sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FRAGMENTOS DA MEMÓRIA


Trecho de "Fragmentos da Memória"
---O Ti Nicolau surgiu na borda do rio, cigarro apagado a enfeitar a boca falha de dentes , naquele sorriso matreiro que a todos cativava. Com a mão esquerda movimentava lentamente o remo, na tentativa de encostar o barco à margem. Vinha sentado no banco, tábua rasa que unia os lados da velha carcaça de pesca, num balouçar atrevido que nos desafiava para uma volta pelo "braço" da Congida. 
Bom dia, pessoal. Hoje não se vê nada de jeito! Umas boguitas e uns escalos e já é um pau...
Tens muita sorte, atirou meu avô. Estamos aqui desde as sete da manhã e nem uma escama.
-Ó Eugénio, valha-te Deus!... Então que estou eu a fritar nesta sertã?- Riu a avó Zaira.
-Ora, já te “descaíste” mulher! Esse figurão está aqui, está a saltar para terra. Prepara o "quedorno" que companhia já temos!...
Nesta altura já o ágil pescador saltava do barco e punha o pé num morro de terra húmida, vestida de junco solto, bem perto da água. 
-Estão grandes os raparigos, são os do Antoninho!.. 
-Sim, são os "esmelgos" gostam muito de vir até aqui. 
O Ti Nicolau sorriu, fez-nos uma careta ternurenta que forçou um leve sorriso no nosso rosto, há muito focado noutro local. 
O meu irmão, só via uma coisa naquele rio. Eu acompanhava-o naquele olhar cheio de querer e fascínio. No lado de lá daquele "braço"de água, sentado numa rocha, o Luciano esperava a vontade para mais um mergulho. Não demorou muito, levantou os braços bem ao alto e aí vai ele como um torpedo a deslizar ao sabor do impulso. 
Quando emergiu, iniciou a travessia com braçadas largas, bem ao seu jeito, rumando na nossa direcção. Levantámo-nos e fomos até junto do barco atracado, pelo pescador. O Luciano, naquela sua fina maneira de nadar, estava cada vez mais próximo. Era a hora de estarmos perto dele. Deslizou suavemente depois da última braçada, o barco ondulava com a aproximação do nadador. Agarrou a proa e num leve esforço, apanhou chão seguro na margem do rio. Sentimos a sua mão molhada a saudar-nos o rosto. O nosso herói estava junto de nós, espera de desejo cumprido. Dentro de breves momentos voltaria até ao outro lado, num vai vem ininterrupto, a que, só o final do dia, punha fim. 
Anos mais tarde, o rio foi com ele para a eternidade, jovem e cheio de esperanças, abraçou aquelas águas e resolveu partir para onde os rios desaguam no céu. 
Bragança já era casa da nossa adolescência, quando ...


Novembro 2003

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AB3 - NEGAGE, O 9º. ANIVERSÁRIO

A.B. Nº. 3 – NEGAGE – 07/FEVEREIRO/1970

9º. ANIVERSÁRIO

Decorria o ano de 1970, mais propriamente no dia 7 de Fevereiro em que se comemorou o “Dia da Unidade” no Aeródromo-Base Nº.3, com o seguinte programa: 
Içar da Bandeira com honras prestadas por uma companhia de Polícia Aérea, sob o comando do capitão Brito. Presidiu à cerimónia o comandante da Unidade, acompanhado por representações de oficiais, sargentos e praças das várias especialidades. Celebrou-se depois missa na Capela da Unidade em sufrágio dos militares falecidos, a que se seguiu formatura geral. 
As cerimónias encerraram-se com a entrega de seis novas moradias aos sargentos, no seu novo Bairro.

ALOCUÇÃO PROFERIDA PELO COMANDANTE DO A.B.3, TEN. COR. PIL. AV. OLIVEIRA BELO

T.Coronel Oliveira Belo
“Em primeiro lugar os meus sinceros agradecimentos às entidades militares das Unidades do Exército aquarteladas no Negage que com a sua honrosa presença atestam a estreitam cooperação que se tem mantido no cumprimento da missão.
Passa hoje, dia 7 de Fevereiro de 1970, mais um aniversário da fundação do Aeródromo-Base Nº. 3, é ele o nono.
Estamos aqui reunidos, em festa puramente militar, para relembrar esse momento assaz feliz em que, pelos chefes responsáveis pela Força Aérea, foi tomada a decisão de fundar o A.B.3 no seio do Norte de Angola onde com orgulho temos vindo a servir. 
Nesta festa tão simples há duas cerimónias caracteristicamente militares e de valor transcendente para todos nós portugueses, militares e civis.
A primeira a que acabámos de assistir, resumiu-se na investidura dos militares que, durante o corrente ano, terão a suprema honra de empunhar os símbolos da Pátria Portuguesa, da Força Aérea e desta Unidade.
A segunda a que iremos assistir dentro de breves momentos, é uma homenagem em memória dos mortos da Unidade e da Força Aérea, concretizada por um minuto de silêncio.
Com estas duas cerimónias quisemos vincar, para sempre, a nossa determinação inabalável de nos batermos pelo mesmo ideal porque eles lutaram e morreram.
No âmbito da missão atribuída às forças Armadas – defesa da integridade do território Nacional – à Força Aérea incumbe o seu cumprimento no espaço aéreo compreendido, actuando pelo ar, no ar e em terra.
Empenhada nesta tarefa se encontra esta Unidade desde os momentos cruciais de 1961 e desde aí tornou-se num dos baluartes da defesa do Norte da província, digo mesmo de toda a província, pois as asas que aqui se acoitam têm vindo, continuadamente, a estender a sua acção às mais longínquas paragens. Desde o Zaire ao Cunene, a Cabinda, ao Cazombo e às terras do fim do mundo, quase não há pista nesta Angola imensa donde as asas do A.B.3 não tenham actuado.
Tribuna
Não nos cabe a nós louvar a acção de inestimável valor desta unidade, (louvor em boca própria nunca foi do nosso agrado) mas é-me muito grato poder afirmar que os anos de 1967, 1968 e 1969 foram, até agora, os de maior rendimento operacional desde a fundação do A.B.3. 
Isto quere dizer que todos, sem excepção, rendemos mais e que a capacidade operacional se manteve praticamente inalterável não obstante a redução sensível em meios, pessoais e materiais. 
Merece uma referência especial o ano findo em que o A.B.3, respondendo a todas as solicitações que lhe foram feitas, cumpriu a missão com apenas dois acidentes, cujas consequências não foram além de uma aeronave destruída não havendo qualquer fatalidade a mencionar no pessoal. 
Ao constatar os óptimos resultados obtidos no ano transacto não quero deixar passar esta oportunidade sem manifestar o meu muito apreço a todo o pessoal, militar e civil, que, de algum modo, directa ou indirectamente, sem distinção de hierarquias e especialidades, para eles contribuiu.
Os nossos chefes confiam em nós, porque, desde sempre, o pessoal que aqui trabalha tem sabido cumprir o seu dever com uma dedicação e um entusiasmo que me apraz realçar e me permite afirmar que podemos continuar a ir em frente com o nosso trabalho e no rumo encetado, com a certeza de que as qualidades evidenciadas até agora serão mantidas intactas. 
Esta confiança e esta certeza que o A.B.3 tem afirmado desde 1961, não com palavras, mas com factos, com obras, com o vosso trabalho e o vosso querer tem penetrado em todos os sectores, tanto civis como militares. 
A prontidão com que satisfazemos os pedidos de apoio aéreo tem sido elogiada vezes sem conta pelos beneficiados, civis e militares.
O ambiente de esperança firme, mesmo de segurança que se vive nestas paragens desde 1961, o qual tem permitido o afluxo de pessoas, de bens e investimentos foi, sem dúvida, fomentado pela implantação desta Unidade.
Entrega da bandeira e guião à nova escolta
Quando aqui chegou a Força Aérea e começou a construir, de pedra e cal, convenceu por obras que estão à vista de todos, aqueles cépticos e desanimados, que estas terras nunca deixarão de ser portuguesas. 
Depois desta caminhada admirável de nove anos em que numa continuidade impressionante e serena nos temos mantido, podemos e devemos revigorar o nosso moral de forma a podermos vencer os obstáculos que com certeza as invejas e as cobiças alheias semearão na nossa rota. 
Mais do que nunca necessitamos de estar atentos e vigilantes no cumprimento dos nossos deveres de militares e Portugueses. 
Só nos podemos desempenhar desta responsabilidade suprema se pusemos em todas as acções e na execução das tarefas atribuídas toda a nossa inteligência, saber, dedicação e interesse. 
Em cada momento deve existir a preocupação de bem servir e a insatisfação constante na procura do aperfeiçoamento que nos conduz ao melhor rendimento.
A falta de condições ou de possibilidades da Unidade nunca serviram de justificação para o não cumprimento do dever, pois independentemente de quaisquer factores nesta Unidade sempre se cumpriu. 
Os fundadores do A.B.3, em 1961, cumpriram e de entre vós há quem possa testemunhar como era então esta Base – ausência total de tudo o que os nossos olhos agora podem contemplar. Tudo o que vemos não passava de um sonho dourado há nove anos, mas essa gente de então, militares e civis, porque quiseram, muito puderam e nós, porque queremos, vamos poder.” 


