sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A CASA DA SANZALA

A cidade do Luso em 1970 - foto de Gonçalo de Carvalho
Já tinha meses de comissão, quando fui colocado no Secarleste no Luso, chegado ao destacamento, fiquei deveras preocupado quando o (Sousa) meu antecessor me mostrou uma chave de porta e me informou que caso eu quisesse ir viver para a casa que eles ocupavam na sanzala, era só pedir ao condutor que me levasse e ele me deixaria no local. 
Nas passagens anteriores pelo Luso a caminho dos "hotéis" de Neriquinha e do Cazombo, dormira num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, sem luz, sanitários, janelas, mas era central e seguro, por isso perguntei o porquê da casa na sanzala e ele informou-me que não haviam casernas, nem refeitório nem quartel no Luso, e como o quarto na cidade estava ocupado era cada um por si, podia dormir no posto de rádio, no hangar ou mesmo dentro de algum avião, era comigo, ou então podia ir para a casa na sanzala e ter "tudo num só sítio" (cama, mesa, roupa lavada e o resto) com o aumento de pessoal, teriam de construir casernas, cozinhas refeitório e tudo o que era normal numa Base, até lá cada um desenrascava-se como podia, mas a decisão era minha. 
Posto de rádio - foto de Rui Pires
Antes da criação do Secarleste, o posto de rádio tinha uma guarnição para cumprir um horário de 12 horas comum aos destacamentos, das 06:00 às 18:00 Zulo, com o horário a passar para 24:00 horas, era inevitável o aumento de pessoal. Até ali os OPC'S, dormiam num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, agora era fisicamente impossível albergar mais operadores num espaço tão pequeno. 
O Luso era uma cidade arejada, onde a guerra era mitigada por uma população civil branca em número suficiente para lhe dar o ar de paz e progresso, tão ao gosto do "regime" mas sobretudo de normalidade que se sobrepunha ao que se passava para além dos chamados "limites urbanos de segurança" , pela concentração de quartéis dos três ramos das Forças Armadas, mesmo as sanzalas limítrofes eram relativamente seguras para albergarem os malucos dos OPC'S que resolveram ir viver no seu interior. 
Aceitei a chave com o mesmo sentimento de inevitabilidade que um condenado aceita a farda de riscas o cobertor e os lençóis para a enxerga, e no fim do dia lá segui pouco convencido no jeep com os outros dois habitantes da casa situada relativamente perto do aeroporto, numa das primeiras ruas de terra batida à esquerda de quem seguia para a cidade e em frente de um dos quartéis do exército.
Habitações típicas da sanzala 
- foto de Rui Neves
Era uma casa de adobe rebocado e pintada com um branco desbotado pelo sol e pó inclementes, o telhado de chapas de zinco ferrugentas, deixava passar o calor de dia e o frio à noite, vários buracos de pregos de utilizações anteriores, deixavam atravessar os raios de luz que desenhavam no pó sempre presente, riscos e formas luminosas, contrastando com o escuro da única divisão, os três colchões assentes em tijolos, eram os únicos vestígios de mobília e ocupavam praticamente todo o espaço, não existiam janelas, e a porta era o único adorno que descontinuava as paredes irregulares, o tecto baixo, aumentava a sensação claustrofóbica provocada pela ausência de espaço e aumentava o calor infernal, devido aos cães e outros bichos mais ou menos autóctones, de quatro ou duas patas, era desaconselhável mante-la aberta. 
