sexta-feira, 7 de março de 2014

O BILHETE DE CINEMA


Já tinha mais de dois anos de comissão, e sempre que chegava um novo OPC, lá tinha que aturar mais um "mike", como outros fizeram comigo, e eu sei do que falo, a integração de pessoal praticamente recém chegado da OTA, era um trabalho que cabia à totalidade dos operadores que estavam de serviço, uns tinham mais paciência que outros, e como em tudo era preciso sorte de parte a parte, um pequeno descuido ou distração, e uma mensagem que poderia ser a diferença entre salvar vidas e provocar mortes era passível de ter os dois tratamentos, dependendo do traquejo do operador mais velho de serviço, e do recém chegado que não sabia ainda muito bem como lidar com a decisão do que era ou não prioritário. Quando o "mike" que estava comigo a ser “lançado", me disse todo excitado: uma mensagem ZULO o que é que eu faço? Lá tive que lhe dizer tem calma, isso não é para levar a sério.
A coluna Dala-Luso em 1970, foto de Gonçalo Carvalho
Vem isto a propósito, de mensagens quase diárias de pedidos de apoio aéreo para a coluna que saía de Henrique de Carvalho para o Luso e era sistematicamente atacada na zona das Quedas do Dala. A estrada até aí, com troços asfaltados e partes ainda por concluir, era relativamente plana e com flancos que não permitiam esconder pessoal e armamento para ataques de surpresa, proporcionando velocidades altas, coisa que não acontecia junto das quedas de água, quer por existir um declive e uma curva acentuada, quer pela proximidade da ponte mais estreita que provocavam o congestionamento do trânsito.   
Diariamente vinha uma mensagem “Zulo” máximo de prioridade, que só deveria ser tida em atenção se posteriormente confirmada em tempo real pela chefia militar de acompanhamento da coluna, resumindo, haviam uns bacanos, que não faziam mais nada que esconderem-se na mata e quando passava a coluna constituída por viaturas civis escoltadas por outras militares, davam uns tiros de arma automática ou outra, e depois piravam-se e recolhiam a bom recato, só voltando à acção no outro dia à passagem da coluna. Num desses dias, houve um dos atiradores que se entusiasmou mais um pouco, saiu do coberto da mata, e foi baleado e apanhado à mão pela escolta.
Confirmada a “evacuação” (p.f. não liguem à conotação do termo técnico) quando o homem chegou à placa do Luso, tinha a DGS à espera, foi-lhe feita uma revista sumária, e pasme-se, tinha no bolso um bilhete do Cine-Teatro Luena.
Na véspera “cansado das agruras da guerra” tinha vindo à cidade quebrar o stress com um jantarzinho, companhia e um bom filme.

Luso - 1973
OPC ACO

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

F-84 EM ANGOLA, MISSÃO NO NATAL DE 1966 A TEIXEIRA DE SOUSA

Na foto podem ver-se os F-84, na placa do AB4 com depósitos ditos pylon



Em Outubro de 1966, eu e outro piloto, experientes, fomos enviados para Luanda para fazer um refrescamento no F-84G para, de seguida, ir reforçar o contingente em Moçambique para fazer frente à Esquadra inglesa durante o bloqueio do Canal de Moçambique. “Farroncas” do tempo do “António”.


Em Luanda voei no F-84 quase 500 h em 2 anos e 3 meses.

