sexta-feira, 10 de julho de 2015

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA (Parte 1/3)


Revisitando o leste de Angola, concretamente a província do Moxico.
Neste conjunto de "lembranças" do Luena António Gomes, quarenta anos após, muitos de nós podem relembrar um conjunto vasto de factos, vivências e da cultura Luena.
Ficamos gratos António Gomes, por este vosso contributo.

AS NOSSAS ALCUNHAS
Vou começar por vos falar da minha alcunha- GALO/GALITO/DEMBA e, como ela nasceu. Mas antes de me alongar, direi apenas que, quem chegasse àquela maravilhosa cidade do Luso e perguntasse pelo menino António Ferreira Gomes, iria ouvir um "não sei quem é, não conheço". Mas, se tivesse a bondade de pronunciar a minha alcunha, por certo e pelo menos, o pessoal da minha classe etária iria movimentar a sua cabecinha, de cima para baixo, com entusiasmo, que me conhecia e até onde morava.
Luso 1970 - foto de Gonçalo de Carvalho
O ambiente que o originou, foi o recinto improvisado onde nós nos intervalos ou nas borlas das aulas, jogávamos umas futeboladas. Cinco golos e, salta fora, venha outra se houvesse tempo para isso. A campainha, dava cabo de tudo e, lá íamos nós, todos esbaforidos, suados, os mais branquelas avermelhados, a cheirar a catinga, para a sala de aulas.
Para além da minha pessoa, o outro protagonista foi o Carlos, hoje mais conhecido pelo FALECIDO/ TCHAMBAMBA.
Este kamba, tinha uma forma muito peculiar de jogar futebol, estava sempre aos saltitos, até para chutar ele saltava. Para além de trocar as pernas, era um grande trapalhão. Desculpa lá Carlinhos mas, tenho que compor isto da melhor forma a fazer rir os amigos que se vão dar ao trabalho de o ler.
Numa determinada jogada, quando eu me preparava para marcar o tento, eis que surge ele aos saltinhos. Lá se foi a oportunidade. Não marquei e todo irritado, virei-me para eles e disse-lhe, porra... Pareces um galo gentio aos saltos.
Ora bem, ele pegou na deixa e em complô com os restantes colegas, há que me chamar de galo. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Naquele tempo as coisas funcionavam assim.
A partir daqui, os meus três irmãos que eram mais novos, passaram a ser chamados e conhecidos por GALITOS.
Mas a coisa foi mais longe e, logo apareceu alguém, a traduzir a alcunha para a linguagem nativa e vem daí o DEMBA, cujo feminino como alguns sabem ou deviam saber, é CASSUMBI.
Mas esta história não fica por aqui, porque também sobrou para o menino Carlinhos, mas fica para a minha próxima mucanda. Eu tenho que fazer render o peixe, a ver se aparece alguém para o comprar.
Pois bem, mas o nosso amigo Carlinhos não se ficou a rir porque também ficou com duas, senão vejamos:- A sua imagem de marca era um chapeuzinho escuro que, fizesse sol, chuva ou frio, lá andava ele no cimo da sua trunfa. Começamos a questioná-lo onde o havia adquirido. Não o sabia e, alguém, com imaginação, já que estávamos perto dele, disse:- foi roubado ali no cemitério a algum falecido e assim ficou ele com o chapéu do FALECIDO. Então, logo apareceu outro alguém, que aliou este triste facto a uma ave nocturna, o mocho, que era por ali pernoitava e, logo foi traduzido para a linguagem nativa o TCHAMBAMBA.
Recordo aqui que, naquele nosso tempo, corria muita imaginação nas nossas cabecinhas. A minha velhota também nos obrigava a andar de chapéu ou boné, mas eu detestava, deixava-me bicolor, entre o moreno e o castanho escuro.
Agora vou proceder a um longo exercício de memória e botar aqui algumas das nossas alcunhas e, vou fazê-lo por ordem alfabética.
Baleia-Sereno, já falecido; Barrigana-Jorge Almeida Camapunho; Barriguinha-Taveira mais novo; Batatinha- Patrício; Bochechas-Fernando Sapateiro; Cabide-Rui Perestrelo, por causa do seu andar; Campónio-Antonino; Caninga-Zé Carlos Camapunho; Catola-Carlos; Catota- Director EIC, já falecido; Chambamba/falecido-Carlos; Chimutué-Américo continuo; Chipeta-Eliseu Jaea; Chipulo- Lito; Chupão-irmão mais novo do Joca, baterista; Espirra Canivetes-Armindo; Falta Dar-Amaro camionista; Febrinhas- Louça, já falecido; Forno-Manuel Lopes; Galo/galito/demba-eu e os meus irmãos; Léua-Manuel Gomes; Perico-Cesar Seabra; Pig-Porf. de inglês; Pilinhas Costa Pereira-Prof. Marta; Pinóquio-Rodrigues; Porquinho-João Soares; Sacassange- oão Preto.
Não me recordo dos seus verdadeiros nomes dos que a seguir vou mencionar:- Book Jones; Camuringue; Chicala; Choêm; Cuca; Galinha; Lóló; Malangino e o Marimenda. 

OS BISSONDES OU KISSONDES
Eram as nossas tão conhecidas formigas assassinas. Matavam tudo que encontravam no seu caminho até mesmo animais de grande porte. Eram aos milhões, acastanhadas vermelhadas, com uns enormes tenazes.
No Sessa, tivemos uma invasão deles. O alarme veio, de madrugada, da capoeira a primeira a ser
Bissonde vermelho
invadida. Se não fossem os galináceos, tínhamos sido apanhados a dormir e já estávamos por eles cercados. Foi um alvoroço em pijamas de flanela, quentinhos. Tivemos que espalhar fuba de mandioca em redor de toda a loja para não nos invadirem a casa. Seria uma catástrofe. Mesmo assim, tínhamos que estar vigilantes, porque bastava uma pequenina oportunidade, para eles avançarem.
A farinha/fuba, faziam com que eles ficassem presos pelas patinhas. Era a fuba ou a água fria ou a ferver, tudo isso nós utilizamos. Tivemos que soltar os animais.
Foram alguns dias de prevenção. Até que, descobrimos o quartel-general, nas redondezas.
Amontoamos mesmo por cima da sua entrada, na sua "porta d`armas", um montão de lenha, regamo-la com petróleo e ateamos-lhe o fogo. Foi remédio santo, levantaram o acampamento e foram incomodar outros, Desapareceram.

