quinta-feira, 22 de outubro de 2015

40º. ENCONTRO DE ESPECIALISTAS DO AB4


Sábado, 14 de Novembro, das 11:30 ás 18:30 h 
No Espaço Leça Marina - Av. da Liberdade - Leça da Palmeira
GPS: Latitude (41.11' 18'' N) Longitude (8.42' 12'' W

Amigos, cá estamos para mais um Encontro!

Este ano é no Norte, mais concretamente no Concelho de Matosinhos, junto ao porto de Leixões, no Espaço Leça Marina (ELM), situado à entrada da Marina de Leixões, na Av. da Liberdade (GPS Latitude 41.11’18’’N Longitude 8.42’12’’W), em Leça da Palmeira, Porto, Portugal.
Como sempre, esperamos contar com a vossa presença, bem como das “avionetas” e de quem mais quiserem trazer. Serão todos bem-vindos, só têm que confirmar até 31 de Outubro, para

Fernando Chanana 917631596 fernandochanana@hotmail.com

PROGRAMA:
Recepção dos companheiros
11.30 – Buffet de entradas variadas
13.00 – Almoço : 
- Filetes de pescada com salada russa
- Corta-sabores de limão
- Miminhos com bacon, batata de forno, arroz, legumes e feijão preto
Sobremesa: - Rabanadas
- Mousse de chocolate
- Leite-creme
- Salada de fruta
Café e digestivos
16.00 – Animação musical
18.00 – Praxes e distribuição de lembrança alusiva 
18.30 – Mesa regional para lanche 
(Durante o Evento serão servidos: água, refrigerantes, sangria, vinhos tintos e brancos)
Encerramento
- Corte de bolo
- Elaboração de Acta, leitura e assinatura da mesma
- Eleição de responsáveis para o Encontro de 2016 (41º)

Valor por pessoa: 30€

Ao chegares a este local, devidamente identificado na foto, lado norte do porto de Leixões, vira à esquerda para o parque.
Junto à barreira, encontra-se um elemento, a quem deves mostrar esta folha, que deverás imprimir, e que te vai permitir a abertura da cancela.
Caso haja alguma dúvida, ligas ao Chanana (91 763 15 96)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A ENFERMARIA

Hospital do Luso, chegada de mais uma evacuação - foto de Armando Monteiro
A enfermaria era comprida, arejada, podíamos ver das janelas árvores.
O renque de camas numa das quais eu estava, virado para outra fileira, deixava livre um espaçoso corredor.
Havia militares feridos em combate, sobretudo minas, outros como eu feridos em acidentes. Na parede em frente, por cima da fileira de camas para a qual estava voltado, havia um nicho com um senhora de Fátima. Esta apelava à religiosidade de um oficial catanguês, dos que faziam a guerra ao nosso lado em Angola, ferido também, mais na mente que no corpo. Corria pelo corredor, uma vez por outra, a emitar o som de metralhadora trrá - tátá- tá e parava em frente do ícone e avisava-nos: "La Vierge Marie".
Durante os seis longos dias, há quarenta e cinco anos o tempo corria devagar, que estive na enfermaria do hospital militar no Leste de Angola, depois de sair de outros seis dias próximo da Morte, da sala de recobro e das máquinas, ninguém morreu nas fileiras de camas. Não houve necessidade de abrir biombos para não vermos a morte do outro.
Pensar sobre a morte, falar dela ou usar prodigamente o substantivo feminino em poesia, parece ser hoje um tópico de uma qualquer filosofia pós-moderna, mas quem já esteve com a Morte como vizinha e a dois fôlegos ou três de A encontrar, sabe que não há filosofia, nem poema, nem ensaio, que resista à experiência física. Porque a Morte é a única coisa da eternidade que se pode ver neste mundo.
Mas nem sempre com o pensamento na Morte, nem negando-A.
André Malraux no final do romance "A Estrada Real", negando-a de uma forma existencilaista, faz dizer a Perken, um dos personagens: "Não há... morte... Só existo... eu... eu que vou morrer."
Estas palavras moribundas e entrecortadas, não são, infelizmente, reais.

