sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FRAGMENTOS DA MEMÓRIA


Trecho de "Fragmentos da Memória"
---O Ti Nicolau surgiu na borda do rio, cigarro apagado a enfeitar a boca falha de dentes , naquele sorriso matreiro que a todos cativava. Com a mão esquerda movimentava lentamente o remo, na tentativa de encostar o barco à margem. Vinha sentado no banco, tábua rasa que unia os lados da velha carcaça de pesca, num balouçar atrevido que nos desafiava para uma volta pelo "braço" da Congida. 
Bom dia, pessoal. Hoje não se vê nada de jeito! Umas boguitas e uns escalos e já é um pau...
Tens muita sorte, atirou meu avô. Estamos aqui desde as sete da manhã e nem uma escama.
-Ó Eugénio, valha-te Deus!... Então que estou eu a fritar nesta sertã?- Riu a avó Zaira.
-Ora, já te “descaíste” mulher! Esse figurão está aqui, está a saltar para terra. Prepara o "quedorno" que companhia já temos!...
Nesta altura já o ágil pescador saltava do barco e punha o pé num morro de terra húmida, vestida de junco solto, bem perto da água. 
-Estão grandes os raparigos, são os do Antoninho!.. 
-Sim, são os "esmelgos" gostam muito de vir até aqui. 
O Ti Nicolau sorriu, fez-nos uma careta ternurenta que forçou um leve sorriso no nosso rosto, há muito focado noutro local. 
O meu irmão, só via uma coisa naquele rio. Eu acompanhava-o naquele olhar cheio de querer e fascínio. No lado de lá daquele "braço"de água, sentado numa rocha, o Luciano esperava a vontade para mais um mergulho. Não demorou muito, levantou os braços bem ao alto e aí vai ele como um torpedo a deslizar ao sabor do impulso. 
Quando emergiu, iniciou a travessia com braçadas largas, bem ao seu jeito, rumando na nossa direcção. Levantámo-nos e fomos até junto do barco atracado, pelo pescador. O Luciano, naquela sua fina maneira de nadar, estava cada vez mais próximo. Era a hora de estarmos perto dele. Deslizou suavemente depois da última braçada, o barco ondulava com a aproximação do nadador. Agarrou a proa e num leve esforço, apanhou chão seguro na margem do rio. Sentimos a sua mão molhada a saudar-nos o rosto. O nosso herói estava junto de nós, espera de desejo cumprido. Dentro de breves momentos voltaria até ao outro lado, num vai vem ininterrupto, a que, só o final do dia, punha fim. 
Anos mais tarde, o rio foi com ele para a eternidade, jovem e cheio de esperanças, abraçou aquelas águas e resolveu partir para onde os rios desaguam no céu. 
Bragança já era casa da nossa adolescência, quando ...


Novembro 2003

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AB 3 O 9º. ANIVERSÁRIO - ACONTECIMENTOS NA NOSSA GERAÇÃO


A.B. Nº. 3 – NEGAGE – 07/FEVEREIRO/1970

9º. ANIVERSÁRIO

Decorria o ano de 1970, mais propriamente no dia 7 de Fevereiro em que se comemorou o “Dia da Unidade” no Aeródromo-Base Nº.3, com o seguinte programa: 
Içar da Bandeira com honras prestadas por uma companhia de Polícia Aérea, sob o comando do capitão Brito. Presidiu à cerimónia o comandante da Unidade, acompanhado por representações de oficiais, sargentos e praças das várias especialidades. Celebrou-se depois missa na Capela da Unidade em sufrágio dos militares falecidos, a que se seguiu formatura geral. 
As cerimónias encerraram-se com a entrega de seis novas moradias aos sargentos, no seu novo Bairro.