HISTÓRIAS DE LEÕES
Das histórias que a seguir vou contar, duas delas são do meu tempo Numa assisti à construção do estrado noutra vi com os meus próprios olhos, o local onde tudo se passou.
A primeira, passou-se no Sessa. Os leões andavam esfomeados, urravam por todo o lado e, só se podia circular, naquelas "tchuatas", em grupos e armados. O nosso gado levava, de vez em quando, sumiço.
O meu Pai e o outro comerciante, resolveram pôr fim ao "cunhana" dos "tchimunos" dos "dumbas."
Resolveram construir um estrado, numa enorme mulemba, onde se situava o curral dos "gombe" e, à noitinha, bem agasalhados por causa da "massica" e munidos de uma "uta", não sei se de uma caçadeira, tomaram assento no referido estrado, fazendo turnos de vigilância.
De nada lhes serviu, o larápio veio e serviu-se, num piscar de olhos. Desapareceu na mata e até hoje, ninguém lhe pôs os "messô" em cima.
A outra, é um pouco parecida com esta, que ouvia contar no Muié. Os comerciantes resolveram fazer uma espera ao leão. Ataram um "pembe" preso a uma estaca, a uns escassos metros, mesmo em frente da loja. Ficaram à espera deles sentados na sua varanda. Mais uma vez, de nada lhes valeu. Quando abriram os olhos, o cabrito tinha desaparecido sem um gemido.
Tudo isto, acontecia sobre a madrugada e o leão pressentia quando os "tchindeles" dormitavam, era preciso na sua atuação, não falhava.
Uma outra, está relacionada com a sua força muscular. Isto passou-se no curral dos nossos bois, no Muié, cujo cercado tinha uma altura superior a de um "lunga". Pois o artista, entrou nele, escolheu e matou a peça desejada e através do mesmo cercado, transportou-o cá para fora para o compartilhar com a sua trupe. A referida cerca estava praticamente intacta, apenas forçada num dos lados por onde o retirou.
Mas que grandes campeões, estes leões.

O FEITIÇO
O que a seguir vos vou contar, passou-se com a minha irmã mais velha. Juro que não é imaginação minha, tratou-se de um caso verídico, passado lá nos Muié.
Nós tínhamos uma cadela com o nome de "Diana". Já não sei quem foi o padrinho ou a madrinha da bicha.
Muié - 1973 - foto de António Gomes
Ora bem, numa bela noite, ouviu-se uma colossal agitação, maka mesmo, no quintal e, o meu pai, empunhando a mauser, que lhe havia sido distribuída pelo Chefe do Posto, foi à janela da sala de jantar, verificar o que se estava a passar. Nada viu.
No dia seguinte, a cadela estava toda ferida, mas os golpes eram estranhos. Pensamos logo que teria sido obra de uma onça.
E há que construir uma armadilha para a caçar, na eventualidade de ela voltar ao local do crime. Não se pensou noutra coisa, é onça.
Mas ela nunca mais ali voltou e a armadilha por lá ficou, de recordação.
Seguimos-lhe o rasto que era algo esquisito e não tinha as formas de uma pegada de um felino, era difícil chegar a essa conclusão e ele desaparecia à beira de um quimbo, onde residia uma caxina caji, com fama de feiticeira.
Um dia depois a minha irmã adoeceu e ninguém sabia dizer qual era o seu mal, nem a enfermeira que sabia mais que um qualquer médico de hoje, conseguia diagnosticar a sua enfermidade. Ficou vegetativa, não falava, não andava, não comia.
Vai daí, a minha mãe começou a pensar na tal dita velhota, só podia ser obra dela, feitiço e foi queixar-se dela ao Chefe que, logo a mandou buscar e a prendeu, sem antes lhe ter sacudido o pó dos seus kitengues.
Depois de uns bons apalpanços finalmente confessou o seu crime. Os motivos prendiam-se com a cadela.
Ela tinha uma nora com o mesmo nome da cadela e, chegou a pedir-nos que lhe mudássemos o nome. Como não o fizemos, vingou-se na minha irmã, lançando-lhe um feitiço, sei lá, um mau-olhado.
Passados uns dias, o feitiço foi desfeito e ela voltou ao normal.
Hoje fico a pensar como é que e, quem é que, atribuiu um nome daqueles- DIANA, a uma nativa/indígena? Teria sido algum tchindele? É que a moça era mesmo negra e nem sequer "puto" sabia falar.

O FEITICEIRO MUÉ CHICUNZA
Era um seculo que cheirava muito a catinga, desdentado, que trajava uma enorme casaca de caqui castanho, na qual se perdia, pano à cintura como as mulheres, cumprida até as tornozelos e calçava umas enormes botas, cujas solas estavam pejadas de protetores de chumbo e tachas, que eram a sua marca.
Em Cangamba, habitava num quimbo lá para os lados da loja do Pinto Martins..., à saída para o Alto Kuito. Era muito conhecido por aquelas paragens e muito mais temido, por ser feiticeiro.
Por onde passava deixava o seu característico rasto e, em superfícies duras como chão de cimento, muito usado nos nossos edifícios ou lojas, daquele tempo, fazia um enorme cagaçal, audível a quilómetros de distância. Exagero meu.
De quando em quando, anunciava-se, ao som dos seus protetores mas, aparecia do nada. O homem, além de feiticeiro, era mesmo mágico, um tchimunum ou cazumbi, fantasma.
Nós putos, gozávamos à brava com o velho, não obstante os avisos dos adultos.
Agora, imaginem vocês, aquele cagaçal, no silêncio da noite, com toda a gente a dormir?
Foi assim que uma bela noite ou madrugada, o feiticeiro resolveu visitar-nos, talvez, para se vingar dos nossos inocentes gozos.
O som das suas botas surgia de todos os lados. Acenderam-se as velas e os candeeiros a petróleo, de vidro e de alumínio, muito usados naquelas paragens mas, também, do nada e inesperadamente, surgia uma rabanada de vento que tudo apagava.
A confusão e o medo estavam estampados nos rostos de toda a gente, incluindo os adultos.
O cagaço durou escassos minutos, o suficiente para revermos a nossa atuação futura, em relação ao artista. Ninguém o viu mas a marca das suas botas, estava por todo o lado.
No dia seguinte, o dono da casa, o falecido senhor Luciano Amaral, enviou-lhe um mensageiro.
Compareceu mas o safado negou tudo. Por fim chegaram a um acordo que se resumiu no seguinte:- não seria apresentada queixa do sucedido ao administrador e ele comprometeu-se a não voltar a atuar daquela forma.
E nós nunca mais o gozamos, foi remédio santo.
O Pedro assistiu a tudo isto, ele também lá estava, isto não é nenhuma peta ou invenção minha.
Como devem saber, a prática da feitiçaria era proibida pelas nossas autoridades.