31-08-2015

© João Tomaz Parreira  



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

BA2 - OTA, 30º.ANIVERSÁRIO

14/4/1940 Foi inaugurada oficialmente pelo PR Óscar Carmona

BASE AÉREA Nº. 2 – DIA DA UNIDADE
30º. ANIVERSÁRIO – 14/ABRIL/1970

“Com a presença do Director do Serviço de Instrução da Força Aérea, comemorou-se a 14 de Abril, na Ota, o 30º. Aniversário da sua inauguração.
O programa das cerimónias constou de missa na capela da Unidade em memória do pessoal militar e civil da Unidade, já falecido, de formatura geral da Base, alocução relativa ao significado do dia, transmissão das funções de Porta-Bandeira, escolta e Porta-Guião e empossamento do pessoal escolhido, imposição de condecorações a oficiais, sargentos e praças galardoados no período decorrido entre 1969-1970, e desfile das Forças em Parad
a.
O brigadeiro piloto-aviador Krus Abecassis, depois de ter sido recebido à entrada da Base pelo coronel piloto-aviador Brochado de Miranda, Comandante da Base, passou revista à guarda de honra constituída por uma Esquadrilha de alunos com Guião e Fanfarra, comandada pelo capitão Sengo, dirigindo-se em seguida para o local onde se procedeu às cerimónias militares acima referidas.
Usou em primeiro lugar da palavra o Comandante da Unidade que começou por saudar o brigadeiro Director do Serviço de Instrução, dirigindo-se depois aos militares que assumiram as funções de porta-bandeira e sua escolta, a quem exortou a honrarem sempre a missão para que tinham sido escolhidos, ilustrando as suas palavras com exemplos colhidos nas páginas da nossa História, demonstrativos do valor da Bandeira como símbolo da Pátria. Seguidamente o Director do Serviço de Instrução procedeu à imposição de condecorações actualmente a prestar serviço na B.A.2 e a quem, desde o mesmo dia do ano passado, foi concedida tal distinção.” 

PALESTRA “30 anos ao serviço da Pátria” lida pelo capitão piloto navegador
Vítor Manuel Dias dos Santos

