quinta-feira, 26 de junho de 2014

CAMARADAGEM

Instalações do AM, vendo-se a torre acidentada
Depois do almoço, numa tarde tranquila em que o não haver nada para fazer era o habitual, tirando o OPC, que tinha de estar atento a qualquer ccomunicação, eis que uma ambulância do Batalhão do Exército, que estava mesmo ao lado do AM 43 no Cazombo, entra na unidade e cujo condutor da mesma era um Furriel enfermeiro, posiciona a dita ambulância perto do táxiway. 
A finalidade, era recolher um ferido que vinha evacuado de heli. Não me recordo, mas presumo que era um fuzileiro naval. Bom, toda a gente a postos e afluímos ao posto de rádio para obter mais informações através do piloto do heli. 
De repente, um estrondo ao lado do posto de rádio e o silêncio foi total. Saímos a correr para ver o que se passava e qual não foi o nosso espanto, uma das torres que segurava a ponta da única antena dipolo de onda curta e que nos punha em contacto com Henrique de Carvalho e as outras unidades da FAP, tinha caído. O Fur. Enfermeiro., tinha feito mais uma manobra com a viatura, e com o para choques traseiro da ambulância, tinha esticado os cabos de sustentação da torre e claro, o resultado foi a queda da mesma.
O Dakota no Cazombo
Sabíamos que o Cap. PilAv. Oliveira, vinha no dia seguinte num Dakota para fazer o reabastecimento. Era um homem que não merecia muito a nossa simpatia, mas a coisa era reciproca e sem comunicações, as coisas seriam feias quando ele aterrasse. 
Virei-me para a rapaziada e disse: camaradas, calma que tudo se arranja e a torre vai para o ar. Houve gente que duvidou e com razão, até eu, não tinha a certeza de conseguir colocar a dita cuja no ar e numa noite. A torre estava toda retorcida. 
Instalações do PAD
Saí do AM e fui ao PAD (Pelotão de Apoio Directo), falei com o Comandante que era um Tenente e logo de imediato se disponibilizou a enviar os seus homens e uma viatura oficina, com todo o equipamento necessário para a recuperação da torre. 
Corta de uma lado, solda do outro, martelo em outro lugar, a torre foi começando a compor-se.
A noite já ia longa e já pelas 3 hora da madrugada, faz-se a primeira tentativa de colocar a torre no sítio e ao alto, mas como era feita com um material que não oferecia grande segurança e os seus lados eram estreitos, a resistência do material era fraca, ficando ainda mais fragilizada com os remendos feitos, acreditem que não tinha a certeza da operação ser bem sucedida.
Era uma torre com +/- 30 metros e de certeza que quando foi montada pela primeira vez, foi lanço a lanço e logo sendo espiada. Naquela situação, não podia operar dessa forma e tinha de a levantar de uma só vez. Amarrei os cabos de aço à torre e a diferentes alturas, com a ajuda do guincho da viatura do P.A.D., quando se começasse a puxar, as forças estavam equilibradas e a torre, teoricamente deveria erguer-se. Como não ia apoiada dos outros lados, começou a balouçar e voltou a dobrar, mas desta vez só a meio, o que foi bom. 
Feita a reparação, amarrei uns paus aos tubos da torre para lhes dar mais resistência mecânica e eis que a torre se ergueu cerca das 5 horas da manhã. 
O resto foi simples, foi espiar e a destreza da juventude. Faltava amarrar a antena dipolo no topo. Este rapaz subiu à torre e colocou não no topo, mas quase, a antena. 
No dia seguinte, havia comunicações e quando o Capitão aterrou, não se passou nada. Era um dia igual aos outros. 
Quero publicamente, deixar um abraço e o meu muito obrigado ao Tenente, cujo nome não me recordo e a toda a sua equipe que trabalhou arduamente durante uma noite inteira, para que fosse possível erguer uma torre que à partida parecia impossível. 
Escusado será dizer que se meteram umas cervejinhas pelo meio da noite. 

