sábado, 25 de agosto de 2012

JOSÉ CARVALHO 18.000 HORAS DE VOO.

Hoje em dia, referencia-se e homenageia-se tanta gente, alguns cujo percurso nunca nos disse nada. 
Não é o caso do José Carvalho, nosso companheiro no leste de Angola, hoje e felizmente um piloto ainda no activo.
Então, porque não prestar esta singela referência, ao amigo, ao companheiro, que sem parangonas, sem alaridos, ultrapassou há algum tempo a bonita soma de 18.000 horas de voo?!

(A melhor forma de o fazer é transcrevendo o texto seguinte, muito recentemente publicado pelo próprio no FB, sobre o mesmo tema)


Não me façam corar, vá.
Há aqui mais sorte do que mérito. Claramente, qualquer um poderia estar na minha situação. Era só questão de estar onde eu estive, quando eu lá estive. Não é nenhum "feito". Não vou dizer que não estou contente por ter chegado aqui. Estou! 
Mas a minha satisfação, não é por ter voado todas estas horas. Estou contente por tantas alegrias que estas horas me trouxeram (também algumas tristezas, como em tudo na vida); contente pelos locais que visitei, pelas gentes que conheci, pelos amigos que fiz; contente porque estas horas de trabalho contribuíram para o bem de muitos; contente porque o meu trabalho foi apreciado por outros. Estou ainda mais contente por poder, ainda, continuar a fazer aquilo que gosto. Com fartura!
Quero no entanto dizer que não sou nenhum "artista" nestas coisas. Admiro - e invejo! - o que alguns sabem fazer. Nem sou especialmente qualificado, antes pelo contrário. 
Apenas trabalhei muito. E gostei de o fazer. Assim possa continuar por mais algum tempo.



Não vem para o caso, mas vou recordar um daqueles momentos únicos que (quase) só esta actividade poderia proporcionar.
Andava eu, em companhia de um cientista da OMS, a "tratar" rios perto do Monte Nimba, ali onde as fronteiras da Costa do Marfim, da Libéria e da Guiné Conakri se encontram. Era hora de almoço, numa manhã radiosa do início da época das chuvas. O Sol brilhava e alguns cúmulos pequenos e brancos, não muito altos, salpicavam o azul do céu. O ar lavado pela chuva matinal estava transparente e a visibilidade era perfeita até onde a vista alcançava.
Resolvemos aterrar numa "plataforma" perto de um dos topos de uma cordilheira que sobressaía dos montes à volta, para comer as bolachas que seriam o almoço.
Num daqueles sítios "onde ninguém esteve antes". Não há nada a fazer lá em cima e o acesso "a pé" não deve ser nada fácil.
Parado o helicóptero, utilizámos pedras como assento improvisado.

O local era magnífico! Uma "varanda" na beira do precipício que descia quase na vertical até aos campos, de pequenas colinas roladas, bastante mais abaixo.
E lá ficámos durante algum tempo a comer e a olhar a paisagem que se estendia à nossa frente. A cor predominante era, claro, o verde do capim que começava a ganhar força trazida pelas primeiras chuvas. Faixas mais escuras formadas por árvores de grande porte, definiam os rios. O cheiro da terra quente e húmida era um verdadeiro banquete para o olfacto. Os sons que vinham das terras mais abaixo eram ecos esbatidos, quase o silêncio. A paz era total! Seria possível haver algum prazer melhor que este?
Surpresa! Foi mesmo possível! Um pequeno bando de andorinhas passou várias vezes perto de nós em voo planado. O silêncio era tal que se ouvia um "sopro" (o ruído das asas esticadas a passar pelo ar) a cada vez que passaram perto de nós. Os pilotos de planador sabem o que quero dizer com este "sopro".
Este acontecimento, inesperado, foi um momento único que eu nunca vou esquecer.
Todas as horas voadas seriam compensadas por um único destes momentos. E foram tantos. E tão diferentes.



PARABÉNS JOSÉ CARVALHO !



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CONVERSAS DE TORRE (Ou, o relato de um reencontro recente)

