quarta-feira, 30 de novembro de 2016

SUSTO NO DO 3430

O DO 3430 algures no leste - foto de Gonçalo de Carvalho
Ao entrar no nosso Blog para visualizar o fabuloso 41º. encontro da rapaziada, deparei-me com um artigo - ACIDENTE DO 27 3426, NO DALA, que me fez recordar uma situação idêntica passada comigo na DO 27  3430.
Na altura estava em destacamento em Gago Coutinho e fui, se não me falha a memória, com o Fur.Pil. Fidalgo até ao Alto Cuíto que, decerto alguns se lembrarão, tinha uma pista suigeneris dadas as suas reduzidas dimensões, e inclinação, que nos obrigava a aterrar a “subir” e descolar a “descer” para além das pedras soltas que, com o vento da hélice, batiam na chapa da DO fazendo lembrar estarmos a ser “metralhados” .
Acontece, que quando começámos a fazer a aproximação à pista o motor começou a “tossir” mas o Fidalgo lá o aguentou até "batermos" com o trem no chão onde o motor se “apagou” de vez, mas felizmente já com os pés em terra.
O Alto Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho
Quando fomos fazer a purga do motor o “copinho” que se retirava para a purga estava cheio de água. Depois da purga feita tudo voltou ao normal.
Felizmente o regresso fez-se sem mais incidentes, os camaradas da 3426 não tiveram tanta sorte.

Um abração


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MISSÃO NO LAGO DILOLO

O relato seguinte tem por intenção abrir um pouco a questão de como pensavam os intervenientes naquela guerra. Seria interessante abrir o diálogo com alguns familiares mais jovens que por aqui andem, alguns mentalizados de forma alheia às situações, Acho e entendo que nós os que participámos naquela guerra temos alguma coisa a dizer, a nossa opinião, sujeita a análise e a críticas se for caso disso, mas a nossa opinião. Não sou belicista porque fiz a guerra, mas também não sou pacifista, porque os pacifistas atraem as guerras.
Luacano 1969-foto de Pereira Rodrigues
Desloquei-me do Luso no avião do CFB, que o Cmdt do Batalhão usava como táxi para o Luacano, povoação ao longo da linha do CFB a meio caminho entre o Luso e Teixeira de Sousa. Era uma pequena povoação, mas com uma grande avenida, a principal actividade era a captura de pequenos peixes que viviam nas anharas e zonas alagadiças, charcos e pequenos rios da chana.No dia seguinte de manhã preparava-me para seguir com o comandante do batalhão no
Lago Dilolo-foto de Julio Corredeira
helicóptero para o posto de comando avançado planeado para o Lago Dilolo, quando o major que o acompanhava me dá uma ordem: - Monteiro, leve os seus homens para o Lago Dilolo!
Não estava nada à espera disto, primeiro porque não era operacional, a minha responsabilidade eram as transmissões, segundo porque não podia contestar a ordem e lá estou eu a comandar uma coluna militar de quatro ou cinco viaturas em direcção ao Lago Dilolo, a comandar “os meus homens”, homens sim, com uma média de 21 anos numa missão militar em zona de guerra.
Lembrei-me de alguns relatos que ouvira em Mafra sobre estas situações, na verdade eu era mais um estudante mobilizado para uma missão militar, que um chefe militar, mas estava ali agora com a missão de levar aqueles homens até ao Lago Dilolo. Em primeiro lugar tinha de demonstrar segurança, que a pior coisa que um chefe militar pode fazer perante os “seus” homens é mostrar insegurança. Aqueles homens, em caso de algum ataque ou situação de risco, esperavam que eu soubesse tomar as medidas e as atitudes certas, mas eu não estava assim tão certo, nada podia demonstrar dessa insegurança e lá fomos direitos ao pó da picada.
Armando Monteiro
De repente lá estou eu, estudante em Lisboa a comandar uma missão militar em África, a saber pela primeira vez o que era o pó da picada, As viaturas avançam sem capotas por causa das minas, se alguma rebentar é mais seguro ser lançado ao ar que ficar esmagado contra o teto da capota. A zona era plana, de savana, embora os angolanos usem mais o termo anhara para designar este tipo de terreno. Uma viatura atascou pelo caminho e lá aproveitei para mais uma fotografia, a cara cheia do pó da picada, mas lá levei os “meus homens” até ao Lago Dilolo, o maior lago de Angola.
Durante a minha estadia o alferes comandante do destacamento, contou-me que tinham sido atacados uns tempos antes. Organizada a defesa um dos soldados pegou no morteiro 60, nestes casos era só usado o tubo do morteiro, de modo a torná-lo mais manejável, aponta mais ou menos para a zona onde estavam a ser disparados os tiros e enfia pelo cano abaixo uma granada de morteiro, grande estrondo e lá vai granada, aquilo ia ensinar aos outros para não se meterem com o pessoal do destacamento, de repente o céu fica iluminado e lá vem uma estrelinha brilhante a descer lentamente de para-quedas, iluminando o cenário.
Coisa estranha, que era aquilo? E vai mais morteirada, e nova luz a iluminar o cenário… os guerrilheiros foram-se embora, estavam ali para fazer um ataque a sério e o pessoal do destacamento a lançar foguetes, como se a guerra fosse a brincar! Foram fazer a guerra para outro lado, estes eram uns brincalhões, não levavam as coisas a sério.
Verificadas as coisas, chegou-se à conclusão de que todas as granadas de morteiro existentes eram de iluminação…foi uma guerra bonita em que ninguém ficou ferido, afinal todas as guerras deviam ser assim.
Regressei ao Luso de Heli.

