sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

...E, COMO SEM ESPERAR, VIM DE FÉRIAS AO PUTO!


O embarque
Como introdução devo dizer que sempre viajei de e para Angola em Boeing 707.
Aquando da minha mobilização e após dois adiamentos de embarque, finalmente em 3 de Outubro de 1970, chegou o dia.
Já estava cansado de despedidas, se não embarca-se nesse dia já tinha jurado, não voltava a casa, ia para Montejunto.
Para surpresa, esperava-nos um voo no 707 da TAP “Lourenço Marques” especialmente fretado para transporte de militares da FAP com destino a Angola.
Era tempo de substituir muitos que estavam a "lerpar" meses, caso meu amigo Quim Gomes, e falava-se no incremento do dispositivo na ZML.
Postal TAP do Lourenço Marques

Chegados a Luanda passados um dias sou colocado no AB4-Henrique de Carvalho, na altura considerada a Base do desterro em Angola.
Ainda em 1970, alguém me informa, que tínhamos a possibilidade de requerer a vinda de férias á Metrópole com viagem nos nossos aviões. Com franqueza, não tinha grande preocupação em vir cá de férias, era um tipo “livre” não tinha qualquer compromisso amoroso, para além dos meus pais.
Acabei por fazer o tal requerimento, e logo se verá o que vai acontecer. Certo, é que nunca mais liguei nem me preocupei com o eventual despacho.
Passou-se o ano de 1971 e na semana de Natal sou informado que tinha chegado um rádio com o deferimento da viagem, marcada para esse semana, pelo que deveria embarcar para Luanda e aguardar embarque para Lisboa.
Foi uma total surpresa!
Há que tratar das formalidades, há que informar o meu chefe direto, na altura o 1º. Sargento Matos Silva mais conhecido por “Rato d’água”, que posto ao corrente da situação, pura e simplesmente me recusa a concessão de férias para o efeito. Não há problema chefe! Nestas coisas há que falar com quem manda verdadeiramente. Assim nada como falar com o chefe mor, o Capitão Maia, que apanhei de seguida e a quem transmiti a nega do Matos Silva.
O Capitão Maia com a sua habitual bonomia, responde-me:
“Ho pá, não ligues, despacha-te vai tratar da tua vida e vai lá de férias”!
E assim foi, burocracia tratada, embarque para Luanda.
No dia 23 lá estava nos TAM, mas nem na lista de reserva constava o meu nome.
No voo desse dia, era só oficialato superior, famílias, amigos, cão gato, periquito...e "sopeiras" dos senhores oficias. O voo TAM mais parecia um voo da "agência de viagens FAP".
Escusado será dizer, que eu e muitos mais ficámos em terra e a hipótese do Natal com a família já era.
Paciência, não se pode ter tudo! Como recurso lá tive de "asilar", com os meus amigos de infância, D. Adozinda e seu filho André, que viviam na Terra Nova e com quem passei a consoada de Natal.
Julgo que nos dias 24 e 25 não houve voos.
Embarquei no dia 26 ou 27, talvez 27 porque 26 foi um domingo. Em Lisboa, muito frio, para quem vinha equipado com a farda de verão, e sigo para o Porto.
Chegado a casa, para surpresa da D. Maria minha mãe, pois não tinha avisado ninguém, foi a verdadeira surpresa.
- Oh rapaz, o que fazes aqui, não estavas em Angola?
- Estava mãe, mas deixaram-me vir a casa!
Entre a passagem de ano e dias seguintes, o tempo foi passado em convívio com a família e amigos. Tive também de "tratar" uma carrada de chatos com que fui brindado, provavelmente, na última noite passada nos adidos da BA9, experiência que nunca tinha vivido, mas segundo o tratamento fornecido pelo meu amigo Aníbal da drogaria, ficaram todos de costas!
Bom, o tempo passa e há que preparar o regresso, destino AT1. Só que, volta a repetir-se a cena do primeiro embarque, duas vezes sem vaga. Só á terceira tentativa e após muita pressão lá consegui embarcar, senão ainda hoje estava de férias (!), já estávamos em meados de Fevereiro.
Após quase 2 meses, finalmente de regresso a Henrique de Carvalho, já havia malta que pensava que eu tinha "desertado", faltavam 8 meses de comissão ! 
E foi esta, ao correr da pena, a saga da viajem de férias ao Puto!

Por: A. Neves


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