Se já tinha dúvidas antes de ali chegar, imediatamente me arrependi de para ali ter ido, era um tecto para dormir e pouco mais, não havia luz, água, sanitários, nem segurança para deixar ali qualquer coisa de valor monetário ou sentimental, antes dormir no chão da cifra ou do posto de rádio. 
Mas foi ali que passei os meus primeiros tempos, quando estava de folga, corria para a cidade na busca de um outro sítio onde me aboletar, que fosse pelo menos seguro o suficiente para não andar continuamente com a mochila às costas com os parcos haveres de que me não separava na certeza que se os deixasse ao acaso nunca mais os veria. 
A renda era paga ao "Soba" e a roupa lavada pelas suas mulheres, e era ele que mantinha a "segurança" do local e o respeito que nos era devido na nossa ausência. Aos domingos éramos convidados para o almoço, debaixo de uma latada, mas nunca me senti tentado a comer o peixe seco ou o funje de frango do cardápio, o máximo que me fazia socializar com eles eram uns copos de hidromel ao pôr-do-sol e dois dedos de conversa de "conveniência" com as jovens "filhas" do soba pela noite dentro. 
Às horas do transporte para a cidade, ou para as refeições, eram sintomáticos os olhares de reprovação dos que nos viam sair no meio da sanzala para irmos dormir ou a apanhar o transporte para o aeródromo de manhã para irmos trabalhar. 
O Adjunto do Comando tentou por várias vezes junto do nosso Sargento, fazer pressão para que fôssemos viver para outro sítio mais digno, ao que sempre contrapusemos o argumento de que a FAP, tinha a obrigação de nos dar cama roupa e comida, e sempre nos recusámos a ir viver para uma camarata de um qualquer quartel do Exército.
Na República dos Saltimbancos,
eu, Soares, Mósca e Martins
O tempo passou e vim a saber da existência da República dos Saltimbancos e a convite do MMA Mósca, eu e o OPC Martins, visitámos as instalações, a evidência do que fomos encontrar mais nos mobilizaram para convencer os restantes OPC'S a alugar-mos uma casa ou vivenda para concretizarmos o que nos parecia mais lógico, termos um local digno, e com condições para podermos deixar os haveres, não só quando íamos para o serviço, mas sobretudo quando íamos para destacamento. 
Hoje passados 44 anos, ainda me espanto como nestas condições miseráveis, o serviço era mantido 24 horas por dia, com o máximo da eficiência, sem que os sucessivos "recados" mandados para Henrique de Carvalho alertando para a ausência de condições mínimas de alojamento e de segurança dos operadores de comunicações, surtissem qualquer efeito ou tivessem eco nas chefias da estação directora da rede de comunicações do Leste de Angola, e só quando da chegada do T.C. Sachetti, que exigiu que cada militar tivesse um local certo onde pudesse ser localizado quando necessário, até que as futuras instalações militares estivessem construídas, é que pela primeira vez alguém nos ouviu, nos deu razão e resolveu a situação, atribuindo-nos um subsídio provisório para a renda e garantindo o pagamento de forma a que pudéssemos assinar um contrato legal com o senhorio do moderno andar que viria a ser a sede da República dos Tá-Ri-Rá-Ris no Luso.
A República dos TA-Ri-Ra-Ris - foto de JFMA
LUSO 1971