ALOCUÇÃO PROFERIDA PELO COMANDANTE DO A.B.3, TEN. COR. PIL. AV. OLIVEIRA BELO

T.Cor.Pilav 
Oliveira Belo
“Em primeiro lugar os meus sinceros agradecimentos às entidades militares das Unidades do Exército aquarteladas no Negage que com a sua honrosa presença atestam a estreitam cooperação que se tem mantido no cumprimento da missão.
Passa hoje, dia 7 de Fevereiro de 1970, mais um aniversário da fundação do Aeródromo-Base Nº. 3, é ele o nono.
Estamos aqui reunidos, em festa puramente militar, para relembrar esse momento assaz feliz em que, pelos chefes responsáveis pela Força Aérea, foi tomada a decisão de fundar o A.B.3 no seio do Norte de Angola onde com orgulho temos vindo a servir. 
Nesta festa tão simples há duas cerimónias caracteristicamente militares e de valor transcendente para todos nós portugueses, militares e civis.
A primeira a que acabámos de assistir, resumiu-se na investidura dos militares que, durante o corrente ano, terão a suprema honra de empunhar os símbolos da Pátria Portuguesa, da Força Aérea e desta Unidade.
A segunda a que iremos assistir dentro de breves momentos, é uma homenagem em memória dos mortos da Unidade e da Força Aérea, concretizada por um minuto de silêncio.
Com estas duas cerimónias quisemos vincar, para sempre, a nossa determinação inabalável de nos batermos pelo mesmo ideal porque eles lutaram e morreram.
No âmbito da missão atribuída às forças Armadas – defesa da integridade do território Nacional – à Força Aérea incumbe o seu cumprimento no espaço aéreo compreendido, actuando pelo ar, no ar e em terra.
Empenhada nesta tarefa se encontra esta Unidade desde os momentos cruciais de 1961 e desde aí tornou-se num dos baluartes da defesa do Norte da província, digo mesmo de toda a província, pois as asas que aqui se acoitam têm vindo, continuadamente, a estender a sua acção às mais longínquas paragens. Desde o Zaire ao Cunene, a Cabinda, ao Cazombo e às terras do fim do mundo, quase não há pista nesta Angola imensa donde as asas do A.B.3 não tenham actuado.
Tribuna
Não nos cabe a nós louvar a acção de inestimável valor desta unidade, (louvor em boca própria nunca foi do nosso agrado) mas é-me muito grato poder afirmar que os anos de 1967, 1968 e 1969 foram, até agora, os de maior rendimento operacional desde a fundação do A.B.3. 
Isto quere dizer que todos, sem excepção, rendemos mais e que a capacidade operacional se manteve praticamente inalterável não obstante a redução sensível em meios, pessoais e materiais. 
Merece uma referência especial o ano findo em que o A.B.3, respondendo a todas as solicitações que lhe foram feitas, cumpriu a missão com apenas dois acidentes, cujas consequências não foram além de uma aeronave destruída não havendo qualquer fatalidade a mencionar no pessoal. 
Ao constatar os óptimos resultados obtidos no ano transacto não quero deixar passar esta oportunidade sem manifestar o meu muito apreço a todo o pessoal, militar e civil, que, de algum modo, directa ou indirectamente, sem distinção de hierarquias e especialidades, para eles contribuiu.
Os nossos chefes confiam em nós, porque, desde sempre, o pessoal que aqui trabalha tem sabido cumprir o seu dever com uma dedicação e um entusiasmo que me apraz realçar e me permite afirmar que podemos continuar a ir em frente com o nosso trabalho e no rumo encetado, com a certeza de que as qualidades evidenciadas até agora serão mantidas intactas. 
Esta confiança e esta certeza que o A.B.3 tem afirmado desde 1961, não com palavras, mas com factos, com obras, com o vosso trabalho e o vosso querer tem penetrado em todos os sectores, tanto civis como militares. 
A prontidão com que satisfazemos os pedidos de apoio aéreo tem sido elogiada vezes sem conta pelos beneficiados, civis e militares.
O ambiente de esperança firme, mesmo de segurança que se vive nestas paragens desde 1961, o qual tem permitido o afluxo de pessoas, de bens e investimentos foi, sem dúvida, fomentado pela implantação desta Unidade.
Entrega da bandeira e guião à nova escolta
Quando aqui chegou a Força Aérea e começou a construir, de pedra e cal, convenceu por obras que estão à vista de todos, aqueles cépticos e desanimados, que estas terras nunca deixarão de ser portuguesas. 
Depois desta caminhada admirável de nove anos em que numa continuidade impressionante e serena nos temos mantido, podemos e devemos revigorar o nosso moral de forma a podermos vencer os obstáculos que com certeza as invejas e as cobiças alheias semearão na nossa rota. 
Mais do que nunca necessitamos de estar atentos e vigilantes no cumprimento dos nossos deveres de militares e Portugueses. 
Só nos podemos desempenhar desta responsabilidade suprema se pusemos em todas as acções e na execução das tarefas atribuídas toda a nossa inteligência, saber, dedicação e interesse. 
Em cada momento deve existir a preocupação de bem servir e a insatisfação constante na procura do aperfeiçoamento que nos conduz ao melhor rendimento.
A falta de condições ou de possibilidades da Unidade nunca serviram de justificação para o não cumprimento do dever, pois independentemente de quaisquer factores nesta Unidade sempre se cumpriu. 
Os fundadores do A.B.3, em 1961, cumpriram e de entre vós há quem possa testemunhar como era então esta Base – ausência total de tudo o que os nossos olhos agora podem contemplar. Tudo o que vemos não passava de um sonho dourado há nove anos, mas essa gente de então, militares e civis, porque quiseram, muito puderam e nós, porque queremos, vamos poder.” 