NOVAS MORADIAS NO BAIRRO DE SARGENTOS DO AERÓDROMO-BASE Nº.3
Imóvel visto de frente
No passado dia 7 de Fevereiro, “Dia da Unidade”, realizou-se no Aeródromo-Base Nº.3, no Negage, a cerimónia da entrega de um imóvel no novo Bairro de Sargentos, composto por seis moradias. Quatro das referidas moradias foram construídas sob o patrocínio do comandante da 2ª. Região Aérea, general Viana Tavares. As duas restantes devem-se à iniciativa do comandante da Unidade, tenente-coronel piloto-aviador António Duarte de Oliveira Belo. O “Dia da Unidade” foi assim um duplo dia de festa para os sargentos do Aeródromo-Base nº.3, graças à concretização de uma obra a todos os títulos meritória.
Capelão Alf. Casimiro Ferreira Alves benzendo as moradias e Comandante do AB3 no momento da distribuição das chaves das 6 moradias
Ten. Cor. Oliveira Belo falando aos Sargentos após distribuição das chaves

 Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 131 – Março 1970

Até breve                                                                                   
O amigo 








Da Série:

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

EM MEMÓRIA DO JORGE CANHOTO

Estou sem palavras, emocionei-me.
Pois no final do vídeo (1), com o som de fundo apropriado, ao ver o nome dum amigo, o Jorge Manuel Teixeira Canhoto, MELEC da 3ª.de 70, que foi meu companheiro de quarto na república dos Saltimbancos - Luso, veio-me há memória a última noite na republica.
Muito falamos. Ele ia para operação, no dia seguinte de madrugada.
Era uma coisa que ele detestava fazer, voar de héli. Eu seguiria de manhã, de NordAtlas para Henrique de Carvalho para fazer o espólio de 3 anos e meio de Leste de Angola,  comissão, mais um ano solicitado e mais 6 meses de “lerpa”, e a seguir para Luanda afim de embarcar no Boeing da FAP, rumo ao “puto”.
Combinámos encontrar-nos após a comissão dele, faltavam-lhe 7/8 meses, éramos da mesma zona, ele de Oeiras, eu de Paço D´Arcos.
28/3/1974 - Acidente (2) entre os helis 9255 e 9361 em Cangombe-Cachipoque - foto de Benjamim Almeida CArt6551
Nada disso aconteceu. Apenas, sim, uma tremenda agonia. 
Ele tinha-me pedido para eu trazer alguma coisa para os pais, não me lembro o quê. Alguns dias após chegar a Lisboa fui a casa deles. Choraram, chorei, queriam saber tudo do filho (único), se tinha lá deixado filhos ou, alguém que estivesse grávida dele, o que ele fazia ou não fazia, gostava ou não gostava, enfim um sem número de questões, para que não estava emocionalmente preparado para as ter, por fim, quase que me queriam adoptar, por ter sido companheiro de quarto do filho deles durante um ano e tal.
Foi uma perda dum amigo, que, para quem esteve em África e compartilhou tanto tempo com uma pessoa num quarto de 2 camas, em que todas as noites, havia um bate papo de todos os assuntos, antes de adormecermos.
É algo que nos marca para sempre.


Um dia nos encontraremos AMIGO.









(2)Este acidente, vitimou para além do Jorge Canhoto:

(1) Especialidades @ Especialistas do AB4

 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

TRANSPORTE DE EVACUAÇÃO DE FERIDOS - TEVS (II)

