já nesta altura que existe um certo afastamento entre os dois governos relativamente à política seguida em África por Portugal, o que afecta as relações militares. Essa percepção é transmitida pelo próprio adido militar da embaixada francesa, comandante Gicquel, ao capitão-de-mar-e-guerra Souto Cruz da Comissão Luso-Francesa, numa conversa que tem com este no início de Dezembro. Durante a conversa, o militar francês refere “que existem dentro do Governo e da Administração francesas, correntes de opinião muito diversas algumas das quais desfavoráveis à política ultramarina” portuguesa e que “tanto o primeiro-ministro como o ministro do Estado encarregado da Defesa Nacional são obrigados, por vezes, a contemporizar com essas correntes de opinião que se manifestam mesmo dentro da coligação governamental” e chega mesmo a sugerir que certas licenças de exportação de materiais de guerra sejam obtidas através de países amigos, como o caso da Espanha. (15)
Só em 1973 é que a posição portuguesa sobre os Mirage sofre alguma evolução e, no início de Março, Viana Rebelo contacta o embaixador francês em Lisboa, novamente com a intenção de comprar o caça da Dassault. O ministro reafirma o interesse português no avião e que a decisão final depende de conversações com o Ministério das Finanças. Rebelo refere ainda que “os encargos militares são pesados”, mas que a aquisição de caças a reacção figura na lista de prioridades do governo. Em resposta, o embaixador francês faz notar ao ministro que qualquer decisão francesa estará sempre “subordinada à conclusão de um acordo sobre o estacionamento dos aparelhos”. (16)  Já depois deste contacto, Viana Rebelo faz chegar às autoridades francesas, o interesse português em comprar entre 50 a 100 aviões Mirage F1.(17)  Este novo pedido é analisado em reunião do CIEEMG, a 20 de Dezembro, mantendo-se as restrições que já existiam antes em relação ao pedido anterior. Mas, não deixa de ser surpreendente, a magnitude do pedido e o interesse português por um modelo tão recente que seria certamente muito mais caro do que o Mirage III ou 5. Entretanto, em Junho, uma delegação da FAP liderada pelo próprio general CEMFA, visita o salão Bourget, onde manifesta interesse pelo Mirage 5, pelo F1 e também pelo Alpha Jet. (18)

