sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O QUISSANGE


O Quissange é um instrumento rudimentar que se encontra em quase todo o continente africano e que pode tomar várias formas. Compõe-se de uma tábua e de uma série de “teclas” sob a forma de lamelas metálicas com alguma flexibilidade para que possam ser dedilhadas. As lamelas são montadas sobre um suporte rectangular, de ferro, e o conjunto das teclas é mantido em posição por uma travessa que é amarrada à tábua por arames. O comprimento e a espessura de cada palheta metálica define o som que produz. O número de palhetas é muito variável. Pode ter ainda uma “caixa de ressonância” que amplifica o som. Dependendo da região, o Quissange pode ter vários nomes como, por exemplo, Kissange, Kalimba, Karimba e muitos outros nomes. Pode ainda ser chamado, mais tecnicamente, lamelofone.
Alguns modelos de Quissange

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Eu não era o único que, de vez em quando, “explorava” as zonas envolventes dos destacamentos assim como dos acampamentos que serviam de base a operações militares. A sós ou em pequenos grupos lá íamos num passeio a pé para matar o tempo e “fazer turismo”.
Numa dessas saídas entrei num quimbo e a dada altura ouvi uma toada que me chamou a atenção. Procurei a origem do som e, à sombra de uma palhota baixa, encontrei um velhote que cantava numa língua local.
Tocadores Quiocos
Pelo ritmo, acho que a canção não seria muito triste. Sentado no chão, de calções desajeitados e corpo mirrado, o velhote acompanhava a sua canção tocando um Quissange. Sem nunca deixar de cantar e sem se preocupar com a minha presença, sorriu um pouco quando me aproximei dele.
Penso que o velhote tinha feito o seu próprio Quissange o qual era particularmente simples e pequeno. Mas o som era agradável e fazia um conjunto harmonioso com a sua voz. As palhetas eram feitas de pregos achatados a martelo. A caixa de ressonância era meia cabaça. Um cordel atava a tábua à cabaça para que não se separassem uma da outra. O velhote, enquanto cantava segurava o Quissange entre as duas mãos e, com ambos os polegares, dedilhava as teclas produzindo o som que me guiou até ele.
Fiquei ali, de cócoras, junto ao artista, a ouvir aquilo que achei ser uma verdadeira maravilha. Mas fui o único. Mais ninguém no quimbo parecia notá-lo. O “concerto” já devia ser bem conhecido de todos.
Quando acabou a canção o velhote pousou o Quissange e voltou a sorrir. Devia estar surpreendido com o meu interesse pela sua actuação.
“Quero comprá-lo.” – disse-lhe eu, apontando para o Quissange. Mas ele não se convenceu e disse-me que não o vendia porque não tinha outro. Seguiu-se uma negociação amigável e divertida em que ele usou vários argumentos para me dissuadir do desejo de comprar o Quissange mas, perante a minha insistência, ele começou a ceder e eu avancei com a proposta irrecusável: “Pede o que quiseres que eu pago!” Foi aí que ele viu a oportunidade de me fazer desistir. Endireitou um pouco as costas, olhou-me nos olhos e, com um sorriso matreiro, pediu-me um preço que me iria deixar quase sem resposta: “Quero… dois e quinhento!”
Tive de fazer uma pausa e pensar um pouco antes de continuar. Na sua simplicidade e inocência ele tinha-me posto numa situação que eu não esperava. Num mundo que eu não conhecia, onde os valores materiais tinham outra dimensão. Tinha-me posto no seu Mundo. O que me estava a pedir era uma pequena fracção do que eu poderia e gostaria de lhe dar. Dei-lhe os 2$50. A sua expressão passou a ser uma mistura de surpresa, mas também de
vitória na negociação. Passei a ser o novo proprietário do Quissange e ele riu com vontade quando eu, sem sucesso, tentei tirar algum tipo de “música” do instrumento. Conversámos mais um pouco e depois dei-lhe mais 2$50. Ele agradeceu muito e eu parti com o Quissange. Imagino que o quimbo ficou sem música ambiente durante uns dias. O tempo de fazer um novo Quissange.
Já não me lembro onde isto aconteceu exactamente mas sei que foi na zona de Gago Coutinho.
Agora, quarenta e tal anos depois, eu ainda não aprendi a tocar Quissange e o “instrumento” deve estar agora guardado nalguma caixa junto com outras recordações dos tempos de Angola. Deveria tê-lo deixado ficar com o músico que o construiu pois teria sido muito mais útil para ele do que para mim.
Na nossa gíria de então nós chamávamos Quissange aos aparelhos de rádio (que davam a música). 