Não falarei das missões por não me parecer apropriado mas, há duas histórias que quero contar.
1ª - Viagem a Teixeira de Sousa
Esta aventura tem que se lhe diga.
Pouco depois de chegarmos a Luanda, no Dia de Natal de 1966, estávamos de Alerta eu e o outro piloto que tinha chegado há pouco tempo.
Como não tínhamos família connosco, ficámos de serviço nessa noite.
Contudo, nessa mesma noite, houve um ataque a Teixeira de Sousa, na fronteira Leste de Angola. Num local até aí calmo aparece esta provocação.
Reação: enviar uma parelha de F-84 para patrulhar a zona e mostrar força e capacidade de intervenção...
Claro que fomos nós, os pilotos de Alerta, nomeados para a missão. De referir que nunca tínhamos ido ao Leste, que desconhecíamos totalmente.
Enquanto colocavam depósitos suplementares pylons (a viagem era longa) tentei obter cartas aeronáuticas para preparar a viagem, porque os F-84G estavam confinados no seu dia a dia, a atuar no Norte de Angola, pelo que, só tínhamos as cartas dessa área. A Região Aérea forneceu as outras necessárias.
Após o planeada a missão, descolámos a seguir ao almoço.
O percurso seria: voar em altitude, descer e sobrevoar Henrique Carvalho (Base da Força Aérea) na Lunda, daí continuarmos até Teixeira de Sousa, sobrevoar e aterrar em H. Carvalho.
Fizemos a viagem a 20.000 pés, por cima de nuvens e, de acordo com os nossos cálculos, iniciámos a descida, cerca 20 milhas antes. Devido à distância (julgávamos nós) e à baixa qualidade das ajudas rádio, ainda não se sintonizava o radiofarol HC nem se conseguia falar com a Torre.
Não esquecer que era Dia de Natal…
Saímos das nuvens cerca de 2000 pés acima do terreno e, surpresa: quando devíamos estar a ver a Base – nada. Chamámos – sem resposta.
Estávamos praticamente perdidos mas com combustível. Avistámos uma picada e pouco depois uma povoação que, felizmente, como era costume em Angola, tinha o nome escrito no telhado. Esta povoação estava no mapa, mas a cerca de 50 milhas antes de H. Carvalho. Era esquisito mas nada se poderia fazer nessa altura. Seguimos a picada e… H. Carvalho.
Falámos com a Torre e estavam surpreendidos – não tinham sido avisados da nossa chegada e tinham o radiofarol desligado – era Dia de Natal e não tinham movimento.
Expliquei-lhes a nossa missão pedindo que colocassem os candeeiros de iluminação na pista pois aterraríamos já de noite.
Teixeira de Sousa - 1968 -  Foto de Gininha Martinez Almeida Santos



Sobrevoámos o aeródromo e fomos para Teixeira de Sousa onde demos duas ou três voltas para nos mostrarmos ao inimigo e, ao mesmo tempo, animar as nossas “hostes”. Estava a anoitecer.Começámos o regresso e já perto de HC e às escuras, verifico que não tenho recepção do radio farol.
Incrível! Chamo a Torre e respondem-me, alguém tinha desligado a rádio ajuda.
Enquanto iam ligar o equipamento, continuamos o voo e passados alguns minutos apercebo-me da claridade dos potes utilizados na iluminação, acabando por aterrar em segurança mas já “apertados” em termos de combustível – daria para cerca de 10 minutos. Tempo de voo total 2:55 h.
O problema da Torre deveu-se à mudança de turno, rotina, ser domingo e Natal ninguém ter sido avisado do voo extraordinário. 
Após mais dois voos de soberania na área, regressámos a Luanda no dia 29, tendo corrido tudo normalmente. 
Esta viagem teve vários problemas, alguns impensáveis – Nada se saber em H. Carvalho foi o mais incompreensível. Falta explicar o erro de navegação – descida bastante antes de HC: em Luanda e com calma, tento compreender onde esteve o erro. As duas cartas aeronáuticas fornecidas pela Região Aérea eram de origem americana, fiáveis. Juntei as cartas, refiz os cálculos mas os resultados mantiveram-se. Até que reparei que o erro correspondia a ± 60 milhas náuticas. “Acendeu-se uma luz” - correspondia a 1 grau nos paralelos.Conclusão, as cartas fornecidas não se justapunham - faltava exactamente uma faixa de 60 milhas náuticas de terreno. 
Mais um erro em que me sinto também culpado mas não esperado.


