sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A MÁQUINA DE COSTURA

Aquartelamento da Gafaria
Perto do Cazombo, numa povoação chamada Gafaria, existia um dos aquartelamentos de tropas Catanguesas, "FIÉIS" como eram designadas, constituídas por dissidentes e refugiados do exCongo Belga. Embora mantendo a cadeia hierárquica de Comando original, eram enquadradas por Oficiais Portugueses, desempenhando missões isoladas ou conjuntas com as tropas Portuguesas.
Logo no início do meu primeiro destacamento no Cazombo, fiquei um dia bastante admirado por ver na cantina uma quantidade de militares com um fardamento diferenciado do usado pelo Exército, a comprar tudo o que era embalagens de litro de "OLD SPICE" e na primeira oportunidade perguntei ao soldado amanuense, quem era aquela gente e o porquê de levarem todo o stock de After Shave, e Água de Colónia existentes? 
Foi-me explicado que devido às restrições, os mesmos não podiam adquirir bebidas alcoólicas, acabando todos eles a beber os conteúdos dos frascos de Old Spice, (com Álcool a mais de 40%) o que provocaria a longo prazo, a cegueira, bem como a destruição do fígado e rins, com todos os quadros clínicos negativos previsíveis bastante complicados provocados colateralmente, excepto um que era o único mensurável, (a flatulência). 
A maior parte dos seus efectivos, tinha fugido com a família para evitar represálias após a guerra do Catanga, e o pré não deveria ser de modo a sustentar um agregado familiar por vezes numeroso, mais que uma mulher e vários familiares ascendentes e descendentes, muitos deles vendiam artesanato e tudo o que sobrava dos saques ocasionais que pudessem trazer mais uns Angolares para o orçamento. 
Numa das operações conjuntas, ao fazerem a formatura após o regresso, deram como
Catanguês - foto de José Carvalho
desaparecido um Sargento dos ditos Catangueses, homem bastante experiente e condecorado, efectuadas patrulhas, não foi localizado. Passaram os dias, estávamos num fim da tarde sentados no interior do hangar junto ao nosso bar a beber umas Nocais, quando surgiu vindo dos lados da sanzala que bordejava a pista, um vulto indistinto, vergado ao peso de um grosso volume que transportava às costas, com a sua aproximação fomos vendo que o que ele transportava era uma máquina de costura "Singer" e pelo camuflado verificámos que era um Catanguês. Quando ele chegou junto de nós arreando a máquina e pedindo-nos de beber, olhámo-nos atónitos, resolvi perguntar-lhe se ele era o desaparecido à quase três semanas, ele confirmou que se tinha atrasado por causa da máquina que era uma prenda para a mulher, e depois de beber duas

Nocais de uma assentada, pegou na máquina e reiniciou o caminho da Gafaria. Todos os
presentes e os que entretanto se tinham juntado foram unânimes, "aquele não sobreviveria ao castigo" , qualquer acto cometido para além do rigoroso código de conduta, era
A Singer
severamente punido. Passaram uns dias e ao almoço os pilotos discutiam se deviam de ir ou não à cerimónia para que tinham sido convidados no Batalhão, ali ao lado, iam condecorar uns Catangueses, mas já toda a gente sabia que depois seria aplicado pela chefia Catanguesa, o castigo ao Sargento que nós víramos de máquina às costas. Conta quem viu, que perante todo o Batalhão, foram aplicadas trinta e três chicotadas, uma por cada elemento do seu pelotão, como pena de ele ter abandonado a patrulha, foi ainda despromovido com a obrigação de devolver a máquina para ser leiloada e o dinheiro da venda ser distribuído pelos restantes militares que compunham a patrulha. 
O castigo começara com o transporte às costas da máquina de costura da Gafaria até ao Batalhão... O tratamento das feridas infligidas, e os dias que passasse de baixa até estar apto ao serviço, seriam posteriormente descontados no seu pré!
Depois do sucedido nunca mais vi o Sargento, mas a imagem do seu corpo dobrado ao peso da prenda que resolvera irreflectidamente oferecer à mulher, e do posterior castigo, nunca me sairá da memória.