OPC ACO

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BA2 OTA JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 1ª./70 - ACONTECIMENTOS NA NOSSA GERAÇÃO


JURARAM BANDEIRA 469 SOLDADOS RECRUTAS
B.A. Nº. 2 – OTA – 24/ABRIL/1970
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 1/70

Tribuna de honra com as individualidades presentes
SEA entrega diplomas
“Na Base Aérea nº.2 (OTA) realizou-se no dia 24 de Abril (1970) o juramento de bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores 1/70, dos soldados do curso de sargentos milicianos 1/70 e dos soldados alunos recrutas especialistas 1/70.
Presidiu à cerimónia o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, com a presença do Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Krus Abecassis, do Director do Serviço de Pessoal, brigadeiro Braz de Oliveira, do Director de Serviço de Saúde, brigadeiro Lemos de Meneses, e outros oficiais.
Depois de ter passado revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o Secretário de Estado da Aeronáutica, acompanhado pelas individualidades presentes, dirigiu-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Unidade, coronel piloto aviador Brochado de Miranda que pronunciou o discurso que adiante publicamos.
Em seguida, o aspirante miliciano Elídio Martinez Paramés Fortes dirigiu uma exortação aos soldados alunos recrutas.
Procedeu-se depois ao acto solene do juramento perante a bandeira. A fórmula do juramento foi lida pelo 2º. Comandante da Unidade, tenente-coronel piloto aviador Vargas de Matos, que comandava as forças em parada.
JURO !
Em seguida, o Secretário de Estado da Aeronáutica e os Directores dos Serviços de Instrução e de Pessoal procederam à entrega de diplomas e prémios aos soldados alunos que mais se distinguiram, após o que as forças em parada desfilaram em continência.
Seguiu-se a demonstração de manejo de arma a pé firme e em marcha dos soldados dos cursos de oficiais e sargentos milicianos sob as ordens do tenente Máximo, tendo, logo após, feito a mesma demonstração os soldados alunos recrutas, sob a orientação do major para-quedista Calheiros.
A terminar, os soldados alunos recrutas fizeram demonstrações de treino físico militar e de luta individual, e disputaram jogos de voleibol e basquetebol. 
O comandante da B.A.2, coronel Brochado de Miranda, pronunciando o seu discurso.
Realiza-se hoje mais uma cerimónia de Juramento de Bandeira, facto que, com ligeiras alterações, se vem a repetir de quatro em quatro meses.
Poderá pensar-se que por este motivo havemos caído em formalidades de rotina. Tal não acontece, porém. É nossa constante preocupação que cada uma se desenrole com a maior perfeição, dignidade e solenidade, de forma a criar o ambiente próprio para que os graves termos do Juramento sejam pronunciados e ouvidos com a necessária seriedade.
Senhor Secretário de Estado – A presença de Vª. Exª, que mais uma vez se digna presidir a uma cerimónia como esta, é para nós motivo de muita satisfação pois que, além de exaltar a sua mais solene expressão, mostra-nos um estimulante interesse pelas nossas actividades. Em meu nome e no de todo o pessoal desta Base Aérea eu dirijo a Vª. Exª. as mais efusivas saudações.
Saúdo igualmente os Exmos. Senhores Directores de Serviços e Comandantes de Unidades cuja presença interpretamos também como uma manifestação de apreço pelo trabalho aqui produzido, o que nos revigora a vontade de prosseguir contra todas as dificuldades e contrariedades, que não são poucas, nem pequenas.
Perante V. Exª., estão 1517 homens, 469 dos quais são soldados recrutas. Destes, 60 destinam-se a pilotos de aviões e helicópteros e os restantes às diversas especialidades de operadores e mecânicos.
Banda da FAP - Maestro Silvério de Campos
