sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

PRIMEIRA DE SETENTA - "OS SUICIDAS" !

3ª. Secção da 1ª. Esquadrilha, os (SUICIDAS)
Tentara ir para a marinha com 17 anos, mas a ausência da autorização Materna, (era orfão de Pai e amparo de Mãe) não me permitiu seguir as pisadas do meu Avô e Tio, marinheiros mortos em ataques de submarinos alemães quando abasteciam os Aliados. 
Aos 18 já adulto, e depois de ver os modelos de aviões de um MMA meu primo afastado, apresentei candidatura à Força Aérea e em 7 de Janeiro de 1970, fiz os exames médicos e como resultado fui alistado para todo o serviço Aeronáutico, como voluntário, terminando a recruta a 24 de Abril do mesmo ano.
Para os que como eu tiveram que tomar contacto com a instituição em longas filas de espera na enfermaria da BA2, em Janeiro (sem roupa) e com toda a gente aos berros connosco como se fôssemos gado, mandando-nos de médico para médico, consoante as especialidades e os exames foi um choque. Só a certeza de não querer ser atirador no Exército, me levou a não ter desistido logo ali. Conheci, nesse dia, aqueles com quem viria a passar uma longa e acidentada recruta, quer pela dureza dos instrutores, (todos paraquedistas), quer pelo suplício desses 3 meses de um Inverno rigoroso, pautado pelo frio e chuvas torrenciais. 
Por três vezes fomos (toda a secção) à máquina zero, no início, o corte "regulamentar", a meio e na véspera do dia de juramento de Bandeira, por choques de personalidade com diversas personagens. Dos quarenta que começámos dez fomos para OPC'S, tudo por culpa do 90/70, Monteiro, (Bandarra) (foto em cima - 2ª. fila, 3º. Esq/dta) desses chegámos ao AB4: Eu, o Zé Galo, (última fila, 4º. Esq/Dta) e o Gomes, (4ª. fila, 1º. Esq/Dta) ainda da mesma recruta, o Martins, o Cardoso, o Fernandes (Tim-Tim), o Costa, o Garcia e o Vilhete (Guineense).
Diz a "Voz da Caserna", que é na recruta que desabrochamos para a vida e nos tornamos homens, é lá que se aprende o vernáculo que nem imaginávamos existir, a lidar com todo o tipo de aldrabices, vigarices e todos os contos do vigário, mas também, que aprendemos a depender de nós próprios e a superarmo-nos nas nossas qualidades físicas e intelectuais. 
Depois à todo o repositório de figuras e "cromos" que só no caldo da junção de milhares de jovens oriundos do todo Português era possível. Que dizer do meu companheiro de beliche, o Luquinhas, (última fila, 4º. Esq/Dta) tinha um metro e noventa e cinco, cinturão negro de várias artes marciais, e uma vida aos vinte anos que muitos de nós nunca viveremos, tratava-me por "meu filho" e eu a ele por Luquinhas para inveja de toda a gente. Era o fornecedor para toda a recruta, de tabaco estrangeiro, whisky, revistas playboy e porno, e todo o tipo de tralhas que fossem proibidas ou não se encontrassem à venda em Portugal. Líder nato, era ele que carregava as "Mauser" e os mantimentos das patrulhas nas marchas, e marcava o ritmo para chegar-mos primeiro e sair-mos na sexta feira à hora do almoço. Era ele, o Zé Galo e o "Monas" (4ª. fila, 2º. Esq/Dta), que pegavam na enorme bola medicinal, que era posta no meio da parada, com uma Esquadrilha de cada lado, e ao apito do Capitão Lisboa, avançavam aos gritos parada fora até que a bola era introduzida na baliza passando pela Esquadrilha contrária. Num desses jogos de "brutbol" como lhe chamávamos, fiquei sem as mangas e parte das pernas do fato de macaco, pois tive a ousadia de no meu metro e sessenta e sete, me ter introduzido numa molhada de pernas e braços para receber a bola do Luquinhas e quando ia já a correr vitorioso para a baliza fui violentamente placado por uns quarenta que me caíram em cima. Ainda assim, com algumas nódoas negras, nessa sexta feira saímos mais cedo. 