Cap.Vitor Santos




 “Há trinta anos que esta Base foi inaugurada".
Debruçando-nos um pouco sobre o seu passado, verificamos que as linhas mestras da sua história não se desfazem em cinzas, antes nos ajudam a compreender a razão que identificou o pessoal que tem servido a Pátria, nesta Base, com a divisa que alicerceia o seu brasão de armas: CUMPRIR ALÉM DO DEVER.
Este é o grito que continua a glorificar os que tombaram aqui! É ainda a ideia força que nos congrega para que a MISSÃO DA UNIDADE possa ser levada a cabo dentro da MISSÃO GERAL DA FORÇA AÉREA, intimamente orgulhosa em viver um dinâmico PRESENTE, alicerce para um melhor FUTURO, onde a nossa consciência possa encontrar a marca da nossa contribuição.  
A Base Aérea nº. 2 foi criada por Decreto em 31 de Dezembro de 1937 e oficialmente constituída em Unidade, com sede em Alverca em 17 de Dezembro de 1938.
Graves inquietações percorriam a Europa de então.
De Outubro de 1935 a Maio de 1936, decorre a guerra da Abissínia, fruto dos sonhos expansionistas da Itália fascista.
De Junho de 1936 a Maio de 1939, o território espanhol é devastado pelas competições ideológicas, no decorrer de uma cruel guerra civil, muito subsidiada pelos interesses das principais potências.
Inauguração oficial da BA2, 14/4/1940
Estas guerras isoladas, com características completamente diferentes, eram como que um negro pronúncio de acontecimentos trágicos em maior escala.
A Europa (e o mundo) vivia em ambiente dramático debaixo do peso da agenda de reivindicações alemãs.
A ocupação da Áustria e o desmembramento da Checoslováquia não deixa muitas ilusões aos mais optimistas.
Em Portugal, os governantes seguem atentamente a deterioração da situação política no continente fratricida.
Não foi pois que acaso que, a 26 de Março de 1940, o Comando e Serviços da Base Aérea nº.2 se instala no novo, amplo e bem concebido aquartelamento, acabado de construir sobre os terrenos que pisamos.
Qualquer observador desprevenido poderia observar o alto entusiasmo em que decorreu o acto de inauguração em 14 de Abril desse mesmo ano.
Nesse dia já se admitia que havia algo de mais profundo do que uma simples festa de nascimento de uma infraestrutura militar.
Estava marcada, e bem demarcada, uma chamada à realidade da II Grande Guerra que estendia os seus tentáculos destruidores.
                       1955-F84G na linha da frente-20ª. Esquadra de Caça
Tratava-se pois de um acontecimento de assinalada importância na vida Nacional, no aspecto da Defesa; e a alta temperatura do termómetro era-nos indicada pela presença dos mais destacados responsáveis pelo Governo da Nação: o venerando Chefe do Estado, general Óscar Fragoso Carmona; o Presidente do Conselho de Ministros da Guerra, Doutor Oliveira Salazar; o Ministro da Marinha, Comandante, Ortiz de Bettencourt; o Subsecretário da Guerra, capitão Santos Costa; o Comandante da Aeronáutica, brigadeiro Ribeiro da Fonseca, entre outras individualidades.
Foi neste pulsar que nasceu a Base Aérea nº. 2.
Ninguém se pode admirar que o seu pessoal tenha pressentido, desde o início, as
1959-Visita do Imperador
Selassié da Etiópia
graves responsabilidades que lhe cabiam.
O povo das cercanias depressa se familiariza com os ruídos e evoluções, tão curiosas como arriscadas, dos aviões que constituem as primeiras unidades operacionais: 15 aviões “Gladiador”, famoso biplano dotado de uma manobrabilidade espantosa, equipam uma Esquadrilha de caça que, pela primeira vez em Portugal, executa acrobacia em conjunto, de muito mérito; 10 aviões bimotores “Junker 86” formam um grupo de bombardeamento diurno a 2 esquadrilhas; 10 aviões trimotores “Junker 52” constituem-se um grupo a 2 esquadrilhas de bombardeamento nocturno.
Pode afirmar-se que a parte visível da grande infra-estrutura era o menor bem que se adquirira.
1961-A primeira recruta na Ota
Invisível, para muitos, estava uma nova orientação no sentido de remodelações nos aspectos de conduta técnica e mentalização do homem, que colocasse a nossa aviação militar a par das suas congéneres estrangeiras.
Oficiais de nova vaga sentiam a ingente necessidade de serem dominadas novas técnicas de administração e de voo, estas últimas a serem descobertas e utilizadas nos combates entre aviadores aliados e do Eixo.
A neutralidade que Portugal proclama podia ser quebrada a despeito da pertinácia e habilidade diplomática com que os nossos governantes a defendiam.