Gago Coutinho - foto de Gonçalo de Carvalho
Está por fazer o enquadramento da importância da Força Aérea nos três teatros de guerra no que concerne ao transporte e evacuação de feridos em combate. E mesmo em relação aos civis, nunca foi feito um levantamento dos milhares de vidas salvas pelas tripulações de aviões e ou helicópteros. 
Como Operador de Comunicações, tomei parte, ainda que de forma indirecta, no número dos que contribuíram para que no mais curto espaço de tempo possível, se tornasse viável o transporte dos mais necessitados, para o hospital mais próximo, ou o que desse mais condições de sobrevivência, a quem no meio do nada necessitava de primeiros socorros, quer fossem militares ou civis Portugueses, ou mesmo do outro lado da barricada. 
Para que se perceba o quanto era aleatório o local de onde se era evacuado para se poder garantir a sua sobrevivência, vou referir uma das evacuações em que participei como operador de comunicações e que mais me tocou emocionalmente, estava em Gago Coutinho, quando chegou através do Exército, um pedido de evacuação para uma civil com complicações de parto. O destacamento originário da mensagem era relativamente perto mas a evacuação teria que ser efectuada por um héli, pois a paciente não podia ser transportada aos baldões via terrestre para a pista mais próxima. O héli foi e voltou com uma miúda de corpo franzino e olhar assustado, que não teria mais que quinze anos, cujo feto se apresentara com um braço de fora e ninguém tinha conseguido dar-lhe a volta em tempo útil, agora era necessário salvar a jovem mãe. 
Hospital do Batalhão de Gago Coutinho
Durante o voo de regresso o piloto tinha chamado por nós, para que providenciássemos a ambulância para a levar ao hospital ali ao lado no aquartelamento do Exército. 
Quando a retiraram do interior do héli os nossos olhares cruzaram-se e tive a sensação que ela não sobreviveria aos pouco mais de cinquenta metros entre a placa e o edifício pré-fabricado que servia de hospital, e quando tanto o piloto como o mecânico visivelmente alterados nos contaram, que as águas já lhe tinham rebentado à mais de um dia, que ela era filha do feiticeiro, e que por isso ninguém tinha tomado a iniciativa de pedir a sua evacuação, contra a vontade do pai, também nós começamos a perceber que ela não tinha nenhuma hipótese de sobreviver uma vez que o feto já possivelmente em decomposição provocaria nela uma infecção generalizada sem qualquer hipótese de salvação.
Passados minutos de terem chegado, telefonaram do hospital, pedindo a evacuação para o Luso, uma vez que não tinham condições de a operar. Estávamos no auge da estação das chuvas, o dia estaria praticamente a chegar ao fim quando eles aterrassem no Luso, e decidiu-se levá-la no DO-27, não só por ser um pouco mais rápido, mas sobretudo por ter meios de comunicação/navegação mais apropriados a um possível quadro de mau tempo na rota ou à aterragem. 
Abastecido e preparado o avião lá partiram rumo ao Luso, depois de eu ter obtido o tempo e a certeza que chegasse à hora que chegasse, haveria luz na pista e transporte imediato para o ferido transportado, bem como meios rádio alternativos caso a pista estivesse fechada por mau tempo à vertical. No dia seguinte, perguntei ao Luso logo de manhã se era possível saberem se tinha tudo corrido 5/5 com o nosso avião e com o ferido transportado, e foi-nos dito que ela seria evacuada para Henrique de Carvalho, por o cirurgião que a operaria no Luso, estar a resolver uma emergência de uma outra civil. 
Voltou o nosso DO-27 do Luso e qual não é o nosso espanto quando nos dizem, que doente e Médico se tinham cruzado ela em direcção a Henrique Carvalho e ele de regresso propositado ao Luso para a operar não se encontrando por pouco, mas pondo ainda mais em perigo a jovem paciente, tendo finalmente sido evacuada directamente para Luanda, isto depois de tanto tempo perdido por uma série de factores aleatórios, que nós não podíamos prever nem ultrapassar, e a tudo isto a jovem mãe, sem um queixume, ia pedindo a quem a abordava que lhe salvassem o seu menino, na doce e inocente esperança de o poder abraçar e cuidar ternamente. 
Durante os dias seguintes, incomodei toda a gente para saber se ela tinha sobrevivido, até hoje nunca obtive qualquer resposta.

Gago Coutinho, 1973  
OPC (ACO) - 71/73

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PORRA...TENHO SAUDADES DE LUANDA!

Luanda anos 70, foto de Raul S. Machado
É tão bom recordar! Faz doer, mas sabe bem! Ai, que saudades do nosso tempo! 
Que saudades da nossa cidade! Que saudades do nosso "Cine-Colonial" e do filme "Aventureiros na Lua"! Que saudades do "Sansão e Dalila"! Que saudades da "Auto-Reparadora", da Igreja de São Paulo e da "Minerva"! Que saudades do Sr. Brito, da Farmácia S. Paulo, que tratava os eczemas, conhecidas por "flor do Congo"! Que saudades das sandes de peixe frito do velho "Campino" e daquele seu "boteco" defronte da Farmácia São Paulo! Ai, que saudades dos doces de ginguba da velha Donana!
Que saudades do Sr. Torrão, que vendia, no seu carrinho de gelados, os "pirolitos" e a "paracuca", do Seixas! Do "Carinhas"! Do palhaço "Pipofe" e do Carlos, da "Casa Lina"! Ai, que saudades do "Bar Mariazinha” e do Sr. Azevedo... Ai, que saudades de todas estas saudades! Saudades de ti, saudades de mim, do tempo e das palavras inocentes que utilizávamos nos nossos diálogos. Há palavras do tempo que faz e há palavras do tempo que é... As palavras do tempo que é escondem-se por dentro do tempo que faz e certas palavras do tempo que faz matam a palavra do tempo que é!
Lembras-te do Baleizão e das sandes de presunto e daqueles "finos" de cerveja CUCA, tirados à maneira, pelo Tarique? E dos restaurantes da conduta com o seu inigualável bacalhau assado na brasa com as travessas cheias de azeite e do frango de churrasco e de cabidela com arroz malandro, também eles confeccionados nos restaurantes da conduta? Lembras-te do Bairro Zangado e do Muceque Mota? Rangel, Maianga, Vila Alice, Vila Clotilde, Samba, Praia do Bispo, Cassequele, Ingombotas, Marçal, Farra do Braguez, Bairro da Lixeira, Sambizanga, Caop... 
LEMBRAS-TE? 
Cinema Miramar
E dos cinemas: "Tropical", "Nacional", "Império", "Miramar", "Restauração", "Cine-Colonial", "Kilumba"... E do "BÊ-Ó"? Com aquelas suas "baronas" (Bailundas, Madeirenses, Indianas, Cabo-verdianas, "Tugas" de Viseu, da Lourinhã e de outras localidades daqui do "Puto"!). E da "Cagalhoça"? E da "Maria das Pressas"? E das "Aleijadinhas" (Irmãs gémeas)? Grandes "trumunos"! 
Cacuaco, Caxito, Mabubas, Quifangondo, "Marabunta", inicialmente no Kaiser vermelho e mais tarde no seu "Chevrolet” descapotável, também ele vermelho"...
Aiué, "Santo-Rosa"! Aiué, Loja dos "Cambutas"! Aiué, "Casa Branca"! Aiué, "Catonho-Tonho"! Aiué, "Casa Carmona"! Aiué, "Gajajeira"! Aiué, "Casa Sabú"! "Casa Queimada"! "Karibala"! Desportivo de São Paulo! Aiué, "Copacabana"! Aiué, o "REX"! Aiué, "Liceu Salvador Correia"! Rádio Clube de Angola, com a voz inconfundível do Santos e Sousa: "Uma voz portuguesa em África"! Aiué, "Lusolanda", "Robert-Hudson", "Casa Americana", "Bicker", "Quintas & Irmão", "Armazéns do Minho", Aiué, "Poço da Morte" com Fernando Silva, "jovem audaz artista português, que sobe as paredes lisas, sem feitiço, do Poço da Morte"! Subam, meninas, subam! Irão assistir a um espectáculo nunca dantes visto, onde há a perícia, o arrojo, a audácia, o sangue-frio e o desprezo pela vida”!
Depois do espectáculo, a entrevista ao "Bumbo":
-Então, amigo? O Senhor gostou do espectáculo?
Resposta do patrício:
-Quer dizer...gostar, gostar, propriamente não lhê gostei. Maje...não deram o Arrojo, qui diziam qui davam!
Trav. da Sé
São essas recordações, que nos fazem chorar de saudades! A fragrância da "Katinga", do "Mufete", "Caranguejo de Moçâmedes", garoupa, peixe galo, peixe pungo, corvina, peixe prata, o popular "Cacusso assado”, com feijão de óleo de palma, do "pirão" (caldo com farinha e peixe), indicado para se tomar após uma "ressaca"! "Kimbombo", "Marufo"...?!
E a nossa Ilha! Ilha distante... tépido Sol... amena frescura das tuas ondas tropicais, outras vezes perigosas conhecidas por calema; acalmia, sossego e paz no encanto da embriaguez de um e do outro. A voz do tempo! A voz daqueles que já partiram! A sua voz, suavemente, relança o tempo que é numa estranha melodia que se entranha no íntimo até ao limiar do desejo. AIUÉ, MINGUITO, com a sua concertina!! Aiué, Velha Guinhas (cega), mas que via mais do que todos nós!
Ilha, foto de Raul S. Machado
TUDO PASSOU... TUDO PASSA... Um oculto fogo nos ateia a alma. O tempo parece-nos infinito nessa paragem de mágico sabor... e a ilha do Mussulo, para onde íamos transportados pelo “Kapossoka” e pelo “Kitoco”.