O dia de hoje é para eles uma confirmação de liberdade e de responsabilidade. Quando se alistaram voluntariamente, com o assentimento paterno, passaram a ser inteiramente responsáveis pelos seus actos. Em plena função dessa responsabilidade, vão, dentro de breves momentos, perante a Bandeira Nacional e de todos nós aqui presentes, comprometer-se a cumprir obrigações que os ligam à Pátria e às Instituições Militares.
Compete à Base Aérea nº. 2 a ingente tarefa de instruir, através de cursos de formação ou de promoção, a quase totalidade do pessoal técnico da FA, dos quadros permanente e não permanente, bem como a preparação final dos pilotos que se destinam às Bases equipadas com aviões de caça de reacção.
Como é sabido, e sempre oportuno repetir, uma boa instrução infere a presença de instrutores bem qualificados – sabedores, entusiastas e sinceros – bem como de instalações e equipamentos adequados.
Uma boa instrução significa maior rendimento do trabalho, maior segurança, maios eficiência operacional.
Uma má instrução é causa de erros, insegurança, perda de vidas, destruição de material, desperdício, baixo rendimento.
Exibição de voleibol e demonstração de boxe
 A situação neste sector é bem conhecida pelo que me dispenso de quaisquer considerações. Quero simplesmente afirmar o interesse e o esforço desenvolvido pelas Sub-Unidades directamente responsáveis pela instrução, de cuja obra esta cerimónia é um ténue reflexo, que se tem aplicado com total dedicação e até sacrifício, a tirar o melhor rendimento dos meios humanos e materiais postos à sua disposição para cumprir programas superiormente determinados.
Familiares dos mancebos assistindo á cerimónia
Vão receber o diploma de fim de curso 282 soldados-alunos que terminaram cursos de formação de várias especialidades. Brevemente serão distribuídos pelas unidades da FA, na Metrópole e no Ultramar. Após 11 meses de instrução irão pôr em prática alguma coisa do que aprenderam e que é a base do muito que ainda terão de aprender.
De facto, aos militares exigem-se aptidões para o desempenho das tarefas mais variadas: pede-se-lhes que empunhem armas, que sacrifiquem a sua vida se necessário, que defendam a autoridade constituída, que sejam um modelo de virtudes, que cultivem o espírito, o intelecto e o vigor físico.
Só será pois verdadeiramente um militar aquele que assumir uma atitude mental permanentemente orientada no sentido do aperfeiçoamento.
Por outro lado, mesmo o mais individualista não pode esquecer que agora faz parte de um todo.
À palavra “Unidade” que frequentemente se usa para designar o estabelecimento onde o militar presta serviço, não perdeu a sua verdadeira significação etimológica. Unidade é coesão, sinónimo de força. Sá há coesão, onde houver disciplina. 
Os assistentes mais novos.
É esta uma das virtudes fundamentais que o militar deve cultivar e a que, por vezes, por ignorância ou má intenção se atribui o significado menos dignificante de obediência cega e despersonalizante.
Ora disciplina não é tal.
“É aceitação da hierarquia e da autoridade sem ideia de submissão ou humilhação”.
“É reconhecimento espontâneo e consciente da autoridade dos chefes sem excluir a mútua união, estima, compreensão e respeito”.
“É obediência a uma regra de comportamento, comum aos que fazem parte de uma corporação”.
A disciplina não mata a personalidade mas harmoniza os homens coordenando-lhes os esforços. Um militar disciplinado cumpre as ordens e os deveres que lhes impõe os regulamentos, ou as circunstâncias de ocasião, por ponto de honra, não com receio de castigo.
Sobre a juventude presente nesta parada irá recair, na altura própria, parte do esforço que se desenvolve no Ultramar.
Devo salientar-lhe, todavia, que não é verdadeiramente militar só porque fez um juramento, por mais solene, ou veste uma farda, por mais esplendorosa.
É necessário que cumpra o Juramento, em qualquer circunstância.
É necessário que dentro de cada uniforme esteja um homem que o saiba dignificar: pelo saber, pelas atitudes e pelos sacrifícios.