A MOCIDADE PORTUGUESA
Não pretendo aqui debater a sua origem nem a ideologia que estiveram subjacentes à sua criação. Ela é por demais conhecida. Vou limitar-me a transmitir a minha vivência, enquanto adolescente e jovem. e começo por dizer que, quem desse duas faltas à sua instrução, perdia o ano, mesmo que fosse aluno de vinte valores. Era, a bem dizer, uma disciplina obrigatória. Todos os sábados, à tarde, tínhamos ordem unida e depois desfilávamos pela Rua Marechal Carmona, até ao Jardim OS., para aí assistirmos aos jogos entre a nossa Escola, o Colégio de S. Bento, depois Liceu Marcelo Caetano e o Magistério Rural, nas modalidades de basquetebol ou andebol ou, para o Estádio Municipal, para os jogos de futebol, entre estes mesmos estabelecimentos de ensino. Era o desporto escolar em acção, promovido pela MP.
Foi através das suas diversas atividades que a minha geração aprendeu, para além da ordem unidade que muito jeito nos fez na recruta, a trabalhar em grupo, orientação, a praticar desporto, camaradagem, o contacto permanente com a natureza e acima de tudo, teve umas férias diferentes, algumas das vezes a trabalhar e a participar em torneios, tudo organizado por ela.
Férias, naquele tempo, era coisa de gente rica.
Foi assim que conheci Nova Lisboa, onde, nos seus arredores, passei mais uns quantos do Luso e de toda a então província,a construir uma enfermaria.
Mas houve quem, à sua custa, tivesse estado aqui (Portugal) aquando da inauguração da ponte Salazar, hoje 25 de Abril e tivesse colecionado eventos vários, como os cursos de graduados e de portugalidade. Para nós tudo isto era uma forma de mudar de ares e de contactar outros jovens. Pela parte que me toca, achei o ambiente gratificante e, pergunto, quantos de nós pensava em política.
Participei em inúmeros acampamentos, nas suas chamas, nas caminhadas, nas vigílias, na ação Social e nos Primeiros Jogos da Juventude de Angola, na modalidade de Handebol, cuja medalha ainda hoje conservo. Para a prática desportiva éramos submetidos a exames médicos, realizados pelo Delegado de Saúde local, tudo pago pela MP.
As entidades oficiais que visitavam aquela cidade, eram recebidas, em parada seguida de desfile e saudação, no aeroporto, pela MP. As paradas militares surgiram mais tarde com a ocupação militar. 
Através da Acão Social ajudamos a construir, por todo aquele território, escolas, capelas,enfermarias, mesmo lá nos seus confins. Os jovens provinham de todas as cidades e, para participarem, tinham que obter uma autorização, por escrito, dos pais.
Era distribuída uma lista do que devíamos levar, duas fardas, linhas e agulhas, prato e caneca de alumínio ou esmalte para não se quebrarem, talheres, sabão e sabonete, fósforos, lanterna, escova de dentes e a pasta que, muitas vezes utilizávamos nas sobrancelhas dos dorminhocos.
Participei numa dessas ações, nos arredores de NL, foi muito fixe, na companhia do Armindo, Taveira, João Paulo, Catola e Vilela, mas havia mais. No dia da inauguração, com as autoridades nas proximidades, faltava pintar o símbolo da enfermaria, aquela cruz. O Delegado tinha-se esquecido de comprar a tinta vermelha. A cidade ficava a muitos km. Resultado foi pintada com Mercúrio cromo, ficou cor de rosa. Depois, o soba queria tomar conta do edifício julgando que era para sua habitação. Foi uma carga de trabalhos para o demover. Ficou fulo que nem uma onça.

PEQUENAS E SOLTAS LEMBRANÇAS

OS HOSPITAIS, CIVIL E MILITAR
A chegada de mais uma evacuação
Estes dois hospitais situavam-se por trás do Governo Civil, onde funcionava a nossa Escola, no seu rés-do-chão, a caminho do aeroporto do Luso. Falo dele porque, a partir de 1966/67, diariamente ali aterravam helicópteros da nossa Força Aérea, descarregando militares feridos ou mortos em combate. E com alguma frequência, havia um funeral...de um filho da terra. Foram anos a a ver passar cortejos fúnebres a caminho do cemitério que, por sinal, também ali ficava perto. Isto marcou muita gente.

O 1º. CAMPEONATO DE PARAQUEDISMO DE ANGOLA
Teve a sua realização naquela linda cidade, no ano de 1973 e foi organizado pelo Aeroclube do Moxico. Possuo no meu álbum, um exemplar do emblema que assinalou este evento, bordado à máquina, por alguém da terra. Aquela cidade era toda prafrentex, não obstante os perigos nas suas zonas limítrofes.

