quinta-feira, 26 de julho de 2012

ABASTECIMENTO DE LAGOSTA

Nord em Gago Coutinho
Vila Gago Coutinho, todas as semanas chegava pelo Nord Atlas, com destino à companhia dos “paras” aquartelada em Ninda, um carregamento de lagosta, carregamento esse que transbordava para o DO 27, a fim de seguir para Ninda, juntamente com o correio.
Acontece que lagosta era coisa rara naquelas paragens (cerca de 600 km de Luanda) e não era justo que só os “paras” lhe metessem o dente.
Então apesar de haver um “espião” dos paras junto connosco em Gago Coutinho, o “Jackie”, tínhamos de lhes deitar a mão em local “reservado” e só durante o voo para Ninda, que durava apenas 30 minutos. Então após levantarmos voo eu passava para a zona de carga, descosia com um certo cuidado a saca das lagostas, e tudo o que era buraco no avião, levava uma lagosta, de forma que quando aterrávamos os mirones dos “paras” não conseguissem ver nenhuma “antena” a espreitar pelos buracos onde as colocava.
Pista de Ninda


No regresso enchia o nosso frigorífico com lagostas para a semana, e como sempre os nossos amigos “paras” lá ficavam com as suas desconfianças e com a impressão de que a saca das lagostas tinha encolhido na viagem.