Mas não eram só os grandes que eram conhecidos, o 98/70, Nunes, (1ª. fila, 3º.Esq/Dta), era a língua mais afiada da recruta, magro escanzelado, tinha um vocabulário típico dos bairros populares de Lisboa de onde era oriundo, que fazia corar as pedras da calçada, era ele que defendia a secção nos bate boca antes do recolher e na alvorada. Outro dos que se salientaram era o 90/70, Monteiro, "Bandarra", (2ª. fila, 3º. Esq/Dta), que já citei numa outra historieta, o 93/70 "Pinta-marada" (2ª. fila, 2º. Esq/Dta) que casou durante a recruta com a afilhada do maior construtor civil da "Península de Setúbal" convidando todo a secção para o casamento nos Jerónimos, e depois haviam os gangues dos Algarvios, Alentejanos, Setubalenses, e os Nortenhos, tudo boa gente. 
Cada andar de cada camarata tinha um "pronto", o do nosso tinha a mania de tocar dentro do edifício uma cornetada de alvorada para nos acordar, tanta vez foi avisado para não o fazer, que um dia de manhã alguém lhe mandou uma bota que por azar, acertou na corneta, partindo-lhe os dentes incisivos superiores e inferiores, como ninguém se acusou, ficámos os das secções junto da entrada onde ele dormia, de castigo perante as duas esquadrilhas a fazer flexões na parada. Quando alguém já não conseguia fazer mais flexões seguia para o barbeiro, até ao último, foi a minha segunda carecada na recruta.
Capitão Lisboa, o Alferes, e a nossa secção no cabeço do pardal, durante mais uma marcha 
A terceira levou-nos enquanto secção, a tomar uma decisão colectiva que nos podia ter custado a recruta e a expulsão da FAP. Perante os convidados oficiais militares e civis, no dia do juramento de Bandeira, cada secção fazia uma demonstração das várias disciplinas da recruta. A nós coube-nos fazer corrida, foi traçado um percurso que serpenteava pelas diversas secções enquanto faziam os seus exercícios. Quando passámos em frente da tribuna, o Alferes gritava "um" e nós batendo com o pé esquerdo no chão com toda a força teríamos de gritar, segundo o ensaiado, "um", mas em vez disso, quando passámos junto à tribuna, tirámos os bonés, e sempre que o Alferes gritava o número, nós respondíamos: "carecas". Levantou-se um burburinho na assistência e quando terminámos de correr o Alferes avisou-nos que nos preparássemos para o que aí vinha, tivemos direito à visita do TC Tomás, que nos avisou que agora passaria ele a estar de olho em nós dali para a frente e que nada seria como até aqui... Mas com tantos familiares civis presentes, lá escapámos a mais um castigo, também já estávamos carecas, que mais nos podia acontecer? 
Carnaval 70-Zé Almeida(Pára),Vilhete,eu
O Capitão da recruta era um Homem com AGÁ grande, no fim de semana do carnaval, desafiou quem quisesse, a levar um ultramarino passar o carnaval a casa, nem hesitei, o Vilhete era um Guineense descendente directo de um Rei Africano, tinha trazido com ele um outro Guineense, cuja família hà séculos que era a defensora do primogénito da sua raça, personalizado no Vilhete. Ninguém na terrinha percebeu o porquê de eu trazer para casa um africano, quando ainda íamos combater contra eles. Quando cheguei a casa com ele a minha avó, que nunca tinha visto um africano, benzeu-se mais de dez vezes, e após conversar-mos ela mais calma lá foi dizendo que tinha apanhado um grande susto por ele ser tão grande e preto como breu. Mas o melhor foi irmos a um baile trapalhão e toda a gente se meter com ele pensando que ele era o Ricardo Chibanga, um aprendiz de toureiro Moçambicano, que frequentava a Escola de Toureio do Patrício Cesílio, e quando tirámos as máscaras, toda a gente ficou comprometida com as partidas que lhe pregara pensando que era outra pessoa. 
Noutro fim de semana, o mesmo Capitão, pagou do bolso dele para que os mesmos africanos, viessem com ele a Lisboa ao Bairro Alto, convidou quem quisesse vir também, e foi o fim do mundo. Com mais de cinquenta carecas de farda cinzenta e capote desejosos de companhia feminina e muito álcool, a saírem do autocarro azul em pleno jardim de São Pedro de Alcântara, entupindo o trânsito, a formarem e a marcharem a cantar, direitos ao primeiro bar aberto com profissionais disponíveis, nem meia hora depois, estava o bar cercado de PA's, mas acabou tudo nos copos, e para os mais afortunados, nos quartos do 1º andar.

