quinta-feira, 24 de março de 2016

VIAGEM À MACARONÉSIA*

(ficção sobre factos reais)
AB4 Esquadra operacional
Henrique de Carvalho, manhã de Sexta-Feira, Dezembro de 1971, andava no ar um cheiro a Natal, levantara-me cedo, entrava de serviço na cifra às 08H00 Zulo, num turno de 8 horas que acabaria pelas 16H00, imbuído do espírito mercantil da coisa, assobiava uma canção de época quando entrei na sala de despacho e cumprimentei os presentes a caminho do "cofre", nome porque era conhecido o espaço onde se processava todo o trabalho e arquivo de mensagens originadas e recebidas nos vários sistemas de cifra operados pela FAP. 
O operador que ia sair de turno passou-me o serviço e comecei imediatamente a trabalhar. Pelas 10H00 da manhã, veio uma mensagem do CEMGFA, (traduzindo) "Chefe do Estado Maior General da Força Aérea" com prioridade "Zulo", como estava sozinho deixei o que estava a fazer e imediatamente comecei a decifrá-la; à medida que ia introduzindo os grupos de cinco letras aleatórias, a máquina ia processando a descodificação e imprimindo numa fita de papel a respectiva classificação, "Muito Secreto" e o texto, como era regra ia deitando um olho à fita para verificar se saía tudo limpo de erros e compreensível, quando surgiu o meu nome, parei para ler tudo que tinha saído até ao momento e fiquei de olhos colados no texto, lendo e voltando a ler "ordeno a apresentação imediata do 1º CB OPC 507/EP, no Comando da 2ª Região Aér..." introduzi o resto dos grupos da mensagem e não fiquei esclarecido, só me ordenavam a apresentação, não diziam (para, nem porquê?) grande caldinho me tinham arranjado, era com certeza o efeito dos registos que efectuara no "LRO" (traduzindo) Livro de Registo de Ocorrências, que como o próprio nome indicava servia para registar tudo o que de anormal se passasse durante os turnos, quer do posto de rádio, quer da sala de despacho, quer da cifra. 
E que sempre que era utilizado para registar outra coisa que não fosse o protocolar "nada a declarar" tinha que ir ao Comandante da Base, para ele tomar conhecimento. Agora era tarde para medos e lamurias, escrevera vários registos, tinha de assumir por inteiro a responsabilidade sobre os mesmos. 
Como o sargento não estava presente, telefonei para o Gabinete do Comandante, avisando que tinha serviço "Muito Urgente" para entregar, como o mesmo não estava, pedi ao Oficial de Dia que o localizasse e me avisasse para assim que ele estivesse presente, lhe fosse levar o serviço... 
Quando entrei no Gabinete, e lhe entreguei a mensagem aguardando que a lesse para saber se haveria resposta, fui vendo a sua reacção, até que ele me disse: tem consciência do que se passou para o mandarem apresentar-se imediatamente? 
Respondi convicto: não Meu Comandante. 
Ele adiantou: tenho assuntos a resolver em Luanda, eu mesmo o levo, esteja na placa às 14H00, está dispensado do serviço. 
Rumei à camarata, meti várias mudas de roupa, umas latas de atum, um rolo de papel higiénico, o estojo da barba, o "aftershave" e o desodorizante, todo o dinheiro que tinha e a máquina fotográfica na mochila, e zarpei para o bar para almoçar e aguardar o transporte.
Beechcraft 2521 - foto de Alfredo Anacleto Santos
Às 13H50, já estava junto ao 2521, para espanto do MMA, que preparava o avião, ainda antes da hora, comecei a ver três oficiais a vir na nossa direcção, um deles era o Adjunto do Comando e nosso Capitão, estava mesmo feito num oito. No bar todos os meus companheiros me perguntaram porque é que eu tinha ido entregar serviço e não voltara, o Capitão anunciara em alto e bom som, que desta vez eu não escapava ao máximo da sua competência, mas como eu não dei qualquer explicação, todos foram unânimes em dizer-me: tu é que sabes, vais ver na volta o que te espera... aguardei sereno com o coração apertado.
Cumprimentei-os fazendo a continência, o Comandante, mandou-me pôr à vontade e que entrasse depois deles, aguardei que o Capitão também entrasse e ele desabridamente, mandou-me entrar, e voltou costas ao avião, peguei na mochila perante o espanto do cabo MMA e acomodei-me no interior do avião... Acomodei-me num dos acentos e adormeci ao som do ronronar dos motores, dormir era a melhor forma de deixar correr o tempo, acordei por diversas vezes e a última com o baixar do trem de aterragem, à vista a cidade de Luanda banhada por um Sol tropical saudava-nos. 
P2V5 na BA9 - foto de Amável Silva
Quando a porta se abriu, saí para a placa, e aguardei na expectativa de ver se alguém me dizia o que fazer... o Comandante saiu e ordenou-me que me dirigisse ao P2-V5 que estava estacionado na placa em frente do Hangar, peguei na mochila fiz a continência e lá segui pouco convencido se aquilo seria boa ou má ideia. Quando me aproximava do avião, um 1º. Sargento gritou-me de longe, ó nosso cabo, mexa-me essas pernas que já estamos atrasados... 