Por:




sexta-feira, 20 de junho de 2014

O CIVIL EDUARDO PITA-GROZ

De todas as personagens que conheci em mais de 28 meses de comissão em Angola, sobressai um civil de nome Eduardo Pita-Groz. 
Encontrámo-nos primeiro no Cazombo em 1971, e posteriormente em Gago Coutinho em 1973, quando ele andou a construir novas placas e um hangar para os Pumas, que julgo, nunca chegaram a ficar totalmente construídos. 
O inicio das obras do Hangar - foto JFMA
Em 1973, começaram a ser feitas as cofragens e armações de ferro para erguer as paredes que haveriam de ser encimadas pelas asnas de vigas de aço que, por sua vez suportariam o telhado. Nessa obra em que ele era o encarregado trabalhavam vários locais, e de Henrique de Carvalho veio um camião báscula, com o cabo condutor de nome Lamar, para transportar as máquinas e os materiais inertes que serviam para levantar as paredes. Mas não era o lado laboral da coisa que nele mais me despertou a curiosidade, o bom do Pita-Groz era um “filósofo” um auto-didata, um contador de histórias nato, ex-camionista de profissão, como qualquer sertanejo, onde chegava semeava amizades e colhia amigos.
O aquário da patada - foto de e com JFMA
Chegou no Noratlas semanal, e a primeira coisa que fez, foi instalar uma pequena “cidade” de colmo dentro da cerca de arame, onde viveu enquanto duraram as obras, pelas fotos anexas, podemos ver que nada faltava, do chuveiro ao lago para os patos, do galinheiro à casota do Bambi, uma cria cuja mãe foi morta por engano e que foi trazida para que ele dela cuidasse.
A creche dos pintos - foto de JFMA
Eu e o Tomás, gostávamos particularmente do Pita-Groz, e dos petiscos que ele nos ensinava a preparar, como os lombos de um songo que ele uma vez nos pediu, para fazer um petisco, e depois pendurou ao sol, o que me levou a pensar, desta vez vou levar na cabeça por ter insistido que lhos entregassem, as moscas vão enchê-los de larvas, mas ele sabia o que estava a fazer, a carne foi untada com uma pasta de óleo e pimentão e muito jindungo, e as moscas nem chegavam perto, queimada pelo sol inclemente ganhou rapidamente uma crosta dura por fora, mantendo-se tenra e sucolenta por dentro, com uma consistência semelhante à de presunto, era uma delícia com Nocal, essencial para  cortar o picante do jindungo, ou as mioleiras de tudo o que era bicho e que ele preparava na perfeição, quando as galinhas e a patas puseram ovos, tínhamos omeletas e bolos, iguarias só possíveis nas grandes cidades, quando os ovos deram pintos e, fazíamos churrascos, e nunca o Pita-Groz reclamou o pagamento dos mesmos, por isso ele era nosso convidado sempre que nos reuníamos de volta do assador para comer um petisco, que a nossa guerra não era só trabalho, nem as nossas conversas eram só sobre o tempo que faltava para nos virmos embora... e tempo para ouvir histórias de caçadas e viagens pelos confins do Leste de Angola e comer os petiscos do Pita-Groz, era do que nunca nos cansavamos.
Churrasco, nome pomposo para fintar a fomeca, com o Pita Grós em primeiro plano