A batalha do Atlântico confere às ilhas dos Açores uma importância vital. E em 1941 para ali é destacada uma esquadrilha expedicionária equipada com aviões “Gladiador” seguindo-se-lhe, mais tarde, aviões “Junker 52” e “Mohawk” com as suas tripulações e outro pessoal.
1968-A torre de controlo
É durante a fase crucial do conflito 1943-1944 que a BA 2 recebe além de 18 avões “Aircobra”, rápidos e aerodinâmicos caças de fabrico americano, alguns bombardeiros médios “Dlenheim” e cerca de uma centena de aviões de caça da mais feliz concepção, “Hurricanes” e “Spitfires” que vieram transformar completamente o cenário da actividade aérea militar do nosso país.
Com efeito, a nossa aviação militar, em particular a Base Aérea nº. 2, estava equipada não só em quantidade como em qualidade.
Nestes céus que nos servem de cúpula os pilotos, a despeito das dificuldades existentes com o abastecimento de combustíveis ao País, queimaram a diminuta dotação que lhes cabia num treino porfiado, intencional e cada vez mais qualificado.
Quer nas messes, quer no hangar vivia-se um clima eufórico de alegre desafio; no ar esse desafio era diário; a emoção controlada um facto; o espírito de corpo um pacto da razão com o sentimento; a frivolidade nos hábitos e a rotina no serviço não tinham lugar.
Anos: 1967 - 1968 - 1969
Os “Hurricanes” tinham sido distribuídos por outras unidades (Tancos, Espinho, Sintra e Portela) e ficavam na Ota 3 esquadrilhas de “Spitfires”, 1 esquadrilha de “Aircobra”, além dos grupos diurno e nocturno de bombardeamento já enunciados.
1952 marca uma nova etapa na história das realizações.
É activada a Subsecretaria de Estado da Aeronáutica, e fundidos os ramos da aviação do Exército e da Marinha.
A união faz a força!
Recebem-se novos e mais evoluídos aviões, os caças  “F-47 Thunderbolt”, para operarem na Base Aérea nº. 2 que, segundo a nova reorganização, dispõe de um grupo de caça diurna constituído por 4 esquadras formadas, cada uma, por 4 esquadrilhas, a 25 aparelhos e 25 pilotos por esquadra.   
1970 - turma de Melecs
As exigências da BA 2 forçam a que outras unidades lhe cedam parte do seu pessoal.
Estas esquadras não são propriamente um fim. São um meio avançado de treino que procura enquadrar o pessoal da Força Aérea num ambiente técnico propício a novo salto em frente na senda do progresso: a utilização dos aviões de reacção que começam a chegar em fins de 1952.
Reacende-se o arrebatamento dos tempos da guerra.
Jovens oficiais treinados na América e na Alemanha neste tipo de aviões vêm verter na Ota o entusiasmo de pioneiros enamorados da missão que o destino lhes reservara.
Cursos magnificamente conduzidos preparam, no chão,
1971-Maj.Catroga, T.Cor.Tomaz
e Maj. Noronha
gente do ar e de manutenção. A Esquadra “T-33” formada em 1953 forja ininterruptamente pilotos de reacção que são imediatamente lançados no terreno operacional programado nas esquadras de “F-84 Thunderjet”.
Observa-se o tipo impecável das aterragens deste ou daquele; olha-se com admiração e discute-se a fineza da figura acrobática singular ou de conjunto.
Vive-se no ar e no solo, mesmo entre pessoal terrestre, o gosto pelas comparações, a necessidade de fazer mais e melhor, entre as esquadras, entre as esquadrilhas da mesma esquadra, entre os comandantes, diálogo determinante de um sentimento de emulação que obriga a um máximo nos empenhamentos pessoais, sem comprometer a sagrada lei da camaradagem e subverter a disciplina.
1978- Cerimónia de despedida do T6
Os elementos da manutenção e outros serviços dão um rendimento, com sempre, muito acima das expectativas. Num organismo de múltiplas facetas sem a harmonia das partes que se interpenetram e se completam. Ninguém, em particular, merece relevâncias. O todo é a única unidade válida de medida.
1969 - Alunos em marcha  e 1991 - 1ª. Recruta feminina. Contrastes !
Em 1956, 2 esquadrilhas de F-84 (oito aviões) saltam metade do Atlântico, em direcção do ocidente, aterrando nos Açores, provando a possibilidade de, em caso de emergência, serem para aí transferidos meios de combate em poucas horas dentro da mais perfeita semelhança da actividade real de guerra que merecem os mais altos elogios de personalidades ligadas ao Pacto do Atlântico Norte.
1957 transfere para Tancos a Esquadra de Instrução equipada com T-33.
1958 vê chegar à Ota os novos aviões “F-86” que formarão a Esquadra 51 com destino a Monte Real.
A vinda deste tipo de avião mantém o ritmo de rejuvenescimento: mais velocidade mais poder de fogo. Os pilotos portugueses vencem a barreira de som…
2015 - 75º. aniversário da BA2