Texto:Cap(Ref) Fernando Moutinho



Transcrito por especial deferência do site e do Sr. Cap. Fernando Moutinho

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

RÁDIO VOZ DO MPLA


Gago Coutinho, foi pela sua singularidade, o destacamento do AB4 primeiro, e do Secarleste depois, em que o pessoal mais se integrou.
Embora existissem elementos diferenciadores, os pilotos independentemente da patente, comiam na messe de oficiais do Exército, incluindo os furriéis e sargentos, e tinham um alojamento separado. Mas no restante e não era pouco, a relação era de cada um com a sua especialidade, concorrer para o mesmo objectivo, independentemente da qualidade, e operacionalidade do material,potenciando ao máximo o desempenho e intervenção do destacamento no esforço de guerra desenvolvido na sua área de intervenção. Mas proporcionando à sua guarnição, uma relação humana e profissional ímpar, no contexto dos seis outros destacamentos.
Instalações do AR
Vem isto a propósito do tempo de estadia para além das tarefas diárias de cada um, só em Gago Coutinho era possível o OPC Asseiceiro, ensinar morse ao MMA Tomaz, ou ao MELEC Lino, o MMA Tomaz, ensinar o OPC Asseiceiro, a abastecer uma DO, ou T-6, ou o MAEQ, ter como ajudantes outros especialistas, a municiar os T-6, ou a fazer "napalm", ou o MELEC, Lino ensinar os OPC,S a perceberem como identificar uma avaria básica, nos emissores.
Nos tempos livres, eram normais as saídas conjuntas, entres pilotos e especialistas, sem serem necessariamente os mecânicos que os acompanhavam nas missões. Ou no fim de uma das muitas noites de churrascos, falar-se de tudo um pouco, religião, política, mulheres, sexo, ou mesmo do papel de cada um e da sua posição em relação à guerra onde todos estávamos, consciente ou obrigatoriamente metidos. 
Numa dessas noites após um churrasco de “facocheros” a conversa proporcionou uma audição que só um OPC podia concretizar, sintonizei num hamarllund, uma frequência por mim conhecida e lá estava a rádio “Maria Turra” assim lhe chamava por ter como locutora uma mulher e auto-intitular-se a “Rádio Voz do MPLA” depois de uma conversa numa língua que nenhum de nós entendia, veio a locução em Português, e para espanto dos presentes, era um desfilar de ataques a colunas, quartéis e bases aéreas, o abate de aviões, afundamento de navios e destruição de quartéis, com centenas de mortes, e capturas de oficiais e soldados, bem como a libertação de kimbos, vilas e cidades, tudo isto à mistura com insultos, e ofensas à “tropa colonial fascista portuguesa”, bem como tentativas de aliciamento, das populações civis e dos militares na deserção, passagem de informação sobre operações, sistemas de defesa e segurança... 
Após acabar a transmissão, toda a gente confirmou que nem lhe passava pela cabeça que aquilo pudesse ser verdade, e cada um se manifestou quanto ao conteúdo, cimentando com a discussão, a camaradagem que nos unia, e a certeza que tudo aquilo não passava de propaganda, bastava constatar o decréscimo dos pedidos de RVIS e RVIS-ATIR, dos TEVS, ou dos ATAP, para perceber que com a UNITA, confinada ao papel de contra guerrilha, na área das nascentes do Lungué Bungo, a FNLA refugiada na Zâmbia desde Setembro de 1972, e a eliminação do último grupo organizado do MPLA no Leste de Angola, numa mini-siroco em 29 Julho de 1973, não tardaria o fim da guerra, e duma solução mais política que militar...