O REBIMBAS CACULETE
Não sou a pessoa mais indicada para vos vir falar desta simpática criatura, carismática e, nem sequer me ocorre o seu nome verdadeiro. Persentia aos nossos convívios de café. O seu estilo de condução, do seu jeep descapotável, era inconfundível. Chegava mesmo, nos cruzamentos, a pará-lo, para verificar in loco, se lá vinha outro veículo. Só depois arrancava, aos soluços.
Os novatos quando chegavam àquela cidade, logo, na primeira oportunidade, eram enviados à sua loja, para comprar cigarros ou rebuçados da marca rebimbas.
Saiam do estabelecimento a correr e o seu dono atrás, com uma vara, de um metro com a qual procedia à medição dos tecidos.
E nós na esquina mais próxima apreciando o espetáculo, às gargalhadas.

AS FESTAS DA CIDADE
Ocorriam anualmente, se a memória não me falha, no mês de Setembro. No meu tempo elas eram realizadas no recinto da Associação Comercial e depois, foram transferidas para um descampado mais amplo, junto ao CTT, mesmo em frente do Governo Civil. O primeiro recinto era todo murado e o segundo, era todo cercado. O seu acesso era pago, acho que custava dois escudos e cinquenta centavos. Dentro dele existiam barracas de quermesses, comes e bebes, loto, um pouco de tudo aquilo que por aí se vê, neste tipo de eventos. No acesso ao recinto do baile, só os cavalheiros pagavam e este era abrilhantado, por um conjunto musical local e de cujos elementos apenas me recordo do falecido senhor Bandarra que tocava aquele violão, da bateria o Rui filho do boxeur e do Lito que tocava viola baixo.

OS ENCONTRISTAS
Era um movimento afeto à igreja católica, mas recebia no seu seio, jovens de outras confissões religiosas. Desconheço por completo o decreto papal da sua existência, o que sei é que, durante a minha curta gestão, tinha como principais preocupações os prolemas da juventude.
As nossas reuniões semanais, ocorriam por norma as sábados à tarde e nelas se discutiam todo o tipo de assunto, particularmente as drogas, a prostituição, os conflitos familiares, a sexualidade, os namoros, as outras corrente religiosas.
Fazíamos visitas ao hospital e à cadeia local, onde chegamos a apadrinhar alguns dos reclusos. Pelo menos, chegamos a fazer uma visita à Igreja que se situava junto ao Liceu, cujo nome sempre esqueço ou faço confusão com as outras existentes no Luso. Perdoem esta cabecinha cansada. Foi maravilhosa a recepção. Recordo aqui o nosso estimado amigo e colega o Virgílio que, segundo soube, já partiu. Que a sua alma esteja em descanso.
Para além disto, tínhamos muita atividade, a prática desportiva aos domingos, em conjunto com as raparigas, na missão das madres, convívios, retiros espirituais na missão dos padres, saraus culturais para angariação de fundos, e, ultimamente, procuramos reuniões com os três movimentos jovens partidários. Não foi possível.
Também chegamos a reunir com um grupo de jovens consumidores de drogas leves, para nosso espanto, apareceram já drogados.
Tínhamos um programa radiofónico, no RCM, também aos sábados à tarde, apresentado e produzido pelo Victor Nunes, meu cunhado e pelo João Soares.
Publicávamos mensalmente uma pequena revista com toda a nossa atividade, que tinha o título de O ENCONTRO. A sua primeira edição saiu a 15.02.75 e a última em 12.07 do mesmo ano. Conservo um exemplar desta. Eu era o diretor, o dactilógrafo e o impressor. Todo este trabalho era preparado na Direção de Finanças. Hoje posso divulgar a notícia porque estou livre de um processo disciplinar. Só não me recordo do número de exemplares extraídos. Eram poucos.
Tinha uma nota de abertura da minha autoria, três artigos do Lito Tchipulo e a última página, com desenhos bonitos da autoria do Antonino, mais conhecido por Campónio.
Finalmente, tínhamos como responsáveis o nosso saudoso Tio José de Almeida e a sua estimada esposa, a tia Lurdes e como responsável espiritual o padre Zé.
As nossas missas eram realizadas ao sábado à tarde na Sé e eram muito concorridas, devido aos cantos que partilhávamos com os estudantes do Magistério Rural.
O nosso grupo era composto por cerca de trinta elementos, e, vou apenas mencionar os que recordo, Alda, Carmem, Anabela Ratinho e a irmã Célia, Fernanda Sequeira, Magui, Goret e a sua irmã, Isabel da socomol, Luísa, Clarisse minha esposa, Victor Nunes, João Soares, Juca, Lito, Antonino, Fernando Almeida Camapunho, Painço, Belguinha, Patuleia, Zé Lemos Minita e o Marimenda. Peço desculpa aos esquecidos. Um forte abraço para todos.

OS CASAMENTOS E OS PENETRAS
Caras conhecidas no
casamento do Jose Folgado
Não se celebrava um casamento naquela nossa cidade, que não tivesse uns penetras. Não porque tivessem dificuldades alimentares em suas casas mas, por puro requintado gozo. Eram uns autênticos profissionais, até apostas se faziam. Conheci alguns amigos, cujos nomes não vou aqui divulgar, porque não sou nenhum bufo, que faziam questão nisso. Preparavam-se a rigor, de gravata e tudo, sapatos engraxados, para não destoarem ou darem nas vistas, assistiam à competente celebração litúrgica e, aí iam eles, de boleia, todos enfarpelados, para o banquete. 
Nunca penetrei em nenhum sem ser convidado e, em pelo menos num em que o fui, quando cheguei escassos minutos depois do seu início, para lambariscar, estava tudo limpo.