Lisboa, 01 de Junho de 2006

sexta-feira, 20 de julho de 2012

CONVERSAS NA CIDADE Nº.2


Nota Introdutória
Com proveniência da Base e chegados à cidade para uma estadia de várias horas, os nossos convidados “especiais” encontram-se precisamente no cruzamento do “Hotel Pereira Rodrigues”.
Uma das avenidas, seguindo para Ocidente e passando resvés à “Fotolux”, caminha para o cinema “Chikapa”. Outra, projectando-se para Norte, reflecte uma paralela ao pequeno jardim do Hotel, dando rumo ao velho mercado e ao bar do “Estrela D`Alva”. Do Sul, acabou de chegar a carrinha da Base com os seus “veraneantes”, e para o Oriente, apenas a picada junto aos quartos do Hotel – atalho que servia aos destinos dos edifícios dos Correios, Palácio do Governo, Capela e Rádio Saurimo.
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Marrador – O Vito e o Joca despertos para darem “guiso” à língua, chegaram à tal dita “Las Vegas”. Na encruzilhada do “fala-fala”,… e nada se diz, no local próprio das “calhandrices”, e de “peito feito”- tal e qual como dois galitos da índia se tratassem, eis que afinam o “lamiré”, mas num tom mais citadino …,… elegante para a “gente da Alta”. Vou dar corda aos falantes…
VITO – Hummm…Humm…
JOCA – Temos boi?
VITO - Lá estás tu!... Não estás a ouvir o “quissanje” a tocar?
JOCA – Bruxooo… Há batuque na esplanada, e já sei porquê…
VITO – Estou à espera… Dá à língua.
JOCA – Não ouviste falar no casório do Dinis? Trata-se do seu casamento, e os “toca-toca” são o grupo da Base. Os da “FAP”…
VITO – O quê?! Os do “Cacimbo”?
JOCA – Yes, meu! E têm como Maestro, o celebríssimo Bilinhos a dar à “guita”.
VITO – Hummmm…
JOCA – Lá estás tu a chamar a “vaca”…
VITO - Escuta-me os acordes das guitarras, retira-me os “bemóis”, conjuga-me os “sustenidos”, e o que é que te fica retido nos tímpanos?
JOCA – Eh pá…Eh pá… Há uma certa desafinação!... Talvez alguma guitarra com cordas de marinheiro ou, “nocal” em excesso?!...
VITO – Olha! Olha o “IIM Careca”!... Saca-lhe novidades.
JOCA – “IIM Careca”? Estás a ficar gago ou, com a garganta seca? É o QUIM. Se falasses em alhos – já lhe tinhas colocado o “Q”!...
VITO – Ehhh… Quim. “Tweia kuno ao Muata”.
JOCA – Com esses termos quiôcos…ainda chateias o “especial”.
VITO - Só estou a chamá-lo. Estamos na Terra dos “Lunda”.
QUIM – “Moio Weno”… “Gungungo”?
VITO – “Moio”… ainda conheço!...Agora, com feno?! Só se for aqui para o Joca !...
QUIM – “Moio Weno” é um cumprimento mais completo em “Quiôco language”. E “gungungo” – é a perguntar se estão com força e sadios.
JOCA – Estamos sadios. Com força?! Nem tanto! Aqui o Vito está a ficar gago e precisa de molhar a goela…e amolecer o feno!
VITO – Quim, dormiste no “Hotel Palhota”? Eu, e o Joca, fomos os primeiros a chegar à cidade e tu já cá te encontravas…Estadia no “quimbo”? Por isso…é que sabes falar bem o “matumbo”!...
QUIM – Estás a ver miragens. O melhor é irmos às “cucas” para o Lux Bar.
JOCA - Já vamos. Vou chamar aqueles “canhicas” para me engraxarem os sapatos. Quero cruzar as pernas e mostrar as “ferraduras” sem timidez.
VITO – Bruxooo. Acertaste na “mouche”. Também quero. Oh Quim, aguarda pela malta. Oh… “xacala”, vem cá ao “Muata”. Quanto levas pela graxa? Quanta “falanga”? Vá…tu, e o teu mano, vamos ver quem é o melhor, mais rápido, e cantante.
JOCA – “Canhica”, quero música com o pano. Ginga, puxa, puxa…
VITO – Este sim! Até põe “sustenidos” no bater do pano. Ehhh… “cambutinha”!... Pareces um barrote queimado, mas trabalhas bem. Puxa…puxa…
QUIM – Até bato o pé … para acompanhar o batido do pano… O Conjunto aqui em baixo é melhor do que o do casamento! As notas musicais da esplanada estão a sair como bolas de sabão… Poc…poc…poc…
VITO – Meninos, já chega de tanta “cuspidela” no pano. Apanhas-me distraído, e da graxa – só sai cuspo? Toma cinco “falangas” e não digas que vais daqui…O quê? “falanga Kake”? É pouco?!
JOCA – Deixa. Eu dou mais cinco “falangas”. “Moio”, “moio”. “Zungo Kawaxi”.
QUIM – Um dos “canhicas” disse “tuje”!...
VITO – Aihhh… O Joca perguntou-me há momentos se tínhamos boi. Agora, Os “matumbos” dizem “muge”?!...
QUIM – “tuje”…”tuje” – “bull shit”!...
Marrador – Nesta “lenga-lenga” de encruzilhada, lá se ia passando o tempo duma forma descontraída, antes de se deslocarem para outras paragens. E que paragens? Mais metro, menos metro, e esbarrava-se com as sanzalas, com os musseques e os quimbos!... Deambulava-se de canto, sobre canto – na conversa fiada!...
VITO – Há tempos atrás fui apanhado neste local…com uma pinta do caraças!...
JOCA – Deram-te os gases?
VITO – Não. Mas fiquei azedo que só me deu vontade de tirar o “cabaço” à filha do pedreiro.
QUIM – Do pedreiro da Base?
VITO – Sim, sim. A que trabalha no Rádio Clube Saurimo. Olha!... colega do Dinis… Essa linda, como uma “tusula tchibandala”. Telefonou para a Base a querer falar comigo. O telefonista, nosso conhecido, encaminhou a chamada para mim a dizer que se tratava duma donzela que me queria segredar. Afiei a “dentola”, parafinei o “pífaro”, afunilei o bigode, insalivei a garganta, e numa voz suave e doce…anunciei-me. “Faça favor de se espremer”… falava assim o galanteador!... Ela, meigamente, com uma voz de derreter aço, convenceu-me a esperá-la neste local à frente de nós. Aqui, no jardim do Hotel, às 15:00 h, defronte daquelas janelas dos quartos do “Pereira Rodrigues”.
JOCA e QUIM – Vieste cá?
VITO – Vim. Quem não teria vindo? Com aquela voz – até me achei o “Elvis Presley”!...
JOCA e QUIM – Não pares. Acaba a “marração”. Talvez nos arranjes companhia para trincarmos as “moelas”…
VITO – Esperei … esperei … e já cansado e com o pescoço pendente de tantas curvas voltear – desanimei. Quando me desloco para sair da “ratoeira”, eis que lá de cima do Hotel oiço uma risada desenfreada. Era a “mula” com a pança cheia de gozo….
JOCA – Caíste? E as colegas a curtirem, também?
VITO – Deixa, deixa, que ainda lhe abato o “cabaço” e não pagarei nada ao “soba”.
QUIM – Não te aborreças com essa. Num baile do “Chikapa” fui para a convidar para uma dança, e quando ela se levantou da cadeira, gulosa para me abraçar, dirigi-me para a colega do lado e tomei a outra como minha dançante.
JOCA – Deste-lhe uma “tampa”?
QUIM – Das grandes. Parecida com a “Carlota” da feira – aquela que vende rifas!… Para gozona, gozona e meia…
VITO - Gozona, e…toda!. Toda, e no “sundji” dela.
JOCA – Maldoso!...
VITO – Vamos, vamos à “cuca” e à “nocal”, ali no Lux Bar. Depois, das “moelas”, comemos uns “pi-pis” com “gindungo” a valer. Segue-se uma “bilharada”, e tomamos rumo ao “Estrela D`Alva” ao encontro dos “Neves” – companheiros de estrada batida.
JOCA – Já me está a dar a “nzala”. Só “fominha” amarela!...
QUIM – Atacamos! Ainda mal nasceu o dia…e já vai longa a “cavacada”!...
Marrador - A poucos metros do cruzamento, situava-se o famoso Lux Bar, na avenida de maior circulação. Neste lado da avenida e até ao dobrar de ambas as esquinas, ficavam nos prédios de dois andares; a Foto Lux, o Banco, lojas comerciais diversas. Defronte, tínhamos o jardim com arvoredo crescido e alguns bancos. Caminhando para o Norte, a poucos metros e no topo do jardim, saía uma perpendicular de estrada oriunda do velho cinema “Chikapa” e Capela – com seguimento para a direcção do Oriente, Bar das Bombas de gasolina, (Mobil), Luso.
O segundo destino dos nossos “capangas” seria o “Estrela D´Alva”, e para isso, teriam que descer a avenida, cruzar com a via da Capela-Luso, passando a roçar pela paragem dos camiões e autocarros de passageiros, pelo velho mercado indígena e pela Casa de Circunscrição Florestal de Angola … onde morava a belíssima Amélia, a de cabelos loiros...loiros de arrepiar. Apre….. Até breve O amigo