Por:



Armando Monteiro
Alf.Mil.Transmissões Bat.Caç. 3831

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ACIDENTE DO 27 - 3426, NO DALA.

Acidente no Dala, em 15 de Maio de 1970. 

Em jeito de "entrevista" a dois dos protagonistas do acidente, o Luis Amaral e o Sampaio.
Comentários produzidos na foto publicada em, GERAÇÃO SACRIFICADA... E ESQUECIDA, meu álbum no FB .


Luis Amaral: - Jamais esquecerei este dia, do meu renascimento.
Neves: - Luis Amaral, imagino após estes anos (de vida) o que é rever este acidente de que foste protagonista.Ufa (para não dizer...carago!) !
De facto, de vez em quando a sorte estava do nosso lado!
Rosado: - Quem era o piloto e o mecânico?
Voei muito no 3426, também tivemos uma situação muito grave na zona do Cuito Cuanavale, mas conseguimos chegar ao AR.
Luis Amaral: - Assim é Neves, a sorte nesse dia bafejou todos os tripulantes, só o Sampaio se feriu ligeiramente na cabeça ao sair do avião, a posição do avião no acidente não é a que está na foto, aqui já foi movido. Só paramos, após longos segundos de rojo por árvores de queimadas, quando a DO bateu estrondosamente com o nariz numa árvore de maior porte afocinhou e a cauda empinou de tal forma que ao bater novamente no chão levantou uma nuvem de poeira. Cheirava fortemente a gasolina, quando o avião se imobilizou finalmente, fugimos todos com receio de explosão que felizmente não se verificou. Tínhamos sobrevoado a baixa altitude há poucos minutos a estrada do Dala, quando o motor pifou por problemas de bolhas de água na carburação, se tivéssemos mais altitude safávamo-nos purgando com a bomba elétrica de emergência, assim a voar baixo mesmo acionando a bomba nada resultou, perdeu altitude como uma pedra não havia tempo para nada a não se escolher o mato para a aterragem de emergência, aí tivemos a sorte de ter um piloto fora de série que aguentou o avião até bater, escolhendo o local mais apropriado, o malogrado Sarg.Ajud. Renato a quem devemos a sobrevivência.
Que Deus lhe tenha reservado um lugar no céu, junto dos Seus eleitos.
Rosado: - É uma situação complicada, como é que um avião sai da manutenção depois de uma inspeção no mínimo de 50 h e tem água no combustível?
Luis Amaral: - Com tanto abastecimento manual por bidon nos destacamentos, mesmo com purgas bem feitas na inspeção antes de voo é sempre possível alojar-se uma bolha no, ou nos carburadores. Em altitude o motor " tosse " mas dá tempo para limpar, não foi o caso, em baixa altitude não há tempo para o motor recuperar, continua com rpm`s, o hélice ainda roda mas não tem potência, foi o que aconteceu.Correcção para a minha referência a carburador do anterior, desconheço se o motor era Lycoming série GO-480 ou GSO-480, ou se já tinha evoluído para o tipo IGSO-480, IGO-480 ambos com injeção de combustível, para não referir os concorrentes Continental do tipo IO-520 E IO-550 série. Talvez alguém me possa elucidar para retirar a afirmação sobre carburador, considerando apenas o sistema de injeção de combustível.
Rosado: - Luís Amaral, os motores eram GSO 480, com carburador. Os DO 27 da Força Aérea Suíça tinham um motor de 6 cilindros com turbo e injeção. Existe um exemplar no museu do ar em Sintra BA 1.