Entrei no avião e perguntei para onde é que íamos? E ele de passagem atirou-me: para casa, arranje lá atrás um sítio onde se aboletar e não mexa em nada. Olhei em volta, do escuro da cauda alguém me fez sinal que avançasse, quando cheguei mais perto reconheci um dos OPC'S que fizera o curso de cifra comigo, depois dos cumprimentos, disse-me que vinha da Beira, mas desconhecia o porquê da viagem, já éramos dois... 
Com a mochila como travesseiro, e o sol e mergulhar no mar à nossa esquerda, estávamos a voar para Norte, portanto o que o Sargento dissera fazia sentido. Dormi intermitentemente durante horas e voltei a acordar com o trem de aterragem a descer e pela clarabóia confirmei que lá fora era tudo escuro como breu. 
BA12 - Bissalanca  - foto de Antonio Correia 
Aterrámos, reconheci a silhueta do aeroporto mesmo às escuras, estávamos na Guiné, só deu para esticar as pernas e voltámos a descolar rumo ao desconhecido, com mais um OPC do curso de cifra, o motivo e destino da nossa viagem continuavam a ser desconhecidos mas tinham com certeza a ver com a nossa credenciação, único elo que nos ligava. 
O rumo continuava a ser Norte/Noroeste como indicava a pequena bússola que sempre me acompanhava mas o destino era tão negro como a noite, acordei várias vezes e só os companheiros de dormida é que se iam alternando, o dia já clareava quando aterrámos novamente. Ao abrir da porta um cheiro a brisa do mar, chegou-me às narinas, meti a cabeça de fora e não sabia onde estava até olhar para o lado oposto da placa e ver a silhueta de vários aviões militares americanos, estávamos nas Lajes nos Açores. 
BA4 Lajes - foto de Afonso Palma
Uma viatura aproximou-se e dela saiu um alferes PA, que nos perguntou os nomes, e nos mandou segui-lo, fomos directamente levados ao Oficial de Dia, que nos arranjou de comer e nos mandou regressar ali novamente, estávamos proibidos de falar com outros militares e de dizer-mos onde estávamos colocados. Voltámos mais reconfortados e finalmente tudo se esclareceu, presentes estavam o militar Israelita que nos dera o curso de cifra, e o oficial e o sargento que também tinham participado no mesmo, no Domingo 12 Dezembro, realizar-se-ia uma cimeira entre o presidente Americano, Richard Nixon e o homólogo Francês George Pompidou, para discutirem o sistema monetário internacional, sob o beneplácito de Marcelo Caetano na qualidade de anfitrião. 
A chegada de Richard Nixon, ao fundo o Concorde de Pompidou - foto DN
A França na altura a "locomotiva" Europeia, não deixou de o vincar, levando o seu presidente até aos Açores no moderno Concorde (ainda em voos experimentais), obrigando o presidente Americano a retardar a sua chegada para efectuar a aterragem já de noite, evitando que os jornalistas presentes filmassem e fizessem comparações entre os dois meios de transporte. 
E porque é que nos trouxeram de tão longe? Os três países eram membros fundadores da NATO, existiam sistemas de comunicações comuns para além dos criados especificamente para serem usados entre os exércitos da também designada Aliança Atlântica, de que nós éramos os únicos credenciados presencialmente na Força Aérea, e a situação particular da Base das Lajes a meio caminho dos dois Continentes, permitiam o isolamento e criação de condições de segurança para a realização do encontro. 
Passámos três dias fechados na Base, em alerta máximo, não vi nenhum dos Presidentes, nem efectuei nenhum serviço, e no Domingo, voltei a fazer o percurso inverso, Lajes, Guiné, Luanda. Na ida tive transporte VIP, na vinda cheguei aos TAM da BA9 e foram peremptórios comigo, sem guia de marcha ninguém embarcava.
Acabei por ter de ir ao posto de rádio pedir para falar com o operador de serviço em Carvalho, para que me autorizassem o regresso, e só uma semana depois e mais por já não me poderem ouvir, é que me deixaram embarcar no Nordatlas semanal. 
Quando finalmente me apresentei no posto de rádio, tive honras de entrevista cerrada dentro da cifra pelo Capitão e Sargentos, a todas as perguntas respondi da mesma maneira, não me era permitido partilhar nada do que presenciara durante os dias que estivera ausente, a única coisa que lhes podia dizer, é que estivera em Luanda, na Guiné e nos Açores. Acabando todos os presentes por me dizerem que tudo o que eu dizia não passava de mais uma das minhas embrulhadas, talvez mais por essa que outra razão qualquer, na escala dos destacamentos, que indicava a sequência das partidas de Henrique de Carvalho, o meu nome surgiu sem qualquer justificação na substituição do operador de Neriquinha. 
Neriquinha - 1972 - foto de C.Caç. 3441
Nunca ninguém tinha sido mandado para um primeiro destacamento para um local onde só havia um OPC e um MELEC, e nos "mentideros" do bar de especialistas, já toda a gente sabia que o MELEC que iria para Neriquinha, era um que viera comigo no mesmo avião, e que também não era muito estimado pelas chefias... 
E numa segunda-feira de uma vez, lá partiram os dois problemas que infernizavam as chefias das duas Esquadras, e que podiam com o seu comportamento, dar aos recém chegados e aos que lhes se seguiriam, argumentos para sobressaírem da massa "uniforme" dos que como nós compunham a guarnição da unidade...