Dezembro de 1973, Gago Coutinho
OPC ACO

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O PROJECTOR

 Lembrava-se pelo menos de 3
O Jorge, com o filho de tenra idade sentado ao seu colo, via uma fotografia que tinha descoberto na Internet, num site dedicado ao AB4 (Aeródromo Base Nº. 4). Estavam vários especialistas da FAP em pose fotográfica e ele reconhecia e lembrava-se pelo menos de 3 dos 9.
- Quem é, pai? – pergunta-lhe o petiz, estranhando não conhecer ninguém, habituado que estava a ver fotos do pai, da mãe, do mano, dos avós… mas quem diabo seriam aquelas pessoas, que nunca tinha visto? – pensou para com ele.
- Pai, quem é? - Repetiu. Que coisa esquisita. O pai, em vez de estar a olhar para a fotografia, estava a olhar para a parede da sala. Parecia que dormia, mas com os olhos abertos.
Mas o Jorge não dormia, recordava. Recordava situações e pessoas de há mais de 30 anos. Oh, como distinguia os dois rios serpenteando no meio do arvoredo cerrado, como observava as sanzalas com as centenas de cubatas. E a cidade. Cidade, sim, que era como estava escrita que era: a cidade de Henrique de Carvalho, no leste de Angola, no primeiro ano da década de 70.
Bem, vista da Nordatlas, não era grande. Era pequena.
Quatro ou cinco ruas. Isto era visto do avião, claro. Que, de certeza, quando lá chegasse, era muito maior. Afinal, era a capital do distrito do Saurimo.
Apareceu, de repente, a pista, rodeada de ervas de 3 metros de altura a que chamavam capim. O pesado trem de aterragem do avião tocou a pista e tocou também o seu coração. Um baque estranho e surdo, feito de arrepios e calores, percorreu-lhe longamente o corpo. Seria do calor húmido, próprio do clima africano? Ou seria da sensação nunca antes sentida de ter chegado às entranhas de África?
À medida que o avião diminuía a velocidade na pista até se imobilizar, um carro de bombeiros acompanhou-o sempre.
A chegada do “barriga de ginguba"
Mais ao longe, grupos de malta eufórica com a chegada do “barriga de ginguba” (nome dado ao Nordatlas, pela sua invulgar envergadura), que significava, semanalmente, entre outras coisas, maçaricos para a rendição (que na Força Aérea era feita individualmente), aerogramas dos pais, mulheres, namoradas e amigos, comida fresca de Luanda e novidades do “puto” (ou seja, da metrópole, quer dizer, lá de Portugal).
- Pai, ò pai, quem é? – gritava o filho, já desesperado.
- Ó Jorge, não ouves o menino? Adormeceste? – vociferou a mulher, da cozinha.
- O quê? Sim, está bem – despertou. 
Mas o que ele queria mesmo era voltar a perder-se no projector imaginário da parede, onde corria o filme a cores da sua passagem por Angola. E ele queria revivê-lo ali e agora. Acendeu a TV no canal Panda e o filho sossegou.
E a parede mostrou-lhe mais e mais. Mostrou-lhe o 1º. Natal passado em Henrique de Carvalho (hoje Saurimo), cujo lema era “Não sabe ser rendido nem dobrado”, escassos dois meses após ter saído do “puto”, em que queria esquecer e embebedar-se e não conseguiu. Misturou vinho com saudade, vodka com lágrimas, cerveja com recordações, gin com olhos verdes, martini com desgosto, whisky com cabelos longos até à cintura, aguardente com lágrimas de mãe, ginja com pele de galinha de pai. Tudo que conseguiu foi uma valente dor de cabeça, mas embebedar-se, que era o objectivo, não. Realmente, quem manda mesmo é a cabeça…
Cazombo
E o projector continuou. Nos dias secos, em que o que custa mais são os primeiros 6 meses e os últimos 18. A primeira ida para um destacamento, o Cazombo, onde chegou a ser por alguns dias o 2º. comandante e no posto de rádio e de cifra, em que era o único rei e senhor. 
Viu na parede, a cara de espanto do tenente-coronel do exército quando foi mandado sair do centro de cifra, onde, após a visita ao posto de rádio, teimou em entrar. Era uma área considerada secreta e só o operador de comunicações e o comandante do destacamento podiam entrar. Um saudoso sorriso enigmático aflorou aos seus lábios, deixando ver, já, algumas rugas.
Clube
No bar de especialistas, num domingo soalheiro, a meio da tarde, o enfermeiro Silva metia cuidadosamente uma nota de 20 escudos entre as duas folhas de uma carta, que acabara de escrever.
– Qué que tás a fazer? – questionou o Esteves.
- A mandar dinheiro numa carta, não vês? – disse, com ar altivo.
- Então recebes dinheiro e depois mandas? Tás cacimbado ou quê? – tornou.
- Ná, nunca estive tão bem. É para a mãe da minha noiva – disse, com aparente à vontade.
- Para a mãe da tua noiva? Que se passa? Este tipo tá maluco…
- Não estou, não. Soube através de um amigo que ela me anda a enganar – mediu bem as palavras que, via-se, o estavam a magoar. 
- Namoramos há 3 anos e íamos casar quando eu voltasse, daqui a 6 meses – pronunciou, já com a voz a tremer - Este dinheiro é para a mãe dela lhe entregar, para pagar o tempo em que estivemos juntos – e um Homem chora, sim senhor e chora mesmo, compulsivamente e sem medo e sem vergonha.
M. João na torre
A torre de comunicações, com os seus 140 degraus, onde o esperava o amigo M. João. Com o Jorge, subiam Nocais fresquinhas e o chouriço acabado de receber do “puto” (“vá, filho, para não te esqueceres do gosto das nossas coisas”).
Recordava, no meio de dois golos de cerveja, as conversas que tinham sobre tudo o que se passava à sua volta e, claro, sobre as namoradas que tinham deixado lá. E como ele lhe ensinara algumas palavras do dialecto local. Tentou lembrar-se, mas só lhe apareceram “moyo” e “euá, chindelo”. Deu-lhe alguns preciosos conselhos e emprestou-lhe vezes sem conta a "kinga" para ele se deslocar mais rapidamente.
M. João e a "kinga"

Falavam sobre temas filosóficos, pois então; mas também sobre o primeiro Martinho, que tinha pedido para levar umas coisitas para a mulher, que vivia em Lisboa. E de como o viam, meses depois, andando cabisbaixo, com a mão esquerda atrás das costas e a direita enfiando cigarro atrás de cigarro na boca sôfrega de nicotina e de algo que lhe minorasse a dor.
- Isto é uma vida do camandro, ò Jorge. Não chega a netos, pá – era uma das frases que proferia mais frequentemente, naquele conturbado período. 
Tempos depois, falou-se que tinha sido encontrado com uma corda à volta do pescoço.
Esse não mandou dinheiro dentro duma carta…
Não pôde continuar. A parede começou a tremer. Seria um tremor de terra? Ou o vizinho de cima a dançar? E deu com ele a cantarolar o hino de Henrique de Carvalho (escrito em 1969 por Rocha Marques, piloto aviador e recuperado pelo Mendanha Arriscado). 
Primeiro em surdina, depois cada vez mais alto, como que deixando sair um misto de raiva e saudade, de pressão e de carinho pelos tempos passados e que, hoje, têm um sabor esquisito na boca e uma recordação difícil de definir.
Só conseguiu chegar a meio.