OTA Abril de 1970 
Soldado Aluno 96/70 

OPC ACO

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

MEU CARO GUIMARÃES:


O texto “Os Cavaleiros d`Anhara surgiu como uma revolta contra certos senhores que por aí andam a propagandear as dificuldades que tiveram de passar em Paris, com a mensalidade atrasada...e dizem-se esclarecidos, amigos dos povos, quando na verdade tentavam apenas salvar o traseiro ao conflito. Estou a escrever-te isto com a autoridade de quem contigo por ali andou, sentias que aquela guerra não era contigo, mas como muitos milhares tinhas compromissos sociais e familiares que não te permitiam uma simples retirada para Paris. Isto é particularmente importante quando penso que ambos tínhamos condições familiares capazes de nos apoiarem financeiramente nessa outra aventura.

...na minha terra um desertor dos campos da Flandes, na 1ª guerra mundial só ao fim de 35 anos pôde regressar...

Por outro lado fui convidado para um convívio dos Dragões de Angola, de que faziam parte o esquadrão de cavalaria com quem estivemos na Cameia. Impressionou-me saber que foram aqueles homens os últimos a abandonar Luanda às dez da noite do dia 10 de Novembro de 1975, duas horas antes de ser proclamada a independência, garantindo assim a segurança até ao último minuto. Não seria tão importante assim se não soubesse que todos eles foram de recrutamento angolano, por serem ali nascidos ou criados. Voluntários! A cada um foi questionado se queria partir ou ficar nesse último grupo e ficaram firmes, tenho assim de ter alguma admiração por eles.

Nesse convívio, o primeiro que frequentei depois de trinta anos, apercebi-me quão injusta tem sido a sociedade para com esses e outros milhares de jovens que como nós foram enviados para longe e ali cumpriram a sua missão e hoje andam pelos cantos dos cafés das aldeias envergonhados da missão que tão arduamente cumpriram. Pode-se acusar o sistema político, o soldado tem de ser respeitado, cabe a quem tenha a capacidade, recuperar e louvar esta memória colectiva e ando a ferver com este tema e sinto que algo tenho de fazer. Costumo dizer que não sou bélicista porque fiz a guerra, não sou pacifista, porque tenho medo da guerra.

Por mim foi também uma experiência humana enriquecedora, no sentido em que nunca tive uma experiência negativa na minha vida, tive sim algumas experiências que me custaram muito. Por isso e tentando rememorar a situação cá vou tentando reanalizar a situação que me levou até ao Macondo...