Cazombo, 1971 
OPC (ACO) - 71/73

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BA2 OTA JURAMENTO DE BANDEIRA ER 2ª./69 - ACONTECIMENTOS NA NOSSA GERAÇÃO - Nº.3


B.A. Nº. 2 – OTA – 29/AGOSTO/1969
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 2/69


SEA recebido pelo ten-cor.
Brochado de Miranda
Em 29 de Agosto de 1969 realizou-se na Base Aérea nº. 2 (Ota) as cerimónias do juramento de bandeira dos componentes da segunda Escola de Recrutas do ano corrente (1969) e da entrega de diplomas a oficiais, cabos e soldados-alunos que completaram cursos de várias especialidades, e bem assim atribuição de prémios aos que mais se distinguiram.
Presidiu o Secretário de Estado da Aeronáutica, brig. Pereira do Nascimento, acompanhado por outras individualidades, entre as quais se contavam o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, gen. Venâncio Deslandes; o Chefe do Estado Maior da Força Aérea, interino, general Machado Barros; o Subchefe do Estado Maior da Força Aérea (Pessoal), general Dias Costa; os Directores dos Serviços de Instrução, de Material, de Intendência e Contabilidade e de Pessoal respectivamente, brigadeiro Ivo Ferreira, brigadeiro Sousa Oliveira, brigadeiro José Francisco Calado e coronel Marcial Rodrigues.
À chegada à Base, o Secretário de Estado da Aeronáutica foi recebido pelo comandante interino da Unidade, tenente-coronel Brochado de Miranda e pelos oficiais que ali prestavam serviço.
Revista à guarda de honra
Depois das honras militares ao brigadeiro Pereira do Nascimento, usou da palavra o comandante da B.A.2. Seguiu-se uma exortação pelo aspirante José Luís de Arriaga Pinto Basto, após o que se procedeu à cerimónia solene do juramento, cuja fórmula foi lida pelo tenente-coronel RaulTomás que comandava as forças em parada.
Em seguida assistiu-se a demonstrações de manejo de arma a pé firme e em marcha, sob o comando do major Ferreira Canais, comandante da Escola de Recrutas 2/69, e à distribuição de diplomas e prémios, finda a qual as forças em parada, num total de 1.300 homens, desfilaram em continência.
Ao terminar, houve demonstrações de treino físico-militar e de luta individual.


TCor Brochado
Miranda

Das palavras proferidas pelo comandante da Unidade, tenente-coronel Brochado de Miranda, extraímos as seguintes passagens: “Prestaram Juramento de obediência e fidelidade à Pátria, à Bandeira, à Lei e aos Chefes, 597 militares, 52 dos quais se destinam a pilotos. O treino básico militar que todos receberam durante 10 semanas teve por finalidade, não só integrar num todo único e homogéneos rapazes de formação, educação e temperamento diferentes, mas também exaltar o valor das virtudes militares, estimular qualidades individuais de iniciativa, espírito de solidariedade e persistência, entre outras, de forma a desenvolver capacidade de resistência física e moral às agruras de situações difíceis, que certamente terão de enfrentar. O soldado recruta renova hoje, em acto solene e oficial, fidelidade a sublimes ideais. As próprias paredes que cercam esta parada não só assistiram a frequentes cerimónias como a que agora se realiza, em que prestaram Juramento milhares de homens alguns dos quais já perderam a vida em defesa da Pátria, como presenciaram também o permanente roncar de aviões conduzidos por pilotos que aqui se treinaram e que foram dos primeiros no Ultramar quando houve necessidade de acorrer a proteger Território Nacional das cobiças alheias”.

Entrega de prémios e diplomas

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 124 – Agosto 1969
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2ª. SECÇÃO DA 1ª. ESQUADRILHA –  MAIO de 1969

