sexta-feira, 30 de novembro de 2012

VISITA AO RUNTU

Vista aérea de Runtu
O Runtu (ou Rundu) é uma cidadezinha da Namíbia, na fronteira com Angola. Situada na margem sul do Rio Cubango (internacionalmente conhecido por Okavango). A Namíbia foi primeiro administrada e depois ocupada pela União Sul-Africana (actual República da África do Sul). Tornou-se independente em 1990.
Como é sabido, os sul-africanos foram, de forma mais ou menos encapotada, nossos aliados na guerra em Angola. Eram conhecidos pelos "primos". Da ajuda militar que nos proporcionavam fazia parte o apoio aéreo. Principalmente com helicópteros AL III. Estes helicópteros eram usados para o transporte das nossas tropas durante as operações militares. Esta ajuda era sempre enquadrada por um heli-canhão nosso.
No fim de cada operação os “primos” regressavam à África do Sul (Namíbia) sendo escoltados pelo heli-canhão até ao ponto de saída de Angola, o Runtu.
Heli dos "primos"
Esta introdução explica as nossas visitas ocasionais à Namíbia.
Era a oportunidade para o piloto e o mecânico irem até ao outro lado da fronteira e ganhar ajudas-de-custo "internacionais". Um complemento ao pequeno ordenado que recebíamos. Principalmente porque no pouco tempo que lá se passava (um dia ou dois) estávamos alojados no campo militar do Runtu e não gastávamos nada. Para se gastar alguma coisa tinha de se ir ao Runtu (povoação). Aí podiam fazer-se algumas compras como, por exemplo, os cachimbos, os "sacos" de estopa que serviam para transportar água (mantendo-a fresca), lembranças no comércio local, etc.
Vindos do rio Cubango/Okavango
Foi num desses "raids comerciais" à povoação que...
Caminhando numa das ruas vi uma loja de "souvenirs". Uma olhada rápida para o interior prometia fazer um bom rombo no orçamento. Havia um pouco de tudo: tecidos, pinturas, máscaras, peles curtidas, trabalhos em madeira, etc. A escolha era vasta. A loja, não muito grande e um pouco sombria, tinha duas ou três filas de expositores em prateleiras que subiam um pouco acima do nível da cabeça (como num supermercado). Os diversos artigos estavam bem arrumados nas prateleiras e o chão, de cimento velho, tinha sido varrido recentemente porque os fachos de luz solar que entravam obliquamente pelas janelas mostravam, contra o fundo escuro do interior, as partículas de pó que flutuavam no ar. Ainda sinto o cheiro típico destas lojas; aquela mistura de madeira esculpida e peles secas. Era o mesmo cheiro em todas essas lojas. Mesmo nas de Angola.
Já lá dentro, demorei-me um pouco a apreciar os diversos objectos.
Ao fim de algum tempo comecei a sentir aquela sensação que se sente quando se é o alvo das atenções. Uma espécie de pressão sobre os ombros que não nos deixa concentrar no que estamos a fazer. Pelo canto do olho vi que, efectivamente, dois indivíduos tinham parado ao fundo do corredor e olhavam-me directa e ostensivamente. Pensei logo que seriam os guardas do estabelecimento a ver se eu não punha alguma lembrança nas algibeiras do fato de voo mas rapidamente me apercebi de que havia mais gente que me olhava. Toda a gente me olhava. Mesmo pelos intervalos das peças de artesanato à minha frente, havia olhos que me fitavam. É certo que eu era um estrangeiro mas... tanta curiosidade?
Loja de artesanato
Pousei na prateleira a caixa de madeira trabalhada que tinha na mão e olhei à minha volta. Afinal todos aqueles olhares não eram de curiosidade, eram olhares graves e carrancudos, quase (?) de ódio. E foi nesse momento que eu percebi a situação: todos os clientes eram pretos! Eu estava numa loja para pretos num país onde, oficialmente, pretos e brancos não se misturavam. Eu estava na loja errada e era, claramente, indesejado naquele local! Este foi o meu primeiro encontro com o “apartheid”.
Voltei a pegar na caixa de madeira que me tinha agradado e dirigi-me ao balcão, perto da porta, onde estava a caixa registadora. Sem muita conversa, paguei e dirigi-me para a porta com a caixa debaixo do braço. Na saída voltei-me para o interior da loja, levantei a mão em sinal de paz e, olhando para a minha estranha plateia, abri um sorriso amigável e franco e disse: “Sorry.” Ninguém me respondeu, nem alterou o olhar fixo e agressivo. Outras gentes...
Felizmente que o comerciante devia ter por lema: “Apartheid, apartheid, negócios à parte!” Ainda hoje tenho a caixa de madeira que lá comprei.
Em Angola esta situação, que me apanhou de surpresa, não faria sentido. Eu sempre andei por onde quis e sempre tratei todos da mesma maneira, pretos, brancos ou mestiços. Também nunca me senti hostilizado por parte da população local. Nós, Portugueses, deixámos pelo Mundo uma “marca” que nenhum outro povo soube deixar. A nossa maneira de ser, franca, amigável e sem preconceitos, sempre foi um inimitável cartão de visita. Sei do que falo porque ao longo da vida vivi e trabalhei em muitos países que foram antigas colónias de diferentes povos.
 Penso que uma boa parte da juventude actual não sabe o que foi o "Apartheid". Ainda bem!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CONVERSAS NA CIDADE Nº.3