Se há coisas de que estou consciente é que nunca tive feitio para ser militar, um dia mandaram-me comandar uma companhia, precisamente a companhia sedeada na Calunda, bem lá no centro do saliente do Cazombo e a uma altitude superior a 1700 metros. 
Não sei se consegues imaginar-me nessa situação, mas no dia seguinte às oito da manhã lá estava eu com a barbinha feita a tentar manter as aparências. Estava consciente de que aquele grupo de homens, em caso de conflito esperava que eu o “seu comandante” tomasse as decisões certas, que garantisse a segurança e a vida daqueles homens que esperam isso mesmo do líder...e eu não me tinha oferecido para ali estar...
É costume dizer-se que por um sorriso vale a pena, hoje ao rever estas imagens, este sorriso, apesar de tudo este bebé rechonchudo penso que não foi em vão o tempo que por ali passei, sentia que a população se sentia protegida e muitas vezes me vinha dizer “anda bandido aí nos lavra a roubar comida”, Macondo, bem lá no fundo do Saliente do Cazombo foi onde passei os últimos quatro meses.
E muitas vezes me recordo desta passagem para a minha coutada privada para lá do rio Macondo. Ao ler hoje um pouco de história, ao saber que os portugueses ocuparam esta zona à menos de 100 anos, zona de disputa relacionada com o Mapa cor-de-rosa e também por causa da questão do Barotze. É que toda a província do Moxico faz parte já da bacia hidrográfica do Zambeze, da África oriental.

Eram as ideias da época, mas acima de tudo ideias de quem pensava em grande, vemos hoje a juventude portuguesa a admirar Cristóvão Colombo, porque a Coca-Cola o promove como o grande navegador, quando não passou de um subproduto da aventura marítima dos portugueses, em nada se podendo comparar com o feito de um Vasco da Gama e outros. Há demasiados carneirinhos de animação, que se julgam originais...sem ideias próprias, eternos risonhos amorfos, “os iluminados”.

O Macondo vem nos mapas, fica ao sul do Saliente do Cazombo, bem lá no Leste de Angola. Era apenas isto um posto administrativo à esquerda, um pequeno quartel à direita e uma pequena sanzala, era o destacamento mais a leste de Angola, e no entanto até um ministro zambiano por aqui passou...coisas secretas, planos a decorrer...estávamos em princípios de 1973.

Uma pequena sanzala onde morava uma população tranquila e é por isso que muitas vezes me recordo dos bons tempos que por ali passei. Apenas uma vez fiquei atónito quando na ausência do chefe de posto, me vêm pedir autorização para fazer batuque, porque razão eu um europeu no meio de África teria de estar a autorizar ou não a fazer batuque? Claro que adormeci com o troar dos tambores africanos.

Caçando Javalis com o meu companheiro José Mwoca à minha esquerda, elementos da população armados para auto defesa, as armas eram Mauser de 1904, tendo gravado nos canos D. Carlos I Rei de Portugal e dos Algarves... e era com eles, pisteiros extraordinários que corria as matas à volta do quartel. Os javalis eram tantos que atacavam as lavras de noite. Vês! Nós confiávamos-lhe as armas...

Fala-se muito do pouco que os portugueses por ali fizeram, por mim fico a olhar para esta escola e à sua localização, lá, muito mais longe que o “depois de” havia uma escola, um professor, um posto de enfermagem, que funcionava no quartel, não pretendo com isto defender o “sistema” então vigente, mas mostrar que alguma coisa se fez, coisas de que nos podemos orgulhar, havia boa vontade, outras razões, a história que as discuta.

Ainda hoje não me canso de olhar para este “diploma” que o Zeca António resolveu expor na parede da sua cubata, o seu diploma de 2ª classe e penso que mais que a guerra para onde me mandaram, por ali garanti a paz, ali permiti que outros Zeca António tivessem a sua escola e eu tenho muito orgulho em ter contribuído para isto e gosto de espetar este diploma na cara de muito boa e convencida gente...

Se juntares a isto alguns dos mais belos pôr de sol que alguma vez vi na minha vida, o que de alguma forma compensava as frustrações por que passámos, bem diferentes daquelas outras de que se queixam hoje em livros dramáticos aqueles outros esclarecidos “amigos dos povos”...Refugiados em Paris...

Mas houve outras compensações encontrei outras gentes e um campo fotográfico que se estendia de coisas simples como este moinho que seria quiçá a maior glória e alegria de um arqueólogo, mas que consegui fotografar “a funcionar”, captando o movimento daquelas mãos moendo o massango...dez mil anos de história neste balançar de mãos e um eterno sorriso nos lábios...