O RÁDIO CLUBE DO MOXICO
Mas quem não escutava, diariamente, esta emissora local? Dos seus programas, o que a malta jovem mais gostava, era do "Música a Pedido". Por um sawuevo, o que corresponde a dois escudos e cinquenta centavos, colados numa cartinha com o pedido, em envelope fechado, entregue na sua recepção. E, depois era só aguardar pela sua hora de emissão, à tardinha, para ouvir o seu pedido e a sua dedicatória à sua apaixonada. 
Para evitar certos embaraços, criava-se um pseudónimo. Toda a maltinha, tinha um. O nosso, que hoje já posso divulgar, sem qualquer
receio de uma espera ou afronta, era "os três mosqueteiros" composto por mim, o Neco Almeida e o irmão do Praia Gonçalves e a nossa paixão, assolapada, era uma menina que morava numa esquina da Avª. António de Almeida. E mais não digo.
Quem não se lembra dos nossos ídolos, Adamo, Nelson Ned, Roberto Carlos, Delta Queen, Demis Roussus, Fausto 
Estúdio do RCM
- foto de Vitor Peixinho
Papetti, Geroge Harrison, Nada, Os Bichos, David Bowie, Tony de Matos, Elvis, Wallace Collection, eu sei lá, tantos e tantos. Músiquetas românticas que nos faziam andar melados.
Para os nossos patrícios era o Teixeirinha. Até se dizia que eles compravam aqueles rádios pequenitos de pilhas só para o ouvir e fazer estilo, nas suas passeatas de quinga.
Mas no dia em que não o escutavam, porque a emissora não o passava, voltavam a loja para devolver o rádio, porque não apanhava o Teixeirinha. Verdade ou não, nunca se saberá.
De locutores recordo na Adélia, da Celeste Rodrigues, do António Manuel e de operadores de som, dos meus amigos e colegas, Zé Agusto, do famoso trio Ipiranga, do Zé Caninga, do Praia Gonçalves, do Barroso o "Cansado" e de tantos outros.
RCM - foto de Vitor Peixinho
Eu também por aqui passei num curtíssimo estágio, promovido pelo Zé Augusto. Curtíssimo porque, fomos, agraciados com uma multa, imposta pelo responsável da emissora, cujo nome já não me recordo. Mas, vocês devem-se lembrar que, à uma hora em ponto, para efeitos do noticiário, havia uma ligação à emissora Provincial ou Nacional. Só que, o locutor de serviço, não havia meio de se apresentar e, não querendo tramá-lo, o Zé Augusto transmitiu o que devia fazer na tal consola e foi para a respectiva cabine. Tudo correu às mil maravilhas, eu estava orgulhoso do feito já que tinha apenas umas escassas horas de contacto com aquela realidade. Mal ele acabou de fazer a ligação, recebeu um telefonema do dito chefe, com um raspanete e a aplicação da multa. Ora, eu como não passava de um simples estagiário, sem contrato assinado e sem remuneração estipulada, saltei fora.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA




sexta-feira, 3 de julho de 2015

TRANSPORTE DE EVACUAÇÃO DE FERIDOS - TEVS (I)

Posto de rádio do Luso
- foto Rui Pires
Quando estava de serviço ao posto de rádio na posição de recepção, e aparecia uma mensagem com a classificação (Z) Zulo, prioridade (RELÂMPAGO) com a obrigatoriedade de entrega ao destinatário em 30 minutos, normalmente era um pedido de evacuação de feridos.
O Luso era pela sua localização, mas sobretudo pelas valências do seu hospital, o local para onde confluíam todas a evacuações da Zona Leste de Angola dos Distritos do Moxico, Cuando Cubango e mesmo nalguns casos da Lunda Sul.
Para quem chegava praticamente da recruta na OTA, era o pior local para tomar contacto com a realidade mais cruel da guerra, normalmente nunca ia à placa ver quando chegavam os feridos, preferia noites de sono com outros pesadelos que não o de outros jovens como eu por vezes completamente destroçados por minas, acidentes com explosivos, granadas, auto flagelações com tiros acidentais ou de emboscadas; sempre que podia aconselhava os meus jovens companheiros, mesmo os que não eram da minha especialidade, para não terem pressa de verem tudo, pois mais tarde ou mais cedo o destino se encarregaria de os pôr em contacto com situações em que ninguém quereria de modo voluntário participar.
Quando já estava com a comissão acabada, chegou ao Luso um jovem MMA, cujos familiares já me tinham escrito para que eu acompanhasse a sua integração, como seria de esperar fui-lhe dando os conselhos que eu gostaria que alguém me tivesse dado quando cheguei, embora ele não precisasse e sobretudo não dependesse deles, no seu primeiro dia de serviço de alerta aos Hélis, surgiu um pedido de evacuação de um "Flecha" que tinha pisado uma mina, acidente já ocorrido no dia anterior, mas que devido à impossibilidade de contactos via rádio só nessa manhã chegara ao seu posto.
Foram busca-lo ao local do acidente e quando o estavam a meter no héli, o MMA, reparou que ele trazia bem agarrado, debaixo dos braços cruzados sobre o peito, um embrulho que exalava um cheiro tenebroso, perguntado o que continha, referiu o maqueiro que vinha com ele que era a bota com os restos do pé e da perna, que os camaradas lhe tinham garantido, que os "Doutores Brancos" lhe coseriam com certeza. O MMA e o também jovem piloto trocaram olhares e lá deixaram acomodar o "embrulho" por debaixo da maca, em pleno voo o cheiro exalado pelos restos já em decomposição, começou a nausear toda a gente, piloto, mecânico e maqueiro, o "Flecha" estava "entupido" com o reforço de heroína que lhe tinha sido dado para o conseguirem meter no héli, a solução foi abrir as portas laterais e esperar que a viagem acabasse depressa.
Chegada de mais uma evacuação
Quando chegaram avisado pelo controlador Vieira, fui à placa espreitar como se tinha desembaraçado o MMA, na sua primeira missão de TEVS, e tudo parecia normal, até que ao aproximar-me do héli, os vejo o MMA e o Piloto, a deitarem "carga ao mar" cada um para seu lado, no final, quando a ambulância se foi embora para o hospital, restaram na placa junto ao héli, além das poças do vomitado, o tal embrulho e fui eu e o MMA, que o tivemos de enterrar no canto interior Norte da placa, junto à protecção de terra contra disparos, uma vez que os médicos se recusaram a transportá-lo com o ferido, por não ser possível a sua implantação, e mesmo o resto da perna teria também que ser amputado.

Luso, 1973 
OPC (ACO) - 71/73

sexta-feira, 26 de junho de 2015

"TAMBÉM GOSTAMOS DE BRANCAS" !