Nota Introdutória
     Os “especiais” e o novo companheiro encontravam-se no “Lux Bar” a curtirem a folga da Base…
_________________________________    ///    _______________________________


Marrador - O Vito, o Joca e o Quim tinham satisfeito as primeiras necessidades…as que entram, não as que saem. Comidos e bebidos deparam-se em acertar com a porta do “Lux Bar”. Ainda houve um dos “especiais” que traçou com o taco do bilhar o azimute do jardim frontal…, mas as mentes andavam turvadas – causa do líquido amarelado. Bem, as moelas e os “pi-pis” tiveram que ser regados a primor pelo efeito do carrego do gindungo!...
- Vamos seguir os nossos “artistas” e ouvir a “canção da Amélia”…
VITO - Amélia…Am…Amélia…
JOCA - Estás a cantar, ou a ladrar?
VITO – Zungo!...
QUIM – “Moio” aos dois. Tenho encontro marcado noutras paragens!...
VITO / JOCA – “Moio Ué”. Porta-te bem e aprende a agarrar o “taco”.
JOCA - Essa foi forte !...
VITO - Então, levou “cossa” no bilhar – mereceu duas derrotas!
JOCA - Amélia dos olhos doces… tá…tá…tá…
VITO -  … tá…tá…-tá… gaivota, amante, poeta…
VITO / JOCA -  … Rosa de café, Amélia gaiata, do bairro da lata, do Cais do Sodré… tá…tá…tá…
VITO - Passamos uma tangente à casa da Amélia?
JOCA - Yes, meu. Essa linda “Tusula”!... Depois, deitamos uma espreitadela pelo ambiente do “Estrela D´Alva”. 


Marrador - Bem, estes “especias” iam a seguir as pisadas sob a influência do instinto. Saíram do “Lux Bar” e, à sua frente deparou-se-lhes o jardim e as Bombas de gasolina. Inclinaram à esquerda, cruzaram a Avenida que seguia para a Capela, e estacam junto à casa da Amélia.
VITO – É…é…é…aqui!...
JOCA – Hehhh!
VITO – Alguma abelha te ferrou no “munhenho”?
JOCA – Topa a cena daquele mirone na pista de carros.
VITO – Treme, treme com as pernas junto à “muchacha”…
JOCA – É o Oliver, sargento das ágatas….
VITO – O próprio… e parece que esteve de quarentena lá em casa!....
JOCA – É como os cegos. Vêm com o tacto…
VITO – E apalpam com os membros inferiores?!...
JOCA – Com o membrito? Malandreco!...
VITO – O olhar dele está barrento. A mente está presa ao instinto!
JOCA – Qual das três te deu volta à cabeça? A Eka, a Nocal ou, Cuca?
VITO – A…N…D…O…R!... Antes que venha a “calunga”. Temos “maningue” que fazer.
JOCA – Passamos ao largo do “Estrela D´Alva”. Miramos a paisagem e não iremos entrar.
VITO – Tens receio dos bifes de “ferro”? Bem, tem umas instalações hexagonais e recatadas!... Longínquas do reboliço!...
JOCA – Pois, - há outras paragens prioritárias, por agora…
VITO – Hummm…Humm! Olha que este caminho só nos leva ao cemitério, ou à Barragem do Capelão?!... Para isso, teremos que passar pela sanzala…e dançar um “merengue” na “cubata” gigante.
JOCA – Curvamos. Há jogo no Estádio e os nossos “sorjas” vão “jogatinar”.
VITO – Mas primeiro estacionamos em frente da Capela para mirarmos as “modelos”.
JOCA – Queres ver a Amélia e as amigas… Ainda te prendes pela cidade do Carvalho – do Henrique de Carvalho.
VITO – Tenho saudades do “Puto”, mas a que lá deixei…deixei!...
JOCA – Lamúrias. Traz a “Mauser” e vamos caçar. Araras e leoas não faltam nestes lugares.
Marrador - Pé, ante pé, os nossos amigos seguiam pela Avenida da Capela. Do estacionamento das Carreiras provenientes do Luso e do Dundo, prosseguiram até ao largo dos Correios. Passaram pelos cruzamentos que davam para a Colectividade de Saurimo onde o Capelão ensaiava o seu grupo teatral, pela casa comercial de artesanato do sogro do assassinado Carvalho, pela escola de condução onde muitos companheiros tiraram a carta, Liceu e Avenida das mangueiras que finalizava numa velha Missão de religiosas, no caminho para a piscina. Estacaram no muro da Capela.
VITO – Aqui. Aqui junto a estes camaradas de armas.
JOCA – Olha, olha o Meteo-Gonçalves que há muito tempo não lhe punha os olhos em cima.
GONÇALVES – Ehhh…pessoal. Tudo nos “gungungos”?
VITO / JOCA – Bruxooo.
VITO – E que tal lá pelas bandas do Cazombo? Muitas “mulecas”? E a joia da coroa?
JOCA – Passou-me essa!... Joia da coroa?
VITO – Sim, a mascote elefante que ele e outros adoptaram no Destacamento.
JOCA – Elefante? Mascote? Dorme convosco?
VITO – Dorme, dorme…Meia caserna ficou no exterior…ao cacimbo! 