Por:

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A "CLEÓPATRA"

Sempre tive o bom senso e a educação caseira, de me relacionar com toda a gente urbanamente, até ao momento em que reciprocamente houvesse respeito e proporcionalidade no trato, independentemente de se tratar a nível militar de superiores ou inferiores, e a nível civil de conhecidos ou desconhecidos, da raça, religião ou partido, serve este introito para situar o que vos vou contar a seguir. 
República dos Tá-ri-rá-ris - foto de Aco

Do outro lado da avenida em que se situava a República dos Tá-Ri-Rá-Ris no Luso, existiam diversas vivendas de gente abastada para o nível de vida da generalidade da população. Numa delas viviam diversas jovens que estudavam no liceu, mais novas que nós, filhas de brancos que viviam noutras povoações e que alugavam quartos ou viviam com pessoas de família ou conhecidos dos pais, eram jovens com uma visão do mundo totalmente diferente das nossas, nós estávamos ali de passagem por causa de uma guerra que nos era imposta, mas que passado o tempo de serviço obrigatório, era uma realidade rapidamente esquecida a milhares de quilómetros do outro lado do mundo.
Para elas aquela era a sua terra, independentemente de nela terem nascido, e na generalidade dos casos, iriam casar com naturais da Província, constituir família e suceder aos pais nos negócios, mas na tal vivenda existia uma honrosa excepção.
O chefe dessa família, era um homem grande, gordo, bonacheirão e sincero de uma forma desarmante, suava muito, e quando queria alguma coisa de nós ainda suava mais copiosamente, talvez por isso era fácil depena-lo à lerpa, ou a outro qualquer jogo de cartas, tinha negócios de construção civil e de madeiras entre outros, e um grande problema que ele desejava resolver rapidamente, e a que voltava recorrentemente nas conversas, (quatro lindas filhas em idade de casar). 
Segundo ele, já estava muito gasto, não duraria muito mais, e tinha a obrigação de arranjar bons partidos para as suas princesas, bons genros que fossem de preferência brancos, inteligentes e trabalhadores para continuarem os negócios da família. 
Quando tivemos esta conversa pela primeira vez, às tantas eu já não sabia o que lhe dizer, gostava de conversar com ele sobre África, as suas riquezas, e o quanto aquela terra tinha para dar a todos, brancos e negros sem excepção se se conseguissem entender... mas a conversa descambou quando ele me perguntou directamente se eu gostava de alguma das suas filhas. Fiquei desarmado, eu nem sabia quais eram de facto as suas filhas e as que morando em sua casa, não tinham nada a ver com o que o afligia. 
Fui o mais sincero possível, tinha 21 anos, uma comissão pela frente, era ainda muito cedo para pensar em casar e constituir família, ele que não me levasse a mal, achava as suas filhas lindas, mas eram ainda muito novas para já as querer casadas e ele estava ali para durar e ainda tinha uma vida inteira pela frente. Estávamos na varanda da sala e olhei na direcção da sua casa, como era hábito na varanda do edifício estavam elas todas, as quatro filhas mais as outras que constituíam o "harém da casa amarela" como nós lhes chamávamos, e percebi que elas estavam atentas ao que se passaria ali. 
Mas afinal qual era a excepção, que o deixava fora do sério, a mais nova das irmãs, era uma jovem com uns dezasseis anos precocemente desenvolvidos fisicamente, era de facto linda, uma boneca de porcelana, de uma tez de marfim, um sorriso desarmante e completamente consciente do efeito que provocava nos homens, de seios fartos, olhos esverdeados e cabelos negros rebeldes, tinha o dom de amuar fingidamente quando sabia que tinha enredado na sua teia qualquer rapaz que borboletasse à sua volta, passava o tempo a levar os namorados do liceu lá a casa, talvez para nos fazer ciúmes, mas o alvo dela era de certeza um dos Continentais que a levasse dali para fora, pois o Luso era pequeno demais para tamanha ambição, e era isso que ele queria evitar a todo o custo. 
Depois de ter a conversa com o pai, fui avisando o pessoal para lidar com pinças com a "Cleópatra" era assim que lhe chamávamos carinhosamente, comparando-a com a outra que só com um mero olhar governava um império e escravizava qualquer homem que lhe interessasse. Uma distracção e um pequeno "pecado" levariam a um casamento forçado tanto pela parte paternal, como pela FAP, que o "Secarleste", não era para graças, no que tocava a "voos com acrobacias diurnas ou nocturnas não autorizadas". 
Passou o tempo fui para destacamento e esqueci o assunto, quando voltei, a primeira notícia que me deram ainda na placa, mal descera do avião, era que a "Cleópatra" tinha fugido com um furriel do exército. Passou o tempo e semanas depois voltou, o furriel tinha sido dado como desertor e foram ambos presos ao tentar embarcar para a Metrópole, ele por ser desertor com a agravante de raptar uma menor e ela por ser menor, pelo duplo crime, quando ele saísse da cadeia ela já teria cabelos brancos e rugas que chegassem para lhe esfriar a paixão. Ela voltou à sua cruzada, agora já podia fazer o que lhe apetecesse, para isso já dera o primeiro e decisivo passo, tornando-se ainda mais desejada e perigosa...

Luso 1971
OPC ACO 71/73

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O DIA EM QUE O LUSO FOI BOMBARDEADO !

Luso hotel
Bom não foi, mas numa guerra há sempre uma primeira vez! 
Às cinco da manhã ninguém se atreveu a acordar o general, só porque apareciam muitos pontinhos no radar, alguma interferência...pouco depois Pearl Harbour estava sob um imenso ataque aéreo...vem isto a propósito, que um dia em meados de 1972, pela uma da manhã é recebida no posto de rádio do batalhão um AVIREP, um relatório de avistamento aéreo, vindo de Teixeira de Sousa, informando que tinha sido avistado uma aeronave desconhecida a voar em direcção ao Luso. 
Era uma mensagem ZULU o grau máximo de prioridade, o operador tinha 10 minutos para a entregar a um oficial superior. Não conseguiu localizar nenhum. Então entra no Luso Hotel e diz: "L" acorda o nosso general, (comandante da Zona Militar Leste), assim foi feito e o cabo de transmissões cumpriu a sua missão, apresentando a mensagem.
O General mandou-o lixar e foi dormir.
No dia seguinte pela manhã, o meu pessoal pôs-me ao corrente do que se tinha passado, com a informação que o comandante tinha pedido a minha comparência logo que chegasse...lá fui eu. O comandante deitava fumo pelos olhos...e disse-me: quero saber quem foi o soldado que se atreveu a ir incomodar o nosso general à uma da manhã, para lhe dar uma porrada! 
Quartel do Batalhão Caçadores 3831 - foto de Armando Monteiro

Meu comandante, o soldado cumpriu as minhas instruções e está de acordo com as NEP (Normas de Execução Permanentes) que determinam que uma mensagem Zulu tem de ser entregue a um oficial superior em 10 minutos, o soldado cumpriu com o que está determinado, só lamento que o nosso general tenha tido a atitude que teve, já que estava em causa uma situação de risco, com a possibilidade de um ataque aéreo ao Luso. 

Haveria que dar o alarme, ligar os radares para prevenção e nada foi feito; quer dizer que o senhor é que é o responsável?
Sim meu comandante ! Como responsável pela formação e instrução sou eu o responsável, punir este soldado agora pode fazer com que futuramente mensagens importantes sejam atrasadas com grave perigo para a segurança. 

O homem resmungou e disse que me podia retirar. Retirei-me do gabinete e ao sair da porta reparei que quatro soldados do centro mensagens e centro cripto estavam no corredor a ouvir a conversa...ainda hoje se bebem uns copos e se repete esta história.
O Luso escapou...!







Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

BA7 - S. JACINTO - CURSO P2/69 "TOSKOS"

BASE AÉREA Nº. 7 - CURSO SARG. P2/69
DESIGNAÇÃO DO CURSO: “TOSKOS”
LEMA: Do desânimo das dificuldades para a alegria de vencer
MAIS 19 JOVENS PORTUGUESES RECEBERAM AS “ASAS” DE PILOTOS

Em avião militar, deslocou-se no dia 23 de Julho de 1970 à Base Aérea nº. 7, em S. Jacinto (Aveiro) o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, a fim de presidir às cerimónias de entrega de “brevets” do curso de pilotagem P-SARG. 2/69. Acompanharam-no os brigadeiros Jorge Noronha, Sousa Oliveira e Braz de Oliveira, respectivamente directores dos Serviços de Comunicações e Tráfego Aéreo, Material e Pessoal da Força Aérea; do coronel Pereira Vaz, director interino do Serviço de Instrução; e do coronel Alberto Bastos, chefe do gabinete daquele membro do Governo.
Coronel José F. Valente
Depois de ter recebido os cumprimentos do comandante da Unidade, coronel José Ferreira Valente, e dos oficiais que ali prestavam serviço, o brigadeiro Pereira do Nascimento dirigiu-se para a tribuna, onde já se encontravam o Governador Civil e o Presidente da Câmara Municipal de Aveiro me outras  individualidades.  
A iniciar as cerimónias, o comandante da Base Aérea nº. 7 saudou as entidades presentes, em especial o Secretário de Estado da Aeronáutica, pois a sua presença era um estímulo e uma honra para os 19 pilotos que iam ser brevetados.
Usou da palavra o comandante da esquadra de instrução, major piloto aviador Aníbal José Coentro de Pinho Freire que, dirigindo-se aos pais dos alunos disse poderem estes “estar orgulhosos dos seus filhos. Venceram um curso difícil, em que se exige um elevado grau de qualidades físicas, morais, psíquicas e intelectuais, porque as tem que possuir quem tem que desempenhar missões de grande responsabilidade que lhe irão ser destinadas. Chegam a este dia após uma dura selecção e constituem, com certeza, um escol. Por isso mais uma vez afirmo que podeis estar orgulhosos deles. Nós estamos”.   
Tribuna de honra em que falava o Major Pinho Freire – Comandante da Esquadra de Instrução

Depois de terem recebido os Diplomas, os novos pilotos desfilam em frente da Tribuna

E a terminar afirmou: “a Esquadra de Instrução de Pilotagem, como órgão operacional e razão de ser desta Unidade, entrega à Nação mais 19 pilotos que estão desejosos de mostrar o que valem e, tenho a certeza, saberão cumprir com galhardia, competência e disciplinadamente. Assim Deus os proteja e o bom senso não lhes falte”.
Seguiu-se a entrega de “brevets” que, como já é tradicional, foi feita pelos respectivos instrutores, após o que o Secretário de Estado da Aeronáutica e as outras individualidades presentes fizeram a entrega dos diplomas.
Depois do desfile em continência das forças em parada seguiu-se o desfile aéreo e exibição de algumas figuras de acrobacia por um avião “T-6”.   

Caso tivesse eu sido aprovado nos testes para o curso de pilotagem e conseguisse obter o “brevet”, provavelmente estaria presente nesta cerimónia!... O premiado, foi o piloto Semedo, meu companheiro nos testes durante 28 dias, realizados em grande parte na Rua Alexandre Herculano, perpendicular à Avª. da Liberdade, Lisboa. Passados cinco anos, (1974) estando eu a dar a volta ao país de mochila às costas e à boleia, encontrava-me a solicitar informações à recepcionista num Hotel de Elvas, perguntando-lhe se conhecia na cidade um piloto chamado Semedo. Coincidência, das coincidências…naquele preciso momento, ela apontou para a porta de entrada no Hall, e disse-me: Ali vai ele a passar!...Tinha seguido para Moçambique, e eu, para Angola!...

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 136 – Agosto 1970

Até breve                                                                                   
O amigo
Da série:


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

NO DIA EM QUE TODOS QUERIAM IR PARA A FORÇA AÉREA...

A estação de radares da Esquadra 11 do GDACI - Montejunto
A situação desenrola-se em meados de 1970, estava eu como aspirante no Batalhão de Caçadores 5 em Lisboa, a dar instrução de transmissões. O meu pelotão foi nomeado para protecção ao fogo que lavrava na Serra de Montejunto. Quase de improviso a meio da tarde, farda de trabalho, um casqueiro com uma febra dentro, meteram-nos num camião que nos levou de Campolide em Lisboa ao cimo da serra de Montejunto e disseram-nos aguarde!
Aguardávamos instruções, ou alguém deveria chegar para nos dar instruções, não havia fogo a combater em lado nenhum, visitámos o local. 
Cercado por arame estavam os radares, perto havia algumas ruínas e um frio que se
Capela da Senhora das Neves
começava a fazer sentir…por isso ali se guardava o gelo para a casa real, comemos o casqueiro e aguardámos…chegou a noite, tentei abrir a porta da igrejinha que existe por lá, a porta era 
resistente, acomodámo-nos no adro e aguardámos.
Pelas 10 da noite o pessoal tremia com frio e fome, estávamos abandonados no cimo da Serra de Montejunto…lembrei-me, que antes de chegar tínhamos passado por um quartel a uns 3 ou 4 km. Sugeri e pedi a um dos cabos milicianos, que descesse até ao quartel a ver se conseguia comprar uma garrafa de aguardente, para distribuir pelo pessoal, felizmente tinha levado uma nota de mil escudos.
Foi longa a espera até que se avistou uma viatura a subir a serra, chegou pouco depois um jeep, com a apetecida garrafa de bagaço para distribuir pelo pessoal…oferta do comandante da base aérea, além disso uma panela com café quente e não me lembro que mais. A mim ofereceram-me alojamento na base, o que declinei por entender não dever abandonar os homens na serra.
Quartel da Esquadra 11 - Montejunto
No dia seguinte uma viatura da base veio recolher-nos e tivemos um pequeno-almoço na base, com pãozinho quente à descrição e manteiga verdadeira, conforme realçou um dos soldados. Realmente não me lembro se nos deram almoço, mas a meu pedido voltámos à nossa missão de prevenção ao fogo no cimo da serra. Tentámos contactar o B.Caç. 5 com um rádio de dar aos pedais, a bateria já tinha esgotado, nada. O único contacto foi com o quartel-general em Lisboa, que contactou com o B.Caç. 5 e nos disse que iríamos ser recolhidos…fomos recolhidos pelas 4 da tarde…
Pão com manteiga verdadeira logo pela manhã! Houvesse por ali “boletins de inscrição” e a força aérea teria ganho mais 30 recrutas para as suas forças.
A mim ficou-me uma simpatia pela força aérea. Mais tarde em missão em África não me desiludiram.





Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

PRIMEIRA DE SETENTA - "OS SUICIDAS" !

3ª. Secção da 1ª. Esquadrilha, os (SUICIDAS)
Tentara ir para a marinha com 17 anos, mas a ausência da autorização Materna, (era orfão de Pai e amparo de Mãe) não me permitiu seguir as pisadas do meu Avô e Tio, marinheiros mortos em ataques de submarinos alemães quando abasteciam os Aliados. 
Aos 18 já adulto, e depois de ver os modelos de aviões de um MMA meu primo afastado, apresentei candidatura à Força Aérea e em 7 de Janeiro de 1970, fiz os exames médicos e como resultado fui alistado para todo o serviço Aeronáutico, como voluntário, terminando a recruta a 24 de Abril do mesmo ano.
Para os que como eu tiveram que tomar contacto com a instituição em longas filas de espera na enfermaria da BA2, em Janeiro (sem roupa) e com toda a gente aos berros connosco como se fôssemos gado, mandando-nos de médico para médico, consoante as especialidades e os exames foi um choque. Só a certeza de não querer ser atirador no Exército, me levou a não ter desistido logo ali. Conheci, nesse dia, aqueles com quem viria a passar uma longa e acidentada recruta, quer pela dureza dos instrutores, (todos paraquedistas), quer pelo suplício desses 3 meses de um Inverno rigoroso, pautado pelo frio e chuvas torrenciais. 
Por três vezes fomos (toda a secção) à máquina zero, no início, o corte "regulamentar", a meio e na véspera do dia de juramento de Bandeira, por choques de personalidade com diversas personagens. Dos quarenta que começámos dez fomos para OPC'S, tudo por culpa do 90/70, Monteiro, (Bandarra) (foto em cima - 2ª. fila, 3º. Esq/dta) desses chegámos ao AB4: Eu, o Zé Galo, (última fila, 4º. Esq/Dta) e o Gomes, (4ª. fila, 1º. Esq/Dta) ainda da mesma recruta, o Martins, o Cardoso, o Fernandes (Tim-Tim), o Costa, o Garcia e o Vilhete (Guineense).
Diz a "Voz da Caserna", que é na recruta que desabrochamos para a vida e nos tornamos homens, é lá que se aprende o vernáculo que nem imaginávamos existir, a lidar com todo o tipo de aldrabices, vigarices e todos os contos do vigário, mas também, que aprendemos a depender de nós próprios e a superarmo-nos nas nossas qualidades físicas e intelectuais. 
Depois à todo o repositório de figuras e "cromos" que só no caldo da junção de milhares de jovens oriundos do todo Português era possível. Que dizer do meu companheiro de beliche, o Luquinhas, (última fila, 4º. Esq/Dta) tinha um metro e noventa e cinco, cinturão negro de várias artes marciais, e uma vida aos vinte anos que muitos de nós nunca viveremos, tratava-me por "meu filho" e eu a ele por Luquinhas para inveja de toda a gente. Era o fornecedor para toda a recruta, de tabaco estrangeiro, whisky, revistas playboy e porno, e todo o tipo de tralhas que fossem proibidas ou não se encontrassem à venda em Portugal. Líder nato, era ele que carregava as "Mauser" e os mantimentos das patrulhas nas marchas, e marcava o ritmo para chegar-mos primeiro e sair-mos na sexta feira à hora do almoço. Era ele, o Zé Galo e o "Monas" (4ª. fila, 2º. Esq/Dta), que pegavam na enorme bola medicinal, que era posta no meio da parada, com uma Esquadrilha de cada lado, e ao apito do Capitão Lisboa, avançavam aos gritos parada fora até que a bola era introduzida na baliza passando pela Esquadrilha contrária. Num desses jogos de "brutbol" como lhe chamávamos, fiquei sem as mangas e parte das pernas do fato de macaco, pois tive a ousadia de no meu metro e sessenta e sete, me ter introduzido numa molhada de pernas e braços para receber a bola do Luquinhas e quando ia já a correr vitorioso para a baliza fui violentamente placado por uns quarenta que me caíram em cima. Ainda assim, com algumas nódoas negras, nessa sexta feira saímos mais cedo. 
Mas não eram só os grandes que eram conhecidos, o 98/70, Nunes, (1ª. fila, 3º.Esq/Dta), era a língua mais afiada da recruta, magro escanzelado, tinha um vocabulário típico dos bairros populares de Lisboa de onde era oriundo, que fazia corar as pedras da calçada, era ele que defendia a secção nos bate boca antes do recolher e na alvorada. Outro dos que se salientaram era o 90/70, Monteiro, "Bandarra", (2ª. fila, 3º. Esq/Dta), que já citei numa outra historieta, o 93/70 "Pinta-marada" (2ª. fila, 2º. Esq/Dta) que casou durante a recruta com a afilhada do maior construtor civil da "Península de Setúbal" convidando todo a secção para o casamento nos Jerónimos, e depois haviam os gangues dos Algarvios, Alentejanos, Setubalenses, e os Nortenhos, tudo boa gente. 
Cada andar de cada camarata tinha um "pronto", o do nosso tinha a mania de tocar dentro do edifício uma cornetada de alvorada para nos acordar, tanta vez foi avisado para não o fazer, que um dia de manhã alguém lhe mandou uma bota que por azar, acertou na corneta, partindo-lhe os dentes incisivos superiores e inferiores, como ninguém se acusou, ficámos os das secções junto da entrada onde ele dormia, de castigo perante as duas esquadrilhas a fazer flexões na parada. Quando alguém já não conseguia fazer mais flexões seguia para o barbeiro, até ao último, foi a minha segunda carecada na recruta.
Capitão Lisboa, o Alferes, e a nossa secção no cabeço do pardal, durante mais uma marcha 
A terceira levou-nos enquanto secção, a tomar uma decisão colectiva que nos podia ter custado a recruta e a expulsão da FAP. Perante os convidados oficiais militares e civis, no dia do juramento de Bandeira, cada secção fazia uma demonstração das várias disciplinas da recruta. A nós coube-nos fazer corrida, foi traçado um percurso que serpenteava pelas diversas secções enquanto faziam os seus exercícios. Quando passámos em frente da tribuna, o Alferes gritava "um" e nós batendo com o pé esquerdo no chão com toda a força teríamos de gritar, segundo o ensaiado, "um", mas em vez disso, quando passámos junto à tribuna, tirámos os bonés, e sempre que o Alferes gritava o número, nós respondíamos: "carecas". Levantou-se um burburinho na assistência e quando terminámos de correr o Alferes avisou-nos que nos preparássemos para o que aí vinha, tivemos direito à visita do TC Tomás, que nos avisou que agora passaria ele a estar de olho em nós dali para a frente e que nada seria como até aqui... Mas com tantos familiares civis presentes, lá escapámos a mais um castigo, também já estávamos carecas, que mais nos podia acontecer? 
Carnaval 70-Zé Almeida(Pára),Vilhete,eu
O Capitão da recruta era um Homem com AGÁ grande, no fim de semana do carnaval, desafiou quem quisesse, a levar um ultramarino passar o carnaval a casa, nem hesitei, o Vilhete era um Guineense descendente directo de um Rei Africano, tinha trazido com ele um outro Guineense, cuja família hà séculos que era a defensora do primogénito da sua raça, personalizado no Vilhete. Ninguém na terrinha percebeu o porquê de eu trazer para casa um africano, quando ainda íamos combater contra eles. Quando cheguei a casa com ele a minha avó, que nunca tinha visto um africano, benzeu-se mais de dez vezes, e após conversar-mos ela mais calma lá foi dizendo que tinha apanhado um grande susto por ele ser tão grande e preto como breu. Mas o melhor foi irmos a um baile trapalhão e toda a gente se meter com ele pensando que ele era o Ricardo Chibanga, um aprendiz de toureiro Moçambicano, que frequentava a Escola de Toureio do Patrício Cesílio, e quando tirámos as máscaras, toda a gente ficou comprometida com as partidas que lhe pregara pensando que era outra pessoa. 
Noutro fim de semana, o mesmo Capitão, pagou do bolso dele para que os mesmos africanos, viessem com ele a Lisboa ao Bairro Alto, convidou quem quisesse vir também, e foi o fim do mundo. Com mais de cinquenta carecas de farda cinzenta e capote desejosos de companhia feminina e muito álcool, a saírem do autocarro azul em pleno jardim de São Pedro de Alcântara, entupindo o trânsito, a formarem e a marcharem a cantar, direitos ao primeiro bar aberto com profissionais disponíveis, nem meia hora depois, estava o bar cercado de PA's, mas acabou tudo nos copos, e para os mais afortunados, nos quartos do 1º andar.

OTA Abril de 1970 
Soldado Aluno 96/70 

OPC ACO

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

MEU CARO GUIMARÃES:


O texto “Os Cavaleiros d`Anhara surgiu como uma revolta contra certos senhores que por aí andam a propagandear as dificuldades que tiveram de passar em Paris, com a mensalidade atrasada...e dizem-se esclarecidos, amigos dos povos, quando na verdade tentavam apenas salvar o traseiro ao conflito. Estou a escrever-te isto com a autoridade de quem contigo por ali andou, sentias que aquela guerra não era contigo, mas como muitos milhares tinhas compromissos sociais e familiares que não te permitiam uma simples retirada para Paris. Isto é particularmente importante quando penso que ambos tínhamos condições familiares capazes de nos apoiarem financeiramente nessa outra aventura.

...na minha terra um desertor dos campos da Flandes, na 1ª guerra mundial só ao fim de 35 anos pôde regressar...

Por outro lado fui convidado para um convívio dos Dragões de Angola, de que faziam parte o esquadrão de cavalaria com quem estivemos na Cameia. Impressionou-me saber que foram aqueles homens os últimos a abandonar Luanda às dez da noite do dia 10 de Novembro de 1975, duas horas antes de ser proclamada a independência, garantindo assim a segurança até ao último minuto. Não seria tão importante assim se não soubesse que todos eles foram de recrutamento angolano, por serem ali nascidos ou criados. Voluntários! A cada um foi questionado se queria partir ou ficar nesse último grupo e ficaram firmes, tenho assim de ter alguma admiração por eles.

Nesse convívio, o primeiro que frequentei depois de trinta anos, apercebi-me quão injusta tem sido a sociedade para com esses e outros milhares de jovens que como nós foram enviados para longe e ali cumpriram a sua missão e hoje andam pelos cantos dos cafés das aldeias envergonhados da missão que tão arduamente cumpriram. Pode-se acusar o sistema político, o soldado tem de ser respeitado, cabe a quem tenha a capacidade, recuperar e louvar esta memória colectiva e ando a ferver com este tema e sinto que algo tenho de fazer. Costumo dizer que não sou bélicista porque fiz a guerra, não sou pacifista, porque tenho medo da guerra.

Por mim foi também uma experiência humana enriquecedora, no sentido em que nunca tive uma experiência negativa na minha vida, tive sim algumas experiências que me custaram muito. Por isso e tentando rememorar a situação cá vou tentando reanalizar a situação que me levou até ao Macondo...

Se há coisas de que estou consciente é que nunca tive feitio para ser militar, um dia mandaram-me comandar uma companhia, precisamente a companhia sedeada na Calunda, bem lá no centro do saliente do Cazombo e a uma altitude superior a 1700 metros. 
Não sei se consegues imaginar-me nessa situação, mas no dia seguinte às oito da manhã lá estava eu com a barbinha feita a tentar manter as aparências. Estava consciente de que aquele grupo de homens, em caso de conflito esperava que eu o “seu comandante” tomasse as decisões certas, que garantisse a segurança e a vida daqueles homens que esperam isso mesmo do líder...e eu não me tinha oferecido para ali estar...
É costume dizer-se que por um sorriso vale a pena, hoje ao rever estas imagens, este sorriso, apesar de tudo este bebé rechonchudo penso que não foi em vão o tempo que por ali passei, sentia que a população se sentia protegida e muitas vezes me vinha dizer “anda bandido aí nos lavra a roubar comida”, Macondo, bem lá no fundo do Saliente do Cazombo foi onde passei os últimos quatro meses.
E muitas vezes me recordo desta passagem para a minha coutada privada para lá do rio Macondo. Ao ler hoje um pouco de história, ao saber que os portugueses ocuparam esta zona à menos de 100 anos, zona de disputa relacionada com o Mapa cor-de-rosa e também por causa da questão do Barotze. É que toda a província do Moxico faz parte já da bacia hidrográfica do Zambeze, da África oriental.

Eram as ideias da época, mas acima de tudo ideias de quem pensava em grande, vemos hoje a juventude portuguesa a admirar Cristóvão Colombo, porque a Coca-Cola o promove como o grande navegador, quando não passou de um subproduto da aventura marítima dos portugueses, em nada se podendo comparar com o feito de um Vasco da Gama e outros. Há demasiados carneirinhos de animação, que se julgam originais...sem ideias próprias, eternos risonhos amorfos, “os iluminados”.
O Macondo vem nos mapas, fica ao sul do Saliente do Cazombo, bem lá no Leste de Angola. Era apenas isto um posto administrativo à esquerda, um pequeno quartel à direita e uma pequena sanzala, era o destacamento mais a leste de Angola, e no entanto até um ministro zambiano por aqui passou...coisas secretas, planos a decorrer...estávamos em princípios de 1973.

Uma pequena sanzala onde morava uma população tranquila e é por isso que muitas vezes me recordo dos bons tempos que por ali passei. Apenas uma vez fiquei atónito quando na ausência do chefe de posto, me vêm pedir autorização para fazer batuque, porque razão eu um europeu no meio de África teria de estar a autorizar ou não a fazer batuque? Claro que adormeci com o troar dos tambores africanos.
Caçando Javalis com o meu companheiro José Mwoca à minha esquerda, elementos da população armados para auto defesa, as armas eram Mauser de 1904, tendo gravado nos canos D. Carlos I Rei de Portugal e dos Algarves... e era com eles, pisteiros extraordinários que corria as matas à volta do quartel. Os javalis eram tantos que atacavam as lavras de noite. Vês! Nós confiávamos-lhe as armas...

Fala-se muito do pouco que os portugueses por ali fizeram, por mim fico a olhar para esta escola e à sua localização, lá, muito mais longe que o “depois de” havia uma escola, um professor, um posto de enfermagem, que funcionava no quartel, não pretendo com isto defender o “sistema” então vigente, mas mostrar que alguma coisa se fez, coisas de que nos podemos orgulhar, havia boa vontade, outras razões, a história que as discuta.
Ainda hoje não me canso de olhar para este “diploma” que o Zeca António resolveu expor na parede da sua cubata, o seu diploma de 2ª classe e penso que mais que a guerra para onde me mandaram, por ali garanti a paz, ali permiti que outros Zeca António tivessem a sua escola e eu tenho muito orgulho em ter contribuído para isto e gosto de espetar este diploma na cara de muito boa e convencida gente...

Se juntares a isto alguns dos mais belos pôr de sol que alguma vez vi na minha vida, o que de alguma forma compensava as frustrações por que passámos, bem diferentes daquelas outras de que se queixam hoje em livros dramáticos aqueles outros esclarecidos “amigos dos povos”...Refugiados em Paris...
Mas houve outras compensações encontrei outras gentes e um campo fotográfico que se estendia de coisas simples como este moinho que seria quiçá a maior glória e alegria de um arqueólogo, mas que consegui fotografar “a funcionar”, captando o movimento daquelas mãos moendo o massango...dez mil anos de história neste balançar de mãos e um eterno sorriso nos lábios...

E ainda uma piscina privada com água corrente, pois foi construída em cima de uma nascente, vendo-se borbulhar a areia no fundo, é caso para pensar que nem tudo foi tempo perdido por ali. Falta expor o segredo do Macondo, um plano secreto para o futuro de Angola, em que participei activamente desde o Luso. Quem o sabotou?

Mas voltemos aos Cavaleiros d`Anhara em Agosto de 1971. Apesar de todas as contradições foi uma experiência única. Mais uma vez esta imagem contradiz algumas coisas que vão dizendo sobre aquela guerra...nunca mais esquecerei um comentário recente de um jovem de 40 anos. “Mas há soldados pretos aqui misturados...”

Lembro-me que o “Rapaz Amaro” o médico veterinário estava ali contrariado.
A mulher estava à espera do primeiro filho, tinha acabado o tempo e lá estava ele a tratar dos cavalos, longe da esposa com quem gostaria de estar nesses momentos. Mas chegou a tempo e a menina lá nasceu com a sua presença, cheguei a conhecer a menina e a mãe, formada em economia, nunca mais soube nada deles... 

Enfim noutros tempos poderíamos ter tido outras condições e ter ficado nas instalações turísticas do Parque Nacional da Cameia. Chegámos lá tarde de mais, ou cedo de mais, já que parece que estão a tentar recuperar o parque. Sabes que mais, apesar de tudo não deixei de andar por lá a fazer turismo...hoje rio-me ao imaginar-te a contar estas coisas aos netos...
Mas sim fiz algum turismo, muito voei naquelas longínquas terras, de onde trouxe histórias para contar. Começaria por esta vista aérea das quedas de Chafinda. Um dia mandaram-me lá fotografar isto mais de perto e fui...e cheguei a estar atrás daquelas quedas, afinal todas as quedas de água têm uma caverna por trás, Chafinda a tão bela, emocionante, traiçoeira e perigosa Chafinda...

E fui também às quedas do Dala que sobrevoei em Helicóptero

E fotografei Lagos e florestas encantadas

E as flores da Acácia Rubra

E as flores da Mangueira e flores selvagens que cresciam por lá

E fui à praça do Luso, a ver como era e vi torrar ginguba ali mesmo, orgulhosa uma mamã passeava a sua filha enquanto procurava Tuqueia e Bagres secos da Cameia

Na verdade não foram só os cavalos que vi por lá



Andei a cavalo na Cameia, voei nos Allouete III e nos T-6 Harvard, nos Noratlas ou Barriga de Ginguba, a jacto e hélice, atravessei o Zambeze em Zebro na Lumbala

Viajei para Teixeira de Sousa no Mala puxado por uma locomotiva a vapor, uma NONA, com serviço de restaurante de primeira classe, fotografei em Cangumbe uma GARRATT a mais poderosa locomotiva a vapor que alguma vez se fabricou

Bebi uns copos no Pica-Pau, fotografei os jardins do Luso, a praça e até as escolas

Fotografei esta maravilha da engenharia hidráulica no Rio Macondo.

Não imaginas as coisas que por lá havia entre a fortaleza de S.Miguel em Luanda e o soldado negro que, no seu castelo de formigas Salalé vigiava a fronteira, lá longe, na Caianda, no mais longínquo leste do saliente do Cazombo, bem no meio de África.


Mandaram-me a Luanda em serviço viajei por outra Angola, sem armas nem escoltas desci do comboio Mala e vi um menino negro de mão dada com um menino branco, uma menina passeava por ali, coisas simples, gestos de confiança.

Na verdade foi a minha mulher que reparou neste pormenor, escondido durante mais de trinta anos, mas vale por mil palavras.
E lá fui a Luanda de autocarro, vendo maravilhas pelo caminho,



E lá voltei à praia fluvial do Luena e aos jardins nocturnos do velho Luso


E fui ver os musseques, e as bananas a crescer e os tchinganges e os fontanários

Em dias de festa, no dia a dia, misturado no meio de um povo com formas de viver diferentes, com cultura diferente, mas onde não me senti estrangeiro, nos Bairros de Benfica, Espirito Santo ou Mandemboa, a todos corri com a minha mini-Honda.
Lembras-te do Avião do CFB que o Comandante do Batalhão usava como taxi aéreo? 
Da Aerangol que levava viveres e correio para todo o Leste de Angola?

Em todos voei, mas o T-6 Harvard era um avião mágico, cheguei a pilotar um deles, ou melhor “segurá-lo” sim! Por momentos pilotei uma daquelas máquinas

Tudo isto meu caro Guimarães para te pedir, que se um dia por aí no canto de um qualquer café de aldeia, vires um velho soldado daqueles que baralhado pela história e mais ainda pelas palavras oportunistas que exaltaram aqueles outros que em Paris se diziam defensores da liberdade dos povos e acabaram por entregar os destinos daquele povo aos oportunistas mandatados pelos grandes interesses internacionais, semeando por ali a barbárie e a guerra que plantou minas e mais minas onde outrora foram campos onde crescia o milho e a mandioca...Guimarães! Dá-lhe um grande abraço de solidariedade de minha parte, e diz-lhe que os heróis desta história não são os agora auto exaltados Rauis ou Rafaeis e outros Migueis, mas sim ele o soldado anónimo que sofreu na picada e nas vigílias nocturnas em abrigos duros, para que meninos pudessem continuar a comer tranquilamente o seu fungi sentados na esteira que a mamã estendeu. Foram os médicos que ali salvaram vidas, incansáveis e dedicados, foram os pilotos dos helicópteros, auto apelidados de Saltimbancos, que resgataram vidas.

Meu caro Guimarães, mandaram-nos a fazer a guerra e eu sinto que ali garanti a paz, por isso o meu soldado tem de ser respeitado, se alguma questão houver de ser levantada, falem com o general, ainda que também ele seja um soldado, mas ele saberá defender-se, ao soldado não deixes que o humilhe a história, diz-lhe que nada foi em vão e que lá longe, tão longe naquele infinito Leste de Angola, que as águas corriam já para o outro mar, levando-as o Zambeze até ao Indico, diz-lhe que um menino graças a ele teve escola e orgulhoso do seu saber lhe deixou em herança o seu diploma exposto ao lado da porta nº 29 da sua cubata na rua nº1 do Macondo, foi a sua maneira de dizer ao velho soldado, Foi graças a ti, que eu tive paz e a minha escola!        
Não foi em vão o teu sacrifício!

Março de 2005








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831