PORRA... ‘TOU CHEIO DE SAUDADES DE TI, LUANDA!

Retirado da internet, desconhecemos o autor.
Mas, porque se trata de um escrito, que para quem como nós, conheceu razoávelmente Luanda, é forçoso relembrar.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA (Parte 3/3)

CONTINUAÇÃO E CONCLUSÃO DOS ARTIGOS ANTERIORES

AS ESCOLAS PREPARATÓRIA E INDUSTRIAL E COMERCIAL DO LUSO
Pelas minhas contas, comecei no ano lectivo de 64/65 a frequentar o primeiro ano do ensino preparatório e terminei com o curso geral do comércio em 69, mais precisamente, no dia 31 de Julho, com o exame de aptidão profissional.
E no dia 1 de Agosto, iniciei funções no meu primeiro emprego, na JAEA, como trabalhador categoria 11.
Funcionavam no rés-do-chão do então Governo Civil do Moxico, um edifício novo e muito bonito, de arquitetura colonial, pintado de rosa, com a parte frontal em arcos, com amplas varandas e uma entrada com uma escadaria. É melhor conferirem com as fotografias que por aqui abundam. Era mesmo bonita.
Palácio do Governador, anos 60 - Foto Gininha Martinez
Ali funcionava o ciclo preparatório, o curso comercial, o curso de formação feminina e a secretaria da escola.
O palácio actualmente
O curso industrial, de montadores eletricistas e serralheiros, acho que era assim que eram conhecidos, a "ferrugem", funcionavam em prédios alugados e dispersos pela cidade. As nossas aulas de trabalhos manuais, também funcionavam nestes mesmos edifícios.
Era seu diretor o senhor Dr. Domingos Morais Monteiro, que para nós era mais conhecido por Catota.
Vou aproveitar esta oportunidade para lhe prestar uma sentida homenagem, bem com os outros dois professores que, também já não estão entre nós, o senhor Campos Dias e a nossa Dra. Santinha, pelos valores e princípios que nos transmitiram a todos. Pessoas sabedoras, simpáticas, carinhosas,
compreensíveis, muito exigentes, motivadoras e, muito competentes nos domínios das matérias que nos ministraram. A todos eles o meu muito obrigado, irei conservá-los na minha memória enquanto por cá andar. Até mesmo algumas das caroladas e os chapos que deles levei. 
O nosso "Catota", dava-nos as disciplinas de Português, História e Organização política e administrativa da Nação e tive-o como professor desde o primeiro ano do ciclo até ao terceiro do curso geral do comércio. Ditava os sumários e dava as aulas, sem abrir o livro e, tudo batia certo. Pessoalmente adorava as suas aulas de história. 
Preocupava-se a sério com a nossa formação e de certa forma substituia os nossos velhotes, na fiscalização dos nossos estudos. Ele tinha muito por hábito, dar uma voltinha no seu jeep descapotável, de cor de vinho, ao Jardim Dr. OS, onde disputávamos as futeboladas. Aquela ronda era um sinal de que o recreio tinha terminado, eram horas de estudar. Alguns de nós bem se escondiam para não serem chamados no dia seguinte. 
A minha geração teve muita sorte nos professores que teve, eram polivalentes, dedicados, davam explicações de borla, motivavam os alunos e alguns, até umas caroladas e uns chapos distribuíam. E os nossos velhotes ainda por cima lhes agradeciam, "se ele as pedir, chegue-lhe, não se faça de rogado". A todos eles o meu bem haja e aqui vai a lista dos que ainda me lembro: 
Cáculo comercial, Noções de Comércio e Direito comercial, Professora D. Amélia; Caligrafia e Dactilografia, Porfessora, D. Elvira; Ciências -Fisico Naturais, Porfessora D. Luísa a Santinha; Francês, Porfessora Pig?? e Susana Vieira; Ginástica, Professores, Cávem e Campos Dias; História, português e Opan, Dr. Domingos M Monteiro, "Catota"; Inglês, Professoras Pig?? e Eufémia; Mercadorias, Porfessor Marta "Pilinhas"; Religião e Moral, professores Pe Ignácio e Chipala e Trabalhos Manuais, professores Martins e Campos Dias. 
Não me recordo do nomes dos professores de Canto Coral, Geografia e Técnica de Vendas. 
Ralativamente aos meus colegas de ciclo apenas me lembro dos seguintes:- Carlos Almeida, Amâncio, Bandarra, Batatinha, Elias, Falecido, Germano, João Paulo, Sacassange; Jorge Almeida Santos; Léua, Lóló, Golias, Magalhães, Pintar, Serrano, Vasco e o Veríssimo. 
Dos meus colegas finalistas do curso, éramos poucos e bons e espero não me esquecer de nenhum, assim temos, Nanda Lages, Zé Manel-"Jymi", Zé António, Zé Augusto "Ipiranga", Luisa BBranco; Lurdes Pais, minha prima; Maria Germano, o Nelsom, uma luandense e eu, mais conhecido por Galito.

PROFESSOR MARTA
Mais conhecido por "pilinhas costa pereira", alcunha que já o acompanhava, acho eu, do Lobito.
Dava-nos a disciplina de Mercadorias e, na véspera do exercício escrito, o seu sumário era sempre- Revisão da Matéria Dada, e, começava a enumerar a matéria e nós, sempre a puxar por ele, com as dúvidas sobre a matéria e ele lá ia descarregando tudo. Resultado, quando a campaínha tocava para o recreio, nós já sabíamos quase tudo sobre as perguntas. Quase toda a turma tirava boas notas à disciplina. A minha nota final de curso foi de quinze valores.
Comboio do CFB no Luso
 - Foto Lemos Pinto
Foi pioneiro nas visitas de estudo, com idas à fábrica local de panelas e tachos de alumínio que funcionava mesmo em frente da ZML, na esquina. Também chegamos a ir visitar e recolher amostras do minério de ferro que vinha do Katanga, naqueles vagões enormes estacionados na estação do CFB.
Na sala de aulas, improvisava um laboratório que ele trazia de casa, para experiências com as fibras dos tecidos.
No ciclo preparatório dava-nos a disciplina de ciências, creio eu e, um belo dia, na nossa presença, semeou um grão de milho num vaso com terra preta, que tinha trazido de casa, para o efeito. A ideia era demonstrar como aquela sementeira se iria desenvolver. Passados uns dias a germinar, qual não foi o nosso espanto e o dele, quando entrou na sala, viu o milho com uns vinte centímetros, por aí, de altura.
Tinha sido o maroto do Elias que, a caminho da escola, o tinha recolhido numa lavra. Foi um gozo toda a aula. Mas era muito boa pessoa e, não tinha mão em nós.