Um novo titular na Defesa

Em Novembro de 1973, acontece uma remodelação no governo de Marcelo Caetano e Silva Cunha, que era ministro do Ultramar, substitui Viana Rebelo. É ele que dá um novo impulso à negociação dos Mirage e que consegue obter garantias por parte do Ministério das Finanças de uma verba suplementar de 6 milhões de contos para reequipamento das forças armadas. (19) 
Em Janeiro de 1974, Silva Cunha recebe um memorando do secretário de Estado da Aeronáutica, general Tello Polleri, com uma série de aquisições previstas, num valor global de 5,8 milhões de contos.(20)  O documento é depois revisto em Fevereiro em termos de valores e prevê a aquisição de várias aeronaves destinadas à Força Aérea: 68 helicópteros Alouette III, 1 helicóptero SA 330 Puma, 50 aviões de transporte C-212 Aviocar, 120 aviões Reims-Cessna FTB 337 e ainda um lote de 32 Mirage 5. É já evidente nesta altura, que Portugal tem grandes dificuldades em adquirir material de guerra e que só em França e Espanha é que pode comprar aviões. O memorando descarta definitivamente a hipótese do Mirage F1 por ser demasiado cara e pelo facto do prazo de entrega ser cerca de 4 anos e aponta o Mirage 5 como a opção mais adequada. O documento refere ainda que o preço unitário desta versão de ataque, mais ferramentas, componentes e sobressalentes é de 103 mil contos (versão monolugar) e 108 mil contos (versão bilugar), embora possa ter algumas variações ao longo do período de fornecimento, estimado entre 2 a 3 anos. É também referida a intenção da Força Aérea em adquirir mais aviões Fiat G.91 para continuar a assegurar as missões de ataque até dispor dos Mirage e que necessita para isso, de uma reserva financeira de 500 mil contos, o que implica que o número dos Mirage passe de 32 para 25 aparelhos.
Não é referida a origem dos Fiat, mas pelo valor envolvido presume-se que sejam aviões de origem alemã já usados. Em Dezembro de 1973, a Força Aérea tem conhecimento que a Luftwaffe pretende desactivar durante o ano de 1974, 50 a 60 jactos G.91 R/3 com uma média de 1800 a 2000 horas de voo e existe interesse da parte portuguesa em comprar alguns destes aviões.(21)  O problema é que o Governo alemão proibiu a venda dos G.91 a qualquer país estrangeiro, justamente com o receio que o destino final seja sempre Portugal. (22) Bona não quer ver mais Fiat de origem alemã envolvidos na guerra de África e não está disponível para fazer qualquer cedência a este nível. O general Tello Polleri ainda tenta explorar junto de Espanha a possibilidade destes aviões serem comprados pelas Construcciones Aeronáutica S.A (CASA), para depois serem vendidos a Portugal, mas sem sucesso.(23)
Todas estas aquisições dependem obviamente do financiamento extraordinário previsto pelas Finanças e que está a ser negociado com a África do Sul sob a forma de um empréstimo. Depois de alguns meses de negociações, o acordo final é assinado no dia 8 de Março de 1974, pelo embaixador português em Pretória e o South África Reserve Bank, sendo o empréstimo de 150 milhões de rands (6 milhões de contos no câmbio da época). O empréstimo é negociado em condições muito vantajosas para Portugal com uma taxa de juro de 3%, sendo o dinheiro transferido em prestações mensais de 5 milhões de rands até um máximo de 50 milhões por ano e durante um período de 3 anos. (24) Ao abrigo do acordo, a primeira prestação de 5 milhões de rands é disponibilizada e Silva Cunha pode assim prosseguir com as negociações relativas ao Mirage. O dinheiro sul-africano chega numa altura em que se avolumam na Guiné indícios de uma eventual ameaça aérea por parte da Guiné-Conakry. 

