sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O ACIDENTE DE GAGO COUTINHO


Em Outubro de 1973 segui para o Luso. A responsabilidade era outra. Fui fazer a manutenção dos helicópteros que largavam as tropas especiais: pára-quedistas e comandos. Partíamos às 04h30 e, geralmente, íamos em grupos de seis ou sete helicópteros, com cinco militares cada um, e só um deles tinha um canhão. Os mecânicos andavam armados com pistolas, porque as espingardas G3 não davam jeito.
Apanhámos alguns sustos, devido a avarias durante os voos, mas era por isso mesmo que cada aeronave levava um mecânico. Os pilotos ensinavam-nos as coisas básicas para, em caso de emergência, sabermos aguentar os helicópteros e pousá-los.        
Chegámos a encontrar neles furos sem saber como aconteceram.   Eram buracos de tiros de espingarda.
Como o aeródromo de recurso do Luso, que pertencia à base de Henrique Carvalho (AB4) era pequeno, os sargentos ficavam na cidade. Eu partilhava a casa com o furriel Gamboias, que cantava fado, e com o furriel Pinheiro, que tocava viola. Fizemos lá uma ‘república’ e começámos a ensaiar e a cantar para os civis. O fado preenchia-lhes a alma.
A 17 de Fevereiro de 1974, numa viagem a Cazombo para fazer um transporte de tropas, no meu helicóptero acendeu uma luz avisadora de falta de pressão de óleo. Se tal fosse uma realidade, só teríamos um minuto para aterrar, porque depois a aeronave começava a andar à roda e ficaria descontrolada. Eu e o piloto éramos os únicos ocupantes e só pensámos em aterrar depressa, mas não havia sítio, porque estávamos por cima de árvores. Na aflição não contámos o tempo, mas apercebemo-nos de que se tinha esgotado e ainda estávamos a sobrevoar a área para pousar, o que fizemos pouco depois.
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O acidente não cancelou a minha viagem e acabei por viver o 25 de Abril de 1974. Quando regressei a Angola, dias depois, o pessoal estava ávido de notícias sobre o que se tinha passado. Com a Revolução, acabaram as operações, passado pouco tempo, e só voávamos para fazer contactos com as tropas de Savimbi. 
Acabei a comissão mais cedo e em Novembro voltei para casa.

Fernando Manuel Gonçalves de Sousa- (Tição) MMA 
(Artigo publicado in CM)