Até que em 1960 se dá um verdadeiro golpe de teatro:
-É extinto o grupo de caça.
-Criado um grupo de instrução a 2 esquadras, transporte e reacção, esta regressada da BA 3 e aquela, dotada com aviões bimotores “C-45” e “C-47”, que segue em 1964 para os Açores.
-É criado o Grupo de Instrução de Técnicos e Especialistas (GITE).
A missão da BA 2 mudou radicalmente.
Mudou no aspecto, não na importância.
Na década dos anos 60 Portugal de novo espanta o mundo combatendo a alegada mudança dos ventos da história.
Conhecemos outros ventos:
    - Os ventos mouros dos tempos da reconquista cristã, início da nacionalidade.
     -Os ventos castelhanos das lutas pela independência, do Mestre de Avis e em 1640.
     - Os ventos desencadeados pelos mostrengos do mar oceano na época de 500.
Tal com outrora jogamos uma cartada de vida ou de morte.
E é neste jogo que a BA 2 toma lugar cimeiro, preparando pessoal da Força Aérea para servir em todo o espaço Português.
Todos os anos esta Unidade se enche e esvazia diversas vezes em partos laboriosos de mocidade que entrou menina e sai adulta a integrar-se na defesa dos nossos sagrados interesses acobertados pelo Direito.
Isto de ser Português, isto de se ter a sorte de contribuir para o Bem Público pela via da Base Aérea nº. 2, é fenómeno que:

MAIS VALE EXPERIMENTÁ-LO QUE JULGÁ-LO MAS JULGUE-O QUEM NÃO POSSA EXPERIMENTÁ-LO.