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 133 – Maio 1970

Por:



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

HERÓI POR UM DIA

(ficção sobre factos reais)

Nunca em meses de comissão vacilara sobre o que me aconteceria se tivesse ido para outra especialidade ou ramo militar, se a minha passagem por África seria diferente, ou se me arrependeria de alguma coisa que tivesse feito, até àquele dia.
OPCs Costa e Aco - foto de JFMA
Estava novamente em Gago Coutinho com o Costa, a actividade militar atingia o zénite de um lado e outro da barricada os contendores procuravam infligir os maiores danos possíveis, e a guerra travava-se cada vez mais nas Lundas, Moxico e Cuando Cubango. Tinham-me pedido para tentar saber quando chegava a coluna do Luso, onde vinha um camião da FAP, com materiais para as obras do novo hangar para os Pumas.
Levantara-me às 05h30 zulo, mas a nossa rede estava "morta" (traduzindo) ainda ninguém respondia nas frequências.Na coluna vinha também pessoal do Exército para efectuar a rotação do Batalhão, ligara o emissor/receptor Racal TR-28, de origem Sul Africana que tinha as frequências do exército e as comuns aos três ramos militares, e fui fazendo buscas sucessivas até sintonizar o posto de rádio dos vizinhos do lado, a "diarreia verbal" do operador de serviço levou-me a baixar o volume e a ir pôr a frigideira ao lume para preparar o mata bicho composto de bife de songo com pão de véspera e Nocais frescas, lá pelo meio da manhã chegaria o "regulamentar" café aguado com leite em pó e uma carcaça com manteiga mais ou menos rançosa, trazidos pelo "Zé Manel", o nosso assalariado.
Passou o tempo ouvi alguém a chamar repetidamente por Coutinho no TR-28, resolvi responder mesmo sabendo que não era comigo, uma vez que aquela era uma frequência só utilizada pelo Exército, e confirmaram-se as minhas suspeitas, era a coluna. Informei-os , que se necessitassem de ajuda estaria à escuta e de que iria passar a informação ao Batalhão, assentei o indicativo fiz o telefonema e esqueci a coluna.
Saí do P.R.(posto de rádio) e fui espreitar a placa, a actividade àquela hora já era frenética,
Posto de rádio - foto de Rui Pires
os "metralhas" havia pessoal a dobrar para um "Siroco" que estava marcado para daí a dois dias, municiavam os quatro T-6, que iriam efectuar RVIS na área do destacamento, os mecânicos abasteciam e inspecionavam tudo. Chamei-lhes a atenção e manifestei a disponibilidade para testar os rádios e voltei para o meu "ninho". 

Passados minutos respondi aos vários contactos dos mecânicos para testar as frequências de aproximação dos aviões e héli, já se ouvia entretanto a betoneira a trabalhar no estaleiro da obra e resolvi ir avisar o Pita Grós do contacto, quando voltei subi os níveis das escutas e subitamente, o TR-28 começou a fervilhar com múltiplas entradas de emissores no ar, gente aos berros e a pedir socorro, num caos total, apercebi-me imediatamente de que a coluna estava debaixo de fogo, chamei pelo indicativo que obtivera e confirmava-se a minha suspeita, (estavam debaixo de fogo de morteiros e armas ligeiras, havia já dezenas de feridos e possivelmente mortos, a coluna progredia espalhada por quilómetros de extensão e quando uma das viaturas saiu da estrada para passarem a vau um pequeno rio, talvez por ser mais radical, e foi seguida por outras, uma delas atascou obrigando à imobilização das restantes, tinha sido por essas que começaram a cair os morteiros). 
Avisei o posto de rádio do Batalhão, e fui acordar os pilotos, aquilo ia sobrar para nós de certeza, imediatamente foi pedida autorização ao Secarleste, para descolarem dois T-6, que pudessem dar cobertura à vertical da coluna e obterem mais informações, quer sobre a necessidade de outros meios aéreos para eventuais evacuações que fossem necessárias, quer sobre o nosso transporte.
Picada Gago Cotinho/Ninda
- foto Armando Carvalho
Do Luso ZML (Zona Militar Leste) informaram que desconheciam qualquer ataque à coluna, do Secarleste e após confirmação nossa foi autorizada a descolagem dos T-6, que entretanto já estavam abastecidos e municiados, e do Héli, para a primeira das várias evacuações. 
Agora só quando eles estivessem à vertical é que perceberíamos a verdadeira dimensão do ataque e dos meios necessários. Liguei novamente para o Batalhão, para me porem em contacto com um dos médicos, para que me dissessem do que precisavam numa situação de excepção como aquela e fui aguardando o reporte dos T-6.
Entretanto, toda a gente se juntara no hangar a ouvir o desenrolar dos acontecimentos, através da instalação normalmente usada para ouvir música, quando chegou um dos médicos, para saber se já sabíamos alguma coisa, chamaram por mim, fui directo e conciso, havia um grande número de feridos e possivelmente mortos, o que é que eles precisavam que não tivessem no hospital, uma vez que viriam de certeza do Luso mais meios aéreos para as evacuações. 