“Quando penso que lá longe ela me espera” já não foi cantado, foi chorado. Primeiro com muitas e grossas lágrimas escorrendo pela cara, depois num choro cada vez mais salgado e ardente.
Quando a noite veste de sombras o mundo
E o silêncio me desperta a solidão
Verto lágrimas e o meu sofrer é profundo
Põe-me louco de saudade o coração.
Quando penso que lá longe ela me espera,
Ansiando pelo dia da chegada,
Grito a Deus, que minha alma desespera,
Grito a Deus, mas o silêncio não diz nada.
Quando os pássaros saudando a madrugada
Me despertam para a guerra uma vez mais
Sinto o peso desta vida amargurada
Sinto ódio às minhas "asas" infernais.
Oh ! Henrique de Carvalho, meu desterro,
Que por dois anos me farás teu prisioneiro,
Se eu morrer quero bem longe o meu enterro,
Quero ser da paz eterno companheiro.

Escrito no AB4-Aeródromo Base nº.4.
Henrique de Carvalho-Angola em 1969
Por:

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

MONGU NA ZÂMBIA....DE N'RIQUINHA !

Dia de Nord em Neriquinha

   
Neriquinha não se passava nada de quinze em quinze dias, periocidade que mediava entre cada chegada do Noratlas, “quando o tempo o permitia”, que nos abastecia de frescos, bebidas e o tão esperado correio.
Nesses intervalos “sofridos”, havia que inventar alguma coisa que fazer para pura e simplesmente não se estupidificar irreversivelmente. Como os contactos com Carvalho eram efectuados maioritariamente com a torre de controlo, pela escassez de serviço que justificasse incomodar o posto de rádio, entretinha-me a fazer “relé” (servir de intermediário/retransmissor, entre estações terrestres, ar terra, ou terra ar, entre postos fixos e aviões) ou a tentar contactos com outras estações da FAP fora da nossa rede, com as de Moçambique, (estávamos mais perto em linha recta da Beira que de Luanda) ou com as do Negage, ou de Luanda.
Nessa busca incessante de mais potência para chegar mais longe, tive como aliado um MRAD, julgo que se chamava Lino, que tinha uma forma “sui generis”, (traduzindo) do seu próprio género, (traduzindo) não sei onde raio é que ele aprendeu aquilo... que consistia em pousar uma lâmpada fluorescente em cima do emissor, sem estar ligada a nada, e ir ajustando a potência de saída deste, até a lâmpada atingir o máximo da luminosidade, devido ao enorme campo eletromagnético gerado pelo emissor, (técnica que transportei comigo para todos os destacamentos seguintes). Assim, tornou-se banal levantar-me de madrugada e conseguir primeiro contacto com com a Beira, Tete, ou Lourenço Marques do que com o Negage, ou Luanda, mas o que me dava mesmo mais gozo, era interferir nas comunicações de uma pista Zambiana num terra chamada Mongu, ou coisa semelhante, logo do outro lado da fronteira.
Sempre que ouvia algum avião com indicativo começado por 9J, civil, ou militar chamar pela estação, 
respondia e torpedeava todas as instruções possíveis, sistematicamente o controlador de serviço mandava o avião mudar de canal e frequência.
Mas semanas de inactividade, tinham-me proporcionado a possibilidade de catalogar todos os canais e frequências por eles utilizados, aliás julgo que a origem do seu material tinha a mesma que o nosso, pois as bandas e canais dos nossos emissores, coincidiam quase na totalidade com as frequências utilizadas por eles, era evidente que eles sabiam que eu emitia do exterior da Zâmbia e mais que uma vez fui ameaçado que, ou abandonava as frequências, ou quando me localizassem me largavam um bomba em cima, nessas alturas abandonava o Inglês, e utilizava o Português mais vernáculo para os insultar e para que não houvesse dúvidas que nada me faria desistir. Afinal a Zâmbia não tinha relações com Portugal e dava abrigo e armava o MPLA, e era de lá que eles vinham atacar-nos, por isso o que eu fazia era não só legítimo, como justificável.