Vitor Oliveira nº.683/69
     Aproveito para abordar a minha Secção que marchou neste “glorioso” dia, em 29 de Agosto de 1969, para Jurar Bandeira e ser fiel à Pátria!...
     Recruta das mais rígidas dirigida pelo Tenente Dias e Alferes José Cid (treino físico), em que teve direito a reportagem, vista em documentários no Cinema Monumental, Lisboa, tal a nossa preparação para a guerra do “Ultramar”…
     Pelos meus cálculos, o primeiro recruta desta Incorporação (2ª/69), iniciou-se com o nº. 638/69. Se somarmos os 597 mencionados na Revista “Mais Alto” e subtrairmos os 52 para pilotos, fixamos o último recruta com o número 1.213/69, desta Incorporação.
     Desde há muito tempo que desejava saber notícias sobre todos os companheiros que constituíram a minha Secção e, obtida a fotografia do grupo, instiguei-me a escrever uma carta para o Arquivo Histórico da FAP. Determinei que os 35 elementos teriam uma numeração próxima da minha e, sendo 35, solicitei os nomes completos dos soldados recrutas numerados de 674 ao 708/69.
     Após ter conhecimento dos nomes completos lancei a minha investigação através de vários meios ao meu alcance e, de companheiro em companheiro, reencontrei-os a todos. Meses de busca incessante porém, compensador. Em cada contacto, vivi momentos de alegria recordando passagens atribuladas de outrora. 
     Captei a naturalidade de cada um com o propósito de saber a rota destinada à Ota, a 13 de Maio de 1969. E, descendo de Norte para Sul, nomeio estas localidades: Mondim de Basto, Pinhel, Guarda, Ovar, Oiã, Pampilhosa, Granja do Ulmeiro, Lousã (2), Soure, Ansião, Leiria (2), Marinha Grande, Peniche, Alcanena, Alenquer, Benavente, Tramagal, Lisboa (7), Ponte de Sor, Sobreda da Caparica (3), Lavradio, Pinhal Novo, Amora, Palmela e Faro.
     Após o juramento de bandeira, seguiram-se as especialidades, e os 35 tiraram os cursos de: EABT (10), OCART (7), MRAD (4), MMA (4), OMET (4), MMT (2), MELEC (2), OPC (1) e um por determinar (falecido precocemente).

A 2ª. Secção da 1ª. Esquadrilha
     Sobre os percursos de vida de cada um e ao longo dos 45 anos já passados só abordo as diversas profissões porquanto, outros aspectos de caracter pessoal, serão “saboreados” pessoalmente num próximo convívio a realizar brevemente. De três companheiros já falecidos – 1970, 1973 e 1992, quatro enveredaram pelo serviço militar com aposentação em Majores e Ten-coronel. Os outros, inseridos na actividade civil, finalizaram-se como empresários (6), funcionários (CTT, Plásticos, Tribunal, EDP e Segurança Social), Professores (2), Delegado, Vendedor, Executivo, Comerciante, Bancários (gerentes e subdiretor), e três emigrantes (Inglaterra, Venezuela e França).
     Como o Mundo é pequeno, há que reagrupa-los e revermos a imagem já gasta causada pelo decorrer de vários invernos.
     Fico na expectativa do esforço desta gente para se movimentarem para o repasto.       
Não podem nem devem desanimar pois, caso contrário, apelarei à ordem com a presença do Tomás, Dias e Cid. A guerra só terminará após o último suspiro!...

  1 - Cabo Gouveia
  2 - Tenente Martins
  3 – 680 - Rafael Conceição de Almeida – OCART
  4 – 706 - João Mariano Carvalho Ahrens Teixeira - MRAD
  5 – 694 - Arlindo Gomes Nunes Foja - MMT
  6 – 675 - José Manuel da Silva Moura – EABT
  7 – 707 - José António Antunes Gonçalves - EABT
  8 – 704 - João Manuel Moura Esteves Tomé – OPC / MMA
  9 – 681 - Rogério Alves Ferreira - OCART
10 – 698 - Carlos Alberto Freitas Nunes - MMA
11 – 697 - Carlos Alberto Cardoso Amaral Farinha – OPC
12 – 690 - António Antunes Costa Ferreira - EABT
13 – 678 - Onildo Pinheiro Rosa - OCART
14 – 696 - Artur Agostinho Cruz Almeida- MMA
15 – 677 - Manuel Oliveira Martins - OCART
16 – 701 - Felizardo Barata Couto Bandeira - MELEC
17 – 695 - Armando Martins - OMET
18 – 688 - Manuel Almeida Falcoeiras - EABT
19 – 685 - Manuel Alves Bexiga - EABT
20 – 684 - Vítor Manuel Gomes Clemente - OCART
21 – 683 - Vítor Adelino Matos de Oliveira - OCART
22 – 702 - Fernão António Carvalhais Paixão – EABT
23 – 708 - Joaquim António Sousinha Carinhas - MRAD
24 – 679 - Orlindo Gonçalves da Fonseca – OCART
25 – 692 - António José Feitinhas Esteves -  “Vietcong”
26 – 689 - João Rosário Rita Pestana – MMT 
27 – 686 - Fernando Jorge Diogo Passos - MMA
28 – 687 - António César Gomes - EABT
29 – 700 - Eduardo Pinto Sousa Martins - OMET
30 – 682 - Valentim Madeira Correia - MRAD
31 – 691 - António Francisco Magalhães Ventura Seco - OMET
32 – 693 - António Manuel Henriques Sequeira - OMET
33 – 674 - José Manuel Neves Cardoso - MELEC
34 – 703 - Ivo Manuel de Lima Caldeira - MRAD
35 – 705 - João Manuel de Oliveira Polónia Graça – EABT
36 – 676 - José Rodrigues Pimentel - EABT 
37 – 699 - Carlos Alberto Jesus Ribeiro - EABT