O problema da Guiné

Das três frentes de guerra que Portugal tem em África, a situação na Guiné é que inspira mais cuidado e preocupação nos militares e governantes portugueses. De facto, as forças portuguesas enfrentam nesta colónia uma guerrilha bem organizada e bem armada, inclusivamente com mísseis terra-ar, com total liberdade de movimentos nos países vizinhos. O aparecimento dos mísseis terra-ar SA-7 Strela em finais de Março de 1973 marcam uma nova fase na guerra e causam apreensão em Lisboa e no comando militar na Guiné. Em apenas duas semanas, o PAIGC abate 5 aviões, entre os quais 2 Fiat G.91, provocando a morte a 4 pilotos. Perante esta nova ameaça, as chefias da Força Aérea reúnem-se em Lisboa, a 24 de Abril de 1973, e enfatizam a necessidade de novos meios aéreos de combate face a uma possível escalada da guerra na Guiné. Nas prioridades da FAP surge, mais uma vez, o Mirage, dada a sua capacidade de combate aéreo e ataque ao solo e a possibilidade de ser usado em missões de retaliação. O caça francês era “o único avião de altas qualidades incluído no plano de rearmamento da Força Aérea” e, nesse contexto, o melhor equipado para fazer frente à nova ameaça dos mísseis terra-ar. No entanto, as chefias da FAP não deixam de chamar à atenção para o facto de ser preciso estudar (face ao Strela e às restrições de voo que o míssil impõe), se o Mirage 5 é o modelo mais aconselhável para a Força Aérea “ou se este necessita de equipamentos complementares para ataques ao solo com precisão fora do alcance do míssil”, ficando este estudo a cargo da 3ª Repartição do EMFA. (25)
O pedido do Mirage para a Guiné é reforçado pelo próprio comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné (ZACVG), o coronel Moura Pinto, durante uma visita que o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), o general Costa Gomes, faz à Guiné em Junho de 1973, para avaliar a situação militar no terreno. Costa Gomes recebe do comando militar em Bissau uma longa lista de pedidos de tropas e de armamento em que constam 12 aviões Mirage pedidos por Moura Pinto. A ideia do comandante da ZACVG é substituir completamente os T-6G e os Fiat pelo caça francês. (26)
Entretanto, começam a surgir notícias no domínio público de que a guerrilha está a treinar pilotos na União Soviética para usar aviões MiG a partir da Guiné-Conacri. Um jornal que dá eco deste assunto é o inglês Daily Telegraph que, a 2 de Agosto de 1973, publica um artigo da autoria do correspondente em Lisboa, o jornalista Bruce Loudon, em que diz que a guerrilha “está apenas a seis meses de atingir uma capacidade de ataque aéreo com caças MiG russos.” O jornalista refere ainda que cerca de 40 guerrilheiros estão a receber cursos de pilotagem na Rússia. (27) Começam, assim, a circular notícias sobre o possível uso de meios aéreos por parte da guerrilha ou do envolvimento da própria Força Aérea Guineana (FAG) em acções contra as tropas portuguesas. Do outro lado da fronteira, os MiG-17F da FAG estão praticamente parados, mas com ajuda de militares cubanos, começam a aumentar o seu grau de operacionalidade. Pilotos e técnicos cubanos chegam a Conacri em Fevereiro e Maio de 1973 e incrementam os voos de patrulha na zona de fronteira, de forma a precaver incursões portuguesas em território guineano. (28) 
Preocupado com a situação militar na Guiné, o chefe do Governo, dá ordens para que a pequena colónia seja dotada de novos meios de defesa aérea (29), usando para esse efeito o empréstimo sul-africano. Neste seguimento, o Ministério da Defesa encomenda, em França, em Janeiro de 1974, dois pelotões de mísseis Crotale R440, um deles para a defesa de Bissau, ficando prevista a entrega do primeiro para Maio de 1974 e a do segundo 18 meses depois para a defesa de Cabinda. (30)  Existem receios em Angola, de que a compra de caças Mirage 5 pelo Zaire possa constituir uma ameaça aérea para aquele território rico em petróleo. Desenvolvem-se também contactos junto do Departamento de Estado norte-americano para a compra de mísseis portáteis FIM-43A Redeye, que serão depois fornecidos por “caminhos tortuosos” por sugestão de Henry Kissinger, envolvendo Israel e um intermediário alemão, pois os americanos não os podiam fornecer directamente devido ao embargo de armas. (31) São também analisados sistemas de radar para o controle do espaço aéreo. Neste contexto, faltava apenas um avião com elevada capacidade retaliação sobre os países vizinhos, que pudesse dissuadir qualquer ataque aéreo contra a Guiné portuguesa. O Mirage encaixava bem nesse papel, o problema era a forma como a sua presença seria encarada pelos países limítrofes. E é isso que preocupa os governantes franceses.

As restrições francesas

A 20 de Fevereiro de 1974, o ministro francês da Defesa, Robert Galley, envia uma carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Michel Jobert, dando conta do interesse português em comprar entre 26 a 28 Mirage III ou 5 e das condições que a França devia exigir a Portugal. (32)  Galley é da opinião que o estacionamento do Mirage na Guiné portuguesa não deve ser autorizado pelo Governo Francês, pois não deixaria de suscitar reacções negativas por parte dos países vizinhos desta colónia. Mesmo nas ilhas de Cabo Verde, onde Portugal tinha uma base na ilha do Sal, o estacionamento não devia ser autorizado, pois os caças podiam facilmente ser deslocados para a Guiné. No entanto, considera que não vê problema nenhum no estacionamento em Angola e Moçambique, isto porque a França também já tinha vendido o avião à África do Sul com o argumento de que o Mirage não era vocacionado para missões de contra-guerrilha.
Mirage IIIEZ sul-africano