quinta-feira, 12 de julho de 2012

NOMES QUE FIZERAM A HISTÓRIA DA AERONÁUTICA PORTUGUESA


O ar exercerá sempre um enorme fascínio sobre o Homem. Isto acontece há séculos, em todo o Mundo, e os portugueses não poderiam ser diferentes. Portugal é conhecido por ser um país de marinheiros, de navegadores, de gente corajosa que se lançou ao mar para descobrir novas terras. No entanto o nosso país também tem marcado grandes e importantes páginas da História da aviação, mesmo que tais factos sejam menos conhecidos ou, então, apenas menos divulgados. Muitos nomes ficarão para sempre ligados ao percurso da aviação e um conjunto deles escreve-se em língua portuguesa.

Vale a pena conhecer melhor quem foram os pioneiros, os primeiros a aceitarem as mais perigosas aventuras. Muitos são os nomes e as historias que vale a pena conhecer, porque ninguém fica indiferente ao acto de voar, não há quem não reaja ao ruído de um motor de avião.

Os feitos históricos dos aventureiros nacionais devem encher de orgulho a nossa herança, mesmo que tenham passado anos demais sobre esses factos históricos.
D. Luís de Noronha
O primeiro aviador português a voar no nosso céu com brevet da F.A.I. chamava-se Luís de Noronha e acabou por falecer no mesmo ano em que obteve tal distinção. Sócio do Aero Clube de Portugal e um dos grandes incentivadores da aviação nacional, tanto militar como civil, promoveu a constituição de escolas de aeronáutica.
Morreu a 24 de Julho de 1913, na sequência da queda do aeroplano que pilotava, numa apresentação nas Festas da Cidade de Lisboa, daquele ano.
Jorge de Castilho
Visto como um verdadeiro cidadão do Mundo, Jorge de Castilho nasceu em Lisboa a 23 de Maio de 1880, e morreu no outro lado do Mundo, na Austrália, mais propriamente em Melbourne, em Fevereiro de 1943. Estudou engenharia na universidade de Louvaina, na Bélgica, regressando a Lisboa sem o curso terminado, matriculando-se, então, na Escola Politécnica de Lisboa. Em 1902, entrou na Escola do Exercito, onde tirou o curso de Oficial de Infantaria.
Foi promovido a alferes em 1906 e, dois anos depois, partiu para Moçambique como ajudante do governador. Em 1910, foi nomeado governador do distrito de Damão, lugar que ocupou durante quatro anos. Em 1914, passou à situação de licença e partiu para o Brasil, onde se dedicou ao ensino. Com a entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra, regressou e foi integrado CEP.
Participou na Primeira Travessia Nocturna do Atlântico Sul como navegador do Argos em 1927.
No ano seguinte, foi promovido a major e colocado na arma da Aeronáutica, prestando igualmente serviço na Comissão de Cartografia do Ministério das Colonias. Entre 1929 e 1932, executou trabalhos de delimitação de fronteiras em Angola e Moçambique. Em 1937, foi promovido a coronel e nomeado chefe dos Serviços Meteorológicos do Exercito. Nesse mesmo ano passou à reserva.
Crédito: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa

sexta-feira, 22 de junho de 2012

LOCKHEED C-130 HERCULES

As origens do C-130 Hercules remontam à Guerra da Coreia, numa época em que a era do jacto tinha o seu início durante a qual se tornava necessário um avião de transporte moderno e versátil que viesse a substituir os vários aparelhos herdados da Segunda Grande Guerra. Pretendia-se, assim, um aparelho de transporte táctico de tamanho médio, com propulsão turbo-hélice, capaz de desempenhar um variado número de missões nas mais diversas condições operacionais. Em Fevereiro de 1952 a Lockheed apresentou um desenho completamente inovador para a época, o qual lhe valeu a escolha para a produção de dois protótipos. O primeiro dos dois YC-130 fez o voo inaugural em 23 de Agosto de 1954 em Burbank, na Califórnia.
Desde os seus primórdios que foram produzidos milhares de aparelhos nas mais diversas versões, os quais vieram a equipar as Forças Aéreas e também algumas entidades civis de um grande número de países.
As suas actividades são muitas e diversificadas: transportam infantaria, armamento e veículos para o campo de batalha; lançam para-quedistas e equipamento do ar; desempenham abastecimentos aéreos e no solo; levam a cabo evacuações de emergência e com fins humanitários; vigiam os mares e oceanos; já foram também utilizados na recuperação de capsulas espaciais e ligações à Antártica. A chegada dos primeiros dois dos seis C-130 Hercules que totalizam a frota ao serviço da Força Aérea Portuguesa ocorreu a 15 de Setembro de 1977 na Base Aérea 6 (B.A.6) Montijo, encerrando a época dos serviços de transportes desempenhados por aparelhos como os Dakota, Noratlas e Boeing 707. A natureza muito diversificada das missões que executa, como busca e salvamento, patrulhamento marítimo, transporte táctico e logístico e missões de ataque a incêndios florestais, prova a versatilidade e eficácia desta aeronave. Actualmente, tem vindo a realizar missões de transporte e de carga, garantindo a satisfação das necessidades não só da Força Aérea como dos outros ramos das Forças Armadas. De forma bem mais visível e mediática, os C-130 têm participado de forma activa em missões de carácter humanitário e de apoio logístico a outras forças nacionais e internacionais envolvidas em operações de paz, caso da Desert Storm (Tempestade no Deserto), durante a guerra do Golfo, e do apoio logistico às forças portuguesas na Bosnia-Herzegovina, em Timor –Lorosae, e a participação na operação Fingal, de auxilio, durante a crise do Afeganistão.
Crédito: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa

sexta-feira, 8 de junho de 2012

NORTH-AMERICAN F-86F

O projecto do North-American F-86F Sabre tem as suas raízes no período da Segunda Grande Guerra quando em 1943, se desenvolveram tentativa de transformar o P-51 Mustang num caça de reacção. 
O voo inaugural do ainda P-86 realizou-se a 1 de Outubro de 1947. Desde essa data, sobreviveriam muitos problemas iniciais até se tornar, a partir de 13 de Dezembro de 1950, no principal caça da USAF em plena Guerra da Coreia. 
Vários melhoramentos foram sendo introduzidos ao longo da sua história, os quais se traduziram em diferentes versões. Este avião veio equipar componente da Força Aérea Portuguesa. As primeiras aeronaves (4) chegaram a 25 de Agosto de 1958 à Base Aérea 2 (B.A.2), localizada na Ota, destinadas a a equipar a Esquadra 50 Falcões. 
O primeiro voo de um piloto português num F-86F ocorreu no dia 22 de Setembro de 1958, pilotado pelo capitão Sousa Pinto. Dois dias depois, o mesmo viria a ser o primeiro a quebrar a barreira do som, ainda que em voo picado. Este acontecimento era, até à época, inédito em território nacional. 
Os crescentes problemas em África levaram à constituição, em Agosto de 1961, de um destacamento composto por oito F-86F no AB2, Bissalanca, na Guiné Bissau. Durante a sua permanência na Guiné, estes aviões realizaram várias de ataque missões de ao solo e missões apoio aéreo. Nesse período, perderam-se duas aeronaves, uma na sequência de um acidente e outra devido a fogo hostil. Uma terceira seria muito danificada por fogo inimigo. 
Devido à pressão exercida pelos EUA e outros países da Nato, argumentando que as aeronaves só poderiam ser empregues em missões no âmbito do Tratado do Atlântico Norte, o destacamento terminou em Outubro de 1964 com o regresso do aparelhos, desta vez transportados. 
Depois da retirada dos Sabres da Guiné, a Força Aérea ainda tentou comprar mais aviões destes na Alemanha em segunda mão, mas acabaria por comprar o FIAT G91. Em 1974 existiam cerca de 25 Sabres em serviço, numero que diminui para 12 em 1978, ano em que uma nova reestruturação na Força Aérea levou à extinção do GO 501 e respectivas esquadras e à constituição do Grupo Operacional 51, com a redesignação da Esquadra 51 para a Esquadra 201. 
Os últimos 10 aparelhos mantiveram-se ao serviço em Portugal até 31 de Junho de 1980, tornando-se Portugal o ultimo país ainda a utilizar o Sabre na NATO. A história prosseguiria, à falta dos F-5E Tiger ll, com o Corsair ll
Créditos: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O PIC-NIC (Bar-Restaurante no Luso)

O aumento da guerrilha no Leste de Angola foi seguido pelo aumento dos efectivos das nossas tropas (NT) naquela região. O princípio da expansão das NT para Leste foi, necessariamente, feito aos poucos. Muitas vezes improvisado. Não é com um estalar de dedos que se constroem quartéis ou outras instalações militares. As tendas que, durante algum tempo, serviram de alojamentos em Henrique de Carvalho são um bom exemplo das dificuldades iniciais. Nalguns casos também foram usados meios logísticos civis já existentes. No Luso, por exemplo, o Luso Hotel foi usado para alojar militares. Eu próprio passei lá uns tempos.
A alimentação era outro problema. Antes de ser feito o refeitório no aeródromo, a Força Aérea chegou a usar o Restaurante Pic-Nic, do Sr. Silvares Mendes (Aníbal), como messe. Assim era quando eu lá cheguei. O Sr. Mendes era uma excelente pessoa que andava sempre de calções. Ainda me lembro bem dele.
O Sr. Mendes punha-nos à vontade, e nós éramos tratados mais como filhos do que como clientes. O Sr. Mendes era atencioso e mimava-nos sempre que podia. Comíamos em mesas de quatro lugares e em cada mesa ele punha uma pequena jarra com flores frescas. Um grande erro!...
Nós, pessoal “desterrado”, com cerca de 20 anos de idade e com uma imaginação fértil, descarregávamos stress e irreverência em cima do Sr. Mendes. Éramos mauzinhos! Educados q. b. mas mauzinhos.
Os mais antigos tinham “muita experiência” e uma grande lata. Assim de repente lembro-me do Zé Feijó, do Teixeira de Sousa e do Jorge Oliveira. Com estes três por perto ninguém andava triste.


Uma coisa de que o Sr. Mendes não gostava era que lhe... comessem as flores.
A primeira vez que assisti a essa cena, fartei-me de rir. “Já provaste as amarelas?” – perguntava um de boca cheia, ainda a mastigá-las. “Ó Sr. Mendes, ainda tem destas flores cor-de-laranja?” – gritava outro, levantando na mão um caule já quase sem pétalas. Uma pândega completa.
O Sr. Mendes, desesperado pela razia que lhe fazíamos nas jarras, baixava-se junto à mesa (ficando com a cabeça à altura das nossas) e implorava que não lhe comecemos as flores. O seu pedido quase nunca era atendido mas ele nunca desistiu de alindar as mesas com as flores. No seu entender, estas davam um ar requintado à sala. E davam!
Eu, pessoalmente, preferia as flores amarelas (embora fossem um pouco ácidas). Gostos!...
Ao fim destes anos é com muita nostalgia que relembro aqueles tempos de loucura e a grande ternura e paciência do Sr. Mendes para com aquela cambada de bárbaros devoradores de flores.
O Sr. Silvares Mendes, que já naquela altura era um homem “maduro”, já não deverá estar entre nós. Esteja ou não, eu quero dizer: “Obrigado, Senhor Mendes.”

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

A SABOTAGEM...

Posto de rádio
Estava a ver o álbum de fotos Acidentes, do Blog e como já lá vão cerca de 40 anos, não deve haver problemas nesta divulgação.
Penso que foi em 1971, não sei precisar a altura do ano, durante dois ou 3 meses , várias aeronaves sofreram acidentes e até o Cmt. Wilton Pereira , quando vinha do Luso para HC, o motor do DO "soluçou" e teve de regressar ao Luso onde aterrou já com o barrote parado.
Enviou uma mensagem secreta para as OGMA, porque desconfiava que era sabotagem do pessoal, e pedia uma peritagem.
Ora nós, OPC, que sabíamos da situação da MSG, que não podíamos falar, se o fizéssemos dava uma grande bronca, e sabíamos que o pessoal MMA, estava a trabalhar noite e dia, era verdade, faziam turnos de noite, andavam todos estoirados, sabíamos que não era verdade, mas não podíamos dizer nada.
Era um dilema terrível.
Para mim foi das piores alturas, tinha que estar calado, não podia falar.
Passados 4 ou 5 dias, chegou pessoal das OGMA de Alverca, analisaram todo o material, das aeronaves acidentadas e foram-se embora .
Veio depois a confirmação, que não havia sabotagem, era cansaço de material.
Com toda a certeza, que esta "peritagem", da hipotética sabotagem, passou despercebida à maioria do pessoal. Provavelmente muitos companheiros MMA, se lembrarão da ida do pessoal das OGMA, mas desconheciam a "justificação" de tão pouca usual presença.

Hangar com muito trabalho !


























Um abraço de um OPC, devidamente identificado.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A MOLA...

(Para não melindrar ninguém, não vou dizer nomes de pessoas nem de locais.)

Uma ideia simples pode dar origem a um sistema muito prático. 
É o caso da mola que levanta o banco de trás do ALIII. Como todos se devem lembrar, quando os bancos de trás não tinham peso em cima, sob o efeito da mola, levantavam-se e ficavam na vertical, encostados à “parede” de trás, deixando livre todo o espaço para trás das costas dos bancos da frente. Esse espaço poderia então ser ocupado por todo o tipo de “carga”: macas para feridos, o canhão, sacos de correio, víveres para um destacamento isolado, etc. O ALIII era, assim, um veículo muito versátil e adaptado às diferentes necessidades da guerra. Toda esta versatilidade devia-se, em boa parte àquela simples... mola!
A imaginação (e atrevimento!) do Jofre mostrou-me, um dia, ainda mais uma utilidade para a dita mola.
Eu era um “maçarico” e o Jofre estava a “largar-me em destacamento”. Naquele princípio de manhã reinava a calma no pequeno destacamento da FAP, encostado ao aquartelamento a que dava apoio aéreo e que era a sede da Companhia do exército. O pequeno-almoço tinha acabado havia pouco e da sala de rádio vinham os sons próprios de todas as manhãs. No entanto a calma estava prestes a acabar...


Chegando com passo decidido, entrou pela pequena sala de refeições o Sr. Major do exército. Sem mesmo dizer bom dia “disparou” em direcção ao Jofre: “Preciso que me leve, de helicóptero, ao destacamento “xis”. Quando a frase chegou ao fim ainda o Jofre não tinha chegado à posição vertical que o posto do visitante exigia. Aprumando-se mas pondo os pontos nos is, o Jofre respondeu-lhe: “Não é assim, Sr. Major. Nós estamos aqui para dar apoio à sua Companhia mas isto obedece a normas. A Companhia deve fazer um pedido de apoio e eu analiso se o posso satisfazer ou não. Neste caso digo-lhe já que não posso. O helicóptero não é um táxi. Estamos aqui para satisfazer as necessidades operacionais como, por exemplo, evacuações sanitárias”. 
O Major não se deu por vencido e disse: “Então vá preparando o helicóptero porque daqui a dez minutos vai receber um pedido de evacuação.” E saiu.
“Lá vamos nós levar este gajo.” – disse o Jofre, consciente do que se seguiria. E saímos todos em direcção ao helicóptero para o preparar para sair.
Eu, maçarico, fiquei espantado com o à vontade do Jofre perante um... Senhor Major.
Pouco tempo depois reapareceu o Major, com um pedido (escrito) de evacuação. E lá fomos! O Jofre aos comandos. O mecânico e eu nos lugares da frente e o Major no banco de trás. A viagem duraria cerca de 20 minutos.
Pelo caminho o Jofre foi-me mostrando algumas referências no terreno e dando alguns conselhos. Ao mesmo tempo ia comentando a prepotência e falta de respeito de alguns militares que usavam os galões para impor a sua vontade. Aquela situação tinha, visivelmente, incomodado o Jofre. Claro que o Major não tinha auscultadores e não podia ouvir a conversa. Aliás, em “grande operacional”, nem o cinto tinha posto.
A curta viagem correu bem e o destino já se avistava ao longe quando o Jofre se agitou no banco e se voltou para o painel de instrumentos ao mesmo tempo que nos dizia para não nos assustarmos mas que iria pregar uma partida ao Major. E que partida!...


Bruscamente, o Jofre pôs o passo em baixo e, sem o cinto, o Major foi “disparado” contra o teto enquanto que a mola fez aquilo para que foi desenhada: levantou o banco que se encostou à parede de trás. Quando, quase de imediato, o Jofre repôs o passo, o Major bateu estrondosamente no “chão”. 
Durante o resto do percurso o Jofre, simulando uma grande preocupação, continuou a mexer em tudo no painel de instrumentos. O Major, muito assustado e sem entender o que se passava, nem se levantou mais até à chegada ao destino.
Aterrámos junto ao destacamento e o mecânico foi abrir a porta ao Major que saiu imediatamente.
Como previsto, não havia ninguém para evacuar. O Major, embora o Jofre lhe tivesse garantido que seria capaz de voltar “sem problemas”, decidiu fazer a viagem de regresso em viatura.
O Jofre tinha razão: embora tivéssemos rido bastante, a viagem de regresso passou-se “sem problemas”. Quanto a mim, aprendi que uma simples mola pode ter um papel importante na demonstração de quem é quem.

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sábado, 5 de maio de 2012

CONVERSAS NA CIDADE Nº.1


Nota Introdutória

     Repuxando o nosso passado, aquele que se inseriu nas décadas de sessenta e setenta, já do século “ido”, … há “c´anos”!... vou tentar transportar para os   “especiais”, as famigeradas conversas da “treta” tidas em família sobre temas tão diversos que marcarem a nossa estadia por terras do outro Mundo – terras do Leste de Angola.
     Certamente que todos quererão relembrar a época dourada dos nossos “vintage” e, talvez duma forma interessante e maliciosa!... Pois, sendo assim, irei apelar para três personagens por mim criadas para darem a viva voz e “palrarem” sobre nossos briosos feitos.
     Entrarão nas “peças cantantes”, o “Marrador”- aquele que marra, e não narra, o “Vito”, aquele que canta de cor, e o “Joca”, aquele que escuta e consente. Todos eles terão licença para “serrar”, “morder”, “trincar”, com moderação – e fazem convite aos leitores da “aérea nação” para intervirem, procurando nos recônditos da memória já nutrida de fluidos de “alzeimer”, formas de criticarem, corrigirem, inventando ou, desmentindo o que bem lhes aprouverem. 
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Marrador – Da Toca da Base, saem dois “coelhos” desejosos de liberdade. Fardados ou, não, eis que deixam os bares internos, a Torre, as casernas, a cidade militar, toda a sua estrutura “fedorenta”, as “gaivota de chapa batida” no seu “vai vem” rotineiro, as “paladas” de cumprimentos, capitães, disciplina a matar, o remoer que perdura diariamente…
Querem ver as “garinas” de saias aladas na belíssima Saurimo, as “black” sanzaleiras despertas nos seus “gungungos” enfim, o desejo de pronunciarem o “Moio” … para com os valentaços “batedores”.
     O Vito e o Joca já se estatelaram junto à Porta de Armas aguardando pelo transporte que os encaminhará para os lados de “Las Vegas”.
     Vou deixá-los “cantar” por longos minutos… Será uma estadia para cansar!
VITO – Ehhh pá… ao encontrar-me aqui, à beirinha da Porta de Armas, fez-me lembrar uma situação que me afrontou há meses atrás, na altura em que cheguei a esta “guerra”.
JOCA – Conta, conta. Mas fala baixo porque está ali… malta graduada.
VITO – Depois da minha aterragem nestas bandas, andei mais de quinze dias sem “arrear”. Estava tão “empedernido” que até pensei em deixar de comer, receando que pudesse vir a rebentar. Isto, de mudanças de ares, deixa-me sempre apreensivo, mas desta vez receei pela minha vida!
JOCA - E depois? Desanuviaste?
VITO – Calma. Com este receio… acabei por resolver a situação porém, acagacei-me novamente!
       Pensei em exercitar o corpo, e para tal,  vesti-me a rigor com o fato de treino – calçãozinho branco, ténis à maneira, camisola de manga cavada, e nos bolsos – metade dum rolo de papel higiénico. Tudo branquinho a marchar pelas matas ou, savana. Já me esquecia que estava em África e tomei as árvores como se fosse o “Pinhal do Rei”…
     O “raso” da Porta de Armas bateu-me a “pala”, abriu a cancela, e deixou passar o pombinho branco…
     Lá saltitei pela “cangosta”, pela picada a fora, aquela que seguia em frente da Porta de Armas. Andei, andei, corri, saltitei para ver se “desmoía” os “ingredientes” já amorfos, mas sinais?!... só de azoto!
     A meio caminho, já sem avistar o arame farpado das “borboletas voadoras”, oiço um ruído na medonha floresta que até me causou arrepios. O pinhal do rei, deixou de ser savana para passar a floresta pois, aqui não haviam melros a cantar… Barulho? Seria algum leão?!  leopardo?! crocodilo?! E para maior temor meu, ainda pensei confusamente se o mesmo teria asas!...
     Ohhh menino, fiz um rodopio, coloquei o acelerador a fundo, e só parei na “cagadeira” da rendição. Não houve tempo para chegar à minha “caserninha”.
JOCA – Tanta pressa?
VITO – Duas pressas… O medo e o “bombardeamento” resultante da ginástica forçada e dos leões…

JOCA – Ou de alguma ratazana!... Enfim, ficaste curado!...
Marrador – A conversa era da “treta” – tal qual as conversas dos “especiais”.
Prontos para tomarem a carrinha “mercedes” a caminho da cidade, retomam o seu “falório” já em andamento.
Não esqueçam que são apenas cinco quilómetros de percurso, mas havia muito para “palrar”.

VITO – Já eram horas de partir. Decerto que o condutor adormeceu.
JOCA – Nahhh…. Há oficiais no grupo!
VITO – Ei-la. Entramos. Bem, se não viesse, iríamos de “kinga”
JOCA – De “kinga”, a pé, de mota ou, numa “mini Onda 50”.
VITO – Transportes que já utilizei. A pé, pela “picada” de terra batida e que marginaliza a estrada asfaltada pelo lado direito. De “kinga”,  naquela que comprei ao João para me deslocar pela Base. De vez em quando monto nela e faço as minhas explorações etnológicas e sanzaleiras…
Na “mini 50”…. Essa é que me assustou redondamente!...
JOCA – Só sustos? Inicialmente, com os intestinos a darem-te volta, agora, a mota?
VITO – Pois, tinha pedido essa “motita” ao Girão para efectuar um “rally” à vilaça, e quando regressei no lusco-fusco, o farol “piscou-se”. Enquanto deslizava pela recta, mesmo sem lua, lá ia… Quando cheguei às curvas próximas da Base…fui a  atalhar. Embrenhei-me na floresta. Afirmo, não era mata, era a floresta virgem e na total escuridão. E os “cagaços” que senti na estrada sem nada ver? Já imaginava os “turras” em cada canto. Catana daqui para ali e a prisão de ventre ficava-me curada…
JOCA – “Cagaceiro”. Nem há “turras” nestas  paragens.
Calor, isso sim. Vês ali aquele caminho paralelo? Há uma semana atrás resolvi sair para tirar umas fotografias. Como não ia ninguém comigo, utilizei o “temporizador” assentando a máquina na terra batida. Quando levantei a máquina fotográfica, a correia que jazia no chão, estava separada. Tinha derretido!
VITO – Olha, olha… o Rádio Farol. Deve estar ali o Raimundo!...
JOCA – Ele, e as suas turistas… Estão sempre a “espraiar”, e ele a versejar. Poetas que eles são! 

VITO – Atrás do Rádio Farol, segue uma picada estreita que se embrenha pelas silveiras abaixo. Tive uma aventura para aquelas bandas!...
JOCA – Puxa pela língua. Mataste uma “surucucu”?
VITO – Fui visitar a Rosa, aquela boneca negra, meiguinha de encantar.
JOCA – Visitar? Fazes-me rir!...
VITO – Maldoso!... Fui visitá-la e levar-lhe cumprimentos do Júlio que partiu para o “puto” e que me recomendou protecção. Levei-lhe umas lembranças para o filho de ambos…Afinal, foi mais uma das sacrificadas da guerra e acabou com mais um encargo para a vida!
JOCA – Seria esta a Rosa que é referida nos versos do “farolista”?
VITO – Parece-me que sim. Por alguns versos carregados de tristeza, tudo indica ser a mesma. Ora escuta…
…,…           
Chama-se ROSA!     
E a ROSA tem de humano,
A posição vertical.
O resto…
O resto
É de animal irracional.
Não tem ódio no olhar,
Nem rancor pelos tiranos;      
Ambições também não tem,
Que a vida
Sempre lhe deu desenganos,
E ela deixou de ambicionar.
…,…     …,…
Aquela é uma rosa
Que não se encontra nos rosais!
Pétalas negras,
Pistilo de marfim.
E dois estigmas dardejantes de pureza,
Que beleza!        
Nunca vi outra assim.
…,… …,…
JOCA – Acredito na tua “bondade”. Não dormiste nessa noite, mas…
VITO – Nem nessa, nem em mais alguma pois, quando tentava seguir a “picada”, pela noite, errava o caminho e emaranhava-me no “silveirado”. A cubata ficava distante do povoado, isolada…naquela mata sadia!
JOCA – Sadia…
Marrador - Como a distância da viagem era tão curta, não deu para dar largas “cuspidelas” às nossas “cuscas”. Encontramo-nos na grande Rotunda, entrada na cidade. Na nossa margem esquerda, encontra-se o grande depósito de água, pintado a branco. Toma-se a Avenida principal que nos encaminha em direcção à Capela, voltamos à esquerda, passamos pelo bairro dos Sargentos, roçamos o Bar Quioco, Hospital, e terminamos o circuito em frente do Hotel “Pereira Rodrigues”, no cruzamento que dá para o cinema “Chikapa”, o novo, - local dos “mirones”
     Caros leitores, puxem pelos vossos “neurónios”. Relembrem as vossas peripécias para aconchegarem os textos do Vito e do Joca. O Marrador, suaviza a coisa… 

Até Atébreve
O Amigo