Amigo e companheiro Corredeira
Há muitos e muitos anos que a tua imagem passa por mim porém, sempre difícil de te encontrar fisicamente.
Depois de me ter reencontrado com todo este companheirismo do Leste Angolano, tenho revivido muitas oportunidades de saudosa alegria.
Fui a dois convívios, detectei muitos conhecidos e perguntei por ti a pilotos presentes.
Agora, que me foram referenciadas duas fotografias (uma comigo exposto outra, contigo), tentei saber o teu endereço electronico e fazer-te este contacto.
Fui controlador em H.C. desde Agosto de 1971 até Março de 1974. Estivemos juntos por várias vezes e, uma dessas vezes, foi na Torre de Controlo onde foram tiradas estas fotos. Pela sombra projectada numa destas fotografias, reconheci a minha pessoa. Tirei-te uma fotografia apanhando o angulo virado para a placa dos aviões, e tu apanhaste-me dentro da Torre a fingir que contactava alguém.
Entre algumas histórias passadas entre nós, lembro-me especialmente de duas:
Numa das tuas múltiplas missões pelo Leste, numa delas, vinhas com proveniência do Camaxilo.
Nisto, ao contactares comigo utilizaste uma linguagem “não operacional” e relataste: “H. de Carvalho, H. de Carvalho, daqui a aeronave… proveniente da Marinha Grande, carregada com vidro e com destino a essa Base, …, …, escuto”. Dei-te alguma “corda” porém, não sabia que estávamos a ser escutados na Esquadra dos Radaristas. 
Quando fui almoçar alguém me informou de que o capitão dessa Esquadra estava a experimentar um rádio e perguntou a um seu subordinado se sabia o que se estava a passar…
Lembro-me duma passagem interessante que me contaste… numa outra ocasião. Referiste, com muita graça, e a propósito dalguma conversa cujo tema se entrelaçava com esta passagem, de que num daqueles dias enevoados, lá na tua santa terra, enquanto cuidavas da tua higiene pessoal, pela manhã, avistaste um sujeito a fazer as necessidades no teu quintal (ou, nas proximidades) sem que ele desse conta de que estava a ser avistado. Pensando ele que o nevoeiro tudo encobria. Esta pequena narração ficou na minha memória, achei graça no momento, e ainda hoje penso se aquilo que me contaste nessa época, ficou tão apegada no teu cérebro como ficou no meu!...
Dá novidades.
Da tua geração, lembro-me de muitos pilotos: Carlos Pinheiro, Jaime Anastácio, Tex, Ribeiro Silva, Abel, Arroja, Pedro Borges, David Morais, Hermano, Gomes da Silva, etc, etc.

Um abraço

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

TOMAR DUCHE A 300 PÉS DE ALTITUDE - 1969

Estávamos na época das chuvas, regressávamos de uma missão ao Luso e faltava cerca de 15 minutos de voo para avistarmos a base quando se nos depara uma frente de nuvens e das mais temíveis, as que mandam bastante chuva, entre elas os cúmulos-nimbos, o piloto, furriel Castanheira, se não me engano, um jovem (como eu) mas todo decidido, e como tal decidiu passar por baixo da referida nuvem que por sinal saía dela bastante chuva e vento.
Quando a alcançamos, a água começa a entrar por tudo o que era frestas das portas da cabina e aquelas pequenas janelas do avião, ao mesmo tempo sentimos o avião a ser puxado para baixo por uma força tremenda das correntes de ar descendentes vindas da nuvem, além de estarmos a tomar um valente “duche” víamos que as copas das árvores se aproximavam perigosamente do avião, nós os dois puxávamos os manches para a barriga, mas mesmo assim sentíamos que o avião teimava em descer.
Por sorte nossa a base da nuvem não era tão grande assim e quando a atravessamos vimos do outro lado a nossa querida base e uns raios solares como que a nos transmitir calma porque o pior já tinha passado.
Aterramos e quando estacionamos o M.M.A. que nos recebeu perguntou onde tínhamos andado por nos encontrarmos completamente encharcados.
Ainda havia quem falasse mal do DO-27, mas eu adorava aquele avião, nunca me deixou ficar mal.
Nota: Esta estória poderá ter algumas imprecisões por ser escrita 34 anos após os acontecimentos.

Lisboa, 01 de Junho de 2006

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A VISITA DE AMÁLIA RODRIGUES

8 de Maio de 1972, Amália Rodrigues no AB4
Eh, companheiros, fui à placa esperar pela Diva,e, tal não é o meu espanto, estava lá quase o AB4 inteiro, como se fossem ver a Jennifer Lopes, ou qualquer outra boazona. Quando vejo o comandante ou, 2º.comandante, não me recordo, a tratá-la com toda a reverência, como se estivesse a receber um general qualquer, e, melhor ainda, a tratá-la por "Dona Amália", a minha alma quase que "ficou parva", amigos!
Soube que ela foi ficar no palácio do Governador, como convidada.
Depois, foi o espectáculo no cinema Chicapa, um grande recital.
Com direito a autógrafo
Mas, antes de começar o espectáculo, passou-se uma cena com essa querida Senhora, a qual me fez guardar por ela uma grande admiração. Estavam uns poucos soldados do exército cá fora, sem $ (money) para assistir, e a Amália, grande mulher, veio cá fora, perguntou o que se passava. Contaram-lhe, e ela, acto imediato, mandou entrar todos, sem excepção, e disse o seguinte:- descontem os bilhetes, que eu pago todos, pois não quero ver nenhum militar impedido de ver o meu espectáculo por falta de dinheiro. Era o que mais faltava!-
A seguir, cá este vosso companheiro, que estava cá fora com outros camaradas do AB4 ( mas já munidos com os seus bilhetes de ingresso, comprados, claro!), entrou naquele maravilhoso anfiteatro tropical, ouviu a Diva cantar, aplaudiu-a a dobrar, saiu mais feliz, chegou à nossa querida base do AB4, dormiu mais descansado, sem não exclamar antes, como se fosse uma oração:- "Ah, Amália, merecias um monumento, cá da nossa malta!"
E não é que a grande senhora foi "parar" ao Panteão Nacional!? Sou um homem de paixões e de fortes convicções, com alma de artista, tal como ela a Diva, o era. Mas, que talvez não acreditasse, agora começo a crer que, sim senhor, Deus existe, e por vezes, Ele nos houve!
Um fraterno e sentido abraço, e... até ao nosso encontro, nos Céus das nossas aventuras com asas! 

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