NOVAS MORADIAS NO BAIRRO DE SARGENTOS NO AERÓDROMO-BASE Nº.3
Imóvel visto de frente
No passado dia 7 de Fevereiro, “Dia da Unidade”, realizou-se no Aeródromo-Base Nº.3, no Negage, a cerimónia da entrega de um imóvel no novo Bairro de Sargentos, composto por seis moradias. Quatro das referidas moradias foram construídas sob o patrocínio do comandante da 2ª. Região Aérea, general Viana Tavares. As duas restantes devem-se à iniciativa do comandante da Unidade, tenente-coronel piloto-aviador António Duarte de Oliveira Belo. O “Dia da Unidade” foi assim um duplo dia de festa para os sargentos do Aeródromo-Base nº.3, graças à concretização de uma obra a todos os títulos meritória.
Capelão Alf. Casimiro Ferreira Alves benzendo as moradias e Comandante do AB3 no momento da distribuição das chaves das 6 moradias
Ten. Cor. Oliveira Belo falando aos Sargentos após distribuição das chaves

 Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 131 – Março 1970

Até breve                                                                                   
O amigo 




sexta-feira, 7 de agosto de 2015

EM MEMÓRIA DO JORGE CANHOTO

Estou sem palavras, emocionei-me.
Pois no final do vídeo (1), com o som de fundo apropriado, ao ver o nome dum amigo, o Jorge Manuel Teixeira Canhoto, MELEC da 3ª.de 70, que foi meu companheiro de quarto na república dos Saltimbancos - Luso, veio-me há memória a última noite na republica.
Muito falamos. Ele ia para operação, no dia seguinte de madrugada.
Era uma coisa que ele detestava fazer, voar de héli. Eu seguiria de manhã, de NordAtlas para Henrique de Carvalho para fazer o espólio de 3 anos e meio de Leste de Angola,  comissão, mais um ano solicitado e mais 6 meses de “lerpa”, e a seguir para Luanda afim de embarcar no Boeing da FAP, rumo ao “puto”.
Combinámos encontrar-nos após a comissão dele, faltavam-lhe 7/8 meses, éramos da mesma zona, ele de Oeiras, eu de Paço D´Arcos.
28/3/1974 - Acidente (2) entre os helis 9255 e 9361 em Cangombe-Cachipoque - foto de Benjamim Almeida CArt6551
Nada disso aconteceu. Apenas, sim, uma tremenda agonia. 
Ele tinha-me pedido para eu trazer alguma coisa para os pais, não me lembro o quê. Alguns dias após chegar a Lisboa fui a casa deles. Choraram, chorei, queriam saber tudo do filho (único), se tinha lá deixado filhos ou, alguém que estivesse grávida dele, o que ele fazia ou não fazia, gostava ou não gostava, enfim um sem número de questões, para que não estava emocionalmente preparado para as ter, por fim, quase que me queriam adoptar, por ter sido companheiro de quarto do filho deles durante um ano e tal.
Foi uma perda dum amigo, que, para quem esteve em África e compartilhou tanto tempo com uma pessoa num quarto de 2 camas, em que todas as noites, havia um bate papo de todos os assuntos, antes de adormecermos.
É algo que nos marca para sempre.


Um dia nos encontraremos AMIGO.









(2)Este acidente, vitimou para além do Jorge Canhoto:

(1) Especialidades @ Especialistas do AB4