Fotos: 
1 – Brig. Krus Abecassis a fazer a imposição da medalha de prata de serviços distintos ao TC piloto-aviador Febo Vargas de Matos
2- O Director de Serviço de Instrução, Brig. Krus Abecassis, condecorando com a medalha de ouro de comportamento exemplar o cap. De serviço geral Adriano Vaz Garção
3 – O cap. Piloto navegador Vítor Manuel Dias dos Santos lendo a palestra “30 anos ao serviço da Pátria”
4 a 18 – Fotos extraídas do Blogue http://ab4especialistas.blogspot.pt/ - Álbum da OTA
          
           
Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 133 – Maio 1970

Até breve                                                                                   
O amigo 









Da Série:


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O COMANDANTE JOÃO DA CRUZ NOVO


O Comandante Ten. Coronel João da Cruz Novo, (filho de gente da Ria de Aveiro...como eu) chegou ao AB4 em 1966 e terminou a comissão nos fins de 1968. 
Era um homem diferente de muitos outros, constava-se, que além de óptimo piloto, seria um dos melhores cartógrafos portugueses, e como não gostava de se baixar, os outros do seu tempo eram generais, e ele, como homem honesto e de princípios…provavelmente não passaria de coronel!
Em 1968, o ministro do Ultramar Silva Cunha, visita Angola. O roteiro pela província, contemplava uma visita a Henrique de Carvalho. Pois nesse dia, ele foi dar uma volta e não compareceu á “protocolar” recepção ao ministro. Quando regressou, na Messe dos Oficiais, alguém da comitiva lhe perguntou a razão porque não tinha estado presente, e ele com a sua bengalinha a girar, respondeu, eu tenho mais que fazer, e regressou ao CA dizendo que não tinha que dar satisfações aquela gente, este era o Cruz Novo.
Visita do ministro Silva Cunha - foto de Ze Paes
Nesse dia o Sargento PA Neves, um bocado "parvalhão", era ao mesmo tempo o fotógrafo “oficial” da Base, e foi fazer a reportagem da visita do ministro, com uma nova máquina Yashica, dizendo, que tinha num rolo profissional cerca de 80 fotos, que afinal nunca tinha entrado na dita.
Floriano no CA do Comando
No CA, a porta ao meu lado dava entrada para o gabinete do Comando, recordo-me de um Sargento,
que participou de um Cabo, o Capitão Policarpo da Secretaria, não gostou e foi falar com o 2º. Comandante Major Pinho Freire, mas foi o Cruz Novo que o atendeu, ouviu, e mandou chamar o tal Sargento, para mim tem um certo sabor, disse ele Cruz Novo, que aquela malta tinha deixado família, amigos e noivas, outros já eram casados, que eram uns rapazes do melhor que havia, portanto ele estava a mais, e despachou-o para o Camachilo.
O João da Cruz Novo, era de facto uma pessoa aparte, era uma pessoa que pensava por ele mesmo, naquilo que eu sempre assisti, foi sempre um protector dos mais pequenos, embora poucos não se apercebessem disso.
Este, era o João da Cruz Novo que eu conheci, que se sentava connosco a contar anedotas e por brincadeira dizia, que o Pinho Freire era o “Comandante da Pecuária”, aliás afirmação que não deixava de estar correcta, pois era uma das atribuições do 2º. Comandante, gerir a Agropecuária da Base.
Ainda sobre o Major Pinho Freire, deve-se referir, que sendo um desportista praticante, a ele se deve a construção do ringue de andebol e futebol de salão.
Mas, voltando ao comandante Cruz Novo, havia uma serie de pilotos, que tinham medo de pisar o “tapete verde”, se não perguntem a alguns que passaram por essa situação.
Pessoas com medo dele? Esses eram os pilotos ao tempo, o Capitão Acabado sabe bem o que eu digo, e não só, o Capitão Águas e outros, ficavam ali paradinhos para prestarem contas, o que se safava era o Capitão Neto Portugal, que levava aquilo na paródia, porque estava bem protegido. 
23/5/1968 acidente de Neto Portugal
Quando o Capitão Neto Portugal se “espalhou” no Cazombo, (eu digo que se espalhou, porque foi isso que ali no Comando foi dito), ele nessa altura foi teimoso e não tinha condições para fazer o voo e foi arrancado de dentro do avião por um rapaz do Porto, mas deram os “louvores” ao Manuel das “pedras”, que apareceu depois e o transportou num Jeep.
O que o Cruz Novo gritou contra essa injustiça, mas de nada lhe valeu. Era um homem que como dizia, era responsável pelo Comando Operacional, e como tal não queria, que os pilotos andassem a praticar tiro ao alvo a gente que não se podia defender.
Esta é a opinião sucinta, de quem conviveu de perto o dia-a-dia do Comando de João da Cruz Novo. Será susceptível de opinião divergente, mas, penso ter marcado uma época do AB4, como homem e Comandante, de quem infelizmente, julgo, nos temos esquecido um pouco.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

OS CONTOS DE JACK

JACK NÃO DISCUTIU COM DEUS

A noite escondia o espectáculo. A viatura militar estava espalhada pelo terreno carregado de arbustos e raízes como pequenas facas. Dois dos ocupantes, também feridos, estavam perdidos no escuro. Jack estava sozinho com o corpo numa estranha posição. A perna esquerda partida dobrada, estranhamente parecia estar sob as costas.

A "estrada" para a cidade 
-Jack, onde estás?- ouviu uma voz gritar. Era um dos companheiros sinistrados.
Virou a cabeça para onde estava a voz.
-Aqui! Tentei, mas não posso levantar-me – disse com uma voz que não era de todo a sua, fraca, apagada, mortal.
No ar havia um cheiro que denunciava qualquer coisa, combustível, fogueiras mal apagadas, a proximidade de uma sanzala, qualquer coisa que poderia, de repente, eclodir dentro da cabeça de Jack.
Pensava que não podia morrer. Os primeiros- socorros que chegaram, no “Jeep” da ronda, foi isso que disseram: “Ninguém morre neste estado!” Disseram-lhe para o animar. Jack já tinha pedido isso mesmo a Deus – que o não levasse - , quando recobrou do que deveria ter sido um tremendo choque no chão. Foi a mais pequena oração que Jack fizera na sua vida, até àquele dia. E nunca mais pensara no caso. Quando se está a um milímetro da Morte, pensa-se em quase tudo, menos nela. Perdia os sentidos e recobrava-os, perdia-os e voltavam, assim até chegar à enfermaria da Base militar.
- É o Jack – ouviu dizer nuns rostos esfumados dos companheiros que se juntaram para ver passar a maca, à porta da enfermaria.
-Houve um acidente lá em baixo, perto já da Vila.
- O condutor estava com uns “copos”.
-Eu disse ao Jack para não ir – retorquiu o Anthony.
- Quando amanhecer o Beech vai evacuá-lo para o hospital militar do Luso.
-Como está, não deve escapar!
Jack não discutira com Deus, não tinha tempo para isso, não perguntara “-Por quê eu?! -, aquelas frases de quem se acha com direitos divinos.
É quase sempre perto da Morte que a nossa dependência de Deus deixa de ser teológica, de confissão religiosa, e passa a ser física – foi o que Jack pensou, nos muitos dias seguintes ao que lhe aconteceu.
© João Tomaz Parreira


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FRAGMENTOS DA MEMÓRIA


Trecho de "Fragmentos da Memória"
---O Ti Nicolau surgiu na borda do rio, cigarro apagado a enfeitar a boca falha de dentes , naquele sorriso matreiro que a todos cativava. Com a mão esquerda movimentava lentamente o remo, na tentativa de encostar o barco à margem. Vinha sentado no banco, tábua rasa que unia os lados da velha carcaça de pesca, num balouçar atrevido que nos desafiava para uma volta pelo "braço" da Congida. 
Bom dia, pessoal. Hoje não se vê nada de jeito! Umas boguitas e uns escalos e já é um pau...
Tens muita sorte, atirou meu avô. Estamos aqui desde as sete da manhã e nem uma escama.
-Ó Eugénio, valha-te Deus!... Então que estou eu a fritar nesta sertã?- Riu a avó Zaira.
-Ora, já te “descaíste” mulher! Esse figurão está aqui, está a saltar para terra. Prepara o "quedorno" que companhia já temos!...
Nesta altura já o ágil pescador saltava do barco e punha o pé num morro de terra húmida, vestida de junco solto, bem perto da água. 
-Estão grandes os raparigos, são os do Antoninho!.. 
-Sim, são os "esmelgos" gostam muito de vir até aqui. 
O Ti Nicolau sorriu, fez-nos uma careta ternurenta que forçou um leve sorriso no nosso rosto, há muito focado noutro local. 
O meu irmão, só via uma coisa naquele rio. Eu acompanhava-o naquele olhar cheio de querer e fascínio. No lado de lá daquele "braço"de água, sentado numa rocha, o Luciano esperava a vontade para mais um mergulho. Não demorou muito, levantou os braços bem ao alto e aí vai ele como um torpedo a deslizar ao sabor do impulso. 
Quando emergiu, iniciou a travessia com braçadas largas, bem ao seu jeito, rumando na nossa direcção. Levantámo-nos e fomos até junto do barco atracado, pelo pescador. O Luciano, naquela sua fina maneira de nadar, estava cada vez mais próximo. Era a hora de estarmos perto dele. Deslizou suavemente depois da última braçada, o barco ondulava com a aproximação do nadador. Agarrou a proa e num leve esforço, apanhou chão seguro na margem do rio. Sentimos a sua mão molhada a saudar-nos o rosto. O nosso herói estava junto de nós, espera de desejo cumprido. Dentro de breves momentos voltaria até ao outro lado, num vai vem ininterrupto, a que, só o final do dia, punha fim. 
Anos mais tarde, o rio foi com ele para a eternidade, jovem e cheio de esperanças, abraçou aquelas águas e resolveu partir para onde os rios desaguam no céu. 
Bragança já era casa da nossa adolescência, quando ...