E ainda uma piscina privada com água corrente, pois foi construída em cima de uma nascente, vendo-se borbulhar a areia no fundo, é caso para pensar que nem tudo foi tempo perdido por ali. Falta expor o segredo do Macondo, um plano secreto para o futuro de Angola, em que participei activamente desde o Luso. Quem o sabotou?

Mas voltemos aos Cavaleiros d`Anhara em Agosto de 1971. Apesar de todas as contradições foi uma experiência única. Mais uma vez esta imagem contradiz algumas coisas que vão dizendo sobre aquela guerra...nunca mais esquecerei um comentário recente de um jovem de 40 anos. Mas há soldados pretos aqui misturados...”

Lembro-me que o “Rapaz Amaro” o médico veterinário estava ali contrariado.
A mulher estava à espera do primeiro filho, tinha acabado o tempo e lá estava ele a tratar dos cavalos, longe da esposa com quem gostaria de estar nesses momentos. Mas chegou a tempo e a menina lá nasceu com a sua presença, cheguei a conhecer a menina e a mãe, formada em economia, nunca mais soube nada deles... 

Enfim noutros tempos poderíamos ter tido outras condições e ter ficado nas instalações turísticas do Parque Nacional da Cameia. Chegámos lá tarde de mais, ou cedo de mais, já que parece que estão a tentar recuperar o parque. Sabes que mais, apesar de tudo não deixei de andar por lá a fazer turismo...hoje rio-me ao imaginar-te a contar estas coisas aos netos...

Mas sim fiz algum turismo, muito voei naquelas longínquas terras, de onde trouxe histórias para contar. Começaria por esta vista aérea das quedas de Chafinda. Um dia mandaram-me lá fotografar isto mais de perto e fui...e cheguei a estar atrás daquelas quedas, afinal todas as quedas de água têm uma caverna por trás, Chafinda a tão bela, emocionante, traiçoeira e perigosa Chafinda...

E fui também às quedas do Dala que sobrevoei em Helicóptero

E fotografei Lagos e florestas encantadas

E as flores da Acácia Rubra

E as flores da Mangueira e flores selvagens que cresciam por lá

E fui à praça do Luso, a ver como era e vi torrar ginguba ali mesmo, orgulhosa uma mamã passeava a sua filha enquanto procurava Tuqueia e Bagres secos da Cameia

Na verdade não foram só os cavalos que vi por lá



Andei a cavalo na Cameia, voei nos Allouete III e nos T-6 Harvard, nos Noratlas ou Barriga de Ginguba, a jacto e hélice, atravessei o Zambeze em Zebro na Lumbala

Viajei para Teixeira de Sousa no Mala puxado por uma locomotiva a vapor, uma NONA, com serviço de restaurante de primeira classe, fotografei em Cangumbe uma GARRATT a mais poderosa locomotiva a vapor que alguma vez se fabricou

Bebi uns copos no Pica-Pau, fotografei os jardins do Luso, a praça e até as escolas

Fotografei esta maravilha da engenharia hidráulica no Rio Macondo.

Não imaginas as coisas que por lá havia entre a fortaleza de S.Miguel em Luanda e o soldado negro que, no seu castelo de formigas Salalé vigiava a fronteira, lá longe, na Caianda, no mais longínquo leste do saliente do Cazombo, bem no meio de África.


Mandaram-me a Luanda em serviço viajei por outra Angola, sem armas nem escoltas desci do comboio Mala e vi um menino negro de mão dada com um menino branco, uma menina passeava por ali, coisas simples, gestos de confiança.

Na verdade foi a minha mulher que reparou neste pormenor, escondido durante mais de trinta anos, mas vale por mil palavras.

E lá fui a Luanda de autocarro, vendo maravilhas pelo caminho,



E lá voltei à praia fluvial do Luena e aos jardins nocturnos do velho Luso


E fui ver os musseques, e as bananas a crescer e os tchinganges e os fontanários

Em dias de festa, no dia a dia, misturado no meio de um povo com formas de viver 
diferentes, com cultura diferente, mas onde não me senti estrangeiro, nos Bairros de 
Benfica, Espirito Santo ou Mandemboa, a todos corri com a minha mini-Honda.

Lembras-te do Avião do CFB que o Comandante do Batalhão usava como taxi aéreo? 

Da Aerangol que levava viveres e correio para todo o Leste de Angola?

Em todos voei, mas o T-6 Harvard era um avião mágico, cheguei a pilotar um deles, ou melhor “segurá-lo” sim! Por momentos pilotei uma daquelas máquinas

Tudo isto meu caro Guimarães para te pedir, que se um dia por aí no canto de um qualquer café de aldeia, vires um velho soldado daqueles que baralhado pela história e mais ainda pelas palavras oportunistas que exaltaram aqueles outros que em Paris se diziam defensores da liberdade dos povos e acabaram por entregar os destinos daquele povo aos oportunistas mandatados pelos grandes interesses internacionais, semeando por ali a barbárie e a guerra que plantou minas e mais minas onde outrora foram campos onde crescia o milho e a mandioca...Guimarães! Dá-lhe um grande abraço de solidariedade de minha parte, e diz-lhe que os heróis desta história não são os agora auto exaltados Rauis ou Rafaeis e outros Migueis, mas sim ele o soldado anónimo que sofreu na picada e nas vigílias nocturnas em abrigos duros, para que meninos pudessem continuar a comer tranquilamente o seu fungi sentados na esteira que a mamã estendeu. Foram os médicos que ali salvaram vidas, incansáveis e dedicados, foram os pilotos dos helicópteros, auto apelidados de Saltimbancos, que resgataram vidas.

Meu caro Guimarães, mandaram-nos a fazer a guerra e eu sinto que ali garanti a paz, por isso o meu soldado tem de ser respeitado, se alguma questão houver de ser levantada, falem com o general, ainda que também ele seja um soldado, mas ele saberá defender-se, ao soldado não deixes que o humilhe a história, diz-lhe que nada foi em vão e que lá longe, tão longe naquele infinito Leste de Angola, que as águas corriam já para o outro mar, levando-as o Zambeze até ao Indico, diz-lhe que um menino graças a ele teve escola e orgulhoso do seu saber lhe deixou em herança o seu diploma exposto ao lado da porta nº 29 da sua cubata na rua nº1 do Macondo, foi a sua maneira de dizer ao velho soldado, Foi graças a ti, que eu tive paz e a minha escola!        
Não foi em vão o teu sacrifício!

Março de 2005








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

UMA AVENTURA PARA CONTAR


Esta foto foi tirada no dia em que resolvi dar uma volta a uma sanzala próxima do Camaxilo, levando os "canhicas" a passear. 
Foram contados à saída e quando estávamos a chegar ao nosso destino ouvi um grande burburinho acompanhado pela descida inopinada da "criançada" que apontava aos gritos para o rodado do Unimog. O meu primeiro pensamento, pessimista, sugeriu que algo de grave se teria passado, pelo que, dum salto cheguei ao chão na ânsia de procurar a causa de tanto alarido. E, depois de constatar a razão de tanta algazarra, fui invadido por uma alegria e um alívio difíceis de descrever, pois afinal...era só um furo no pneu de trás do Unimog.
Agora, havia que arranjar o furo, ou substituir o pneu, o que não era fácil, pois não tínhamos ali os meios para isso. Aí entrou a "diplomacia" com o soba, que disponibilizou um "cambuta", que de bicicleta fez os dez quilómetros na picada bastante arenosa, até à Companhia do Exército em busca de auxílio. Passadas duas horas, mais coisa, menos coisa, lá apareceu a Berliet com o material necessário à reparação que se impunha.

Depois foi encontrar todos os canhicas, contá-los e regressar à sanzala de origem - Camaxilo - onde o cabo condutor Aço, nos aguardava impaciente, pois entretanto tinha anoitecido e toda a população o questionava sobre o nosso paradeiro... 
A recepção daqueles pais, foi um misto de alegria e censura... (hoje à distância dá para pensar que com os telemóveis seria de fácil resolução este contratempo, mas...não teria havido " uma aventura" para contar...)


Por:

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

OS CAVALEIROS D'ANHARA

Os últimos cavaleiros do século vinte, uma análise muito particular do uso da cavalaria na guerra em Angola por muitos ignorada, por outros deturpada.
Foi para mim uma experiência única, já que ainda que com um cavalo emprestado e um chapéu dos Dragões, posso hoje dizer, que estive com os últimos cavaleiros do século XX, com os Cavaleiros d`Anhara, no teatro de operações no Parque Nacional da Cameia em Angola, em Agosto de 1971, pretendo com este documento prestar a minha homenagem, aos DRAGÔES DE ANGOLA, grupo de Cavalaria do Munhango. A GALOPE...!!!...
No Leste de Angola existem grandes planícies, ou savanas como são mais conhecidas. Os angolanos chamam à savana ANHARA, e eu gosto do nome. 
Para controlar e fiscalizar estas grandes áreas, era requerido uma intervenção militar diferente, atendendo às características do terreno e área envolvida.

Às extensas planícies sucedem-se pequenas áreas arborizadas com árvores ralas. Era o terreno propício para a actuação da cavalaria a cavalo e foi essa Cavalaria, que um dia fui encontrar na Cameia, aproveitando uma coluna de reabastecimento. A operação demorava cerca de 30 dias e de dez em dez dias eram reabastecidos, instalando-se um acampamento, onde era fornecida comida quente, cerveja fria e até serão musical ...
Nos últimos tempos, ouvi muita asneira sobre a guerra em Angola, versões fortemente tendenciosas, segundo os interesses político-económicos em causa. Há que, volvidos 30 anos voltar a analisar as circunstâncias em que as coisas decorreram, talvez só a minha versão, mas a versão de quem viveu aquela guerra nas mais diversas circunstâncias.
Pelo tratado de Tordesilhas, portugueses e espanhóis, partilharam o mundo em dois, metade para cada um, isto sem pedir a opinião de russos ou americanos, que na altura ou não existiam ou não tinham voz activa no assunto. Mas a Europa, começou a cobiçar África e franceses, ingleses, holandeses e belgas meteram-se a dividi-la e a ocupar onde lhes foi possível. Portugal e a Bélgica, ocupavam quase metade de África.
Depois da segunda guerra mundial surgiram duas grandes potências, russos e americanos, que se acharam no direito de partilhar o “bolo africano”, já que se julgavam senhores da faca. Surgiram assim em Angola duas pontas de lança desses interesses. Surgiu a luta armada, que iria garantir a “felicidade dos povos”, surgiu a ideia do guerrilheiro, figura romântica, a viver em harmonia com o povo, a lutar pelos ideais da liberdade. Não tenho dúvidas, passados 30 anos, que muitos deles lutaram por uma causa em que acreditavam, o povo chamava-lhes turras e pedia a protecção da tropa, e isto porquê?
Porque o MPLA, deixando de ter o apoio do Zaire, que passou a apoiar apenas o outro movimento, ou os interesses dos outros, tinha necessidade de criar uma nova frente de luta, para através do leste, poder reabastecer as suas bases no norte de Angola. Através da Zona de Ninda, introduziam armamento em Angola, era preciso impedir que esse reabastecimento chegasse ao norte e aqui a Cavalaria teve um papel importante.
A questão que se põe é que esta abertura da luta na frente leste foi feita com enviados do norte, que não conheciam nem a língua, nem os povos das zonas onde passavam ou se  instalavam. A população era-lhes hostil, porque eles para viver tinham que roubar comida nas lavras, raptavam mulheres para seu serviço e rapazes para irem receber treino de guerrilha no estrangeiro.

Eu sei que todas estas questões são discutíveis, mas esta introdução era necessária, Só assim se compreende que os Cavaleiros d`Anhara acreditassem na sua missão. Estes homens, recrutados em Angola, uns nascidos lá, outros que para lá foram morar, acreditavam estar a defender a sua terra e de facto evitaram que Angola se tornasse palco dos genocídios que abalaram África, nas lutas induzidas pela corrida ao saque.
Angolanos, brancos e negros, com a mesma farda, a mesma arma, a mesma panela! Para pasmo de muito boa gente, para quem aquela guerra era apenas de repressão.
Nos bons e maus momentos, ao contrário do que diziam as cassetes da altura, havia participação, não havia segregação, havia partilha, desenhava-se um futuro para todos.


As imagens têm este dom, o de falarem por si, mas agora vamos falar dos Cavaleiros. Para lá chegar é preciso apanhar muito pó na coluna de reabastecimento. Inventar novas estradas, caminhar por terrenos só acessíveis à cavalaria.


Organizar toda esta tarefa, não é fácil, há que levar reabastecimentos para 150 cavalos,
quase tantos cavaleiros, levar o correio, algum conforto, preparar condições para um
merecido repouso de 3 dias, com refeições quentes... montar um acampamento, preparar uma cozinha de campanha...

Faltava esperar que os cavaleiros chegassem, para o merecido descanso e vieram.


Ninguém consegue imaginar uma frente de 100 cavalos dispersos na anhara, a uma distância de 10 metros uns dos outros fazem uma frente de um q u i l ó m e t r o ...
É algo de grandioso, que realmente é preciso ver para poder acreditar...


Uns ouviram falar, outros nem isso. Patrulhar a Cameia durante trinta dias, é uma epopeia daquelas de que se ouviu falar, mas eu estive lá...comi da mesma panela, bebi as Nocal  que levávamos e reconheci o entusiasmo e valentia destes homens.


Ao pôr do sol e noite dentro, com artistas improvisados, cantámos e divertimo-nos.


Que a vida não é só trabalho, a vida é também convivência, diversão,  mesmo, ou especialmente nos momentos mais adversos das nossas vidas, mesmo quando nada nos parece de fácil solução, teimamos em sorrir, fazendo troça das dificuldades, talvez assim conseguindo que as tornemos mais fáceis de enfrentar no dia seguinte.
E na manhã do dia seguinte os cavaleiros, OS CAVALEIROS D´ANHARA, os ÚLTIMOS CAVALEIROS DO SÉCULO XX, talvez os últimos cavaleiros da história da cavalaria, seguiram na sua missão e eu digo com orgulho ESTIVE LÁ!    
    

Esta é a história de três dias da minha vida, que recordo com orgulho, a história de Homens que lutavam por um ideal, discutido e discutível, mas eles cumpriram, por isso merecem todo o meu apreço, todo o meu respeito, porquê?
Porque graças a eles e muitos outros foi possível evitar a desgraça anunciada por toda a África, fruto da cobiça e interesses delegados. Foi a protecção a esta terra e a paz possível, que  permitiu criar e manter a escolinha do Zeca António...


Cavaleiros soldados, Guerrilheiros, abandonados pela história... ambos lutaram por causas em que acreditaram. Passaram trinta anos, “outros” contam histórias, histórias de valentia e coragem, histórias de sacrifícios...passados em Paris, sem saber se a mesada chegava a tempo de pagar o almoço amanhã, ou em Argel, à espera dos subsídios prometidos em prol da luta e felicidade dos povos...os guerrilheiros foram dispensados, abandonados. Aos Cavaleiros que os não humilhe a história...são e serão o orgulho desta terra, não os que fugiram para Paris! 
Os lideres ficaram milionários, os outros sem pernas e outros traumas, outros escrevem livros glorificando as suas dificuldades em Paris, lutando pela liberdade dos povos, são os Ruis, os Rauis, os Rafaeis, os Ricardos e os raios que os partam...

Macondo em imaginação, Cameia no coração, 3 de Setembro de 2004.








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831