Mas o mais secreto projecto e que mais me deu gozo foi uma noite cerca das quatro da manhã, após semanas de muitas tentativas falhadas, e após conseguir falar primeiro com o Sal, depois com Bissau, e finalmente chamar a Portela, e perante a incredibilidade do controlador de serviço, que nunca tinha ouvido falar em Neriquinha, dar-lhe o número do telefone do meu amigo “macanudo” Soares na Golegã, para que ele lhe telefonasse a dizer que eu estava bem, mas saudoso, e que me escutasse em onda curta durante uns dias nos 26 MHZ, e após alguns dias de tentativas falhadas, finalmente durante uns breves minutos conseguimos contacto e falámos incrédulos até que o sinal se perdeu.
Panorâmica de Neriquinha
Quando finalmente acabou o meu desterro em Neriquinha, tinha um caderno com indicativos, frequências e contactos confirmados nas duas costas de África, na Macaronésia, e na Europa, para além de dezenas de contactos com civis no interior da Província.

Por:
JFM A

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O "GENERAL MACK, MACK, MACK"

O PROCESSO
Depois de ler o artigo do A. Neves, lembrei-me de tentar explicar, a quem não teve o privilégio, de participar destes eventos, (muito tradicional e quase banal) nas hordas dos Especialistas.
E no que consistia este momento tão delicioso para uns e tão amargo para outros.?
Normalmente este convívio era praticado com vários personagens, diria mais, quantos mais melhor, pois dava azo a grande cavaqueira e brincadeiras entre os intervenientes. 
Basicamente tratava-se de um jogo que tanto podia ser com cerveja, whisky ou outra qualquer bebida que fosse com algum teor alcoólico (dava jeito)...
Então era assim:
Depois de reunido o grupo de “atrevidos (cheguei estar numa mesa de 15 pessoas) mandava-se vir para a mesa a tal bebida escolhida, que era distribuída por todos, normalmente cerveja em garrafa ou “finos”.
O jogo consistia nas seguintes regras que tinha 3 fases.
1º. - O jogador tinha de beber o conteúdo de um copo / garrafa por três fases, cada uma delas obedecendo a um ritual bem definido.
.
Quando, no meio de toda a conversa que entretanto ia existindo, alguém se levanta para começar a sua actuação
deveria dizer alto e em bom som; - O "General Mack", vai beber pela 1ª. vez, e pegando pelo copo/ garrafa com apenas dois dedos (o polegar e o indicador) ingere um gole da bebida, bate com o copo ou garrafa uma vez na mesa, faz 1 vénia aos presentes,em sinal de respeito apenas uma vez, e coloca o dedo indicador em cima da mesa.
Neste entretendo, ninguém lhe passava cartão de tão "distraídos que estavam" nas suas conversas, mas, havia sempre um mas...... é que ninguém estava distraído, porque neste ritual  o bebedor apenas podia dizer estas palavras e gestos uma vez, e se por acaso se enganava teria de repetir tudo outra vez, por isso havia sempre alguém atento, e que tentava enganar os bebedores e para isso diziam EX, EX, EX, o que queria dizer que eles se tinham enganado.
Especialmente aos maçaricos caíam que nem patinhos e tentavam dizer que não, não senhor, não se tinham enganado. Erro quase sempre fatal.
Este EX,EX,EX, queria dizer que o melro se tinha enganado, mesmo que tal não tivesse acontecido, mas bastava por exemplo dizer que só tinha dito uma vez general mack para acabar a sua bebida e ter de repetir a dose novamente, pagando ele a rodada para a mesa.
2º. - O "general mack, mack", vai beber pela 2ª. vez.
Pegando no copo ou garrafa com os dedos, polegar, indicador e médio, bebia por dois goles outra porção do líquido, bate duas vezes com o copo/garrafa, findo o qual faz 2 vénias, e colocava os dedos, indicador e médio, duas vezes na mesa.
Claro que neste entretanto a conversa continuava com o pessoal sempre “distraído” à espera de um engano e havia muitos, mesmo entre os veteranos.  

3º. - O "general mack, mack, mack" vai beber pela 3ª. vez.
Pegando o copo/garrafa agora já com mais um dedo (o anelar), bebe por três goles e termina a sua bebida (só agora), bate 3 vezes com o copo/garrafa, na mesa, bate 3
Cena real
vezes com os dedos (indicador, médio e anelar na mesa e faz 3 vénias, e no final tem de dizer, e não se esquece de pôr o filho da puta do dedo (polegar) em cima da mesa.
Assim termina a actuação deste bravo, passando depois a outro “artista”.
Note-se que quando havia um desgraçado, a quem lhe corria mal a prosa, tinha de pagar rodadas para a mesa, até acertar, ou ter de ir chamar o “gregório”. 
Muitos camaradas chegavam a ter bebida em "caixa" durante o mês, graças a este entretém.
Havia gente muito experiente, que também se enganava ou era levado ao engano o que dava um gozo ainda maior, pois estavam convencidos que a eles, não........!!!





