quinta-feira, 14 de setembro de 2017

RECUPERAÇÃO DO ALOUETTE III 9306

Dia 5 de Janeiro do ano de 1973.
O Puma estacionado na chana - foto de Roberto Firth Alves










Tínhamos descolado do Ar-Luso, no SA-330 Puma, 9511, com destino ao Lutembo, com a missão de tentar resgatar o Alouette 9306, pilotado pelo Alf. Pil José Folgado, que ao ter sido atingido, pelo fogo inimigo, num pé, aterrou de emergência na chana.
Ainda estava com o pensamento do dia e noite anterior, em que o nosso Comandante da Esquadra 402 Saltimbancos, Cap. Pil Custódio Santana, foi atingido violentamente pelo fogo do IN, e aterrou na chana, com o MMA João Dias, que ia como apontador do canhão, e , termos andado toda a noite, à procura do pessoal da FAP, pelas Repúblicas, restaurantes, bares, para os levar ao hospital militar para fazerem a doação de sangue, que era necessário, face à operação que estava a decorrer, na tentativa de lhe salvar a vida.
Com estes pensamentos vivos, e já a pensar no que ia encontrar na chana aterramos no Lutembo, com cerca de 01:50 de vôo.
Mudei a ferramenta e tudo o que levava para o Alouette III , n°9365, pilotado pelo Ten. Mário Jordão,e com o Sar.Pil. José Ramos, lá seguimos para a chana num vôo de 00:15m, onde avistei os dois Alouette III.
Aterramos, retirei tudo o que levava, e fiquei com o Sar.Pil Ramos na chana, o Ten.Pil Jordão descolou e manteve-se por ali no ar a baixa altura, não fossemos atacados pelo inimigo, embora tivéssemos a protecção da 37ª Companhia de Comandos.Lá chegamos junto ao helicóptero do Folgado, estando mais à frente o Alouette aterrado de lado com o canhão a apontar para o céu, do Cap.Santana e do MMA Dias.
Alouette do Cap. Santana e o do Alf. Folgado - fotos de Manuel Cura e António Nabais
Comecei a verificar os estragos, que eram muitos, mais de 180 perfurações de impactos directo.
Os buracos das pás tinham tal dimensão que cabia lá a minha mão fechada, feitos por armas antiaéreas, segundo informação do pessoal da 37ª.CC.
Depósitos de combustível e do óleo perfurados em várias zonas, BTP com dois apoios partidos, e carenagens destruídas.
Comecei a pensar que era uma missão impossível, retirar o Alouette da chana, e chegar ao Lutembo.
Mas lá meti mãos à obra e comecei a introduzir desperdício nos buracos das pás e com fita adesiva lá os tapei todos.
A chuva continuava a cair copiosamente, não estivéssemos no Leste de Angola.
Remendei como pude o depósito do óleo e combustível para levarem o suficiente para chegarmos ao Lutembo.
Com o fio de frenar lá amarrei os dois suportes partidos da BTP, o melhor que pude, bem como algumas carenagens.
Fiz o abastecimento de combustível e óleo e não apareceram sinais de fuga.
Tomamos o nosso lugar, o Ramos iniciou os procedimentos de marcha do motor, a turbina arrancou e com o seu silvo característico estabilizou sem problemas, mas já se notavam as vibrações.
Com o inicio da descolagem as vibrações aumentaram e começamos a ter a sensação que o Alouette se desintegrava. Num vôo de 00:15 m, demorámos 00:30 m, sempre com a sensação que não chegávamos ao Lutembo tal as vibrações que se avolumavam, mas lá aterrámos junto ao quartel e não na pista. Sempre acompanhados pelo Ten. Jordão no outro Alouette.
Quartel do Lutembo - foto de Militão Candeias

Quando saímos do helicóptero, parecia que tínhamos nervoso miudinho tal o efeito das vibrações no nosso corpo.
Completamente encharcados lá fomos beber umas "bjecas" no bar do exército.
Mais tarde chegaram as pás, BTP, depósitos e outro material, o Alouette foi reparado e levado para o Ar Luso.
Missão difícil, mas com o dever cumprido, este trabalho foi agraciado com um louvor, mas essa é outra história para ser escrita outro dia.
Esta é uma breve historia do Sarg.MMA Franklin Santos.
E com a participação do Sarg.PIL José Ramos.

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5 comentários:

  1. Obrigada por este relato!
    Filipa Santana

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  2. Nestes momentos são necessários alguns predicados imprescindíveis às soluções, tais como eficácia, perícia, sacrifício e denodo - foi o que vocês fizeram! Eu também vos condecorava. Um abraço.

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  3. Gostei de saber esta história. Parabéns pela coragem e profissionalismo

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  4. Fiquei muito emocionado com este texto.
    Muito obrigado,
    Fernando Santana

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