Hotel Luso
Claro que tínhamos nativas, que nos lavavam a roupa e ás vezes, não só !.
Uma delas, que tratava da minha roupa, não me posso esquecer, era a Antónia Magra (1) , não muito alta, com uns olhos negros, grandes, lindos, dum olhar tão meigo, que até me derretia o coração na verdadeira acepção da palavra. 
Bem, continuando. 
Nós, OPC´s, tínhamos um quarto alugado, precisamente nas traseiras do Hotel Luso.
Estávamos lá 3 OPC´s e o 4º. elemento ficava na Pensão NOBRE (com letra grande, já foi dito tudo que se pode dizer sobre o GRANDE AMIGO NOBRE). 
Esse elemento, também tinha uma " lavadeira " como nós, mas, estava de olho numas moças brancas lá do Luso, e parece que as coisas iam bem encaminhadas. 
Eis senão, quando elas ficam a saber que no nosso quarto, entravam as ditas "nativas", que claro, nos iam levar a roupa lavada, só isso. 
Claro, que ao aperceberem-se desta "convivência" houve bronca e zangaram-se com esse nosso companheiro OPC. 
Um dia, vinha do AM após ter acabado o serviço e vejo esse nosso companheiro a escrever num grande papel, estilo cartaz. Não reparei bem o que estava escrito, e fui tomar banho. Quando regressei, vi então o que ele tinha estado a escrever, pois já o estava a colocar bem alto, por cima da nossa porta, com letras grandes de maneira que se pudesse ver bem. 
Dizia então o dito cartaz: "TAMBÉM GOSTAMOS DE BRANCAS". 
Foi o fim da macacada (de maka !) com o pessoal civil do Luso, principalmente os familiares das ditas cujas meninas.
Se ele não se lembra, posso recordar-lhe...com um abraço !











(1) Nome fictício

sexta-feira, 12 de junho de 2015

CARTAS DE AMOR E DE GUERRA

Por vezes o destino encarrega-se de nos pregar partidas, que nem em sonhos ousamos pensar serem possíveis.
As "instalações" de Neriquinha
Estava já à longos meses de castigo em Neriquinha, na estação das chuvas pouco mais havia que fazer que esperar pelo avião de reabastecimento de quinze em quinze dias.
Mais por dever e brio, que por necessidade, ligava rigorosamente o posto de rádio às 06:00 horas Zulo e encerrava oficialmente a permanência na escuta das frequências às 18:00 horas Zulo.
O posto de rádio com o OPC
João Francisco Soares
Quando as condições o permitiam falava com tudo o que mexesse nas duas costas do Atlântico e do Índico, e no que mediava entres elas, de Cabinda ao Cazombo, do Cuito à Beira, do Negaje a Nacala, de Luanda a Lourenço Marques, dentro e fora do horário normal de expediente, tudo servia para quebrar o isolamento. Quando o tempo estava tão mau que nem podia estar perto dos emissores, escrevia cartas à família e às minhas Madrinhas de Guerra, desde a recruta, quando eu e o "Bandarra" de quem já falei nestas (historietas) como gosto de lhes chamar, enviámos pedidos de Madrinhas de Guerra para uma revista e escreveram na volta do correio mais de noventa... todo o pelotão teve direito às suas.
Durante três anos escrevi-me com mais de uma, era bom receber correio, e poder descarregar em alguém que por não conhecer-mos tornava mais fácil a abordagem de certas matérias que eram tabu no correio para a família. Escrevia cartas muito elaboradas, com palavrões tirados do dicionário e que nunca em termos coloquiais utilizaria. 
Uma dessas Madrinhas que morava em Setúbal, pelas fotografias era uma loura com uma paciência infinita que sempre respondeu deleitada aos galanteios que eu lhe enviava, e não era para menos, quanto mais roupa ela tirava nas fotografias que mandava, mais eu me esforçava na escrita descritiva dos seus "dotes naturais" tinha uma fixação pelos meus sonhos, e eu inventava tudo e mais alguma coisa para lhe manter a chama acesa, eis um desses exemplos, contei-lhe que tinha sonhado que ela viera ver-me a Neriquinha e que durante o intervalo entre aviões tinha-mos finalmente passado do "papel" à realidade, quando ela "regressou", desgostoso, escrevi-lhe a seguinte carta:

Meu Amor,
O desterro de Neriquinha, foi quebrado e ganhou contornos de paraíso com a tua fugaz aparição, e a luz que irradiaste à tua passagem, qual cometa, como augurei começou a desvanecer-se no segundo em que cruzaste o limiar da porta do avião desaparecendo no horizonte infinito; preciso de ti desesperadamente, já não me chegam as ternas recordações, tenho uma necessidade avassaladora de te acolher nos meus braços, de te cobrir de beijos, de me anichar em ti, de te amar perdidamente e gritá-lo ao mundo ignóbil em que se tornou a minha existência, impondo este Amor triunfante à guerra e esmagando com ele a mesquinhez pérfida dos que teimam em me acorrentar aqui. Como é doloroso voltar a acordar, só, manhã após manhã, e realizar que nada mudou, que continuo aqui,
degredado, perambulando durante o dia sem um propósito, até que a noite e as sombras me cercam e dou comigo a imaginar que não vou conseguir resistir por mais tempo, enviando-te os meus pensamentos para que me guies com a tua luz e possa voltar de corpo inteiro para ti, sabendo que me irás apertar nos teus ternos braços até que os nossos corpos se fundam num só, mas abandonado e sem o teu aconchego, dou comigo a pensar quando chegará para mim o dia em que lá do alto verei Neriquinha a perder-se nas brumas do passado, com a lógica certeza de não voltar nunca mais a este local de punição, onde fui, tão dupla e dolorosamente abandonado, mas uma parte do meu coração sangrará por abandonar o local onde te conheci, te amei, e fui, efémera, mas loucamente correspondido.
Sinto-me a adejar, observando de um plano superno o outro eu abúlico em que me tornei, sem respostas para as mesmas e imperecíveis dúvidas que ciclicamente me assaltam: Afinal que faço eu aqui? Porque é que se mantém obstinadamente este exílio após tanto sofrimento? Que crime é que cometi que mereça tamanha punição? Para não enlouquecer, cogito nos dias gloriosos em que te voltarei a estreitar nos meus braços, em que te mostrarei ao mundo como parte de mim una e indivisível, e nesse futuro que ensejo breve, jurar-te-ei, a cada segundo, que ei-de amar-te uma, e outra, e mil vezes, perdidamente.