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

OBJECTOS VOADORES NÃO IDENTIFICADOS NO AB4 (OVNIS)

Cine Luena no Luso
Estava de serviço à cifra, não havia nada que fazer, combinei com o operador de serviço ao posto de rádio para que me dobrasse se entretanto viesse serviço que não pudesse esperar, e fui com o pessoal de alerta ao cinema, ver um clássico de Índios e Cowboys.
Enquanto todo o cinema exuberava com a morte dos Índios, nós berrávamos a plenos pulmões com a morte dos Cowboys, estávamos todos entretidos, eis senão quando, o som do filme foi cortado e uma voz roufenha anunciou que: o pessoal de serviço da Força Aérea presente, deveria apresentar-se imediatamente na entrada do cinema.
Toda a gente que pertencia à FAP, veio saber o que se passava para estarem a chamar o pessoal de serviço àquela hora da noite. Entrámos na carrinha onde já estavam outros militares fardados, o que não era bom prenúncio, e depois de apanharmos mais uns quantos de todas as especialidades, zarpámos para o Aeródromo. Aí chegados, tínhamos um sisudo comité de recepcção à nossa espera. Fui direito ao posto de rádio verificar o que se passava e fui informado que à vertical de Henrique de Carvalho, tinham sido avistadas umas luzes coloridas estranhas, que se moviam de forma aleatória e a altura variadas, sem que fosse possível qualquer contacto via rádio, e que, afirmava o controlador de serviço, só poderiam ser OVNIS, (objectos voadores não identificados). Feito o briefing pelo adjunto do Comando, foi lido o conteúdo da mensagem que tinha originado a nossa convocatória, em que Luanda ordenava que um PV-2, armado descolasse para interceptar o que era avistado à vertical de Carvalho, uma vez que os F-84G, não tinham autonomia para descolarem de Luanda, virem à vertical de Carvalho e regressarem a Luanda, por não haverem condições para aterrarem à noite em Carvalho.
Assim... às 23H15 sem radar, sem outro sistema de apoio de voo que não fossem as estrelas, sem outra pista aberta de recurso por perto ou na rota, sem outro meio bélico de 
PV2
intercepção que não fossem as metralhadoras de nariz de um avião com mais de trinta anos de existência, sem ser pressurizado, e que tinha um tecto de operação em novo, abaixo do indicado para a altura máxima a que foram avistadas as estranhas luzes... discutida a inevitabilidade da missão, foi formada uma tripulação de voluntários, armado um avião e perante os protestos dos presentes pela inadequação do meio aéreo para a missão, lá partiram dois pilotos, um mecânico MMA, outro MAEQ, um Navegador, e um OPC, rumo ao desconhecido.
Depois de descolar, recolhi ao posto de rádio para ouvir os reportes, o Vieira, OPCART, falava com o outro controlador de Carvalho, que aparentemente tinha sido instruído por Luanda, para limitar as informações ao facto pela frequência. Entretanto a notícia espalhara-se pela rede, e várias estações não identificadas mandavam “bocas” foleiras ou denunciavam avistamentos múltiplos de luzes, para piorar a situação, já apareciam uns malucos a falarem em línguas assaz estranhas, e a darem os mais absurdas ordens, num caos indescritível, resumindo, o PV-2 chegou à vertical de Carvalho, não viram nada, e acabaram por aterrar sem qualquer contacto credível.
No dia seguinte, veio uma mensagem do Comando da 2ª. Região Aérea, instruindo as chefias de Carvalho e do Scarleste, para que todos os registos fossem apagados e o pessoal de serviço na véspera fosse instruído para não comentar, relatar, ou manter qualquer prova da existência do mesmo, passando o voo efectuado a ser considerado um voo de excepcional de treino nocturno.
Embora sendo o mais conhecido, outros avistamentos estão referenciados, sendo o de Gago Coutinho, a 20 de Março de 1969 o mais trágico, pelo acidente ocorrido com a morte de três militares da FAP, dois pilotos, Alf. Baeta e Ten. Ascensão e o MMA Tavares, no despenhamento de um héli, quando tentavam interceptar umas luzes avistadas também à noite no destacamento.