GONÇALVES – Não é bem assim, mas quase. Para lhe darmos banho tivemos que fundir três banheiras. Para comer, assaltámos as bananeiras dos arredores. Segue-nos a cada canto e todos os dias cresce aos palmos. Ainda a vamos treinar para fazer filmes com o Tarzan!...
VITO – A…a… é do sexo feminino?
GONÇALVES – É a nossa menina e tem uma história macabra!
JOCA – Este maralhal está aqui com a “peida” arreada no muro a fazer o quê?
GONÇALVES – A calejar o “munhenho” ou, a ver a missa. Não topas as ratoeiras à entrada da Capela?
VITO – Uihhh…Uihhh… Eu a pensar que estavam à espera de ver passar o Governador!...
JOCA – Ou, a Amélia e as suas manas. Este jardim dos CTT, é o encanto mais visitado…
GONÇALVES – Meninos, vamos à bola. Os “sorjas” vão iniciar a jogatina no pelado dos mangueirais.
VITO – No campo das abelhas?
JOCA – Nesse campo em que foram todos picados?
GONÇALVES – Não há outro! E as abelhas foram mortas a tiro.
VITO – A tiro? Então está ligada àquela história do mel recolhido com caju à mistura?
JOCA – Caju…de chumbo.
GONÇALVES – Vamos gritar pelos FAP. Hoje, a PSP vai perder. Temos lá os nossos vizinhos Ocart´s. Tudo sob controlo…controladores…terrestres.
VITO – No campo ao lado, também haverá um jogo de futebol de salão com os “especiais”.
JOCA – Isso é no cimentado. Vamos dum lado para o outro. 



VITO – E…acabaremos no Clube do Cinema, no velho Chikapa.
GONÇALVES – Mas…cinema…hoje, não.
JOCA – Porquê?
GONÇALVES – O projectista passou por nós…a cambalear…
VITO – Então teremos o filme a começar do fim para o início?
JOCA – Como sempre…Curiosamente a sala de cinema foi construída com o soalho em plano inclinado…invertido.
VITO – Sim, o soalho sobe para a tela!... Por isso, as cadeiras andam sempre a dançar para tomarem posição.
GONÇALVES – Não estiveram cá na última sessão?!… O pessoal do exército partiu o “cadeirame” todo só porque o “camera man” começou o filme pelo meio. O “Asa Negra” obrigou-os a cravarem uns pregos nas cadeiras partidas e a retomarem o filme de trás para a frente. Foi um castigador!...
VITO – Nem tanto. O filme de trás para a frente…já era costume!
Marrador: Nesta “lenga-lenga” caminhava-se pela Avenida dos CTT. Esta, trepava, trepava até à rotunda…lá longe.
     Abandonaram a estátua do sertanejo. O recipiente das nossas cartas, a encruzilhada no jardim, os bancos namoradeiros, o Palácio do Governador, a Capela, o Clube, O Cinema, os campos de “futebóis”, as abelhas e as mangueiras.
  Voltaram costas a tudo isso…por momentos!
     Foram simplesmente matar a sede ao “Bar dos passarinhos”, e comer uma passarinha nas proximidades do “Quioco” ou, da “Cubata”. Vamos esperar para o próximo relato para indagarmos o destino da rota incerta… A cidade seguia o seu movimento de rotação?!... Bem, vou juntar-me aos gajos para lhes escutar a conversa! Calhando, … o movimento é outro!... 
Língua Quioca   
Zungo – Cala-te
Moio – Cumprimento
Tusula – Rapariga
Calunga – Chuva
Munhenho - Cu