De facto, entre 1963 e 1974, a Africa do Sul tinha recebido 16 Mirage IIICZ e 17 IIIEZ (33)  e, sendo assim, Portugal não seria o único país a ter este tipo de caça na África austral.
Galley referia ainda que se, por um lado, a França devia ter as precauções indispensáveis relativamente à sua política africana, por outro, devia também levar em linha de conta as facilidades que tinha na ilha das Flores, relevantes para a Força Nuclear Estratégica Francesa e terminava pedindo a opinião de Jobert sobre o assunto. Uma semana depois, a Direcção dos Assuntos Africanos e Malgaxes (DAM) do Quai d’Orsay responde dizendo que, no seu entender, a restrição de estacionamento dos Mirage devia também ser estendida a Angola e Moçambique, pois países vizinhos como a Zâmbia, a Tanzânia, o Congo ou o Zaire podiam reagir mal, o que seria contrário aos interesses franceses.(34)  Na opinião da DAM, a analogia com a África do Sul não era convincente, pois os Mirage sul-africanos tinham sido vendidos para defender o território nacional daquele país, enquanto que os Mirage portugueses seriam usados na guerra de guerrilha, podendo, nesse caso, a França ser acusada de apoiar a política colonial portuguesa. Mais uma vez, a diplomacia francesa demarcava-se da política portuguesa em África, embora esquecendo que Pretória também usava os seus Mirage em operações de contra-guerrilha e não apenas para defender o seu território nacional.(35)
Já depois desta troca de correspondência, o assunto é discutido na CIEEMG e Galley não aceita a posição do representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e considera que as restrições de estacionamento dos Mirage devem ser apenas aplicadas à Guiné portuguesa e a Cabo Verde. Perante a falta de consenso, a questão é remetida ao primeiro-ministro Pierre Messmer, que acaba por concordar com a posição do ministro da Defesa.

O Mirage IIIEPL

No seguimento desta decisão, desloca-se a Lisboa, no dia 3 de Abril, o director adjunto dos Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, Philippe Esper, para negociar com as autoridades portuguesas as condições de estacionamento dos aviões, os prazos de entrega e a formação de pilotos e de técnicos. (36) Poucos dias depois desta visita, o general Hughes de l'Estoile, envia uma comunicação ao ministro Jobert com a carta que o ministro da Defesa pretende enviar ao seu homólogo português. Jobert fica assim a par dos contornos da operação. Em primeiro lugar, o interesse português já não é pelo Mirage 5, mas sim pela versão IIIE, que por ser para Portugal passa a designar-se Mirage IIIEPL.
Mirage IIIE  francês