Por:
OPC ACO

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

RESGATE EM HENRIQUE DE CARVALHO



A certa altura, consoante instruções políticas já depois do 25 de abril, ficou definido que o controlo da Base de Henrique Carvalho seria entregue ao MPLA.
Em consequência, a Base mantendo o nosso pessoal para a desativação, acolheu um grupo de militares daquela força.
Mas, na ocorrência de lutas e perseguições com pessoal de outros Movimentos, um número de cerca de 70 pessoas da FLNA fugiu e refugiou-se na Base.
O pessoal da Força Aérea perante o dilema, escondeu-os num pequeno hangar, onde se dizia estarem as bagagens e caixotes do pessoal de regresso à Metrópole, lançando entretanto um apelo aos comandos em Luanda, para resolução rápida do problema. No mínimo que poderia suceder, se esses elementos fossem descobertos pelo MPLA, seria a sua eliminação.
Um Nord teria que ir a Henrique de Carvalho tentar retirar os refugiados.
Mais uma vez me ofereci. Por sinal tinha visto pouco tempo antes o filme “Raide a Entebbe” que narrava algo parecido e me inspirou.
No briefing da missão estudámos a situação e resolvemos atuar sempre na máxima descontração, para não alertar os “MPLAs” e dividirmos as tarefas, a saber:
Eu, convidaria os “MPLAs” para irmos até ao bar e assim mantê-los longe da ação. O radiotelegrafista iria tratar do Plano de Voo, e o 2º Piloto e o Mecânico ficariam a orientar a carga das “bagagens”.

Após a aterragem, levámos o avião para perto do referido hangar e aguardámos um pouco, até aparecerem os elementos do “MPLAs”.
Iniciámos a “psico”: “Viva camarada comandante, tudo bem? … Blá-blá, blá-blá... viemos buscar os caixotes do pessoal que está a regressar. Enquanto se trata da carga, convido-os a acompanharem-me até ao bar”. Depois viro-me, para os outros membros da tripulação, e peço: "Depois avisem-nos quando estiver pronto".
E lá levei os “camaradas” comigo.
Daí a algum tempo chegou a informação que estava tudo pronto.
Lá regressámos em amena cavaqueira, despedimo-nos junto ao avião e… "até breve".
Descolámos para o Negage para entregar os refugiados (entaipados pelos caixotes como disfarce) na sua área política.
Os amigos “MPLAs” nem cheiraram o que na realidade se passou.

Texto: Cap. (Ref) Fernando Moutinho
Transcrito por especial deferência do site e do Sr. Cap. Fernando Moutinho

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A “ESCOLA DE CONDUÇÃO” DO CAZOMBO


Cazombo em 1972 - foto de Manuel Ribeiro da Silva




No meu primeiro destacamento no Cazombo, fui com o Mangas, um Angolano que era completamente louco, substituir julgo que o Sousa de Fafe, e o Albuquerque, operadores que já estavam à bastante tempo de seca.
Rua principal
Logo na minha primeira saída “turística” pela “cidade” deparei-me com uma pick-up Chevrolet, modelo dos anos sessenta, de um azul desbotado pelo tempo e abandono, em muito mau estado de conservação, sem vidros e sem rodas, implantada em cima de uma série de troncos, mas o que me despertou ainda mais a atenção, é que tinha o motor a trabalhar ruidosamente, com dois homens dentro um civil e um militar do Exército, que estavam aparentemente a efectuar manobras como se a viatura estivesse em movimento, especialmente o militar que estava sentado no lugar do condutor, virava o volante a um lado e ao outro, metia mudanças e fazia sinais indicadores de mudança de direcção com os braços. Perguntei ao Mangas, se sabia o que faziam aqueles dois “abelharucos” sentados dentro de uma relíquia daquelas todos contentes como se aquilo fosse normal...
O Mangas na sua sabedoria de mais velho e Angolano, sentenciou: o militar está a receber uma aula de condução. Olhei para ele espantado, mal o conhecia, era o meu primeiro destacamento, e aquilo, parecia-me no mínimo uma grande “tanga”, retorqui... espera lá, queres-me convencer, que aquilo é um veículo de instrução onde se aprende a conduzir e se tira a carta, em cima de troncos... é pois, inscreves-te, pagas, dás umas aulas, depois vem o examinador do Luso, antes que ele chegue dão-te as perguntas, decoras tudo, arranjas um envelope com o “abono” para lhe entregares durante o almoço, e depois é só aguardar pela carta.
Depois daquela explicação, passei a andar com mais atenção sempre que saía da cerca do Aeródromo, não fosse ter algum mau encontro com os “encartados” com um método de instrução tão científico... também para um sítio que nem tinha estradas, para que era preciso ter carta?
1971 - foto de Fernando Dias do BCaç.4212



P.S. Uns anos depois do 25 de Abril, a Direcção Geral de Viação, mandou recolher todas as cartas tiradas nas Ex-Províncias Ultramarinas, para efectuar a uniformatização de todas as Licenças de condução, nas do Moxico, veio-se a constatar que na sua maior parte eram simplesmente falsas, pois os “examinadores” limitavam-se a enviar licenças de condução que não tinham qualquer registo legal, não tendo elas qualquer validade.

Por:
OPC ACO