Até breve                                                                                   
O amigo 



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OS ESQUECIDOS DE GAGO COUTINHO

Destacamento de Gago Coutinho e quartel do Exército
Tinha chegado à poucos dias a Gago Coutinho para mais um destacamento, estava sozinho no posto de rádio, toda a gente tinha ido à carreira de tiro excepto os dois OPC'S, quando ouvi o barulho do que me pareceu um Land Rover junto à entrada do hangar. 
Freira com pessoal do destacamento
Espreitei curioso, uma vez que os vizinhos do lado (Batalhão) deslocavam-se a pé quando pretendiam alguma coisa, e fui ao encontro das freiras da Missão, que entretanto saíam sorridentes da viatura na minha direcção. Depois dos cumprimentos formais, informaram-me que iam à leprosaria e como eu tinha manifestado a vontade de a conhecer e de ajudar no que fosse possível, queriam saber se eu mantinha a minha disponibilidade. Pedi que aguardassem enquanto ia mudar de roupa e avisar o outro operador que me ia ausentar, e lá seguimos rumo à sanzala que se situava por de trás dos edifícios do Batalhão espraiando-se até ao Rio Nhengo. 
Durante a breve viagem fui fazendo conversa de circunstância para acalmar o nervosismo, lá as fui informando que as expectativas eram muito altas, nunca tinha contactado directamente com nenhum ser humano que padecesse da doença embora tivesse conhecimento do tratamento dado aos Continentais que a contraiam, (eram isolados da população e passavam a viver em instalações chamadas Gafarias, Leprosarias ou lazaretos, existindo ainda hoje o chamado Hospital Colónia Rovisco Pais perto da povoação da Tocha no Litoral Oeste, projecto megalómano criado pelo Estado Novo nos anos 40 do século passado, numa propriedade com 140 hectares, que permitia o isolamento total dos pacientes, "ia-se para não voltar e morria-se lá").
Entrámos entretanto na sanzala e de repente estávamos rodeados de candengues, qual bando de pardais, que corriam chilreando atrás do jeep na esperança de uma guloseima. Quando este se imobilizou, olhei a linha do horizonte a Sul para lá das cubatas, quilómetros a perder de vista, era o que eles tinham de melhor, mas vistos através das grossas grades de ferro, da porta e janelas de uma edificação rectangular construída em adobes, de cor vermelha como o chão e o pó que a cobria, dividida a meio por uma outra grade interior que isolava os homens das mulheres, coberta com capim de duas águas. Aproximei-me tentando não deixar transparecer, o turbilhão de sentimentos contraditórios que me assaltavam, afinal tanto que nos queixávamos das péssimas condições que tínhamos no destacamento, das instalações, da comida, do material, e estes infelizes de aspecto andrajoso, num espaço exíguo e fétido, sem as mínimas condições, nem um queixume, nem um protesto, os seus olhos, trespassaram-me como balas, quem seria aquele miúdo branco que vinha com as irmãs? Fui por elas apresentado como militar da Força Aérea, e eles esqueceram-se imediatamente de mim para centrarem toda a atenção no que elas lhes levavam. Terminada a visita, carregado o jeep com artesanato feito por eles, que elas vendiam para poderem comprar os alimentos, o tabaco e os medicamentos que lhes forneciam, só me perguntava até que ponto a minha capacidade de indignação me levaria a lutar por aqueles que acabara de visitar e que eram o fim da longa lista de excluídos que doze anos de guerra gerara e de que ninguém queria assumir a responsabilidade. Após o jantar e quando estávamos todos presentes, "deixei cair a bomba" estivera durante a tarde na leprosaria, e estava na disposição de incomodar toda a gente com responsabilidades tanto militares como civis para tentar melhorar as condições de existência daqueles infelizes.