Voltei de Angola, e pouco a pouco deixei de ter motivação para lhes escrever, um dia a caminho de um fim de semana de campismo em Troia com duas amigas, dei por mim a passar pela rua onde se situava o remetente para onde enviava as minhas cartas, curioso fui vendo os números de porta até verificar que era de um salão de cabeleireira, enquanto as minhas companheiras viam a montra de uma sapataria, espreitei sorrateiramente para o interior, uma loura, atendia uma cliente, estava de costas e quando se voltou, verifiquei que era ela, a porta abriu-se e uma cabecita loura olhou para mim curiosa, percebi que aquele homenzinho seria dela, de dentro a mãe chamou-o pelo nome "Zezinho", não te quero na rua! Não tive coragem de ir desenterrar velhos fantasmas, percebi que tinha com certeza alguém que lhe escreveria cartas muito mais interessantes que as minhas, voltei à minha vida, e já começava a ter saudades dos meus tempos de tropa.

OPC ACO 1970/1975

sexta-feira, 5 de junho de 2015

VERGÍLIO LEMOS, 1º. CABO METRALHADOR/BOMBARDEIRO



VERGÍLIO LEMOS – 1º. CABO METRALHADOR/BOMBARDEIRO
1939/1943

“…Afinal sempre conseguira realizar o grande sonho da minha vida, ser aviador militar. Depois de tantas incertezas, de tanta contrariedade, de tanta insistência com a família que se opunha ao meu alistamento, por ser ainda menor, aqui estava eu fardado, ostentando a minha águia com orgulho e até com vaidade, porque não confessá-lo.
A inspecção começara às 8 horas daquele dia 21 de Setembro de 1939, prolongou-se por longas horas, em exames médicos, psicotécnicos, testes, e os mais que o regulamento exigia.
Mas venci. Venci com aquela vontade forte que tinha e me ajudou na realização da maior ambição que tive na minha vida, acarinhada desde a adolescência, quando vi o primeiro avião bem de perto, pilotado pelo meu conterrâneo Capitão Piloto Aviador Lino Teixeira.
Foi nesse dia que nasceu em mim todo esse entusiasmo, que tantos anos volvidos, ainda que batido por todas as desilusões, não mataram ainda.”

PALAVRAS DO NOSSO ESPECIALISTA MAIS VELHINHO - PRESENTE EM TODOS OS CONVÍVIOS ANUAIS DA AEFA

A fim de nos deliciarmos com o percurso militar do Vergílio até ao presente, lanço aqui uma retórica histórica sobre as aeronaves e estruturas militares da nossa FAP.
Hawker Fury Mk II
Em 1939, ano em que o 1º. Cabo Vergílio Lemos ingressou nas Forças Armadas Portuguesas, tínhamos como avião de combate o Hawker Fury Mk II. Adquiriram-se três aviões em 1934 que foram servir no Grupo Independente de Aviação de Protecção de Combate, que estava sediado em Tancos. Foram abatidos ao efectivo em 1943.
 Tiger Moth
Na mesma época, na Aviação Naval, havia também o Tiger Moth utilizado para instrução elementar de pilotagem. Aviões antecessores do Chipmunk.
Entre 1940 e 1945 entram ao serviço o Junker JU 86, bombardeiro monoplano. Na antiga B.A.2 organizaram-se duas esquadrilhas de bombardeamento diurno.
Junker JU 86
Em 1942 a Aeronáutica Militar adquiriu 112 aeronaves tipo Supermarine Spitfire. Com a independência da FAP, foram transferidas para o novo Ramo. Abatidas em 1955.
 Supermarine Spitfire


Em 1947 chegam os primeiros 28 North-American AT-6 e, em 1951 foram recebidos mais 20, tipo T-6 G Texan.
Em 1951 e com o objectivo de modernizar a instrução de voo, a Aeronáutica Militar substituiu os velhos Tiger Moth por 10 Chipmunk e, com estas aeronaves faz-se a transição da Aeronáutica Militar para a FAP.
T-6 G Texan e Chipmunk
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Para não ser extensivo neste tipo de exposição, colocarei em resumo os modelos de aeronaves de que possuímos na actualidade, e os anos da sua aquisição: 

Atualmente em serviço:
                 
1951 – Chipmunk MK 20
1963 – Sud-Aviation SE-3160 Alouette III
1977 – Lockeed C-130
1984 – Marcel-Dassault Falcon 20
1984 – Dassault-Dornier
1987 – Lockeed P3 Orion
1988 – ASK-21
1989 – Marcel-Dassault Falcon 50
1989 – Aerospatiale Epsilon-TB 30
1993 – Dassault-Dornier Alpha-Jet