Novembro 2003

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AB3 - NEGAGE, O 9º. ANIVERSÁRIO

A.B. Nº. 3 – NEGAGE – 07/FEVEREIRO/1970

9º. ANIVERSÁRIO

Decorria o ano de 1970, mais propriamente no dia 7 de Fevereiro em que se comemorou o “Dia da Unidade” no Aeródromo-Base Nº.3, com o seguinte programa: 
Içar da Bandeira com honras prestadas por uma companhia de Polícia Aérea, sob o comando do capitão Brito. Presidiu à cerimónia o comandante da Unidade, acompanhado por representações de oficiais, sargentos e praças das várias especialidades. Celebrou-se depois missa na Capela da Unidade em sufrágio dos militares falecidos, a que se seguiu formatura geral. 
As cerimónias encerraram-se com a entrega de seis novas moradias aos sargentos, no seu novo Bairro.

ALOCUÇÃO PROFERIDA PELO COMANDANTE DO A.B.3, TEN. COR. PIL. AV. OLIVEIRA BELO

T.Coronel Oliveira Belo
“Em primeiro lugar os meus sinceros agradecimentos às entidades militares das Unidades do Exército aquarteladas no Negage que com a sua honrosa presença atestam a estreitam cooperação que se tem mantido no cumprimento da missão.
Passa hoje, dia 7 de Fevereiro de 1970, mais um aniversário da fundação do Aeródromo-Base Nº. 3, é ele o nono.
Estamos aqui reunidos, em festa puramente militar, para relembrar esse momento assaz feliz em que, pelos chefes responsáveis pela Força Aérea, foi tomada a decisão de fundar o A.B.3 no seio do Norte de Angola onde com orgulho temos vindo a servir. 
Nesta festa tão simples há duas cerimónias caracteristicamente militares e de valor transcendente para todos nós portugueses, militares e civis.
A primeira a que acabámos de assistir, resumiu-se na investidura dos militares que, durante o corrente ano, terão a suprema honra de empunhar os símbolos da Pátria Portuguesa, da Força Aérea e desta Unidade.
A segunda a que iremos assistir dentro de breves momentos, é uma homenagem em memória dos mortos da Unidade e da Força Aérea, concretizada por um minuto de silêncio.
Com estas duas cerimónias quisemos vincar, para sempre, a nossa determinação inabalável de nos batermos pelo mesmo ideal porque eles lutaram e morreram.
No âmbito da missão atribuída às forças Armadas – defesa da integridade do território Nacional – à Força Aérea incumbe o seu cumprimento no espaço aéreo compreendido, actuando pelo ar, no ar e em terra.
Empenhada nesta tarefa se encontra esta Unidade desde os momentos cruciais de 1961 e desde aí tornou-se num dos baluartes da defesa do Norte da província, digo mesmo de toda a província, pois as asas que aqui se acoitam têm vindo, continuadamente, a estender a sua acção às mais longínquas paragens. Desde o Zaire ao Cunene, a Cabinda, ao Cazombo e às terras do fim do mundo, quase não há pista nesta Angola imensa donde as asas do A.B.3 não tenham actuado.
Tribuna
Não nos cabe a nós louvar a acção de inestimável valor desta unidade, (louvor em boca própria nunca foi do nosso agrado) mas é-me muito grato poder afirmar que os anos de 1967, 1968 e 1969 foram, até agora, os de maior rendimento operacional desde a fundação do A.B.3. 
Isto quere dizer que todos, sem excepção, rendemos mais e que a capacidade operacional se manteve praticamente inalterável não obstante a redução sensível em meios, pessoais e materiais. 
Merece uma referência especial o ano findo em que o A.B.3, respondendo a todas as solicitações que lhe foram feitas, cumpriu a missão com apenas dois acidentes, cujas consequências não foram além de uma aeronave destruída não havendo qualquer fatalidade a mencionar no pessoal. 
Ao constatar os óptimos resultados obtidos no ano transacto não quero deixar passar esta oportunidade sem manifestar o meu muito apreço a todo o pessoal, militar e civil, que, de algum modo, directa ou indirectamente, sem distinção de hierarquias e especialidades, para eles contribuiu.
Os nossos chefes confiam em nós, porque, desde sempre, o pessoal que aqui trabalha tem sabido cumprir o seu dever com uma dedicação e um entusiasmo que me apraz realçar e me permite afirmar que podemos continuar a ir em frente com o nosso trabalho e no rumo encetado, com a certeza de que as qualidades evidenciadas até agora serão mantidas intactas. 
Esta confiança e esta certeza que o A.B.3 tem afirmado desde 1961, não com palavras, mas com factos, com obras, com o vosso trabalho e o vosso querer tem penetrado em todos os sectores, tanto civis como militares. 
A prontidão com que satisfazemos os pedidos de apoio aéreo tem sido elogiada vezes sem conta pelos beneficiados, civis e militares.
O ambiente de esperança firme, mesmo de segurança que se vive nestas paragens desde 1961, o qual tem permitido o afluxo de pessoas, de bens e investimentos foi, sem dúvida, fomentado pela implantação desta Unidade.
Entrega da bandeira e guião à nova escolta
Quando aqui chegou a Força Aérea e começou a construir, de pedra e cal, convenceu por obras que estão à vista de todos, aqueles cépticos e desanimados, que estas terras nunca deixarão de ser portuguesas. 
Depois desta caminhada admirável de nove anos em que numa continuidade impressionante e serena nos temos mantido, podemos e devemos revigorar o nosso moral de forma a podermos vencer os obstáculos que com certeza as invejas e as cobiças alheias semearão na nossa rota. 
Mais do que nunca necessitamos de estar atentos e vigilantes no cumprimento dos nossos deveres de militares e Portugueses. 
Só nos podemos desempenhar desta responsabilidade suprema se pusemos em todas as acções e na execução das tarefas atribuídas toda a nossa inteligência, saber, dedicação e interesse. 
Em cada momento deve existir a preocupação de bem servir e a insatisfação constante na procura do aperfeiçoamento que nos conduz ao melhor rendimento.
A falta de condições ou de possibilidades da Unidade nunca serviram de justificação para o não cumprimento do dever, pois independentemente de quaisquer factores nesta Unidade sempre se cumpriu. 
Os fundadores do A.B.3, em 1961, cumpriram e de entre vós há quem possa testemunhar como era então esta Base – ausência total de tudo o que os nossos olhos agora podem contemplar. Tudo o que vemos não passava de um sonho dourado há nove anos, mas essa gente de então, militares e civis, porque quiseram, muito puderam e nós, porque queremos, vamos poder.” 


NOVAS MORADIAS NO BAIRRO DE SARGENTOS DO AERÓDROMO-BASE Nº.3
Imóvel visto de frente
No passado dia 7 de Fevereiro, “Dia da Unidade”, realizou-se no Aeródromo-Base Nº.3, no Negage, a cerimónia da entrega de um imóvel no novo Bairro de Sargentos, composto por seis moradias. Quatro das referidas moradias foram construídas sob o patrocínio do comandante da 2ª. Região Aérea, general Viana Tavares. As duas restantes devem-se à iniciativa do comandante da Unidade, tenente-coronel piloto-aviador António Duarte de Oliveira Belo. O “Dia da Unidade” foi assim um duplo dia de festa para os sargentos do Aeródromo-Base nº.3, graças à concretização de uma obra a todos os títulos meritória.
Capelão Alf. Casimiro Ferreira Alves benzendo as moradias e Comandante do AB3 no momento da distribuição das chaves das 6 moradias
Ten. Cor. Oliveira Belo falando aos Sargentos após distribuição das chaves

 Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 131 – Março 1970

Até breve                                                                                   
O amigo 








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