Como esperava, toda a gente se pronunciou de forma diversa, desde os que juraram que nunca mais bebiam ou comiam com os talheres que eu 
utilizasse, aos que nem sequer voltariam a apertar-me a mão, aos que protestavam com a possibilidade de nunca mais saírem dali por causa dos "cabeçudos" que eu fosse incomodar, até aos que se disponibilizaram incondicionalmente para ajudarem na próxima vez que eu lá fosse.Falei com o Alferes Piloto que era o Comandante do destacamento, para que ele desse a tácita cobertura hierárquica ás mensagens que ia enviar para o Secarleste e Zona Miliar Leste, bem como para os Governadores Civil e Militar do Distrito e Cruz Vermelha, pedindo comida roupas e cobertores, bem como os bons ofícios para impedir que os que fossem "casados" ou tivessem aqui família fossem enviados para outros locais, punindo-os duplamente.
Quando do acidente do CR-LKE, trocara correspondência com várias pessoas da 
O Dove CR-LKE da Aeroangol
companhia Aerangol, no sentido de serem preservados dentro do possível os destroços de uma previsível canibalização, que quando tudo se resolveu, se disponibilizaram para nos ajudar no que fosse preciso, estava na hora de cobrar os favores que fizera-mos. À Companhia em Luanda pedimos, que nos enviassem roupas de fardo, ao Secarleste, autorização para utilizar os restos de combustível para iluminação, e do pessoal à ordem do Pita-Groz para efectuarem alguns trabalhos de reparação no edifício, à Zona Militar Leste, leguminosas, e todo o tipo de comida não perecível, que pudesse ser armazenada na missão e distribuída posteriormente, por fim e para que todos estes pedidos não fossem esquecidos, fotografara o exterior e interior do edifício e os que o habitavam e mandei as fotos com um texto para um dos jornalistas do " ABC Diário de Angola" que cobrira o acidente do CRLKE. 
Em menos de um mês chegaram os primeiros alimentos da ZML, o Secarleste, veio pessoalmente, trazer um carregamento de alimentos e inteirar-se da situação, e a Cruz Vermelha fez chegar medicamentos, cobertores, e brinquedos para os mais novos, a tudo isto não foi indiferente a reportagem que saiu no jornal sobre a situação sanitária do Distrito, e em particular de Gago Coutinho, e do empenho dos militares da Força Aérea, na
tentativa de minorarem a terrível provação porque passavam os homens, mulheres e sobretudo crianças, que padeciam da doença.
No final esclarecida a sintomatologia da doença por um dos médicos do hospital de Gago Coutinho, que tinham a responsabilidade sanitária sobre a população civil mas que desconhecia as condições em que estavam os doentes da leprosaria, toda a gente do destacamento cooperou na entrega dos materiais.
Pita Groz
Uma tarde estava mais uma vez sozinho no destacamento, o Pita-Groz mandou-me chamar por um assalariado, para eu "aprovar", uns "sanitários químicos" que ele "engendrara" com bidões de combustível, cal de construção, e madeiras, criando dois espaços próprios independentes para que eles fizessem as necessidades e que acabavam com a utilização de latas onde faziam tudo à vista uns dos outros, sem nenhuma salubridade, baldeando tudo de seguida pelas grades da porta e janelas. Com a instalação dos "sanitários" e a pintura do edifício terminou a nossa intervenção. Para nos agradecerem pelo que tínhamos conseguido, fomos convidados pelas irmãs para tomar "chá na Missão". 
Acabado o destacamento, voltei ao Luso, onde tomei conhecimento de uma mensagem propondo o louvor colectivo ao efectivo do destacamento pela acção meritória na ajuda às populações locais mais desfavorecidas, constituindo um estímulo e exemplo para todo o pessoal, proposto e assinado pelo Comandante Militar da Província, nem se tinham dignado a enviar a informação para Gago Coutinho, alguém que não nós, ainda lucraria com a atribuição desse louvor.