OS PEQUENOS COMERCIANTES DO LESTE DE ANGOLA
O meu pai foi um dos pequenos comerciantes, obreiros do desenvolvimento de Angola e, particularmente do seu leste, a par dos camionistas. Foram eles que, para todos os efeitos, representaram, durante anos, senão mesmo séculos, a soberania portuguesa por aquelas terras, na ausência permanente da autoridade administrativa, o chefe ou administrador do posto.
Esta nossa administração, no meu modesto entender, só foi estendida a todo o território angolano com o surgimento da guerrilha e fez com que aquelas paragens fossem povoadas de militares, a partir dos meados dos anos 60. Porque, até ali, estiveram votadas ao abandono. A nossa colonização, não passou de um mito mas vou ficar por aqui, porque seria um tema bastante longo e interessante.
Estes comerciantes passaram as maiores privações, a começar pelo isolamento total da pouca civilização que por lá existia. As doenças levaram muitos bem como os assassinatos. Foram apelidados, por alguns labregos e revolucionários da tuji, de exploradores. Não cabe na cabeça de ninguém que, vivendo estes isolados, não fizessem tudo para merecer o respeito e a estima dos nativos. E, isso não se alcançava através da referida exploração, com maus tratos ou com a falta de respeito pelos seus usos e costumes. Eu sei muito bem do que falo e escrevo. Também por lá passaram trafulhas, desonestos, mas esses deram-se muito mal.
Os comerciantes negociavam um pouco de tudo, gado, porcos, galinhas mas o forte era a cera, o arroz, toda a espécie de peles sendo que as de onça e as de gibóia, eram as mais valiosas.
Vendiam de tudo, especialmente o sal, sabão, panos pintados, acúcar, vestuário e o petróleo aos mais endinheirados. Também se faziam trocas, sal por farelo ou batata doce para alimentação dos porcos.
Mediavam conflitos entre a população e desta com a autoridade admnistrativa quando ela existia. Prestavam algum aconselhamento aos chefes tribais que viam no chindele uma fonte de conhecimento. Por outro lado, estes com o seu conhecimento previligiado dos usos e costumes dos nativos e da sua maneira de pensar, alertavam e orientavam a autoridade administrativa, no sentido desta tomar as soluções mais adequadas, evitando ressentimentos. Tais medidas quando justas eram bem acatadas por todos.

PALAVRAS E EXPRESSÕES DE ANGOLA
Aca-Expressão admiração; Anhara-Nhara, savana, chana; Anjuculo?-anda cá; Bacueto-os nossos; Baniqué-garotos; Bumbi-tomates inchados; Bumbo-negro, nharro; Cabampuca-apicultor; Cacimba-poço de água; Cacimbado-doido, apanhadado pelo cacimbo; Cafuso-filho de mãe ou pai preto com mulata/o; Camacove-combóio de mercadorias CFB; Camanga-diamante; Cambuta-pessoa baixa; Candonga-contrabando; Caniqué-garoto; Capiango-roubo; Caputo-branco do puto; Caqui-tecido cor castanha ou azul; Caxina caji-idosa, velhote; Cachito ué-insulto; Caxito-animal; Cambrititi-cobertor; Caputulas-calções; Chicuchi-palmada; Chilondos-trapos, serapilheira; Chimuno-ladrão; Chimunum-fantasma; Chindele-branco; Chingamé-quanto custa; Chinguchi-bofetada; Chitaca-fazenda; Chomboca-casamento; Chuata-mata; Comboio mala-combóio de passageiros; Cutala-olhar,ver; Cuata-agarra; Cuata chimuno-agarra ladrão; Cuende-vai, anda; Cupanga-trabalhar; Cussuba-esquecer; Guvulo-governador; Gue muhini-machado; Iaco-vai; Iá cu cuata cassumbi-vai apanhar galinhas; Iéne cu rindindinça-masturar-se; Ihacama Chicuma-é muito grande, grosso; Lavra-campo cultivo mandioca; Laripó-até logo, adeus; Lomorié-insulto; Lucengue-lagarto; Luena-habitante; Lupuca-salta; Maca- zaragata, confusão; Maleve-chimbindos, testículos com um C; Mangonha-preguiça; Mangonheiro-preguiçoso; Mêia- água; Micono-pés; Milongo-remédio; Mindolé-contratado; Moio ué-cumprimento usual, saudação; Muata-patrão; Nassaquila-obrigado; Nharro-negro; Nhô-bem feito; Nizambi- Juro por Deus; Picada-estrada de terra batida, poeirenta; Pita-sai daqui; Pomba canawa-dorme bem; Puto-Portugal; Rebita-discoteca dos subúrbios; Quessi na guço cu lucuta- sem força na verga, sem tesão; Separiamé-meu amigo; Tambula-toma, apanha; Tuapandula-agradecido; Ualá-vinho, bebida alcóolica; Uasa ué-insulto; Uá rinhena-peidaste; Zuarte-pano azul escuro para fardas.

CULTIVO DO TRIGO 
Dando continuidade ao meu trabalho vou malhar no trigo. Todo ele espalhadinho no chão de cimento da nossa varanda, entraram em funcionamento as varas, um método muito idêntico à forma primitiva de cá, levada para lá. Como quase tudo. E lá surgiram os grãozinhos amontoados para seguirem para o pilão.
Sim, para o pilão, não se esqueçam que por lá não existiam moínhos. E, depois de separados da sua casca, voltavam para o pilão para serem transformados em farinha que depois de peneirada, seria utilizada na confecção do pão que o diabo amassou.
Saiu muito mais escuro do tipo mistura, igual ao que por cá comemos, mas trazia o sabor característico do nosso.
Foi uma sementeira que não teve continuidade. A trabalheira não compensava as nossas canseiras e só alimentavam os oportunistas.
Tudo isto para vos dizer que aquela terra podia e devia ser transformada num celeiro de África. Muitos de vós sabem isso. Ali, a mãe natureza é meio caminho andado para o sucesso. Haja quem invista na agricultura e, também, na pecuária. Ali nem sequer existe o perigo da desmatação, as nharas estão lá preparadas para produzirem este e outros cereais, sem grandes custos.
Não liguem que eu estou delirando, é do sol...

O NATAL
Rios Cubangui e Cussibi
Mas vou voltar um pouco atrás como o "chongono", versos, camaleão para vos dizer que, a deslocação de uma camioneta àquele fim do mundo, só era justificada se houvesse carga suficiente para esta trazer na sua viagem de regresso, como forma de rentabilizar o negócio. Era assim que as coisas funcionavam. Daí termos que, muitas vezes, recorrer aos sucedâneos do açúcar, do café, do pão e do petróleo, respectivamente, pelo mel, chá de folhas de laranjeira, pela broa de milho e pela cera ou velas.
E essas deslocações, aconteciam de surpresa e muito próximo do Natal, aí por Novembro.
Ainda hoje consigo ouvir o roncar do motor de uma qualquer viatura a subir a margem esquerda do rio Cussibi, no silêncio da noite ou da matina quebrado apenas pelo cantar do galo.
Escusam de olhar para mim porque eu fui excluído do órfeão da escola. 
Como ainda estamos a viver esta quadra natalícia, resolvi, ao sabor da minha rabanada, já que as filhoses são sabores de outras épocas, aproveitá-lo para vos transmitir um cheirinho dos meus sonhos de criança, que também fui, de como eram ou foram, os Natais que por lá passei, naquelas terras longíquas, gravadas no meu coração.
Como não podia deixar de ser, o bacalhau era rei e senhor da festa, tal como o é ainda hoje. Levávamos o ano inteiro para lhe tomarmos cheiro e fincarmos-lhe os dentinhos, tais eram as saudades.
Vinha lá do puto, acompanhado do barril do Pimpão, da lata de cinco litros de azeite, das nozes, dos figos, dos pinhões, das passas, dos rebuçados e da fruta cristalizada bem envolvida em papel vegetal e acomodada numas caixinhas com divisórias, bem feitinhas que, despertavam logo a nossa cobiça.
Depois do referido fiel amigo ter sido devorado, vinha o arroz doce ou a tapioca, as filhoses, e outros bolinhos secos e de seguida os frutos, também secos.
Era-nos dada a oportunidade de saborearmos um "chinguito" do Pimpão, festa é festa.
As pencas eram da nossa horta e os ovos das nossas galinhas, como é óbvio, tudo isto produzido na nossa chitaca.
As prendas era coisas que não existiam mas, também, não nos faziam falta, não nos importávamos com elas. E, a tradição era-nos transmitida ou avivada, com os preparativos e as preocupações dos meus velhotes e culminava com a chegada da camioneta com aquelas iguarias.
Recordo-me, apenas, de um Natal passado em Cangamba, em casa do meu tio Ferreira das barbas,
Ferreira das Barbas
com toda a família do senhor Luciano Amaral, em que foram distribuídos à rapaziada um apito de plástico, com um som deveras estridente.
Era uso e costume, daquela época, depois da janta, cócó, xixi e cama, para os mais pequenos. Às tantas da noite, um barulho esquisito debaixo da nossa cama, deixou-nos de alerta, quem será, algum leão? Nada disso, era a nossa querida tia Nha Mutete, Georgina, à procura dos nossos sapatos, para lá colocar a prendinha, o tal apito. Foi caçada.
No dia seguinte, já ninguém nos conseguia aturar.
O meu belo instrumento, deve ter sido o que mais tempo durou. Digo isto, com alguma modéstia, porque ele chegou a apitar, pelo menos dois jogos do campeonato local. Um foi num descampado do lado direito, junto à igreja matriz, e, o outro, foi num descampado, também, que existia à beira de um eucalipto, do lado direito, a caminho do rio Cubangui, logo a seguir à loja do sr. Luciano Amaral.
Muito descampado havia naquela terra.
Foi a última vez que o vi e ouvi. Alguém se abetuou a ele, por causa do seu som.

OS NOSSOS COLABORADORES
Sessa
Hoje vou começar por vos falar dos nossos colaboradores, dos nossos empregados.
Dois serventes, cujas tarefas principais eram as seguintes:- acarretar água, do rio que distava ainda uns bons metros, para uns reservatórios, uns bidões ou pipas, localizados junto à cozinha, à casa de banho, junto ao curral dos porcos e junto às instalações dos nossos fregueses. Como já se aperceberam, não tínhamos água canalizada.
É verdade, os nossos fregueses, tinham uma enorme casota de pau a pique, com um corredor ao meio e compartimentos dos lados, eram para aí uma dezena. Tinham água, fuba e tuqueia para se alimentarem durante os dois dias que ali estavam a negociar e a restabelecer forças, para empreenderem as suas viagens de regresso.
Refiro que, tínhamos fregueses que vinham do Sessa ao Muié, que são ainda uns bons três dias de viagem a pé, só para venderem a sua bolita de cera e, matar saudades "do muata ou tchindele, saba niqué" e, era desta forma que o meu velhote lhes retribuía a preferência e a estima. Ficavam mais caros do que o negócio realizado, mas, acima de tudo ficava o reconhecimento mútuo.
Prosseguindo, este transporte era feito com duas cabaças ou latas, com a capacidade de cinco ou mais litros, cada uma, colocadas nas extremidades de uma vara grossa, com uma saliência de cada lado, para evitar a deslocação da corda que envolvia a referidas cabaças, ao ombro do referido servente e, eram executadas as vezes necessárias para encher aquelas bidões. Era preciso mestria para as equilibrar; -tratar da preparação e alimentação dos porcos que se baseava na cozedura, num daqueles tambores de duzentos litros, do milho, massango, batata-doce, couves, tudo misturado e que era distribuído duas vezes por dia. O porco é um animal que se alimenta de tudo;- do fabrico da cera, que se procedia, também num desses tambores, com um pouco de água no seu fundo e com a introdução das bolas de cera. Elas derretiam e formavam um líquido cor de ouro. Depois dessa cozedura, esses tambores eram envolvidos em sarapilheiras, de forma a manterem o calor e assentarem as impurezas no fundo do referido tambor e, só à tardinha, o líquido era entornado ou despejado, com uma caneca grande numa gamela e ali ficava a consolidar, durante dois dias, pelo menos. Depois era retirada e envolta em serapilheira. Mas a gamela era antes untada com sabão macaco para a cera não se colar;- ajudavam o meu velhote na loja e, ocasionalmente, outras tarefas, na horta e no quintal. 
Muié - foto de Gomes da Silva
Eram, a bem dizer, pau para toda a colher. Um desses amigos, o mais idoso e mais antigo, chamava-se Tchinóia, vivia com as suas três mulheres, num quimbo todo cercado, ali perto de nós. Um criado que, só nas horas vagas entrava em acção, lavava a nossa loiça, varia a casa e fazia uns recados ou as tarefas necessárias e, era nosso colega de escola, chamava-se João Cavindama e tinha a alcunha de "Rimbolo", por ser gordinho. Comia e dormia lá numa casota, no nosso quintal. Foi este amigo que alertou os meus pais do perigo que corriam. Uma lavadeira, um alfaiate que nos confeccionava os calções e as camisas de caqui. Ocasionalmente, um carpinteiro para nos fabricar umas peneireiras quadradas, muito apreciadas pelas gentias. E, finalmente, o pastor cujo nome não me recordo, mas com quem passávamos as nossas férias grandes, por aquelas nharas e matas, à procura de bom pasto para o gado. Comíamos frutos silvestres, luengos, cambungos, maboques, tudo o que nos aparecia e eram muitas variedades. Bebíamos água das cacimbas e, de vez em quando, roubávamos espigas de milho, que assávamos à fogueira ou enterrávamos no borralho ou nas cinzas, com as suas folhas. Ficavam cozidas e depois eram aloiradas à beira da fogueira. Um pitéu. Ricas e inesquecíveis férias.

O MEU SAUDOSO VELHOTE
Era, como todos ficaram a saber, um pequeno comerciante, lá nos confins do sertão angolano. Alcunhado pelos nativos de SABANIQUÉ, que quer dizer, dono ou pai de muitos filhos. Mas antes disso, era pedreiro de profissão e agricultor por paixão e por obrigação, imposta pela vida difícil daqueles tempos, na sua terra natal.
Foi para Angola com uma carta de chamada do meu tio/avó, Francisco Ferreira Lopes, Chico ou Ferreira das barbas, de Cangamba. Inicialmente, foi construir um comércio, uma loja, no Cangombe, para a firma Marques, Ferreiras & amp Cª. Lda, de que faziam parte esse meu tio e o seu irmão José e o sogro do senhor Meireles. A sua actividade de comerciante, começou-a no Sessa, numa loja pertencente aquela firma, como empregado e, foi para aí que nós fomos transportados, aquando da nossa ida, passados uns dois anitos, creio eu. Saímos de uma triste aldeia, cheia de gente da nossa cor e, fomos parar a um quimbo, isoladíssimo, rodeados de mato, feras e negros.
Foi um choque que superamos com o deslumbramento daquelas belíssimas e encantadoras novidades, aquelas paisagens, aquelas picadas, aqueles rios, aquilo... tudo. Era mesmo um desafio à nossa imaginação de crianças. O mesmo não aconteceu com a nossa mãe que levou algum tempo a adaptar-se. Nós aprendemos logo a devorar o pirão, a nossa mãe, experimentou uma vez e, nunca mais, até hoje.
Incompatibilizado com este meu tio, foi parar ao Muié a convite do meu tio Luís Ferreira da Silva, com quem também, passado uns anitos, sucedeu o mesmo, tudo ligado aos negócios. Isto de trabalhar para ou com familiares, às vezes dá nisto.
Família Gomes dos Reis no Muié
Até que, resolveu correr o risco e estabelecer-se por conta própria, numa loja alugada à firma Pinto e Martins, que se encontrava vaga, no Muié e, aí se manteve até ser obrigado a fugir.
Era um comerciante muito estimado e respeitado pelos nativos mas ele também correspondia a isso. Nunca os vigarizou ou aldrabou, foi sempre honesto e justo nos preços que praticou e sempre os ajudou sempre que dele necessitaram e, por isso, nunca "enricou". Aliás, aquando da nossa partida, deixou lá uma pequena fortuna, contabilizada no livrinho dos fiados, na ordem dos quinhentos contos. Era por causa deste livrinho que eu e os meus irmãos, detestávamos ajudá-lo na sua loja, no Luso. Tinha um coração mole, bastava uma qualquer choradeira e, alguns de nós conhece bem este estratagema, os patrícios eram exímios em criar fatalidades familiares, para entrar logo em funcionamento o tal livrinho do APONTA. 
Passamos muitas dificuldades mas, nunca passamos fome, graças a ele. Suportou imensos sacrifícios para nos manter a estudar e, chegamos a ser cinco ao mesmo tempo.
Era uma pessoa com ideias próprias, com bastantes conhecimentos e algo culto, interessado em tudo que eram notícias, particularmente, de política, teimosão, persistente e determinado. As coisas com ele tinham que ser feitas naquele dia, ao seu jeito e, raramente, sobravam para o dia seguinte. Poucos aguentavam ou até conseguiam acompanhar a sua passada, a sua capacidade de desenvolver trabalho.
Como agricultor, a sua horta lá no Passal, na nossa santa terrinha, parecia um jardinm e não sobravam rasgados elogios, por parte de quem por lá passasse. As nossas hortas lá em Angola, também, eram assim.
Como pedreiro, era bastante competente, desembaraçado mas, em termos de perfeição, os acabamentos, não eram com ele. Era mais para despachar e bem, serviço.
Pois, aqui fica a minha singela homenagem pública, ao meu saudoso velhote MANUEL GOMES DOS REIS, "sabaniqué", que faço muito gosto em partilhá-la com os meus amigos/as.

O BICHO DO MATO
Olha o bicho-do-mato... era assim que eu e, alguns de vós, erámos gozados. Pois, pois, continuem a gozar porque este bicho-do-mato, tem ainda muito para vos contar e, se não fosse essas vivências, não existiam estas histórias que, espero vos agradem.

PRIMEIRA VIVÊNCIA:- Viagem do Muié para Cangamba.
Morro de salalé
Num montículo de salalé, a uns escassos metros de um riacho, afluente do rio Cussibi, tendo como pano de fundo o amanhecer alaranjado, encontrava-se instalada uma belezura de onça, observando a chegada daquilo que seria o seu matabicho ou, aquela refeição que perseguia há já uns dias. Ali estava ela, de orelhitas arrebitadas, feita sentinela.
Alertado pelo ajudante, com um ligeiro toque no cimo da capota da viatura, como era usual, o seu condutor fez uma travagem forçada que levantou bué de poeirada e que nos retirou do aconchego dos cobertores. Fazia muita massica/frio mas, logo despertamos para a cena. 
O que é que foi? A resposta foi-lhe dada em silêncio e com o virar de olhos para aquele alvo. Logo baixou a grimpa e, todos em silêncio, para não despertar a bichinha, enquanto ocorriam os preparativos. A guta/arma foi erguida, a mira acertada e apontada e, o tiro partiu em direção à sua nuca. Sim, a bichana estava de costas para a picada e fora atacada, cobardemente, pelas costas. Ela estava mais interessada naquilo que se passava, ao alcance da sua visão. Descurou a retaguarda e como. naquele sítio, não possuía qualquer tipo de visão, sujeitou-se. Pois bem a bala passou a rasar a sua cabecinha, entre as suas orelhitas que, bruscamente abanou com se fosse para enxotar a mosca. E, logo, instintivamente, olhou para o lado de onde partira o perigo e, abriu alas pela nhara, enfeitada de bissapas..
A carripana, voou pela picada mas em vão, não conseguiu acompanhar a bichana no seu bailado de zig zag, feito recruta, na instrução e, bruscamente, desapareceu. Tinha envergado o seu camuflado e, por ali estava escondida.
A sua pele era muito valiosa e, por isso, a caçada tinha que prosseguir. Ela valia pelo menos uma milena.
E, carripana mata a dentro, o sacrifício seria compensado com a sua captura.
E não é que, a escassos centímetros da frente da viatura, ela pulou, ligou o seu turbo e desapareceu naquele imenso matagal. Nunca mais estes meus olhitos e, dos outros também, a viram.
Regressamos à picada desiludidos mas, cá por dentro, fiquei feliz por ela ter escapado.