Luis Amaral: - Agradeço a informação e confirma-se o que se dizia no AB4 em 1970, "off the record", falha de combustível na carburação. A peritagem deve ter sido feita em Luanda nas OGMA. Sobre isso nada sei.
Rosado: - Luís Amaral houve falha nos procedimentos sob o combustível. Os aviões quando estão parados têm uma tendência maior para “criarem água na gasolina”. Por experiência própria já na linha da frente dos Chipmunk em Sintra, devido à humidade usávamos o detector de água. No leste além deste detector, não abastecia em nenhum destacamento do exército ou marinha de bidões abertos e ainda usava o filtro de camurça.
Luis Amaral: - Isso eu sei Rosado, mas há sempre algo que escapa em centenas de procedimentos de segurança efectuados ao longo do tempo por muito pessoal envolvido, senão nunca havia falhas, não é? Tive outra experiência de falha do motor 2 em Gago Coutinho com um PV2, mais uma vez tive a sorte de ter uma grande tripulação, também derivada de falha de carburação, Em Gago Coutinho dada a altitude da pista a exigência de potência dos motores ainda era maior. Admito também como científica a sua explicação, talvez tenha sido o que aconteceu em ambos os casos. Who knows? Thks pelos comentários a propósito.
Neves: - (via mail) Sampaio, neste acidente do DO 3426, os tripulantes eram: Renato, Murta, Luis Amaral e tu ?
Sampaio: - Confirmo a tripulação: Renato, Murta, Amaral e eu Sampaio.
Para ajudar a esclarecer o assunto, envio em anexo uma foto minha e do Palminha Pereira, sentados no  DO 3426, já no hangar do AB4, para onde foi transportada a aeronave depois de desmantelada após o acidente.
Neves: - Já agora, sabes me dizer se o DO foi recuperado no AB4, se foi para as OGMA ?
Rosado: - Neves obrigado pela informação, deve ter sido desmontado no AB 4 e transportado para Luanda, para as OGMA, ou veio pessoal de lá para o reparar isso é trabalho para as OGMA.
Sampaio: - Como calculas, são episódios que nunca se esquecem! Lembro-me perfeitamente do acidente. O DO tinha estado numa inspecção de rotina face ao número de horas que tinha voado. Após a inspecção, é norma os aviões antes de serem dados como operacionais e entregues à Linha da Frente para operar em qualquer missão ou seguir para destacamento, fazerem o habitual voo de experiência local, que durava cerca de 1 hora de voo. Já no regresso ao AB4, tudo corria bem. De repente, e já em linha de descida para a aterragem, o avião começou com forte ruídos no motor, vindo a parar pouco depois.O piloto Renato, gritou, agarrem-se! Mas teve a calma suficiente, pois era piloto experiente, para levar o nariz do avião/motor/cabine, para uma zona sem árvores. Mas as asas e trem de aterragem do avião ficaram destruídos.
Em acidentes desta natureza, os aviões são desmantelados no local e depois seguem para o respectivo hangar. No caso do DO em apreço, o avião/peças, foram para Luanda. A partir daí ficaram entregues ao cuidado das OGMA.No AB4, não havia condições técnicas para tais reparações.


Ribeiro da Silva: -  Lembro-me bem do Renato, foi instrutor de tirocínio no meu curso em Tancos. Aviador até dizer chega!Quanto à problemática da água no combustível, infelizmente acontecia com exagerada frequência, além de, como sabem melhor que eu os amigos MMA, os carburadores do DO serem propícios a avarias. Recordo-me de duas situações relacionadas com estes problemas: uma missão de evacuação entre o Alto Cuito e Luso, em que a partir de meio da viagem viemos com falha parcial e com o motor a trabalhar aos soluços. O saudoso Jofre chegou a sair ao nosso encontro. DO em oficina tendo sido detectada uma irreparável avaria no carburador no sistema de correcção altimétrica de mistura.
Na última missão que fiz em Angola, foi aproveitada a nossa vigem para efectuar o "ferry" de um DO para inspecção. Precisamente no Dala, aconteceu-nos idêntica situação, tendo a sorte de chegar à pista, aterramos com falha do motor. Nesse voo não havia mecânico, estando eu o Jaime Anastacio “TacK” e um furriel de transmissões (?) de que já não me lembro o nome (os três em viagem para Henrique de Carvalho por ter acabado a comissão). Fizemos a limpeza do filtro de palhetas e verificamos a existência de muita água. Por essa razão resolvemos esperar, para deixar repousar a gasolina nos depósitos com a possível separação dos dois líquidos. Ao fim de um bom bocado (entretanto chegaram os militares do Exército que se tinham apercebido da aterragem de um avião sem a habitual passagem a pedir protecção à pista) fizemos uma longa purga e resolvemos tentar ir embora. Motor em marcha sem aparentes problemas e descolamos. Resolvemos fazer a viagem sempre sobre a estrada não fosse o diabo tecê-las. Ao fim de cerca de meia hora de voo voltamos a ter falhas no motor mas aguentou-se até ao AB4, onde já andava tudo à nossa procura, uma vez que o ETA já há muito que tinha sido ultrapassado.Falta dizer que a torre não tinha conhecimento das nossas "aventuras" pois entre outras anomalias do avião que, repito, ia para inspecção, não tinha HF operativo e, o pessoal do Dala, esqueceu completamente o pedido de dar notícias nossas usando as suas comunicações.
Tendo o avião entrado em oficina, foi detectado que as falhas continuaram a ser provocadas pela presença de uma quantidade anormal de água na gasolina, pelo que a purga feita no Dala não tinha sido suficiente. O Tack tem uma teoria interessante sobre o sucedido que, se ele assim entender, partilhará convosco.
Um abraço para a rapaziada, principalmente (sem esquecer todos os outros) para os MMA, que muitos "apertos" destes viveram connosco.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

UM VOO ATRIBULADO DE SANTA EULÁLIA PARA LUANDA


AR de Santa Eulália - Norte de Angola

Em finais de Março de 1970 terminei o destacamento de quase cinco meses em Santa Eulália.
Ansioso por regressar a Luanda para beber umas Cucas e dar uns mergulhos na praia da Barracuda, passava os dias atento a qualquer avião que aterrasse pronto para “cravar” uma boleia.
Depois de uma ou duas negas lá apareceu ao terceiro dia, por volta da hora do almoço, um Auster vulgo “Teco-Teco” e assim chamado por ser uma "avioneta" com aspecto muito frágil. Torci o nariz e resolvi não pedir a boleia. 
Chegada a hora do almoço fui-me aproximando da messe. O meu nariz não me enganava, nesse dia era frango de churrasco com piri-piri e batata frita. A meio do almoço, Já tinha marchado um naco de frango e estava a preparar-me para abocanhar outro quando reparei que o piloto do Teco também estava noutra mesa a almoçar e em amena cavaqueira com o tenente – de que não consigo recordar o nome - comandante do destacamento. Em dado momento os nossos olhares cruzaram-se e vejo-o com ar sorridente fazer com o polegar o sinal de ok! Correspondi estranhando a atitude, mas como o frango estava cinco estrelas, a coisa passou. Terminado o almoço fui para o bar beber o café e uma aguardente Mosca, muito em voga na altura.
Ainda não tinha acabado de “emborcar” a aguardente, quando se aproxima de mim o piloto com um ar todo prazenteiro e diz-me que o comandante o informara que eu precisava de boleia para Luanda.
Apanhado de surpresa, gaguejei mas lá disse que sim, tendo ele de imediato dito que iria para Luanda daí a pouco e que tinha boleia se quisesse, ressalvando que teríamos primeiro de sobrevoar uma zona junto dos Dembos. para distribuir propaganda da psico e depois teríamos de ir à Fazenda Maria Fernanda fazer a evacuação de um militar do exército que tinha dado um tiro no pé.
Sem querer dar parte de fraco, mas apreensivo - o ar dele não me inspirou confiança - aceitei a boleia e fui buscar o saco. Ia a caminho do posto de rádio – onde dormia e tinha a roupa - quando me segredaram que o piloto era um novato naquelas andanças e que tinha entrado há muito pouco tempo para a FAV (Força Aérea Voluntária) e ao que se sabia aquele era o segundo ou terceiro voo dele. Percebi a sacanagem e mais de pé atrás fiquei, mas especialista que se prezasse não podia ter medo de andar de avião, pensei eu. E lá fui placa fora até ao Teco que nunca me pareceu tão frágil como naquele momento. Ao sentar-me no avião fiquei todo enclinado para trás e só via o céu. Isto porque tinha de ter os pés sobre um monte de propaganda da dita acção psico-social que quase ficava com os joelhos na barriga. 
Começámos a rolar na pista para a descolagem e ao passarmos frente à torre de controle vejo a “maltinha” com grande ar de gozo, a acenar-me com lenços e a dizerem-me adeus. Ainda estava a olhar para aquele espectáculo quando o avião descreve abruptamente uma volta apertada à esquerda, a pouca altitude e por pouco não entrámos em perda.
Comecei a olhar desconfiado para o piloto que ia agarrado ao manche como um náufrago a uma bóia de salvação e optei por olhar para o lado e imaginar o que iria fazer quando chegasse a Luanda. Não tive tempo para imaginar o que quer que fosse... No horizonte desenhavam-se umas nuvens negras que pareciam formar um muro inultrapassável. Questionei o piloto se nos íamos meter naquele sarilho ou voltávamos para trás. Respondeu-me que não havia problema que aquilo não era nada!
Assim sendo lá fomos direitos ao “muro” e o que se passou foi indescritível. O avião começou aos solavancos e a andar de lado por força da turbulência e de repente ficou tudo escuro à nossa volta.A chuva tinha uma intensidade tal, que as portas de tela do avião estremeciam dando a impressão que queriam ir para outras paragens, e a água entrava sem pedir licença! A bússola girava estilo ventoinha e o altímetro subia e descia mais parecendo que andávamos na montanha russa...
Não sei quanto tempo demorou a atravessar a tempestade, mas para mim foi uma eternidade. Sei que quando saímos daquelas nuvens negras e começámos a voar por entre farrapos de nuvens, não estávamos muito longe do solo e o piloto estava branco como a cal! Respirei fundo e agradeci a todos os santinhos por ter escapado daquela embrulhada. Mais uns minutos de voo e decidiu-se que era por ali que largaríamos a propaganda.
Outra aventura! Ao largarmos a propaganda os panfletos começaram a bater na cauda e no leme de direcção porque não respeitámos a técnica de enrolá-los uns nos outros, atirando-os depois no sentido da roda, em vez de atirá-los à balda pela janela! Demos com a marosca a tempo e horas senão podíamos ter arranjado uma dor de cabeça... Mas lá nos safámos com mais calafrio menos calafrio e rumámos à fazenda Maria Fernanda onde íamos evacuar o tal soldado.
Na aproximação à pista tão depressa via o morro como via a pista, subíamos e descíamos como se estivéssemos no cimo de uma onda, a dúvida residia em saber se acertaríamos na pista ou no morro! Lá se acertou na pista e fomos aos saltos até o Teco parar. Saltei do Teco para fumar um cigarro e pensar na puta de viagem que me tinha saído na rifa! Ainda não tinha acabado de dar a última passa quando vejo sair dum jeep um soldado a coxear e com ar de quem seguramente não batia bem da bola. Ainda o estava a mirar quando vi tirar do mesmo jeep uma caixa com abacaxis – uns sete ou oito – e pedirem ao piloto se os podia levar pois estaria alguém na placa para os receber, até porque eram para um oficial da BA9. O piloto anuiu contrariado - já começava a ver o Teco muito pesado - e vai de carregar os abacaxis e embarcar o soldado.
Tomei o meu lugar e ao olhar para trás vejo o soldado de olhos esbugalhados, agarrado aos banco do piloto e a tagarelar qualquer coisa entre nós que eu não entendia. Pensei logo para com os meus botões que o tipo era meio doido e se já tinha dado um tiro num pé, também era menino para se agarrar ao pescoço do piloto e “espetar” com o Teco por ali abaixo. Durante a descolagem que nunca mais o era, a ideia não me saía da cabeça e quanto mais altitude o Teco ganhava mais eu me enervava... Às duas por três dei-lhe um berro e disse-lhe para soltar os bancos e encostar-se para trás.
A resposta foi um grunhido mas lá se encostou. O voo foi curto e quando vi o mar respirei fundo pois sabia que estava muito próximo da BA9. Aterrámos sem problemas de maior e o piloto dirigiu o Teco para a placa onde ficavam os DO’s, Auster etc., não muito longe da minha camarata. Não vimos ninguém à nossa espera para receber o soldado nem os abacaxis. O soldado perguntou-me onde era a porta de armas e a coxear seguiu caminho, ficando eu a fazer companhia ao piloto. Passado um bocado virou-se para mim e sugeriu que o melhor era deixar os abacaxis no Teco e ele avisaria o oficial de dia.
Chegado à camarata contei ao Valente (Fred), um OPC de 68 e meu grande amigo, a história dos abacaxis. Logo ali ele aventou a hipótese de lhes darmos a “palmada”.
Depois do jantar fizemos um RVIS – reporte visual – e constatámos que os abacaxis ainda lá estavam à nossa espera.
Fomos para a camarata fazer tempo e passado uma ou duas horas lá fizemos o “golpe de mão”. Carregámos os abacaxis para a sala de ensaio do grupo musical da base, onde o Fred e o Luís Canhão tocavam, e que por sinal se chamava “Os Tecos”. 
No dia seguinte comemos os abacaxis como quem come melão às fatias. Não foram precisas muitas horas para ficarmos todos com a boca inchada e bolhas nos lábios. Andei acagaçado durante uns dias porque se constou que um oficial andava a fazer perguntas no Bar de Especialistas, sobre uns abacaxis que tinham desaparecido de dentro de um Auster, mas felizmente ninguém fez muitas ondas e o assunto ficou por ali, encerrando-se deste modo a minha atribulada viagem.

Por:


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

RECORDANDO O CUITO

Lá ao fundo, o rio Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Estive no Cuito Cuanavale em Maio, Junho e, Julho de 1973.  Recordo, que foi a região do leste de Angola que mais me "tocou". Parecia-me, com o rio Cuito ao pé, que regressava à infância no Rio Ave, tal eu via algumas coisas semelhantes. 
Outro pescador, o Antonio Neves
Recordo, neste período, que fui um dia pescar junto à curva do rio Cuito, aí a uns 25 metros, havia uma praia natural repleta de habitantes locais. A cana de pesca era emprestada pelos "Primos". A primeira vez que lancei a linha ao rio senti um enorme puxão, que me levou quase tudo. 
Recordo, pensar se não teria sido algum jacaré? É verdade!
Depois repeti e, pesquei alguns peixes com cerca de 2 Kg cada. 
Entreguei alguns a quem estava por ali, mas 4 deles trouxe para o destacamento onde os cortei às postinhas e, com sal fritei. Foi a delícia dos meus companheiros habituados que estava-mos a carne de caça. 
Recordo, que estava comigo o Tomás MMA, entre outros..
A caminho do rio - foto de Afonso Palma

Recordo, também, que certo dia andava toda a gente à minha procura, estava ausente há várias horas, tinha ido ao rádio farol fazer uma reparação e, levei com uma descarga de 1920 volts! (recordo a voltagem por causa da aguardente velha 1920), que me projectou contra à parede do rádio farol e, ali fiquei algumas horas inconsciente, entrou-me pela mão esquerda e saiu pelo braço direito.De resto, foi do Cuito do Cuanavale a região que mais gostei.Finalmente, foi nesta altura, Maio de 73, que por ali passou parte da CCAÇ.3441, com quem  antes estive em N’Riquinha, em trânsito para os arredores de Luanda–Mabubas (sei hoje).


Um abraço meus Amigos.