O documento não refere o número de aviões que Portugal quer comprar, mas, por documentos posteriores, sabe-se que o pedido português é de 32 Mirage IIIEPL, provavelmente 29 monolugares e 3 bilugares, embora isto não seja claro nos documentos consultados. Os aviões bilugares ficariam na BA5 em Monte Real para conversão dos pilotos e os monolugares seriam distribuídos entre a metrópole e as colónias com especial prioridade para a Guiné. O número de aviões previsto indica claramente que, além da Guiné, era também intenção do Governo de Caetano enviar o caça francês para Angola e Moçambique, onde as chefias da Força Aérea se queixavam da falta de jactos de combate, sendo as queixas mais prementes em Angola, onde o comando da 2ª Região Aérea, chega mesmo a sugerir em Maio de 1974, o empréstimo temporário de 6 aviões Impala (Aermachi 326B) da Força Aérea sul-africana para cobrir as necessidades de caças a jacto na 2ª RA. (37)  
A hipótese de usar estes jactos em Angola, já tinha sido formulada em 1972, com vista a substituir os F-84G que operavam naquela colónia,(38)  mas o secretário de Estado da Aeronáutica, Pereira no Nascimento, tinha dado na altura parecer negativo a esta hipótese, desaconselhando “a integração do Impala na frota de aeronaves do Ultramar”. (39) 
Em relação ao prazo de entrega, o Governo francês compromete-se a entregar os primeiros 6 aviões (3 monolugares e 3 bilugares) em Dezembro de 74, na hipótese de que seja assinado um contrato até ao final de Abril, o que supera as expectativas portuguesas que esperavam os primeiros aviões só em 1976. Em relação aos pilotos e técnicos, o compromisso é no sentido de que 6 pilotos e 10 mecânicos possam começar a sua formação em França em Novembro, um mês antes da entrega dos aviões. Quanto à utilização dos aparelhos em África, a proibição de estacionamento na Guiné e nas ilhas de Cabo Verde mantém-se. (40) Obviamente que a posição francesa não agrada ao Governo português, que considera inaceitável que os caças sejam proibidos de operar a partir de Cabo Verde.
O ministro Silva Cunha manifesta desagrado com este tipo de exigência (41)  e o assunto chega também ao conhecimento do ministro dos Estrangeiros, Rui Patrício, que já no dia 24 de Março, tinha abordado o assunto com o ministro Jobert durante um breve encontro no aeroporto de Lisboa. No referido encontro, Jobert tinha manifestado ao ministro português as suas reservas quanto ao estacionamento dos aviões na Guiné, pois seria uma situação que não deixaria de provocar rumores e problemas à diplomacia francesa em África.(42) Em resposta, Patrício dá a entender que a questão dos Mirage pode ser vinculada à cooperação franco-portuguesa na ilha das Flores, dando como exemplo o acordo americano da base das Lajes, que Lisboa tinha hesitado em renovar devido aos problemas que a sua utilização, durante a guerra de Yom Kippur, tinha provocado entre Portugal e os países árabes. O governante português estava, naquela altura, a negociar com o Departamento de Estado norte-americano a permanência americana nos Açores e as negociações estavam a ser difíceis, pois Washington não fornecia a Portugal uma série de equipamento militar que o Governo português exigia no âmbito das contrapartidas do acordo das Lajes. Além dos mísseis Redeye para a defesa da Guiné, Lisboa queria também 4 aviões de transporte C-130 Hércules, que os EUA não queriam fornecer devido ao uso que poderiam ter em África. (43) No entanto, a argumentação de Patrício não tem qualquer efeito em Jobert, nem na posição do Governo francês. Para a diplomacia francesa, o que importa são as relações com as antigas colónias e não a política colonial portuguesa.
Uma das configurações possíveis para ataque a alvos terrestres dos Mirage IIIEPL 

Na véspera da revolução

Mas, o ministro português não desiste e, no dia 24 de Abril, encontra-se com o embaixador francês em Lisboa, Bernard Durand. Patrício sabe que a Força Aérea precisa dos aviões em África e salienta ao embaixador que a compra dos Mirage representa para Portugal “um investimento considerável” e que se destina a exercer “um efeito de dissuasão sobre o adversário”, principalmente, no caso da Guiné portuguesa, que podia a qualquer momento ser atacada por aviões MiG da Guiné-Conacri. O receio de um ataque a este nível era patente em vários dos relatórios do comando militar em Bissau e o ministro tinha conhecimento desta informação e, sendo assim, não podia aceitar as restrições quanto ao estacionamento dos aviões em África, pois daria “a impressão de renunciar à defesa da Guiné-Bissau.” No decorrer da conversa, nota-se que a preocupação do embaixador francês incide principalmente na questão do Senegal e, sabendo disso, Rui Patrício chega mesmo a dizer que, se for necessário, Portugal pode dar garantias ao Senegal de que nenhuma operação com os Mirage será realizada contra o seu território. Esta informação será transmitida, ainda nesse dia, ao gabinete do ministro francês dos Estrangeiros, mas, no dia seguinte, o golpe militar de Abril mudaria completamente o regime e o negócio dos Mirage acabaria definitivamente cancelado. No entanto, a posição assumida por Rui Patrício na véspera da revolução, mostra que a proibição de estacionamento em Cabo Verde era obviamente inadmissível e que se a França não cedesse nessa questão, o negócio não se podia concretizar.
Ironicamente, por essa altura, a venda terá sido autorizada pelo primeiro-ministro francês, Pierre Messmer, embora com a referida restrição. Sabemos isso por uma nota da DAEF, que, em finais de Maio desse ano, referia claramente que a venda de 32 Mirage IIIE tinha sido aprovada pelo primeiro-ministro pelo valor de 750 milhões de francos (MF), mas com a restrição dos aviões não serem enviados para a Guiné Bissau, nem para as ilhas de Cabo Verde, uma limitação com a qual o Governo português não tinha concordado. (44) A DAEF considera também que o novo governo saído da revolução de Abril não dará, provavelmente, seguimento à compra dos Mirage devido às perspectivas de independência que se tinham criado em relação à Guiné Bissau. Uma observação correcta, pois com o fim da guerra, a prioridade era sair de África e o Mirage deixava de fazer sentido.