SEGUNDA VIVÊNCIA:- Outra viagem do Muié para Cangamba.
A carripana do sr. Júlio, seguia a bom ritmo a sua viagem, na picada que nos conduzia ao Cangombe. Dentro da cabine ia o condutor, eu a meio e o sr. Luciano Amaral do outro lado. Ia a dormitar já que, o gingar da viatura a isso convidava.
Às tantas, não respeitando o "pare e olhe" e, num pulo perfeito e airoso, da esquerda para a direita, saiu um bela onça.
Cangombe - Foto de Ivo Cardoso
Conhecendo-lhe o pensar, como bom caçador que era, o senhor Luciano, pediu ao condutor que apagasse os faróis e recuasse um pouco atras do local onde foi exibido o pulo. Assim procedeu. Enquanto isso, começaram os preparativos e, a nove três já estava a postos, quando os voltou a ligar, ali estava ela, altiva, cheirocando e com os seus olhitos a reluzirem à luz dos faróis.
O tiro partiu e, novamente, a bichinha pulou e, embrenhou-se na mata. Estava ferida e, de noite, era um perigo a sua perseguição. E, ali ficamos nós a aguardar o clarear do dia para, retomarmos a nossa missão.
Logo se juntou, do nada, um grupo de nativos, muito agradecidos pelo abate da fera que lhes dizimava os cabritos.
Lá fomos nós na sua busca e, fomos encontrá-la, escondida num tronco de uma árvore caída, preparada para atacar quem se aproximasse dela. Mesmo assim, levantou voo só que, não teve sorte. Desta vez o tiro foi certeiro e caiu.
Os nativos encarregaram-se de a esfolar, ficaram com o resto e nós com o trofeu, seguimos viagem.
Chegados a Cangamba, a primeira tarefa foi esticar a referida pele, no chão de terra batida, com uns pauzitos afiados na ponta, tipo pregos, em todas as suas extremidades e, ali ficou a secar durantes uns dias, com a parte peluda virada para baixo.
Como vêm, os bichos-do-mato, também têm esperto nos cabeça.

ANEDOTAS DOS NOSSOS PATRÍCIOS

OS SAPATOS DE VERNIZ
Como é do vosso conhecimento, os nossos patrícios, adoravam o bem vestir e calçar, a quinga e o kissange e farras. Também adoravam a pinga e o sexo.
Este, tinha a mania dos sapatos de verniz, muito em voga, naquela época.
Ia para as farras, bem artilhado com o seu sapatinho de verniz. No decorrer do bailarico, ele, através dos seus sapatos conseguia detectar, a cor das calcinhas dos seus pares e, vai daí, começar a lançar o seu charme, o seu engate, com que então calcinha azul, vermelha ou branca, consoante a disponibilidade ou a preferência ou até a macieza do tecido, da sua amiga e por aí fora, entenderam?
Um dia, numa dessas rebitas, lá para o lado do bairro Mandembué, ficou deveras surpreendido e, aflitinho, mandou parar o baile, e, foi verificar o sapato. Dizia ele; ué, ué, ainda hoje comprei os sapatos e já tem uma racha.
Perceberam ou querem um desenho? O sapato não tinha defeito nenhum, a parceira é que se tinha esquecido das calcinhas na cubata.... ahahaha!

CALOR CÁ DENTRO, VENTOINHAS LÁ FORA
Numa viagem de Luanda para o Puto, o patrão resolveu levar o seu empregado mais aplicado. Era uma forma de o premiar, ele merecia visitar a terra dos caputos, pelos bons serviços prestados.
Os aviões daquele tempo, possuíam umas grandes ventoinhas, nas asas.
O empregado ia sentado ao lado do patrão, do lado da janela, que era para ele apreciar a bela paisagem e as nuvens branquinhas. O desgraçado suava por todos os poros, pingava catinga e, às tantas, muito acanhado, virou-se para o patrão e disse-lhe:- Patrão, o branco tem muita esperto nos cabeça mas, eu não entender, porque razão, os calores estão cá dentro e as ventoínhas lá fora.... ahahaha.

O ARROZ DO MAR
Numa conversa entre patrícios, um deles virou-se para o outro e disse:- estes tchindeles, tem mesmo esperto nos cabeça. E o outro perguntou porquê? Ué, tu não saber que eles cultivam arroz no mar? tu não saber aquele cantiga- arroz do mar... lá lá lá. Perceberam? O rapaz estava a cantar os HEROIS DO MAR.

A MANDIOCA E AS PALANCAS
Numa visita, lá para os lados de Saurimo, o senhor guvulo, fazia a sua visita doméstica ao seu distrito e, chegou a um quimbo, e, como era costume, toda a gente se reunia à volta do land rover- este ouvia as suas queixas e lamentos e, o soba saiu-se com esta:- senhor governador, nós passar male, muito male, muita fomi, as mandioca comeu as palanca toda...eram carnívoras.

O RALY
Não sei precisar a data mas, ele deve ter ocorrido entre o mês de Julho de 1972 e o 1973, na cidade de Saurimo. A máquina utilizada era um subaru, amarelo, propriedade recente do meu estimado amigo e colega Maximino Gonçalves, entusiasta deste desporto automóvel. E, como ninguém mais quis correr o risco de vida, convidou-me para servir de pendura e, aceitei, seja o que Deus quiser.
O trajecto da prova, situava-se entre as estradas que iam para o Dundo, por onde teve início e a de Malange, por onde veio a findar.
Numa bela tarde, com o mapa nas mãos e, depois do nosso horário laboral, partimos em busca da aventura, para o nosso primeiro reconhecimento da pista e da sua cronometragem. Havia um percurso em asfalto e um outro, o maior, em picada, que não tivemos tempo de conhecer porque, no segundo dia de treino, choveu muito e, por isso, não arriscamos.
Logo que abandonamos o asfalto, tivemos um furo e, com a rapidez possível, porque o cronómetro não parava, mudamos o pneu atingido. Já sentadinhos, e, quê das chaves? Tinham ficado dentro do porta bagagens. E, agora? Sem as chaves de reserva, há que proceder a uma ligação directa. O rapaz era desenrascado e sabia do ofício.
O Subaru 
E lá partimos nós, em alta velocidade, em busca do prejuízo, da recuperação do tempo perdido. O tal pendura, perdeu o pio, ficou calado e mudo, tal eram as reviengas. Foi navegação à vista.
No dia da verdadeira competição, já com uns kilómetros percorridos, fomos apanhados com um toque pela traseira, por um safado de um concorrente de Luanda, que nos jogou para o meio das bissapas. Fomos alimentar os cavalos do subaru. Foi uma carga de trabalhos para de lá sairmos. E o tempo a contar. O desgraçado, tinha uma condução mesmo perigosa e nada desportiva.
Acabamos a prova, já altas horas da madrugada.
Mas o pior de tudo, é que esta prova não passou de uma autêntica fraude. Os organizadores, como não conseguiram angariar os patrocínios necessários para os prémios, recorreram à trafulhice, em termos de resultados finais. O automóvel que veio a surgir como vencedor, foi uma carocha amarelo que, para além de não ter feito a prova porque não a aguentava, andava todo roto em termos mecânicos, parecia o carro da tifa, foi transportado para a final, com o melhor tempo. Era propriedade de um dos organizadores, perceberam o filme? Ficou tudo em casa e, em termos de resultados finais, tudo ficou saldado. A contabilidade era feita por eles.

Até á proxima, o amigo Luena.