Luso 1973
OPC (ACO) - 71/73

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

MORREU O TOMÁS .

O testemunho do Rui Baptista (RB), por sinal, muito bem escrito, despertou em mim uma certa nostalgia dos tempos passados nos longínquos anos de 1967 a 1969, na Base Aérea 2, na Ota. E para falar e recordar, para o bem e para o mal, do nosso TOMÁS (patentes, fica para posterior explicação), tenho que dividir em duas partes, enquanto aluno e posteriormente como Especialista MMA, como monitor no GITE (Grupo Instrução de Técnicos Especialistas).
Acabada a recruta em Agosto de 1967, a minha situação de aluno, foi igual a tantos milhares de alunos que pela “casa” passou, com o terror do TOMÁS, sempre pronto a mandar o aluno para a barbearia ou a engrossar a lista de reforços de fim-de-semana, ou melhor dizendo eram os célebres reforços “à Benfica”.
Das inúmeras tiradas, já referidas pelo RB…“Eu como especialistas ao pequeno-
Reforço á "benfica" !
almoço”, “o especialista para mim é papel” (enquanto amarrotava uma folha de papel entre as mãos), “ò aluno, eu estou-te a ver”, “tu aí, anda cá – reforço fim-de-semana”, eu vi arrancar botões das camisas e dizer “ò aluno não vês que tens o botão a cair”, reforço de fim-de-semana. Quero aqui expressar que fiz “reforços à Benfica” não por causa do TOMÁS, mas sim de outros “artistas”, entre eles do Tenente Mineiro, boa prenda.
Mas o inverno de 1967, trouxe uma enorme calamidade que foram as cheias na noite de 25 para 26 de Novembro, por coincidência, estava a cumprir um “reforço à Benfica” e chovia tanto, mas tanto, que na rendição passei pela guarita e não a vi. (Bairro dos Sargentos).
Mas vêm as cheias a propósito, pois foram “Os queridos alunos” que durante muitos dias nas semanas seguintes foram para as vilas e aldeias em redor da Ota, limpar e desobstruir o lamaçal que se produziu. A mim tocou-me andar em Alenquer e em Quintas onde morreram dezenas de pessoas. Mas com o mal de uns é sempre o bem de alguém, pois o nosso Major TOMÁS foi promovido a Ten.Coronel, por mérito de muitos de nós. Adiante.
Terminada a especialidade, fui colocado no GITE, como monitor de Sistemas e aqui a minha situação modificou-se em relação ao TenCor Tomás, sempre cordato, pudera, tinha ali os alunos à mão para descarregar a sua “bílis”, mas aqui assisti, por coincidência, a um facto que não será do conhecimento da maioria dos “Zés Especiais”, um telefonema do Major Noronha a lamentar-se que não tinha a escala de fim-de-semana completa e apelava aos “bons préstimos” do Tomás. Aqui entrava a caça ao aluno para os “reforços à Benfica”, ou seja um passava por mansinho o outro era o terror. Adiante
Em Outubro de 1968, começa a falar-se de mais um Torneio/jogo de Andebol e surpreendentemente sou chamado ao Tomás, fiquei como podem calcular a dizer para os meus botões, o que se passa, devo estar lixado. Fiquei um pouco mais descansado quando me apercebo que também tinha chamado o Saramago (MAEQ), um “carrapau setubalense” também monitor.
Começou a falar do jogo e nós/eu cheio de “lata”, proponho que façamos uma
A equipa dos Especialistas
equipa do GITE para jogar com outra equipa de alunos.
Resposta pronta do Tomás, mas “que misturas são estas oficiais e cabos, nem pensar”.
Sem pensar respondi, se não for assim a equipa do Senhor vai perder e sei que não gosta de perder. Horas depois percebi, que queria fazer uma equipa com o Curso de Alunos/Cadetes e constava que havia um jogador internacional do FC Porto. Arriscou e perdeu.
As duas equipes na final
Os ESPECIAIS, com o malogrado Carlos Fialho (MMA) monitor de Motores,
Recebendo medalha
ganharam o jogo por 9-7, para gáudio das centenas de alunos do ano 1968, que assistiram ao jogo só para ver o nosso Tomás a perder.
Ele, ficou em “brasa” e tenho a convicção que se não fosse a presença do novel Comandante da Base Rangel de Lima, que constava lhe tinha tirado algum protagonismo, teria havido um “protesto de jogo”, “recurso ao disciplinar” ou outra qualquer artimanha.
Mas, a minha passagem pela Ota ainda teria mais um acontecimento trágico, o Sismo de 1969, em 28 de Fevereiro de 1969 pelas 02:40 horas, que atingiu o Sul do País e a região de Lisboa. Acordámos todos em sobressalto com os armários metálicos da camarata dos adidos a dançarem, já aguardava passagem para Angola.
Á distância de cerca de 45 anos, podemos compreender algumas situações para lidar com a nossa juventude, mas ele (Tomás) ficou com a fama que outros “anjinhos”, também as fizeram e passaram por bonzinhos.
Morreu o Tomás, já há cerca de 3 anos e pelo testemunho que então recolhi, não acabou muito bem, numa cama do Hospital da Força Aérea no Lumiar.
Morreu o Tomás
Descanse em Paz
Por: