sexta-feira, 6 de junho de 2014

FOI HÁ 39 ANOS - O "FECHO" DO AB4

AB4 - foto de Gonçalo de Carvalho
Foi há 39 anos.

O AB4 fecharia as suas "portas portuguesas" daí a dias/semanas: esta fotografia foi tirada exactamente em fins de Julho de 1975, já a Base/arredores era um imenso acampamento civil-militar, com problemas mil e uma confusão que só Deus sabe.
Quem se lembra deste "mercedes’":o do comando, dos comandantes, Pereira, Sachetti, Negrão, Sampaio, Oliveira…! Coube-me em "sortes" nas últimas semanas de AB4. 

Um luxo ao lado das desgraças!
O "take" foi feito dentro da Base, a nascente do Comando/CA/Secretaria e lá atrás está o Cap. SG… não consigo recordar, que coordenou a secretaria nos últimos dias do AB4.

O Maj. Fermeiro preferia o "seu" Jeep e, daí, depois de me ter desfeito do meu carocha VW branco-irrepreensível, ter direito a esta "preciosidade" alemã. O  Maj. Fermeiro, foi o último "comandante’". 
Os dias e noites eram de instabilidade permanente e as "directas" eram normais, apesar de prolongados serões com cerveja e algumas iguarias restantes.
O princípio-do-fim do AB4 foi exactamente em 12 de Junho. noite de S.António. 28 horas ininterruptas
Efeitos da "guerra" em HC
de "fogo" que de artifício nada tinham. Foram horas, semanas, por vezes dramáticas e assustadoras; não mais a malta se pôde "ir à cidade" de Henrique de Carvalho…Só pontualmente, mas em coluna militar com pré-aviso aos srs. da FNLA, MPLA e UNITA.
Moradia de oficiais em HC e o WV
de V. Nunes
O fechar de portas no AB4 foi antecedido na realidade de inúmeros "factos" que à distância nos arrepiam ainda. Não serei propriamente um traumatizado de guerra, mas ficaram "slides" a preto&branco que, embora incómodos, podem ser revelados.
Em 12 de Junho de 1975 foi de facto o despertar para um "fim" que se sabia calendarizado, mas não tão rápido e violento. A cidade foi varrida programadamente por quase 30 horas de "guerra civil’" e nos dias/semanas seguintes as noites eram escuras - fora da Base - e tracejadas por morteiros e projecteis que vistos de longe assustavam. Descolar e aterrar eram contudo rotinas sem grandes condicionantes.
Pessoalmente a minha noite de 12/13 de Junho e todo o resto do dia, foi passado deitado no interior de uma banheira de casa de banho, pois "fui apanhado" em plena cidade e pude refugiar-me numa das casas que a Força Aérea ali tinha (Bairro). Horríveis 30 horas, pois não se adivinhava o que estaria a acontecer em redor. Só uma operação feita por Comandos nos evacuou para o AB 4.

População refugiada junto do AB4
A destruição, com mortos à mistura (a maioria dos 3 movimentos envolvidos), era imensa e foi aí a debandada dos civis para perto dos "aviões" na ânsia de sair e de ter mais (aparente) protecção.
A enfermaria da Base parecia um bloco operatório, - porque não uma morgue - aonde chegavam também feridos de outras localidades. Era um caos absoluto. Talvez dos locais mais assustadores, quando se olha para trás. Um comandante da FNLA, recordo, apareceu em maca, consciente, com um grande "buraco" num dos ombros, tapado com uma rolha de papel…imagens que não saem.
As oficinas da Base tinham como única missão fazer caixotes em madeira, em primeiro lugar para envio de haveres dos civis e militares da Base, para Luanda e depois via marítima da Portugal,. Depois outros foram feitos para amigos e fornecedores do AB4. Eu próprio acompanhei a feitura de alguns. Também devo "confessar", neste contexto, que consegui que alguns amigos da Base "transferissem" legalmente algum dinheiro via Agência Militar para Lisboa. Como? Utilizando autorizações do COMRA2 de militares e civis que não possuíam o "total" que lhes era autorizado. (Em Lisboa, em Setembro , andaria em contactos e viagens fazendo a distribuição, cá ; dias depois e por essa altura a Agência Militar "falirá", é o termo. Houve ruptura absoluta, que só foi reposta suponho que em Dezembro/Janeiro desse ano. Os valores médios transferidos eram de 30/50 contos à época).
E no interior da Base - foto de Paul Dubois
Em Henrique  de Carvalho, entretanto, para quem tinha assuntos administrativos, bancários ou escolares…foi muito complicado. Recordo ter ido em princípios de Agosto, ao Banco de Angola, junto do Pinto & Irmão visar um cheque de 130 mil contos, do AB4, (saldo apurado na conta corrente-liquidação para entregar em Luanda) em 2 jeeps e havia "gente armada" e tiros avulsos em sítios diversos. O comércio estava fechado, quase literalmente. Um susto perfeito, que nem nos filmes.
A cozinha da Base era grande …mas pequena para tentar alguma ajuda aos civis acampados nas redondezas. O total de militares FAP em Agosto não andaria pelos 50. Não registei nomes nem números, porque na realidade "todo o mundo queria cavar" e do outro lado da linha havia uma mensagem no ar: “nem mais um militar para as colónias”.
Agora a sinopse desta foto. 
Vitor Nunes e Maj.Fermeiro

Nas noites, um pouco frescas de Agosto, reuníamos e petiscávamos noite dentro à volta da "fogueira". Gin, Whisky, Casal Garcia e cerveja havia em quantidade e cozinhávamos na cozinha da Base. A fotografia foi feita junto dos alojamentos dos oficiais e lá está o Maj. Fermeiro, eu próprio, todos sempre à civil o que não deixava de ser um hábito.
Lembro ainda que a luz mesmo dentro do AB4 faltava muitas vezes, assim como a água… 

Pena não haver – penso que ninguém teve essa preocupação – uma fotografia de "família".
No verso desta ‘dita’ escrevi à mão “ Um final feliz…” ! Talvez.

A entrega da Base

Por:


3 comentários:

  1. Trabalho excelente do amigo Antonino. Foi o fim de um ciclo que mt me marcou: 17 meses colonizar e. 17 a descolonizar! Por ironia as fotos que possuo são a cores...até a casa das 28h na Experiência -
    .banheira.

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  2. Vitor, agradecidos pelas vossas palavras e pela colaboração.
    Venham essas fotos a cores...e mais relatos !
    Abraço

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  3. Assim foi o dia a dia no AB4 desde o mês de Março de 75, se a memória não me atraiçoa.Em Março deram-se as primeiras "escaramuças" entre movimentos, pois lembro-me perfeitamente de ter ido a cidade e quando estávamos para regressar comecou o tal "fogo de artifício das tracejantes", à mistura com balas e obuses.
    Em Junho, quando apareceu uma oportunidade fui para a BA9, num voo de T6 (dos que sobravam em boas condições - "purgados de óleo os queficaram na placa em frente ao hangar da manutenção) via Nova Lisboa, com um piloto tenente do qual não me lembro o nome, deixando os meus haveres e fardas no tal sacao azul da FAP,para ser enviado via Nord para Luanda.
    em Agosto fui numa tripulação de NordAtlas a Henrique de Carvalho, numa "missão secreta" para resgatar elementos vitais que por lá tinham ficado.
    Estive no AB4, como especialista MMA em 74_75.

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