Agradecimentos: Christophe Villecroix do Arquivo do Ministère des Affaires Étrangères et Européenne pela ajuda na pesquisa e também ao Arquivo Histórico da Força Aérea (SDFA/AHFA), ao Arquivo da Defesa Nacional (ADN), ao Arquivo Histórico Diplomático e ao Arquivo Histórico-Militar.

(1) Estudo do rearmamento da Força Aérea no âmbito da directiva de 10 de Fevereiro de 1969 do CEMGFA – Arquivo da Defesa Nacional (ADN), F3/23/52/2.
(2) Estudo de Rearmamento da Força Aérea, Estado Maior da Força Aérea, 31 de Maio de 1969, SDFA/AHFA.
(3) Informação do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea para o Secretário de Estado da Aeronáutica, Assunto: Estudo de Rearmamento da Força Aérea, 23 de Janeiro de 1970 (SDFA/AHFA).
(4) Ofício nº 289 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, 19 de Abril de 1971, ADN, F1/07/35/51.
(5) Carta da Embaixada de Portugal em França para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, 3 de Abril de 1971, Arquivo Histórico Diplomático (AHD), PEA 685.
(6) Nota da Direcção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 19 de Fevereiro de 1976, Archive du Ministère des Affaires Étrangères (AMAE), Europe 1971-1976 - Portugal- Caixa 3501.
(7) Apontamento de Luís Navega, Chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre as conversações no Quai D`Orsay de 21 e 22 de Janeiro de 1971, 2 de Fevereiro de 1971, AHD, PEA Confidencial, Maço 23.
(8) Nota da Embaixada Francesa em Lisboa para o Director dos Assuntos Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 26 de Novembro de 1971, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(9) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Luso-Francês sobre os Açores e fornecimentos de material de guerra francês, 16 de Outubro de 1972, ADN, F1/7/31/19.
(10) Relatório da 1ª reunião Luso-Francesa para revisão do acordo geral de 7 de Abril de 64, Comissão Luso-Francesa, Secretariado-Geral da Defesa Nacional, 15 de Julho de 1971, ADN/F1/7/31/19.
(11) Nota n.º 137 da Direcção da Europa para o Ministro, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(12) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril” Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 312.
(13) Telegrama nº 216-219 da Embaixada de França em Lisboa, 17 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(14) Nota n.º 260 da Direcção dos Assuntos Económicos e Financeiros para o Gabinete do Ministro, 19 de Maio de 1972, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(15) Memorando da Comissão Luso-Francesa, Assunto: Acordo Geral Luso-Francês sobre os Açores - Material de guerra francês, 12 de Dezembro de 1972, ADN/F1/7/31/19.
(16) Telegrama nº 158-159 da Embaixada Francesa em Lisboa para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1 de Março de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(17) Nota da Direcção da Europa Meridional para a Direcção dos Assuntos Económicos e Financeiros, 18 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(18) Ficha de vendas de armamento a Portugal, 14 de Dezembro de 1973, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(19) Silva Cunha, p. 312
(20) Memorando da Secretaria de Estado da Aeronáutica, Assunto: Programa de Forças – Aquisições Previstas (1ª revisão), 4 de Fevereiro de 1974, SDFA/AHFA.
(21) Memorando do Estado-Maior da Força Aérea, 25 de Janeiro de 1974, SDFA/AH, 3ª Divisão/EMFA 71/74, Processo 400.121.
(22) Carta de Alberto Maria Bravo & Filhos, Assunto: Aviões G-91, 4 de Dezembro de 1973, AHD PEA 655.
(23) Carta do Secretário de Estado da Aeronáutica para o General Enrique Jimenez Benamu, 25 de Fevereiro de 1974, AHD PEA 655.
(24) Memorial sobre o acordo do empréstimo de 150 milhões de rands firmados com a R.A.S., Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), 18 de Setembro de 1975, ADN F3/20/48/64.
(25) Acta da reunião de 24 de Abril de 1973, na biblioteca do EMFA, sobre a ameaça antiaérea no Ultramar, pp. 9 e 21, ADN F3/17/37/64. 
(26) Anexo D à acta da reunião de Comandos de 15 de Maio de 1973, Bissau, Arquivo Histórico Militar AHM/DIV/2/4/314/2.
(27) Bruce Loudon, “Portuguese rebels to get Russian MiGs” Daily Telegraph, 2 de Agosto de 1973, ADN, SGDN 3500.
(28) Humberto Trujillo Hernández, El Grito del Baobab, Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 2008, pp. 110-111.
(29) Marcello Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974, p. 180
(30) Silva Cunha, p. 318. 
(31) João Hall Themido “Dez anos em Washington 1971-1981”, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 145-146.
(32) Carta n.º 7221 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 20 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(33) Salvador Huertas, Dassault-Breguet Mirage III/5, Osprey Air Combat, Londres, 1990, p. 134.
(34) Nota nº 23/DAM-2 da Direcção dos Assuntos Africanos e Malgaxes, Assunto: Encomenda eventual de Mirages por Portugal, 27 de Fevereiro de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(35) Jack Gee, Mirage – warplane for the world, Macdonald, Londres, 1971, p. 65.
(36) Ficha para M. De Margerit: Aviões Mirage para Portugal (estacionamento), 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(37) Nota nº 1632 c/p do Comando-Chefe das Forças Armadas de Angola para o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Necessidade de aviões de caça a jacto para a 2ª RA, 4 de Maio de 1974, ADN/Fundo Geral Cx.7702.
(38) Nota do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Assunto: Cedência de Aviões de Ataque ao Solo, sem data, ADN/F1/42/186/59.
(39) Ofício nº 620 do Secretário de Estado da Aeronáutica para o Ministro da Defesa Nacional, Assunto: Aviões Aeromachi MB-326M (Impala), 7 de Julho de 1972, ADN, F1/42/186/62.
(40) Nota nº 75133 do Ministro da Defesa para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Assunto: Aviões de combate para Portugal, 11 de Abril de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(41) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.
(42) Silva Cunha, “O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril”, Atlântida Editora, Coimbra, 1977, p. 319.Nota sobre o encontro entre M. Jobert e M. Patrício no aeroporto de Lisboa, no dia 24 de Março de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.
(43) Carta do ministro dos Negócios Estrangeiros para o embaixador de Portugal em Washington, Lisboa, 23 de Abril de 1974, ADN, F3/14/29/4.
(44) Nota da Direcção dos Assuntos Económicos e Financeiros, Assunto: Venda de armamento a Portugal, 31 de Maio de 1974, AMAE, Europe 1971-1976 - Portugal - Caixa 3501.

Texto: José Matos
Artigo publicado em duas partes nas revistas Mais Alto de Nov/Dez 2012 e Jan/Fev de 2013