Ele olhou-me com cara de espanto e respondeu: e como é que eu vou pedir seja o que for se ninguém sabe qual a situação real, e mesmo sabendo do que preciso, leva semanas a chegar cá! 
Respondi-lhe: estamos a perder tempo, escreva-me em maiúsculas num papel o que precisa de forma que eu consiga ler, e em cinco minutos no máximo, a lista está a caminho da ZML. Ele nem hesitou, sentou-se à mesa e passados minutos tinha uma lista de material que enviei "sob reserva" para a ZML, com informação ao Secarleste.
Finalmente dos T-6 à vertical da coluna, veio a confirmação do que menos queríamos
T6 á vertical de coluna
-foto de Gonçalo Carvalho
ouvir, (os soldados que vinham efectuar a rendição, com pouco mais de uma 
semana de comissão, vinham em tronco nu em cima dos transportes a apanhar sol, não vinham de armas em prontidão, e alguns nem sequer saltaram das viaturas, morreram sentados como vinham, existiam várias viaturas a arder junto duma ponte, tinha sido a cabeça da coluna que tinha sido atingida, como andava mais depressa, os veículos mais pesados tinham ficado para trás, como era o caso do nosso camião que nada sofrera, limitaram-se a sair da estrada e a procurarem abrigo na mata), nenhum dos pilotos conseguia contacto com o chão, nem se via qualquer actividade que indicasse para onde fugiram os atacantes, mas uma coisa era certa havia uma quantidade anormal de feridos sendo necessário outro héli, e um PV-2 ou mesmo um DC-3 para transportar os mais graves para o Luso.
Voltei a chamar a coluna indiquei-lhes o canal com que poderiam falar com os "milhafres" que tinham à vertical, e transmiti nova mensagem ZULO para o Secarleste, dando a localização exacta do ataque e confirmando o reforço de meios para evacuação dos feridos, primeiro para Coutinho e depois para o Luso, o héli de alerta ia descolar directamente para o local e um PV-2 com parte do material pedido iria descolar também, assim que fosse reunido o restante, um DC-3 viria fazer a evacuação final.
Com a chegada dos feridos, todos nós nos mobilizáramos para dispor combustível na placa, e para apoiar os mecânicos no que fosse necessário, a adrenalina estava no seu pico máximo, acabei por dar por mim, como toda a gente, a meter os braços por baixo de corpos mutilados, a apoiar membros quase decepados, a conter as entranhas de corpos que não faziam sentido, tudo sem me importar com o sangue e outros fluidos e sem perceber o porquê daquela barbárie, a maior parte deles nem barba tinha, recém desembarcados, nem ao destino tinham chegado e já tinham infelizmente muito que contar. 
Eram miúdos como eu, e os seus olhares de medo e espanto pelo que lhes tinha acontecido dizia tudo e não explicava nada; a triagem era feita na placa, os que tinham tratamento, seguiam em macas improvisadas para o hospital, os outros eram encharcados em morfina e ficavam logo ali, num canto da placa, gemendo e implorando que os salvassem. 
Ao passar junto de um deles, ouvi chamar pelo meu nome, olhei e vi um Furriel chamado Henriques, que tinha andado comigo a estudar, cheguei-me a ele e ouvi o seu lamento, (não me deixem morrer, eu prometi à minha mãe que voltava), enchi-me de coragem e confirmei-lhe tem calma pá ainda não é desta que vais morrer, isso são só uns arranhões, segurei-lhe as mãos e senti que os seus dedos pouco a pouco faziam cada vez menos força nos meus, chamei um dos maqueiros e ele de passagem confirmou-me o que suspeitava, mas recusava aceitar, não posso perder tempo com esses, há outros que ainda se podem salvar, fiquei ali, com as mãos dele nas minhas, até chegarem os menos sortudos, transportados em sacos pretos.