Anotações:
Amélia – Jovem cidadã de H. de Carvalho que veio a casar com companheiro da Força Aérea
Oliver- Nome fictício, sargento R.D.  da FAP, casado e radicado na cidade.
Mascote – Pequeno elefante adoptado no Cazombo. História a recolher do Gonçalves – Meteo
Campo das abelhas – Abelhas soltas pelo campo das mangueiras no momento de jogada.
Asa Negra – Comandante do exército com histórias peculiares

Fotografias:
Recolha do “nosso” Blogue
  

Até Breve
O Amigo




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

XXXVII ENCONTRO - MENSAGEM DO CAP. AMARINO

     Agradeço de todo o coração o convite para o V/encontro do Outono. Lamento não poder comparecer, uma vez que a minha mulher se encontra doente há bastante tempo, o que exige a minha presença junto dela. Se DEUS quiser, as melhoras hão-de aparecer dentro em breve.
     Tenho acompanhado os vários testemunhos, relatos feitos no V/Sítio (aquele do piloto Carvalho reportava situações que presenciei e senti devido ao facto de, pelas minhas funções, ter de ir a todos os aeródromos do Leste de Angola), bem como fotografias e outras notícias, as quais me transportaram a um passado que vivi intensamente e de que tenho muitas saudades, apesar da situação peculiar em nos encontrávamos!
     Podem estar certos de que eu tinha, e continuo a ter, em grande apreço os "Especialistas" pelo seu valor intrínseco, e os do AB4 em particular pela forma "gentil" com que "sempre" receberam os meus dois filhos nas "Festas" que realizavam no Clube.
     Nunca esquecerei isso!
     Embora ausente, não deixarei de pensar no acto da invocação " Daqueles que já partiram", por isso, dirigirei as minhas preces a DEUS pelo "Seu" descanso eterno!
     Finalmente, um ABRAÇO para "Todos" com o desejo de nos vermos num próximo "Encontro".

Amarino Pereira




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

BONS E MAUS TEMPOS



BONS E MAUS TEMOS
Caros companheiros, familiares e amigos:
     Ao vermos o nosso impressionante "Álbum de Fotos", o qual nos trás ao pensamento aqueles momentos inesquecíveis do que chamávamos de “Guerra Colonial” vemos que, na grande maioria das fotos estamos felizes e divertidos.
     Pois é, fotos que tirávamos nos momentos de lazer, e se até nesses momentos não estivéssemos alegres ou divertidos fazíamos por tal, pois essa seria mais uma imagem a enviar aos nossos familiares e amigos, pois queríamos mostrar que, como dizíamos nas cartas,  estava tudo bem de saúde e de espírito.
     Umas verdades, umas mentiras inocentes, boas ou má disposição era tudo o que relatávamos nessas cartas, pois vivíamos numa ditadura onde as cartas ou os “Bate-estradas” eram espiados à lupa e não podíamos dar azo às tristezas, mal-estar, insatisfação e revolta.
     Não temos palavras, o coração aperta ao reviver naquele álbum, ver imagens dos que foram os primeiros e os últimos, os que chegaram e os que por lá ficaram, aqueles que já se foram e os que hoje são outros, porque lá foram.
     E as evacuações? E as noitadas? E a pouca ou má alimentação? E o cansaço? E? E?... E os que estavam junto à rede toda a noite? E os que estavam nos destacamentos, ainda mais na linha da frente? … Tantos EEE`s,  que nem sei em que falar.
     Quantos dias e noites passávamos em sobressalto, quando sabíamos que as nossas tripulações, nos fabulosos aviõezitos que tínhamos, entre tantas missões que lhes estavam destinadas, (missões de busca e salvamento, evacuações, protecção a colunas de militares e civis,) ainda saíam em missão de combate, municiados de armamento, que quando regressavam já nada traziam porque as descarregaram em locais pré estabelecidos, sem que esses homens soubessem o porquê de tamanha destruição.
     Apesar do cenário de guerra em que se vivia, a coragem, o espírito de sacrifício, a camaradagem, fazia destes jovens, dignos de serem recordados com mais respeito, por aqueles que ainda hoje nos querem apagar da memória colectiva futura. Fizemos por merecer o respeito das chefias militares, dos governantes, do País a quem tanto demos e nada pedimos. Talvez um dia… 
     Escrevemos estas linhas, para que ao verem os nossos álbuns, não pensarem que a guerra era lá longe, e que as alegrias e os devaneios da juventude estampados nos nossos rostos eram toda a verdade, porque essa, só cada um pode dizer o que passou, o que sentiu o que foi.
     DESTERRO, de certeza que foi para quase todos e por isso escrevemos a agradecer a todos os que têm colaborado neste Blog, com os seus depoimentos e Histórias de Guerra.
     Esperamos, que se ainda não escreveste, o faças, para que te possamos recordar e revivermos os bons e maus tempos.
Recebam um abraço
Os Editores