*Macaronésia, nome porque são conhecidas as ilhas Atlânticas do Noroeste e da Costa Africana: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.

Henrique de Carvalho
OPC (ACO) 1971

sexta-feira, 18 de março de 2016

A MINHA "IDA" A ANGOLA

O Boeing 8801
Um mês e pouco após a chegada ao CCIVM (Centro de Controle e Informação de Voo Militar) na Portela AB1 – Figo Maduro, mobilização para Angola. 
Agora que estava a ter uma vidinha de Zé Especialista e com todos os matadores, é que me estragam os planos, e os engates. 
Enfim, a noticia chega a casa e aos amigos, muita comoção em casa, mas grande oportunidade para os amigos, recordo a noite anterior ao embarque, a mesa do café onde estivemos após o jantar tinha 4 ou 5 pilhas de copos de brandy/bagaço e a famosa 1920 juntamente com o Constantino. 
Não foi possível dormir essa noite, às 10h00 da manhã estava à porta do AB1. 
O embarque fez-se às 23h desse mesmo dia. Um dia que passou pela minha vida sem dar por ele, digamos que foi um incógnito, ainda hoje por identificar. 23h00 – E a malta em fila indiana, sob uma chuvinha de inverno e temperatura senão negativa estava perto, lá vamos embarcando e mirando o terminal com os familiares e amigos acenando, e lacrimejando, lá vamos entrando no autocarro que nos leva à placa onde o Boieng 01 (zero um - também só havia dois) nos espera de portas abertas. 
A viagem foi boa. Um MMA, de quem não me recordo o nome, e amigo de café (a Nilo, em Benfica), chega perto e desafia-me para beber umas garrafinhas miniaturas que havia no avião, e lá vou eu para a parte traseira sentamo-nos nos bancos individuais da tripulação, e bota abaixo, não cheguei a ressacar da noite anterior, aliás dizem que a ressaca é o pior da bebedeira, pois confirmo que continuando a beber não se apanha ressaca. 
BA9 - Luanda
07h00 da manhã – chegada a Luanda, um calor do caraças, deviam estar a esta hora uns 23 / 24 graus, quem chega de Lisboa com 2 ou 3 graus e apanha esta chapada de ar quente, então é que a ressaca apareceu, e de que maneira... após as formalidades de desembarque o pequeno almoço no espectacular clube de especialistas da B.A. 9, digo espectacular e quem tenha por lá passado deve certamente confirmar. Surpresa para mim, e ainda hoje me questiono porque não fui praxado em Luanda. Bom não fui em Luanda, mas em Henrique Carvalho desforraram-se. 
Aguardando uns dias para obter colocação, e dando umas voltas por Luanda, não podia deixar de ser guiado pela malta a fazer a ronda dos bares americanos. Quem chega da metrópole e só conhece os bares do Cais do Soda, que era o meu caso, fica de boca aberta com tantas e tão boas – louras e morenas, mulatas ou mais escurinhas, enfim um deleite para as vistinhas. Se tinha guardado alguns trocos para as primeiras impressões, evaporaram-se, e tive de ir jogar umas lerpas para poder sustentar-me até vir a colocação. Não fui muito feliz na lerpa, mas safei-me no King e no Poker ainda deu para uma semanita de cerveja e gajas. 
Finalmente lá fui informado que ia para o Leste, assim à
"Barriga de ginguba"
primeira vista, não foi muito agra
do do cá do rapaz, mas que havia de fazer? Numa manhã de verão abrasador lá me enfiaram no Barriga de Ginguba, e digo foi uma viagem que nem turista estrangeiro, primeira escala Lumbala, e depois todas as paragens até ao AB4, parecia o comboio correio, com paragens em todas as estações e apeadeiros. 
Na chegada ao AB4, se tinha antes ficado espantado com o clube de especialista de Luanda, agora é que fiquei mesmo de queixo caído, o nosso clube era de facto uma maravilha, um jantar servido com o maior requinte, os funcionários civis de camisa branca e laço – onde estamos? 
A messe
E o Clube de Especialistas - fotos de Azuil Jacinto