Gago Coutinho 1973
OPC ACO



sexta-feira, 13 de junho de 2014

UMA AVENTURA NO CUITO CUANAVALE

Vou tentar puxar pelos neurónios para fazer um relato o mais verdadeiro possível do famoso acidente ocorrido, creio que em Março de 1970, em que estive envolvido conjuntamente com o Gonçalo Carvalho. O acontecimento tem o seu quê de pitoresco.
Vista aérea do destacamento do Cuito Cuanavale
No dia da chegada do Nord-Atlas, sem que tivéssemos sido informados, fomos surpreendidos pela imagem de quatro elementos do Movimento Nacional Feminino na porta do Nord, todas vestidas de branco e saia pelo joelho, qual aparecimento de Fátima aos pastorinhos. Três delas jeitosas e uma mais entradota estilo madre superiora do convento (se calhar era a Supico Pinto). Foi quanto bastou para o pessoal ficar em pé de guerra! A
que veio falar comigo, com um ar angélico, disse-me que cada um ia receber uma oferta. A mim calhou-me um isqueiro da cruz vermelha estilo zippo, duas latas de leite condensado Cruz Azul e um maço de cigarros Porto (eu que era do Sporting!). A do leite condensado, deixou-me vidrado, mas valeu o sorriso da doadora.
As pequenas depois de entregarem as ofertas, mandaram-nos às urtigas e foram  para a residência do administrador do burgo beber uns “drinks” na frescura da varanda. 
Logo nos mobilizámos e todos aperaltados, estilo Rambo, saltámos para cima do jeep e fomos fazer uma “rapada” frente à dita varanda. Para disfarçar, na passagem demos uma aceleradela e começámos a descer a picada que ia dar ao rio Cuito. Azar dos azares ainda não refeitos de ver o MNF de perna traçada, a barra de direcção do jeep partiu-se e fomos embater numa árvore à beira da estrada. Fomos projectados borda fora e creio que ficámos todos feridos, uns mais que outros.
O jeep e Angelo Santos,antes e após o acidente
Um unimog do exército que vinha do rio – tinha ido buscar água – fez a evacuação para o destacamento do exército e deve ter sido caricato o MNF ver passar à sua frente tão garbosos guerreiros, a gemer e a pedir às alminhas. 
Na enfermaria, se é que aquilo era uma enfermaria, fomos socorridos pelo ajudante do enfermeiro, que cheio de boas intenções desatou a dar-nos injecções contra o tétano, a torto e a direito. O que sei é que o homem perdeu a noção em quem tinha sido o primeiro e levei segunda dose. Caí para o lado e só acordei no dia seguinte e  foi quando soube que o Gonçalo tinha sido evacuado, creio que juntamente com o MMA.
Angelo Santos e Gonçalo de Carvalho em confraternização com os "primos"
Se falarem com o Gonçalo um abraço da minha parte, o OPC que punha música durante a descolagem...

Um abraço

sexta-feira, 6 de junho de 2014

FOI HÁ 39 ANOS - O "FECHO" DO AB4

AB4 - foto de Gonçalo de Carvalho
Foi há 39 anos.

O AB4 fecharia as suas "portas portuguesas" daí a dias/semanas: esta fotografia foi tirada exactamente em fins de Julho de 1975, já a Base/arredores era um imenso acampamento civil-militar, com problemas mil e uma confusão que só Deus sabe.
Quem se lembra deste "mercedes’":o do comando, dos comandantes, Pereira, Sachetti, Negrão, Sampaio, Oliveira…! Coube-me em "sortes" nas últimas semanas de AB4. 

Um luxo ao lado das desgraças!
O "take" foi feito dentro da Base, a nascente do Comando/CA/Secretaria e lá atrás está o Cap. SG… não consigo recordar, que coordenou a secretaria nos últimos dias do AB4.

O Maj. Fermeiro preferia o "seu" Jeep e, daí, depois de me ter desfeito do meu carocha VW branco-irrepreensível, ter direito a esta "preciosidade" alemã. O  Maj. Fermeiro, foi o último "comandante’". 
Os dias e noites eram de instabilidade permanente e as "directas" eram normais, apesar de prolongados serões com cerveja e algumas iguarias restantes.
O princípio-do-fim do AB4 foi exactamente em 12 de Junho. noite de S.António. 28 horas ininterruptas
Efeitos da "guerra" em HC
de "fogo" que de artifício nada tinham. Foram horas, semanas, por vezes dramáticas e assustadoras; não mais a malta se pôde "ir à cidade" de Henrique de Carvalho…Só pontualmente, mas em coluna militar com pré-aviso aos srs. da FNLA, MPLA e UNITA.
Moradia de oficiais em HC e o WV
de V. Nunes
O fechar de portas no AB4 foi antecedido na realidade de inúmeros "factos" que à distância nos arrepiam ainda. Não serei propriamente um traumatizado de guerra, mas ficaram "slides" a preto&branco que, embora incómodos, podem ser revelados.
Em 12 de Junho de 1975 foi de facto o despertar para um "fim" que se sabia calendarizado, mas não tão rápido e violento. A cidade foi varrida programadamente por quase 30 horas de "guerra civil’" e nos dias/semanas seguintes as noites eram escuras - fora da Base - e tracejadas por morteiros e projecteis que vistos de longe assustavam. Descolar e aterrar eram contudo rotinas sem grandes condicionantes.
Pessoalmente a minha noite de 12/13 de Junho e todo o resto do dia, foi passado deitado no interior de uma banheira de casa de banho, pois "fui apanhado" em plena cidade e pude refugiar-me numa das casas que a Força Aérea ali tinha (Bairro). Horríveis 30 horas, pois não se adivinhava o que estaria a acontecer em redor. Só uma operação feita por Comandos nos evacuou para o AB 4.