Uma raiva incontida toldou-me a visão, e um véu colérico, vermelho da cor do pó e do sangue já seco nas poças dos que tombaram, cobriu-me os olhos e passei-me completamente, cruzei-lhe os braços sobre o tronco e de forma solene mas inconsciente prometi que vingaria a sua morte. 
Fora de mim corri à camarata com as lágrimas a sulcarem-me o rosto, quando voltei, de camuflado e armado até aos dentes, toda a gente me olhou espantada, eu que era o menos guerreiro do destacamento, exigi que me deixassem ir no primeiro héli com os militares que fariam o corte de retirada aos cabrões, que tinham cobardemente efectuado o ataque à coluna. 
Felizmente que me chamaram à razão e ninguém me deixou ir, naquele dia teria tomado com certeza as piores decisões de que me arrependeria possivelmente para o resto da minha vida.
No final do alvoroço, o Secarleste, entretanto chegado, mandou reunir o pessoal no hangar, e dirigindo-se ao Alferes Piloto que comandava o destacamento perguntou: como é que nós tínhamos conseguido o milagre de ter pedido os apoios e meios praticamente na hora que o ataque aconteceu, evitando a morte de muitos dos feridos? O Alferes, que entre nós era carinhosamente conhecido como o mais sorna de todos, mas um piloto e sobretudo um homem excepcional, retorquiu, é para que eles saibam que enquanto eu estiver no comando do aeródromo a guerra é para ser levada a sério. 
Toda a gente se riu com a saída dele, mas respondendo directamente ao Secarleste, apontando para os dois OPC'S informou: o mérito é deles, foram eles que avisaram até o Exército, como o conseguiram, não sei mas eles foram os heróis. O Costa, respondeu, eu não fiz nada nem era eu que estava de serviço, o herói é ele. Meti-me na conversa para dizer: que o dia de hoje nos sirva a todos de lição, quando acham que eu sou arrogante a correr com os que invadem um espaço que tem de ser de trabalho e atenção constante e não de conversa e distração, faço-o para que quando alguém, no ar ou em terra, peça ajuda, tenha a certeza que é ouvido e serão tomadas as decisões necessárias à resolução de qualquer situação.
Grande actividade no AR 
- foto de Afonso Palma
No dia seguinte, antecipado o Siroco, chegaram um Nordatlas com os Paras, os Alouette III, e os Pumas, nossos e dos "Primos", que em cooperação com os Flechas e Exército, levaram a cabo a maior e mais bem sucedida operação a que se assistiu na zona de Gago Coutinho, com a destruição de um vasto complexo de apoios, paióis, um hospital de campanha, vários abrigos, a libertação de elementos da população civil utilizados como transportadores e pisteiros, entre os detidos um alto cargo referenciado como dissidente do MPLA e que posteriormente foi utilizado na contra propaganda, numa Rádio que transmitia para o interior e exterior do território, diverso armamento, incluindo uma curiosa mini antiaérea, a destruição de diversas lavras e pirogas, mas sobretudo com esta operação começou o declínio da capacidade do MPLA, de agir como até ali, tomando a iniciativa.
Acabado o destacamento voltei ao Luso, ao regressar ao posto de rádio, mostraram-me uma mensagem originada conjuntamente pela ZML e Secarleste, propondo ao Comandante Militar da Província o louvor da guarnição do AR de Gago Coutinho, pela determinação atempada na resposta ao ataque à coluna Luso-Gago Coutinho, e no exemplar desempenho na coordenação das posteriores operações de evacuação de todos os feridos, de retaliação, limpeza e desactivação dos meios de apoio na zona de acção do destacamento.

Gago Coutinho, 1972.

OPC ACO