FORÇA AÉREA PORTUGUESA – RESENHA HISTÓRICA POR DATAS

A Força Aérea Portuguesa (FAP) é o ramo das Forças Armadas Portuguesas. As suas origens remontam a 1912, altura em que começaram a ser constituídas as aviações do Exército e da Marinha. Em 1 Julho de 1952, as aviações do Exército (Aeronáutica Militar) e da Marinha (Aviação Naval) foram fundidas num ramo denominado Força Aérea Portuguesa. 
1937 – A Aeronáutica Militar é reorganizada, passando a dispor de um comando autónomo, designado "Comando-Geral da Arma da Aeronáutica", o que a torna praticamente num ramo independente, apesar de se manter administrativamente dependente do Exército. Anexo ao Comando-Geral é criado o Comando Terrestre de Defesa Aérea. Na nova organização os principais aeródromos militares passam a ser designados Bases Aéreas.
1941 – Com o fim de defender a neutralidade e a soberania portuguesa nos Açores, juntamente com outras forças militares, começam a ser enviadas Esquadrilhas Expedicionárias para o Arquipélago.
1950 – É criado o cargo de subsecretário de Estado da Aeronáutica, na direta dependência do ministro da Defesa Nacional com o objectivo de passar a tutelar toda a aviação militar portuguesa. No entanto, o cargo só será provido quando da criação das forças aéreas como ramo independente em 1952.
1952 – Através da Lei nº 2055 de 27 de Maio de 1952 a Aeronáutica Militar é organizada como ramo independente das Forças Armadas, sendo composta por forças aéreas independentes e por forças aéreas de cooperação com o Exército e com a Marinha. A Aeronáutica Militar é administrada, no plano governamental, pelo subsecretário de Estado da Aeronáutica e comandada superiormente pelo chefe do Estado-Maior das Forças Aéreas. Na nova Aeronáutica Militar são integradas as anteriores Aeronáutica do Exército e Aviação Naval, mas esta última mantém-se à disposição da Marinha para efeitos de instrução e de emprego operacional. Considera-se este o marco da criação da Força Aérea Portuguesa.
1955 – No seio das forças aéreas, é ativado oficialmente o Batalhão de Caçadores Paraquedistas, a primeira unidade de tropas para-quedistas das Forças Armadas Portuguesas.
1956 – Através do Decreto-Lei nº 40 949 de 28 de dezembro de 1956, as forças aéreas são reorganizadas, sendo oficializado o termo "Força Aérea" (no singular) como designação oficial do ramo, em alternativa ao de "Aeronáutica Militar" que irá cair em desuso. O território nacional metropolitano e ultramarino é dividido em três grandes regiões aéreas, que passam a exercer o comando operacional das unidades aéreas estacionadas na sua área: 1.ª Região Aérea, com comando em Lisboa, abrangendo Portugal Continental, Açores, Madeira, Guiné Portuguesa e Cabo Verde; 2.ª Região Aérea, com comando em Luanda, abrangendo Angola e São Tomé e Príncipe; 3.ª Região Aérea, com comando em Lourenço Marques, abrangendo Moçambique, Índia Portuguesa, Macau e Timor-Leste. Mais tarde, dentro da 1.ª Região Aérea, são criados dois comandos semi-autónomos: Zona Aérea dos Açores e Zona Aérea da Guiné e Cabo Verde.
1958 – As Forças Aeronavais (antiga Aviação Naval) são completamente integradas na Força Aérea, deixando de ter qualquer ligação administrativa à Marinha.
1960 – São criadas as primeiras bases aéreas em Angola (Luanda e Negage).
1961 – Ataques terroristas em Luanda e no norte de Angola dão início à Guerra do Ultramar em que a Força Aérea vai ter um papel muito activo, em operações de combate, reconhecimento, evacuação de feridos e apoio logístico às tropas e população civil.
1961 – O Subsecretariado de Estado da Aeronáutica é substituído pela Secretaria de Estado da Aeronáutica, cujo titular passa a ter assento no Conselho de Ministros, se bem que ainda mantenha um estatuto governamental inferior a dos ministros do Exército e da Marinha.
1961 – O general da Força Aérea Venâncio Deslandes é nomeado Governador-Geral e Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola. A função de Comandante-Chefe implicava o comando conjunto dos três ramos das forças armadas no respectivo Teatro de Operações, sendo o primeiro caso na Guerra do Ultramar em que essa função foi exercida por um oficial não pertencente ao Exército.
1962 – Criação oficial das Formações Aéreas Voluntárias, organizações de milícia aérea civil auxiliar da Força Aérea na Guerra do Ultramar.
1967 - Em 12 de Outubro de 1967, o general da Força Aérea João Anacoreta de Almeida Viana assume interinamente as funções de Comandante-Chefe das Forças Armadas em Angola, cargo que virá a exercer plenamente entre Julho de 1968 e Maio de 1970.
1968 - O general da Força Aérea Venâncio Deslandes assume o cargo de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, mantendo-se em funções até 1972.
1974 – Dá-se o golpe militar de 25 de Abril que derruba o governo de Marcelo Caetano e põe fim à Guerra do Ultramar. Na sequência da revolução são extintos os Ministérios do Exército e da Marinha, bem como a Secretaria de Estado da Aeronáutica. As Forças Armadas deixam de ficar subordinadas ao poder civil, passando à tutela do Conselho da Revolução. Os Chefes de Estado Maior dos três ramos das Forças Armadas passam a exercer o comando do ramo, com o estatuto de ministro. O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas passa a ter o estatuto equivalente ao de Primeiro-Ministro, ficando na dependência directa do Presidente da República.
1975 - A FAP envia para Timor-Leste um destacamento de helicópteros, que ali opera em apoio das forças portuguesas (entre as quais um destacamento de pára-quedistas) até à invasão indonésia.
1975 - Com a independência dos territórios africanos portugueses, a FAP retira de África, sendo extintas a 2ª e a 3ª Regiões Aéreas. Mantém-se apenas o Comando da 1ª Região Aérea que é, pouco depois, transformado no Comando Operacional da Força Aérea.
1977 – A Força Aérea é reorganizada, sendo criado o Instituto de Altos Estudos da Força Aérea.
1978 – Entra em funcionamento a 1 de Fevereiro a Academia da Força Aérea.
1982 – Na sequência da reforma constitucional onde é extinto o Conselho da Revolução, as Forças Armadas voltam a ficar subordinadas ao poder civil. A Força Aérea Portuguesa, tal como os outros ramos, é integrada no Ministério da Defesa Nacional.

DEIXO-VOS O VERGÍLIO LEMOS COM A GERAÇÃO DE 60 e 70 E AS AERONAVES DA B.A. 6- MONTIJO À DATA DE 28/03/2015
Lembrança para o “nosso velhote”-28/3/2015
O “Homem” e a sua gente – Nossa geração
B.A.6 - Actualidade

Notas: Recolha de informação no Jornal “O Especialista” Nº. 1 – II Série – 01/3/2015 e Wikipedia sobre a FAP.
Compilação e arranjo de texto de Vítor Oliveira - Ocart    
Até breve     
O amigo








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