População refugiada junto do AB4
A destruição, com mortos à mistura (a maioria dos 3 movimentos envolvidos), era imensa e foi aí a debandada dos civis para perto dos "aviões" na ânsia de sair e de ter mais (aparente) protecção.
A enfermaria da Base parecia um bloco operatório, - porque não uma morgue - aonde chegavam também feridos de outras localidades. Era um caos absoluto. Talvez dos locais mais assustadores, quando se olha para trás. Um comandante da FNLA, recordo, apareceu em maca, consciente, com um grande "buraco" num dos ombros, tapado com uma rolha de papel…imagens que não saem.
As oficinas da Base tinham como única missão fazer caixotes em madeira, em primeiro lugar para envio de haveres dos civis e militares da Base, para Luanda e depois via marítima da Portugal,. Depois outros foram feitos para amigos e fornecedores do AB4. Eu próprio acompanhei a feitura de alguns. Também devo "confessar", neste contexto, que consegui que alguns amigos da Base "transferissem" legalmente algum dinheiro via Agência Militar para Lisboa. Como? Utilizando autorizações do COMRA2 de militares e civis que não possuíam o "total" que lhes era autorizado. (Em Lisboa, em Setembro , andaria em contactos e viagens fazendo a distribuição, cá ; dias depois e por essa altura a Agência Militar "falirá", é o termo. Houve ruptura absoluta, que só foi reposta suponho que em Dezembro/Janeiro desse ano. Os valores médios transferidos eram de 30/50 contos à época).
E no interior da Base - foto de Paul Dubois
Em Henrique  de Carvalho, entretanto, para quem tinha assuntos administrativos, bancários ou escolares…foi muito complicado. Recordo ter ido em princípios de Agosto, ao Banco de Angola, junto do Pinto & Irmão visar um cheque de 130 mil contos, do AB4, (saldo apurado na conta corrente-liquidação para entregar em Luanda) em 2 jeeps e havia "gente armada" e tiros avulsos em sítios diversos. O comércio estava fechado, quase literalmente. Um susto perfeito, que nem nos filmes.
A cozinha da Base era grande …mas pequena para tentar alguma ajuda aos civis acampados nas redondezas. O total de militares FAP em Agosto não andaria pelos 50. Não registei nomes nem números, porque na realidade "todo o mundo queria cavar" e do outro lado da linha havia uma mensagem no ar: “nem mais um militar para as colónias”.
Agora a sinopse desta foto. 
Vitor Nunes e Maj.Fermeiro

Nas noites, um pouco frescas de Agosto, reuníamos e petiscávamos noite dentro à volta da "fogueira". Gin, Whisky, Casal Garcia e cerveja havia em quantidade e cozinhávamos na cozinha da Base. A fotografia foi feita junto dos alojamentos dos oficiais e lá está o Maj. Fermeiro, eu próprio, todos sempre à civil o que não deixava de ser um hábito.
Lembro ainda que a luz mesmo dentro do AB4 faltava muitas vezes, assim como a água… 

Pena não haver – penso que ninguém teve essa preocupação – uma fotografia de "família".
No verso desta ‘dita’ escrevi à mão “ Um final feliz…” ! Talvez.

A entrega da Base

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