Num restaurante cá da terra? Nah....Nah era mesmo o nosso clube, aqui quero deixar os maiores e muito sinceros cumprimentos a toda a malta que mantinha aquele clube a funcionar, as recordações desse clube tanto à chegada como no regresso são inesquecíveis, (praxe incluída), e toda a malta era do melhor que a Nação produziu, jovens com todos os defeitos e virtudes da idade – estamos a falar de malta com 19 – 20 – 21 anos, e que lições que alguns me deram de maturidade, responsabilidade e também de como se apanham grandes besanas. 
Tudo isto me parece característico de uma juventude que iniciou a sua fase adulta combatendo. 
Em Henrique de Carvalho pelo pouco tempo que lá estive pareceu-me que se exigia responsabilidades, mas também existia liberdade adequada à juventude deste pessoal. Quero referir o meu grande amigo Morais OPC, como eu, e da mesma recruta, que me fez as apresentações tanto no posto de rádio, como pela cidade. 
Inesquecíveis momentos. Aqui fica um abraço de amigo dedicado para o Morais. 
Após uns dias (talvez uma semana) a partida para o ARLuso (AM44). Alguns companheiros não sei se a sério, ou a picar o maçarico diziam-me: eh pá tás lixado – no Luso o cmdt., é f*dido, vais de certeza apanhar umas porradas – referiam-se ao Ten. Cor. Sachetti, com quem nunca tive o menor desentendimento, excepto claro umas quantas chamadas de atenção para o cabelo, dizia ele : - tá na hora de passar pela barbearia. 
República dos Táriráris
Agora uma menção muito especial para todos os que passaram na “República dos Táriráris”. Não posso nomear todos, nem sequer a maior parte, mas vejamos de quem me lembro...Zé Galo (alentejano), Dylan, Neves (a quem fui substituir), Garção (tripulação Dakota - Portalegre), Moutinho, Shorty (tripulação Dakota, Porto), Ribeiro (Guiné), Mango(Guiné), Brazão(Madeirense), Roque ( Voltou ao “puto” para frequentar curso Pil.), Sousa (Maçorra), Zé Almeida (natural do Luso e grande amigo), Soares (Porto), Aguiar (jogador de baskett do FCP, Porto), e naturalmente as chefias 1º. Sarg. Sereno, 1º. Sarg. Martins (cripto) e o grande chefe Ten. Manique, pessoa de grande carácter, e provadas qualidades de comando. 
O primeiro jantar no Luso, foi “à pála” do maçarico, na hora aprazada e depois de terem sido enviadas msgs. para todos os “táriráris”, disseram-me que iam mostrar-me o pitoresco da cidade, ao sair da república nem 50mts andei, e logo me disseram que um dos sítios mais pitorescos era mesmo ali, o restaurante Noite e Dia, pertença dum Famalicense, de quem ainda hoje relembro com nostalgia – o Martins. Pois e lá fomos entrando e o amigo Martins de pronto vai de juntar umas mesas para o pessoal que parecia que não comia desde que embarcou para o ultramar. Bifes de caça (pacaça ou palanca ou javali, ou em alternativa também podiam ser de vaca....), bons e memoráveis momentos. 
Cuito Cuanavale
Depois vem a verdadeira comissão, destacamentos no Cuito Cuanavale, foi o 1º. para não lesionar logo à chegada, depois Gago Coutinho, para me ambientar, e finalmente N´Riquinha. 
Se bem me recordo, dois destacamentos no Cuito, onde tive o prazer de privar com o Cap. Gamboa, excelente piloto, que devido a lesão na coluna não estava apto para voar, e que ao “sobe e desce” me levou mais de 50 paus, não tem mal, porque talvez por sentimento de culpa me emprestava o jipe, para irmos á vila, fazer as nossas jantaradas de caça. 
Recordo igualmente as viagens ao Runtu, base dos primos, de onde vinham os operacionais para destacamento. 
Eduardo Pita-Groz 
Dois em Gago Coutinho, onde encontrei a figura mais castiça que conheço o Sr. Pita-Groz, responsável pelas infraestruturas da FAP. Prato especial confeccionado por ele – mioleira de cão. Sorte a minha não gostar de mioleira senão tinha marchado, tal como aconteceu com outros. Saudações ao cúmplice Luciano, do exército que nos apresentava após o jantar uma dádiva caída dos céus, o Néscafé, cafézinho em destacamento era luxo. Três em N´Riquinha. Saudações ao Fur. Cunha da “pacaça”, exímio fotografo com sala de revelação e muito talento. 
As operações com os primos (sul-africanos), eram sempre de caixão à cova, whisky, aguardente de cana, bagaço de batata ou arroz, de tudo um pouco, no final o Norte era Sul e o Oeste passava para Este. Eles tinham uns comprimiditos que eram miraculosos, ao deitar tomar um, segundo a prescrição, e de manhã nada se tinha passado. 
João Cavaleiro
Aqui deixo também a meu respeito e apreço ao Alferes Cavaleiro, oficial da Academia julgo eu, a sua postura e liderança, eram a de um verdadeiro militar de carreira. 
E assim, nesta cadência chega o 25 de Abril.
Noite de 26 para 27 eu e o amigo Lourenço (da Arábia), meu vizinho em Benfica, estamos sentados no posto de rádio aí pelas 2/3h da manhã, com o nosso Cmdt. Ten Cor. Sachetti sentado na secretária da recepção, recebendo os comunicados do MFA. Ambos mirando as suas reacções. O Homem estava calmissimo, apenas ordenava que não se distribuísse, nem se falasse, nestes comunicados sem autorização superior, que isto seria como o avanço das Caldas, não ia dar nada. Aí pelas 06h30 da matina já toda a malta andava a perguntar o que se passava, pouco depois aí pelas 7h30 durante o pequeno almoço, já se discutia a democracia, a liberdade, as benesses do socialismo e os malefícios do capitalismo...sem saber, nem sonhar no que viria a dar... 
Em Fevereiro ou Março de 75 o acontecimento mais marcante da minha estada, a batalha do Luso. 
Mortos devem ter sido qualquer coisa a rondar os 200,(milícias dos partidos, de brancos não tenho conhecimento, mas talvez tivesse havido algumas baixas) comentou-se que seriam para cima de 400, mas pelo que vi ao serem baixados à terra numa vala comum perto de Sacassange, por uma maquina de terraplanagem, o meu numero não deve estar muito longe da verdade. 
B26
Safou-nos um B26 enviado de Luanda, que amedrontou, ao que parece, os combatentes dos partidos, durou este combate umas boas 16 / 18 horas. 
E assim chegámos a 75 ano da minha retirada do Leste, regresso ao AB4, onde durante a comissão fui por duas ou três vezes sempre recebido de forma muito cordial e com grande amizade pelo velho e sempre amigo Morais, visitei a sua casa na cidade, que julgo compartilhava com outros companheiros. 
Toda a gente estava a preparar-se para a partida, muita actividade para desactivar a nossa base, muita ansiedade para o regresso a casa. 
Luanda de novo, onde fui uma única vez durante toda a comissão, é claro de boleia do Dakota. A imponente BA9 com toda a azafama duma grande base. Muito diferente do Luso, onde as coisas caminhavam ao seu próprio ritmo, sem stress...e umas cervejitas ao fim da tarde, para aperitivo. 
Por fim e depois de uns dias em Luanda, com os amigos Brazão e Freitas ambos madeirenses, fizemos as nossas despedidas aos conhecidos bares americanos. Nesses dias pouco dormimos, eram tempos de comemoração. Finalmente a partida, 03h00 da manhã do último dia em Angola, chegada a Lisboa para almoçar. 
O resto é história, colocação no EMFA, por pouco tempo, onde estava aquando do 25 de Novembro, e a tentativa de ocupação do edificio pelas “Páras”, saudações ao Abilio companheiro com quem contactei recentemente, e finalmente o Iberlant. 
A peluda chegou no AB1. Recordação do Sarg. Aj. Bicudo, açoreano e militar de outros tempos, proveniente da marinha, o 1º. Sarg. Mesquita que dormia de vez em quando na relva de regresso dos Bombeiros, e por fim as memoráveis “lerpas”, no canil dos Páras (cinotecnia como agora se chama), e o cão que de vez em quando ficava sem pequeno almoço, porque durante a noite a jogar “lerpa” a fomeca apertava e não havia nada, a não ser os cinotecnicos bifes. Um óptimo final, quase como no inicio, passeios pelo aeroporto, “galanços” nas hospedeiras, mas tudo muito diferente, o edifício, as estruturas, já não existia o 115, a modernidade instalou-se, tal como as amplas liberdades. 

Em rodapé deixo o muito respeito que mantenho por todos os especialistas, que como eu, serviram a Nação, e que nunca por vencidos se conheceram. 
Igualmente as mais sinceras desculpas, a todos que não mencionei, não por falta de consideração nem por detrimento, mas apenas por falhas de memória, em que a idade e a própria vida são contribuintes.

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sexta-feira, 11 de março de 2016

AS METRALHADORAS DO "HEINKEL"

Bilhete TAM
Ao remexer em papeis antigos descobri mais um documento: outro bilhete de avião de Luanda para Henrique de Carvalho.
Poucos dias depois do 25 de Abril fui a Luanda para estudar e experimentar uma metralhadora. 
Tinham sido encontradas num armazém da BA9 caixas contendo algumas dezenas de metralhadoras, que haviam equipado as torres dos
bombardeiros 
"Heinkel" do tempo da 2ª. Guerra Mundial, que pertenceram à Aeronáutica Militar, pois a FAP só foi criada mais tarde. 
Estavam bem acondicionadas e preservadas nos caixotes. 
Fiquei impressionado com o aço de que eram feitas, nada oxidado. 
Tinham uma cadência de tiro impressionante. Um capitão para-quedista estava a estudá-las e terminou o manual com a minha ajuda. 
Foi decidido equipar com elas as torres de guarda dos aeródromos. 
Ainda chegaram ao AB4, mas já não me lembro se chegaram a ser montadas nas torres, embora eu tenha feito uma demonstração de tiro para o Capitão Várzea.
Estive em Luanda cerca de duas semanas. 
Agora sei quando regressei a Henrique de Carvalho, novamente no Nordatlas: 17 de Maio de 1974.
Na verdade não me recordo do modelo das metralhadoras, ficando sem saber se eram as MG 15 ou MG 81.
Sou muito curioso e fiquei fascinado com a tecnologia das armas, mas não tive ocasião de tomar notas, até porque o trabalho do capitão que estava a escrever um manual da arma (pois não havia original) já estava quase pronto e era suposto recebermos um mais tarde em Henrique de Carvalho. Desmontei e montei várias vezes a arma, um trabalho difícil pois tinha particularidades que a distinguia das outras, com pormenores que faziam enganar a cada tentativa. Foram então feitas fotos para o manual.
Um pormenor engraçado era o saco em forma de fole que permitia a recolha dos invólucros, como se pode ver em algumas fotos na net. 
O que recordo bem é que me foi dito que equipavam as torres dos Heikel (suponho HE 111). 
Não sei se os que estiveram se serviço em Portugal foram fornecidos pelos alemães (fiquei com essa ideia) ou foram fabricados pelos espanhóis já depois da 2ª. Guerra.


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AEFA - XXXIX ENCONTRO ANUAL NACIONAL

Caros e estimados camaradas.

A exemplo de há trinta e oito anos vai a Associação de Especialistas da Força Aérea realizar o seu Encontro anual nacional que terá lugar no próximo dia 19 do corrente mês, no A. M. 1, em Maceda, Ovar.
Ciente de que representas um movimento informal associado a Unidades vimos, por este meio, solicitar que divulgues o evento junto dos nossos camaradas que partilham o teu blog ou de quem tens contatos.
Com um grande abraço de amizade e um muito obrigado.

A Direção Nacional
Paulo Castro
Presidente




sexta-feira, 4 de março de 2016

A OPERAÇÃO NO HOSPITAL DO CAZOMBO

Hospital do Cazombo

Foi um domingo de manhã, eram cerca das 9 horas no Hospital do Cazombo, uma experiência nova. 
Havia um alferes médico que tinha a especialidade de cirurgião, que se via na contingência de fazer uma operação que nunca tinha feito, uma histerectomia, ou seja retirar o útero a uma mulher. 
A mulher estava com uma gravidez de 5 meses, mas o feto estava morto. Normalmente nestes casos, o feto é expelido, mas tal não aconteceu e o feto estava a contaminar o útero.
O médico nunca tinha feito tal operação e pediu-me para a fotografar para fins curriculares.
Fui ao hospital estudar o ambiente da sala de operações. Desde há muito que era fanático por fotografia nocturna, de modo que tinha comigo dois filtros para correcção, um apropriado para 3200 grau Kelvin o outro para 3600, ou luzes de tungsten. Sorri quando olhei para as lâmpadas e li tungsten, tinha tudo o que precisava. 
Lavei as mãos, vesti mascara e touca, depois limpei a Nikon com álcool e lá vamos todos para a sala de operações, aquilo não devia ser mais difícil que andar na picada ou fazer looping no T6.
Não gostei nada de ver cortar directamente na pele, rasgar a carne e abrir a barriga, depois foi mais fácil.
Alguma dificuldade em separar os ovário do útero, já que estão colados às paredes exteriores do mesmo. Neste tipo de operação há essa opção, a questão era saber também se os ovários estariam contaminados, o médico optou por deixar os ovários, produtores de hormonas, o que facilita a vida e o bem estar da mulher.
Uma anestesista e um auxiliar angolanos, um médico de clínica geral e o cirurgião. O cirurgião tinha que ser instrumentista, operador e orientador geral. 
E a operação prosseguia e eu ia fotografando, foi uma experiência, mas hoje são um testemunho de uma parte da nossa intervenção colectiva. Estamos todos de parabéns, lembrem-se disso quando alguém puser em causa a vossa intervenção naquela guerra, Não foi tudo bem, não foi tudo correcto, os "outros", também não, mas quando alguém faz, os que nada fazem têm sempre algo a dizer.
Sete horas na sala de operações, para fazer uma operação que num hospital devidamente equipado, com equipa experiente demoraria meia hora.
Mas fez-se e fez-se no Hospital do Cazombo em finais de 1972. 
Eu e o médico gostámos do meu trabalho, devolveu-me 4 diapositivos de um rolo de 36, para minha recordação.
Uma vida tinha sido salva, a mulher já tinha 5 filhos.
Foi também isto que andámos por lá a fazer, a salvar vidas.

Por:




Armando Monteiro
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831