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

EU ESTAVA LÁ

A espaços e com prazer, apesar da constante presença, em mim, de alguns sentimentos contraditórios sobre o assunto, visito o Blog dos Especialistas do AB4. Faço parte da família, dispersa, de homogeneidade impossível, mas com muitos temas em comum, sempre possíveis de aproveitamento, e que só nos podem envaidecer e orgulhar por enquanto jovens que nas suas especialidades ou classes mostravam a “classe” que era atribuída e reconhecida à “classe de especialistas”. 
Apesar de nunca ter participado em “encontros”, sou homem de convívios, “apanhado por aviões” e um grande depósito de saudades dos tempos, coisas e pessoas que percorri e com quem contactei. 
Dentro das visitas periódicas ao Blog, há alguns dias li o texto “A SABOTAGEM”, incluído nas Histórias da Guerra, da autoria de um OPC ali não identificado, que recordando factos se referia a um voo falhado, entre Luso e Henrique de Carvalho, com o então nosso Comandante Wilton Pereira, aos comandos de um DO 27. Esta referência chamou-me à flor da pele a recordação desse voo e da “vista” do interior do tal avião, pois:
DO 27 no Luso

EU ERA O ÚNICO PASSAGEIRO.
E antes de contar o sucedido, permitam-me enquadrar o porquê de este Beirão, que se assume militarmente “fraco”, mas profissionalmente honesto e mesmo competente. Era eu, naquela data, um dos Enfermeiros colocados no AB4-Henrique de Carvalho e com destacamento no Camaxilo (AM42). Estive no AB4 entre Outubro de 1970 e Outubro de 1972, tendo feito a viagem de Lisboa para Luanda em Boeing 707, mas à data fretado à TAP. Já o regresso a Lisboa aconteceu no mesmo tipo de avião, agora já da Força Aérea. 
Mesmo tendo permanecido no Camaxilo demasiado tempo, ainda existiram oportunidades para, em Henrique de Carvalho, trabalhar, alinhar nos petiscos no clube, pedir uns finos ao barista Espírito Santo (já falecido), jogar king, cumprir prisão, vaguear pela cidade, apreciar os camaleões nas árvores junto à Enfermaria e fazer várias saídas para o Luso e de aqui até a N`Riquinha.
No Camaxilo em 1971 com Gonçalves, Smith, Abrantes e Fonseca

Mas por hoje, limitarei este contacto, de mim para o Blog, à envolvente e núcleo ou razão do felizmente relatado no Blog, onde, passivamente, participei.
Pois, então
:

Num certo dia, nas instalações do AM Luso (AM 44), quando eu já por ali andava há dois ou três
Cmt.Wilton
   Pereira
dias, o nosso Cmt. Wilton Pereira, cruzou-se comigo, junto ao bar, e, como sempre de forma muito amigável e respeitosa, perguntou se eu quereria, caso o serviço estivesse resolvido, regressar a Henrique de Carvalho. Em caso afirmativo, poderia aproveitar boleia dele no voo seguinte. E assim foi. Cheguei à hora indicada e, após o cumprimento dos poucos procedimentos aplicáveis, lá nos dirigimos ao DO 27. E embarcámos: O piloto, nosso Cmt. Wilton Pereira, o mecânico, 1ºCB MMA Cordeiro e o único passageiro, que era eu 1ºCB ENF, Carlos Luis Rolo. Como se tratava de serviço e não brincadeiras, desde a descolagem que o avião não reduziu o ângulo de subida, até que, talvez aos três minutos de voo, o piloto chamou a atenção do mecânico para o facto de o termómetro indicar a temperatura de 160 graus para o motor. O mecânico, Cordeiro, encolheu os ombros e, talvez por pensar que se tratava de uma dificuldade temporária, aconselha continuar. Cerca de um minuto mais tarde, nova chamada de atenção, porque o tal termómetro já marcava 180 graus. Continuámos a ganhar altitude e a voar na direcção de Henrique de Carvalho.
Quase de seguida, com o motor a aparentar funcionamento normal e o termómetro a ultrapassar os 200 graus, o Comandante sugeriu um retorno à pista de Luso. 
O mecânico esteve de acordo, apesar de ainda não entender a causa para esta anomalia. Enquanto isto acontecia, já a temperatura ultrapassava os 240 graus e o motor estourava. Não parou, mas o funcionamento era extremamente irregular, pelo que o Cmt “deu meia volta” para regressar à pista. Tudo isto aconteceu “à minha frente”, pois situava-me atrás dos tripulantes, mas entre os seus ombros. 

Desta mudança, mesmo inversão de rumo, que incluía o regresso ao local de partida, de imediato foi informado o AM Luso, apesar de no momento do falhanço existir a possibilidade de usar a estrada como pista. 
Tal não foi necessário, pois não aconteceram razões climatéricas desfavoráveis e o motor, apesar dos repetidos soluços, de vez em quando, ainda funcionava alguns segundos, pelo que fomos descendo “aos degraus”.                    

Luso

Quando aterrámos já o Cmt do AM Luso (Major) nos esperava junto à pista. 
Já em terra, recordo-me bem do evoluir dos acontecimentos, incluindo conversas sobre a avaria e o retirar de uma vela no motor (não sei se vela ou injector pois desconheço o percurso do combustível no motor). Quando retiraram a referida peça, via-se perfeitamente óleo e limalha, que escorria. O interior do motor estava destruído. E ainda me recordo de ter ouvido a afirmação (certamente verdadeira) de que o motor era novo. Apenas tinha voado de Henrique de Carvalho para o Luso. Com bom tempo, tudo calmo e a situação, do momento, muito bem resolvida, regressámos às instalações e eu fiquei a esperar outra boleia.
Clube com Cordeiro, Raimundo e Garcia

Notas finais:
1 – Quando me refiro a petiscadas no clube, estou a afirmar a minha participação nos notórios dois grupos ali existentes. Talvez por eu ser originário de uma zona mais equidistante do País (S. Pedro do Sul), ou pelo facto de ser enfermeiro e isso, para mim, eliminar distâncias entre todas as pessoas, o certo é que tanto o grupo da “Grande Lisboa”, como do “Grande Porto” me convidavam, e eu aceitava, para participar naqueles saudosos bocadinhos de desentupimento mental. Os petiscos sabiam tão bem que numa das ocasiões, em que me pesei à saída da enfermaria e no regresso, a balança marcou uma diferença de 4Kgs;                            2 – As minhas várias presenças em Luso, e deslocações a N`Riquinha, tiveram sempre como justificação a necessidade de actualizar a vacinação do pessoal;
3 – Sem  ser  maçador, apenas  deixo  afirmado  que  em duas  outras  ocasiões gostei menos de estar lá em cima: Numa  viagem de N`Riquinha para o Luso, ao fim da tarde, com um dos  motores  do PV2 a falhar repetidamente e necessitar de reforço  de  óleo  em pistas intermédias, e, outra, na parte final de uma evacuação  desde o Camaxilo, mas  por o  dia  se  estar  a acabar e uma trovoada “a sério” quase nos impedir de chegar à pista, em Henrique de Carvalho, e,                                    
4 – Pelo  facto  de a Força Aérea dar apoio ao exército no transporte de correio, carne  e  peixe, tive  a  oportunidade  de ter passado (aterrado e descolado) em muitas  localidades  onde  não  seria  previsível, tanto em aviões militares como nos civis que, fretados pelo exército, me davam boleia.  

Agosto de 2012